Conserta-se disco voador - Marcos Pires



 Faz tempo que ninguém dá notícia do aparecimento de discos voadores, me cobrou o leitor na fila do supermercado. Por acaso eu teria alguma novidade sobre o assunto? Não, infelizmente não. Novidades nesse setor por aqui só os ETs da política. Na verdade, nunca vi um disco voador, mas o leitor tinha razão. Parece até que os discos voadores saíram da moda.

E como meus leitores sabem que adoro conversar com eles, o meu colega de fila de supermercado propôs outra questão, essa verdadeiramente instigante. “- Ô jornalista, me diga uma coisa; se aparecer um disco voador e os ETs me pedirem para leva-los ao nosso líder, a quem o senhor acha que devo me dirigir? Eu penso que não deveria ser ao Presidente Temer, porque esse não lidera nada, está em fim de governo e a conversa que se ouve é que será preso no ano que vem. Pensei em levar os ETs para serem apresentados ao próximo presidente, mas como não sei quem será eleito acho que deveria começar pelo ex Presidente Lula, só que tenho dúvida se a Juíza do Paraná permitiria…é bem capaz que sim, né? Já deixou tanta gente entrar naquela carceragem! Me guiando pelas pesquisas acho que eles deveriam visitar também o capitão Bolsonaro, mas aí pode ser que o homem se esprite e queira enquadrar os espaciais. Com Ciro Gomes não seria muito diferente…eita homem bruto! O certo mesmo seria levar os ETs para conversarem com Marina. Eu acho que eles têm uma certa conexão. O que o senhor acha, escritor? ”

Eu? Eu acho é graça.

Saí do supermercado e fui pesquisar o assunto. Descobri que a partir de 1990 a Paraíba foi prodiga no avistamento (é o termo técnico) de OVNIs, principalmente nas cidades de Pilõezinhos, Jacaraú e Bayeux. Descobri que em quase todos os casos os discos voadores pretendiam sugar os seus avistadores através de feixes de luz, mas sempre eram detidos porque os paraibanos intuitivamente descobriram formas de defesa que iam da abertura do guarda-chuva à proteção da copa de arvores. Cá comigo pensei: “- Como devem ser burros esses ETs. Afinal, desenvolvem altíssima tecnologia que permite atravessar galáxias e não sabem como fechar um guarda-chuva”.

Mas por que essa preferência dos discos voadores pela Paraíba? Um amigo campinense deu a dica: “- Marcão, se um disco voador quebrar e precisar trocar o carburador, onde é que você acha que eles vão procurar especialistas em conserto de disco voador ?”.

Sou fã número um da inventividade dos irmãos de Campina Grande.

Foi nas filas - Marcos Pires



Como não poderia deixar de acontecer, essas gigantescas filas que se formaram nos postos de gasolina em consequência do movimento dos caminhoneiros geraram uma interação nunca antes vista entre os proprietários de automóveis sequiosos por comprar muito mais caro a gasolina nossa de todos os dias.

Negócios começaram a ser discutidos e fechados, antigas amizades escolares foram relembradas, romances foram engatados e até um chifre foi flagrado. De início eu não acreditei muito nessas conversas, mas fui pessoalmente conferir, e logo fiquei impressionado com o comercio que se estabeleceu naquelas filas. Lembram daquele afro-descente Jacaré? Pois é, não tem nem um par de sandálias havaianas decente, quanto mais um automóvel, mas estava na fila vendendo “a vez”. Localizava motoristas que não faziam questão de passar para trás na ordem de atendimento em troca de uma grana e oferecia “a vez” a quem estava na rabeira da fila. Havia começado cobrando 40 reais, mas já estava nos 75 “contos”, como ele ainda teima chamar nossa moeda. Rachava o capilé com os “proprietários” dos automóveis que concordavam em ceder sua posição. Naquela altura já faturara mas de 300 reais.

