Delação: com atraso de 15 dias, imprensa paraibana “descobriu” que João Azevedo recebeu mesada da Cruz Vermelha



 POR FLAVIO LÚCIO

Há duas semanas, nós tratamos da delação de Livania Farias em que a ex-secretária cita “mesada” de R$ 120 mil reais a João Azevedo, mas a “antenada” imprensa paraibana só se tocou depois que o jornal O Estado de São Paulo fez extensa matéria sobre o mesmo assunto, como se isso fosse grande novidade.

Logo depois da última fase da Operação Calvário e com todos os holofotes voltados para Ricardo Coutinho, escrevi um artigo cujo título já antecipava o esforço de grande parte de nossa imprensa de esconder os trechos da delação de Livania Farias que atingiam em cheio o governador João Azevedo:
Calvario: “Imprensa que execra Ricardo Coutinho é a mesma que silencia sobre Joao Azevedo.”

Nesse artigo, mostrei que Livania Farias havia combinado um repasse de R$ 120 mil reais para que João Azevedo bancasse suas despesas pessoais durante a campanha, já que o hoje candidato a governador havia se afastado do cargo de secretário para ser candidato – isso mesmo com duas gordas aposentadorias de professor do IFPB e de engenheiro da Suplan.

Pois bem, baseado nesses mesmos trechos da delação de Livania Farias, o jornal O Estado de São Paulo publicou hoje extensa matéria sobre essa mesada que Livania Farias diz ter repassado ao governador através um dos super-secretários do governo atual, Deusdeth Queiroga.

A matéria dO Estadão também cita que Livania Farias pagou a fornecedores de campanha de João Azevedo com recursos repassados pela Cruz Vermelha, R$ 900 mil ao todo, segundo ela.

E propina a fiscais para liberação de obras da Cagepa.

Depois que a matéria dO Estadão rompeu o cerco da informação aqui na Paraíba, todos os meios de comunicação resolveram tratar do tema. Mas, como eu disse, já havíamos tratado disso há pelo menos duas semanas.

Ou seja, quase todos aqui na Paraíba se fizeram de desentendidos até que um veículo da mídia nacional, diante de informação tão relevante quanto essa, resolvesse tratar dela.

É no mínimo vergonhoso que o dito jornalismo paraibano se esgoele quando trechos de delações atingem o ex-governador Ricardo Coutinho, muitas vezes diálogos sem relevância alguma para as investigações, e “deixe passar” algo tão grave.

O problema é que não se trata de mau jornalismo, apenas. Esse silêncio tem um preço para os cofres públicos e você, distinto leitor, poderá divisá-lo na publicidade institucional que mantém blogs, portais, jornais, programas de rádio e TV.

Obviamente, será preciso que, além da delação, Livania Farias ofereça caminhos para seja comprovado o que foi dito – não custa repetir aqui, mais uma vez, que delação por si só não representa prova, sobretudo de uma delatora que, como mostrou matéria da Folha de São Paulo do último fim de semana, chegou mesmo a pensar em suicídio enquanto estava presa.

Não podemos desconsiderar o fato de que alguém nesse estado emocional e sob violenta pressão esteja disposta a dizer o que os investigadores querem ouvir para escapar na prisão e negociar outros benefícios, como aconteceu na Lava Jato.

De todo jeito, João Azevedo acaba de ser levado para dentro do olho do furacão, mesmo com toda blindagem da mídia paraibana.

O que coloca o mandato em risco, seja pela via de um processo de impeachment na Assembleia, seja pela cassação do seu registro pelo TRE por abuso de poder econômico ou caixa 2.

Não foi por falta de aviso.





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