No entanto, negócios muito mais substanciosos estavam sendo realizados. Soube de fonte segura que corretores de automóveis saíram das agencias pilotando veículos dos estoques, colocando-os nas filas e oferecendo trocas vantajosas aos motoristas que pacientemente esperavam horas para abastecer. Quando havia hesitação do incauto, davam a cartada final: “- Olha só, chefia, além do prazo de 36 meses para pagar a diferença, ainda dou o carro com o tanque cheio”. Tiro e queda.

Além dos negócios um outro fator me chamou a atenção; as paqueras descaradas que estavam rolando entre os sequiosos motoristas. Cantadas de toda sorte(?), algumas terríveis, como aquela do pedreiro que pilotava uma moto de cilindrada mínima: “ - Gatinha, posso completar o seu tanque? ”, e em seguida fez uma comparação da mangueira da bomba de gasolina com o seu... deixa pra lá.

Como não podia deixar de ser, um candidato a deputado apareceu na fila fazendo sua propaganda eleitoral, prometendo de um tudo. Igualzinho aos outros, mais com um diferencial; sua equipe de campanha assumia o lugar dos motoristas enfileirados nos postos e ia acompanhando a fila vagarosamente, enquanto os proprietários dos veículos eram levados a um trailer estacionado do outro lado da rua, onde tomavam agua gelada e cafezinho.

O chifre? Ah, leitores, o candidato descobriu a esposa na garupa de uma possante moto, cujo jovem e marombado condutor esperava a vez de abastecer. A partir daí foi o que se viu.

Anacleto & Eduardo - Marcos Pires



 
Mesmo depois de morto Anacleto Reinaldo ainda manteve contato comigo. Na verdade, um dia depois do seu falecimento meu celular tocou e no visor o autor da chamada era Anacleto. Depois de muita adrenalina atendi e do outro lado quem falava, usando o telefone de Anacleto, era seu assessor “Lapa de corno”. Queria saber se o meu compromisso com Anacleto sobreviveria à morte dele. Em resumo eu dava ao amigo, toda semana, o que ele codificou como “empurrão”; uma pequena ajuda para a produção dos seus programas radiofônicos. Com Lapa de corno o compromisso passou a ser semanal. Sempre em memória de Anacleto.

Ah, curioso leitor; você não conheceu Anacleto? Pois bom, uma rapidinha dele. Com seu metro e trinta de brabeza e altura, apresentava seu programa diário no rádio quando entrou a jovem trazendo no colo uma criança. Reclamou que o pai do menor abandonara mãe e filho e não dava pensão. Tratava-se de militar chamado (digamos) Batista. Anacleto incorporou a raiva e esbravejou no microfone: “- Soldado Batista, cabra safado, cachorro, sem vergonha, viado, corno...”e por aí foi até o limite do seu vocabulário. Dia seguinte, mesmo horário, programa ao vivo e no ar, adentra o estúdio um sargento fardado e armado, que Anacleto imediatamente identificou como o militar que ele insultara na véspera. Antes da autoridade falar qualquer coisa, o bravíssimo radialista atacou: “- E acaba de chegar aqui o general Batista, que ontem foi difamado por uma meretriz, uma marafona, uma mulher de rua, que atacou a honra desse exemplo do Duque de Caxias. Receba, meu general, nossa solidariedade”. Tudo certo.

Pois um dia deu-se que eu acompanhava meu enorme amigo Eduardo Albuquerque numa audiência em Santa Rita. À época Eduardo era Procurador Geral de Justiça em Brasília, e no momento em que íamos ao fórum Anacleto ligou pedindo mais um “empurrão”. Expliquei que falaria depois porque estava com Eduardo, que chegara de Brasília para uma audiência. Ao desligar ouvimos no rádio Anacleto dizendo que eu estava acompanhado de uma das maiores autoridades do país, que Eduardo era o máximo e rasgou um quilo de elogios.

Horas depois, voltando da audiência com Eduardo, recebi uma ligação de Anacleto, com quem acertei a grana. Ao final, ele emendou: “- Ô Doutor Marcos, e quem é mesmo esse pomba de galinha desse Eduardo que eu tanto elogiei? ”.

Saudades de Anacleto Reinaldo.

Um Tribunal sem vergonha - Marcos Pires



Acusações de nepotismo e uma decisão judicial demitindo mais de 300 servidores foram apenas uma parte do inferno astral que se abateu sobre o Tribunal Regional do Trabalho da Paraíba e Rio Grande do Norte (13ª Região). Mesmo com a divisão posterior das jurisdições pela implantação do TRT 21ª Região, que assumiu a parte do Rio Grande do Norte, nossa Justiça do Trabalho continuou passando por momentos terríveis.

Alguns amigos que foram injustiçados e a quem sempre renderei homenagens e respeito à memória perderam-se no caminho e não puderam ver o final da história. História incrível, onde chegou a ser executada à época uma intervenção no Tribunal com o afastamento de todos os seus membros, algo inédito até então.

Os servidores passaram uns tempos falando de lado e olhando pro chão (como disse Chico Buarque) mesmo sem terem sido remotamente citados nas supostas irregularidades, o que fazia ainda maior a dor sentida. Foram dias especialmente tristes aqueles em que chegou a ser cogitada pura e simplesmente a extinção do TRT da Paraíba, que voltaria a ser um apêndice do Regional de Pernambuco, de quem se tornara independente depois de muitos anos de luta. Imagino como deve ter sido difícil para cada Juiz e cada servidor cada dia de trabalho logo após a debacle, movidos somente pela fé e pela esperança.

Mas deu certo. Tão certo que o Ministro Lelio Bentes, Corregedor Geral do Tribunal Superior do Trabalho acaba de concluir correição no TRT da Paraíba e destacou a sua celeridade e agilidade. Chegou à conclusão de que nós temos um Tribunal que fica em primeiro lugar entre os Tribunais de médio porte do Brasil com relação à produtividade, e mesmo juntando todos os Tribunais, inclusive os maiores, destaca-se o TRT da Paraíba no honroso quarto lugar. Tem mais; também é o Tribunal com o menor resíduo de processos e menor prazo que medeia desde a entrada dos processos e suas sentenças entre todos os Tribunais de médio porte do país.

Isso dá um orgulho enorme aos servidores e Juízes. Esse é o exemplo que nós, brasileiros, estamos precisando seguir em meio ao caos e ao descrédito que se abateram sobre nossa amada nação. Temos que pegar emprestado dos vitoriosos sobreviventes do TRT a esperança e a fé que os fizeram vencer as adversidades.

Os brasileiros precisam agir imediatamente para que os políticos sem-vergonha que todo dia vendem parte das nossas esperanças não tenham mais mandatos, e que enfim sejamos um povo sem vergonha do país onde nascemos.

Amem!

Quando eu chegar no céu. - Marcos Pires



 Não tenho a menor dúvida de que irei para o céu quando não tiver mais como me divertir aqui. Por isso fico perguntando aos amigos como é que eles imaginam que seja o céu. Para M., um gordo exponencial, o céu é um lugar mágico, onde os gordos podem comer tudo o que quiserem, inclusive muitas sobremesas, aí incluídos o pudim com furinhos, tortas de limão e chocolate e muito sorvete, sem que engordem uma grama. Ao contrário, quanto mais comerem, mais os gordos emagrecerão.

Já o B. é um amigo que gosta de, como direi..., comentar sobre a vida alheia. Há quem o chame de fofoqueiro, alguns até de fuxiqueiro, que seria a sublimação dos fofoqueiros. Pois bom; o B. acha que no céu não haverá necessidade de escarafunchar a vida alheia, porque é só acessar o computador divino que lá estarão registrados todos os malfeitos dos humanos que sejam dignos de uma boa fofoca. Só que no céu não há pecado nem maldade, e no meu entender celestial as fofocas estariam entre os dois. Por isso perguntei a ele de que adiantaria saber dessas histórias cabeludas se não teria com quem fofocar. “- Deixa de ser besta, Marcão; vez por outra deve ser aberta uma janelinha para o inferno e nessas horas eu conto tudinho aos amigos daqui que foram ser diabos lá”.

O amigo Z. é sabido. Ele imagina que no céu terá vantagem em tudo; assim tipo comprar uma dúzia de laranjas e receber uma grosa. Para Z. os bancos do céu errarão sempre em favor dos clientes quando fizerem os lançamentos em suas contas correntes e as operadoras de cartões de credito esquecerão de mandar as faturas para cobrar dos usuários.

Já minha amiga C. é daquelas pessoas que reclamam de tudo e de todos. Aliás, eu estou convencido que ela, bem no íntimo, adora ser mal atendida ou ter um prejuízo, só para poder reclamar. Ela disse que imagina o céu com um enorme balcão de reclamações para atender aos anjos. Sem filas e com muitas secretárias, ar condicionado, cafezinho e água gelada. Nada de reclamações por telefone, porque isso de passar horas pendurada no celular com uma atendente invisível (e sempre cair a ligação) já é o inferno aqui na terra.

Eu só achei estranho essa coisa de fazer reclamações no céu. Se é o céu, reclamar do que? A amiga abespinhou-se. “- Oxente, se lá não tiver do que reclamar prefiro mil vezes ir para o inferno”.

Que cousa!

O que os motoboys veem - Marcos Pires



marcos@piresbezerra.com.br

 

Assim como os garçons dos diversos restaurantes da praia que se reúnem no bar do pastel para sus hilariantes conversas madrugada adentro depois que o expediente termina, os motoboys também tem essa mania. Depois de muito tentar, finalmente consegui ser aceito num desses papos, apresentado pelo motoboy que trabalha com a farmácia onde compro meus oitocentos remédios mensais.

Minha curiosidade foi despertada pelas inusitadas histórias de todos os tipos, desde problemas com o transito ao que mais me empolgou; os clientes que eles atendem.

Um dos motoboys, que trabalha com restaurantes, contou que foi entregar uma pizza no apartamento de uma senhora que ele estima ter mais de 75 anos. Ela autorizou sua subida e quando ele chegou à porta, ela estava enrolada numa enorme toalha, como se tivesse sido surpreendida ao entrar no banho. Pediu que ele colocasse a pizza na mesa da sala enquanto ia pegar a grana. Quando ele virou-se para receber o dinheiro, ela deu um jeitinho de fazer a toalha cair. “- Rapaz, eu dei uma carreira escada abaixo que cheguei no térreo mais ligeiro do que havia subido pelo elevador. E olha que eram doze andares”. Dois outros motoboys que estavam na roda da conversa conheciam a cliente, que praticara o mesmo expediente com eles. Pelo que disseram a estratégia da romântica balzaquiana não surtiu nenhum efeito.

Muitos dos motoboys queixaram-se da entrega que fazem de cerveja, sempre com reclamações de que está quente, mesmo sendo transportada em caixas de isopor. A bronca aumenta quando quem pediu as cervejas está no meio de uma festa e já embalado no álcool. Aliás, sobre isso de festas é impressionante as histórias que contam meus amigos motoboys. O que eles veem de festas malucas não dá pra contar. Vez por outra os clientes ao receberem as encomendas convidam os motoboys para as festas. Neste ponto achei arretado o profissionalismo deles. Nunca aceitam, mesmo porque sempre tem outras entregas para fazer. Mas me interessou demais a confirmação, por alguns deles, de uma certa autoridade que vez por outra faz pedidos de madrugada para mimosear parrudos garotões de praia, bronzeados e tatuados, exibindo músculos inflados, a quem a excelência chama de seus sobrinhos. O engraçado é que toda vez que as entregas são feitas os tais sobrinhos são diferentes.

Deve se tratar de uma família enorme, hem?

Os brasileiros - Marcos Pires



 Povinho danado esse, viu? Meu colega escritor Ariano contava que sempre ia aos domingos tomar caldo de cana e comer pão doce no mercado São José, em Recife. Na porta um ceguinho mendigava e Suassuna lhe dava uma grana. Foram tantos anos de esmolas que o ceguinho identificava Ariano pelos passos. Um dia saudou: “- Seu Ariano, estou precisando de um favor seu”. Meu colega escritor se pôs ao dispor. “- Sabe o que é, seu Ariano? É que eu gostaria que o senhor adiantasse quatro semanas de esmolas porque eu vou tirar um mês de férias”. É, amigos leitores, no Brasil é assim.

Esses brasileiros são fantásticos mesmo quando confessam crimes. Prestem atenção nessa história absolutamente verdadeira. Numa cidade do nosso interior o cidadão tinha uma bodega onde vendia de um tudo, inclusive agua mineral, pela qual cobrava 1 real a garrafa. Um concorrente estabeleceu-se bem em frente a ele e começou a baixar os preços. Para vocês terem uma ideia do estrago, a agua mineral que ele vendia a 1 real o concorrente passou a vender a cinquenta centavos. Claro que ele ficou possesso. Passava o dia reclamando aos clientes, encostado no balcão. “- Tá vendo só, seu Francisco. Eu trabalho que nem um condenado todo dia há mais de 20 anos. Aí vem um amarelo safado desses e quer me quebrar. O senhor imagine que ele está vendendo a agua mineral pela metade do meu preço. E olha que eu tenho fabricação própria. É um marginal”.

Esses brasileiros são incríveis. Numa outra cidade de nosso interior um desses nossos conterrâneos era conhecido por não pagar suas contas. Um dia ele foi à loja de seu Eurípedes e disse que queria comprar a tesoura que estava na vitrine. O seu Eurípedes, antevendo o prejuízo com o calote, tentou convencê-lo a não comprar a tesoura em sua loja: “- Compadre, na loja de dona Chiquinha essa tesoura está pela metade do preço, é melhor você comprar lá”. Mas o velhaco não deu trégua: “- Ah não, compadre Eurípedes, não vou fazer uma desconsideração dessas com você. E tem mais, já dei minha palavra, vou comprar é aqui”. Essa discussão demorou quase uma hora, e enfim o dono da loja cansou. Foi buscar a tesoura e a promissória a vencer em 30 dias para o caloteiro assinar. Preencheu a promissória e quando terminou, deu um suspiro e desabafou: “- Olha aqui, compadre, eu sei que o senhor não vai pagar essa promissória, mas que eu botei pra lascar no preço, ah, isso eu botei”.

Eita povinho que eu amo.

Os meus assaltos - Marcos Pires



É mais ou menos como o primeiro sutiã para a garotas; o primeiro assalto a gente nunca esquece. No meu caso deu-se que eu caminhava com alguns amigos de manhãzinha pela calçada do Cabo Branco quando dois bostinhas numa moto anunciaram o assalto. O mais valente de todos nós, filho do legendária Capitão Panta, o conhecido Nerivan, deu uma carreira que Bolt teria inveja, e foi se esconder atrás de um poste. Só que a geografia corporal do bravo é interessante; magro e barrigudo, assim como uma azeitona espetada no meio de um palito. Não fosse a agonia do momento seria motivo para boas risadas ver ao longe aquele abdômen projetado por trás do poste, como se existisse sozinho, sem estar pendurado num corpo qualquer. Não nego o tamanho de minha coragem; também corri, só que em direção ao mar, por isso tive que saltar o banco da calçadinha. Dei uma topada e cai na areia, de onde o filho de uma ronquefuça me fez levantar sob a mira do revolver. Resumidamente perdemos celulares, relógios, alianças e cordões de ouro.

Quando a dupla de celerados já se retirava, o meu bom amigo Dr. Fernando, Diretor do Laureano, conhecido nos grupos de corrida como Fernando Pezão (nenhum parentesco com o ladrão que desgoverna o Rio de Janeiro), diminuiu o passo da corrida e perguntou a um dos assaltantes do que se tratava. O selvagem da motocicleta apontou o revolver para Fernando e disse: “-É um assalto, seu curioso”, e levou tudo que Pezão conduzia.

Foi eficiente a polícia. Dias depois a dupla foi presa e identificada pelo nosso CSI Bessanger, que afirma ter curso de segurança feito em Israel, no Mossad.

Há quem afirme que meses depois o cão levou a dupla de inocentes.

Já no segundo assaltou eu estava andando sozinho pela calçadinha de Tambaú quando notei a uns 50 metros duas turistas sendo assaltadas. Uma delas gritou dizendo que os revólveres dos bandidos eram de brinquedo e eu parti para cima deles, chamando um senhor que estava do meu lado para ajudar. Os assaltantes fugiram e depois de acalmadas as duas senhoras (uma delas havia sido jogada no chão) eu notei no meio da pequena multidão que se formou, aquele tal senhor que eu chamara para ajudar e que não fizera nada. Reclamei, e ele se explicou: “-Mas meu amigo, essas senhoras disseram que os revolveres eram de brinquedo e o senhor acreditou? Ora, mulher não sabe nem escolher marido vai lá saber o que é revolver de brinquedo…”.

Até hoje não sei se sou corajoso ou ingênuo. Quem sabe descobrirei no próximo assalto…

De ônibus no Rio de Janeiro - Marcos Pires



  Fim do ano passado estávamos no centro do Rio de Janeiro e me deu uma vontade danada de relembrar meus tempos de passageiro de ônibus. “-Pois é, cada doido com sua mania”, me disse Mãe Leca, já com raiva porque esse tipo de vontade não dava em mim para relembrar nossa viagem a Paris. Eu quis responder que a vontade depende do bolso, mas deixei pra lá.

Demos sorte; conseguimos sentar nos dois últimos bancos disponíveis. Bem a tempo, porque logo depois uma multidão vinda da estação Central do Brasil superlotou o coletivo. Eu sabia que precisava anotar o que ia acontecer, dada a diversidade da “fauna” ali presente. Extraio agora umas anotações do meu inseparável caderninho. Só preciso que o atento leitor imagine um ônibus totalmente lotado, com mais gente em pé do que sentada, sem ar condicionado, com um motorista meio maluco num clima de quase 40 graus.

“- Ei, seu motorista, o senhor tá levando gente, né gado não”.

“- Deixa a gestante sentar, por favor. Povinho mais sem educação. Aí, não, madame, aí sou eu”.

“- Ei seu motorista, pode correr que a galera aqui não tem medo de morrer”.

“- Corra não, pelamordeDeus, que minha mãe não tem dinheiro pro caixão”.

Pá, pá, pá, era o cobrador batendo na caixa, tentando ser ouvido pelo motorista no meio daquele caos.

“- Ei, seu motorista, tá correndo pra ver se pega o urso em casa, é? ”.

“- Seu motorista, queima a parada, não para não, aqui só cabe se for no colo”.

“- Licença, desculpa, licença, desculpa...”.

Pá, pá, pá, o cobrador continuava a bater na caixa gritando sei lá o quê. As reclamações prosseguiam:

“- Eita, passou meu ponto!”.

“- É um safado, tá fingindo que está dormindo pra não dar o lugar pra veia”. As frases que eu anotei dariam duas colunas, mas não posso esquecer de registrar o filosofo que estava sentado ao meu lado no corredor (Mãe Leca, metida a chique, só queria andar na janela do ônibus): “- Meu amigo, quem diz que a beleza é passageira nunca andou nessa linha da Central do Brasil”. Por educação achei graça nessa idiotice. Pra que? Lá veio o filosofo com outra pérola: “- Vou te dizer uma coisa, viu? Namorar é muito bom, mas não existe sensação melhor do que pegar o ônibus de manhã cedo, quase vazio”.

Aquele filosofo deve ter uma vida sexual muito medíocre, hem?

Wilson, o empreendedor.- Marcos Pires



 

Conheci Wilson ainda menino, muito ativo e querendo ganhar dinheiro. Lembro bem que ele me contou ser coisa de família. Seu pai dizia sempre aos filhos, repetindo um sábio da antiguidade: “- Ganhem dinheiro, nem que seja honestamente, mas ganhem dinheiro”.

Uma vez ele foi flagrado fazendo parceria com a Secretária de nossa escola, que reproduzia as provas no mimeografo. Depois daquele evento que lhe custou a expulsão do colégio “só porque recebia grana dos amigos para antecipar as perguntas que iriam cair nos exames” (era assim que ele se justificava) perdi Wilson de vista. Aqui e acolá sabia dos seus progressos empresariais. Alguém o vira em Manaus apressando o desembaraço de mercadorias na Zona Franca, usando aquele método de não pagar impostos. Outro me disse que ele partira para a Bahia, onde contratava trios elétricos para festas por todo o Brasil. Nesse caso ele chegou mesmo a ser preso porque só existiam os papeis dos contratos, músicos que é bom nada.

Depois de 50 anos reencontrei Wilson. Ele soube da minha quase morte nas redes sociais e me procurou no escritório. Rimos muito da falsa notícia, mas eu sabia que viria alguma novidade. E veio. “- Meu amigo, essa sua falsa morte foi muito importante. É um aviso que poucos tem direito de receber. Nós sempre pensamos que somos imortais e quando partimos desta vida deixamos o ônus das providências para nossos entes queridos. Isso é péssimo porque além da dor da perda eles terão que escolher o caixão, providenciar o tumulo. Pior ainda, quem morre cria uma terrível obrigação para os que ficaram, como aquelas visitas mensais ao cemitério que não consolam quem está vivo nem melhoram a situação de quem se foi, isso sem contar o custo com flores e lanches nos dias de finado”. Fiquei impressionado. Wilson não somente deixara de ser gago como estava falando feito um político. Mas é claro que ele queria me vender algo, e era a minha cremação, como ele anunciou em seguida. Disse que tinha 3 planos; prata, ouro e diamante. E que tudo estava incluído, até uma suíte com frigobar.

Êpa! Suíte para o defunto? “- Não amigo, para os seus entes queridos, que vão lhe prantear naquela hora fatídica”. E continuou a oferecer tanta coisa boa que eu quase me ofereci para ser cremado mesmo ainda vivo.

Para cortar a conversa de vez, expliquei a ele que infelizmente não ia dar porque não tinha mais ninguém que fosse à cremação para chorar por mim. Wilson deu um muxoxo, balançou a cabeça e segredou: “- Tranquilo, Marcão; no plano diamante plus nós oferecemos um casal e quatro crianças que choram uma tarde inteira como se fossem teus filhos e netos”.

Acho que vou topar.

O Uber - Marcos Pires



 

Eu e Mãe Leca estávamos voltando da maravilhosa festa de Fred e Tereza em Areia Dourada e chamamos um Uber. O motorista chegou num carro meia boca, pequeno, sem ar. Com um forte sotaque foi logo dizendo (sem que tivéssemos perguntado) que aquele carro era de um genro seu e que ele estava ali somente passando tempo, porque na verdade era milionário e não precisava nem trabalhar mais.

“- Eu sou do Mato Grosso. Crio gado em muitas fazendas e estou passando as festas na casa dos meus parentes. Como foram todos para Campina Grande eu tirei o carro da garagem só para ter com quem conversar. Mas eles não sabem que eu sou milionário, porque aí minha vida iria virar um inferno”.

Quem me conhece sabe que meu faro por mentiras vai longe. Senti ali uma queimando, mas precisava confirmar e indaguei do tamanho de seus rebanhos.

“- De gado leiteiro eu tenho oito mil cabeças, mas a maior parte é gado de corte. Da última vez que contei tinha pra mais de cem mil reses”.

Mentira? Quis tirar a prova dos nove e perguntei a ele como conseguira juntar aquela fortuna.

“- Eu era o capataz de duas fazendas de um político da minha região. Sem que eu soubesse ele tinha colocado aquelas fazendas e muita coisa mais em meu nome. Como eu era analfabeto nem sabia de nada. Uma vez ele me fez ir ao cartório assinar um papel para ele, só com o dedão, né? Depois eu soube que era uma procuração. Com o tempo aprendi a ler e fui percebendo tudo, mas ele morreu e como não tinha filhos e a mulher dele era mais burra do que eu, findou que eu fiquei com tudo e aí aumentei muito as coisas”.

Pronto! A conversa do velhinho tinha logica; é que em toda conversa que entra safadeza de político até o que parece absurdo se torna realidade.

Estávamos chegando ao destino e eu não sabia se ele era mentiroso. Arrisquei: “- Amigo, ficaremos aqui”. Tinha na mão uma nota de cinco reais (O Uber faz debito automático no cartão de credito) e disse a ele que se tratando de um milionário eu não iria constrange-lo oferecendo uma gorjeta. E tão pequena.

Ah, leitores queridos, o velhinho deu uma puxada na nota que quase levou meus dedos juntos.

Ainda hoje estou na dúvida se ele era sovina, miserável ou mentiroso.

 

O veraneio do terror- final - Marcos Pires



Marcos Pires

Semana passada iniciei aqui a história do amigo que comprou uma casa à beira mar em Camboinha e foi veranear pela primeira vez. Também contei como sua casa foi invadida sem qualquer convite por parentes e amigos que ele não via há muito tempo, até algumas pessoas que ele não conhecia.

Pois bem, depois de uma manhã estafante levando e trazendo gente entre Camboinha e a ilha de Areia Vermelha na sua jangada fibrape, o meu amigo enfim foi sentar à mesa com a esposa, a filha e o futuro genro para almoçar. Havia reservado para aquele dia uma garrafa de uísque raro e caro, que trouxera de sua viagem à Inglaterra, um puro malte que, se pudesse ser encontrado aqui, não custaria menos de mil reais. O uísque era tão bacana que os escoceses o bebiam com o nariz tampado para não sentir seu cheiro e ficar com agua na boca; nada de misturar aquele néctar a qualquer outra coisa, sequer gelo. Pois bem, sentado à mesa a primeira surpresa foi a querida doméstica Maria, que veio da cozinha com as mãos nas ancas (tipo assim um açucareiro) e pela primeira vez na vida elevou a voz: “- Apôi prepare minhas conta porque esse povo já comeu a feira toda, me butaro pra cozinhar derna de manhã cedo e eu tô que num aguento mais”.

Não acreditando na informação o amigo levantou e foi à cozinha verificar o estoque de comida. Realmente, só haviam sobrado um pacote de arroz, outro de sal e duas latas de sardinha. E aquilo seria o seu almoço. Para quem havia estocado dez quilos de camarão, mais dez quilos de filé e três enormes lagostas compradas na véspera (ali perto, na praia do Poço), era demais. A raiva aumentou porque quando voltou para a sala descobriu que seu caríssimo uísque não estava mais ali. A filha lhe disse que um dos primos havia levado a garrafa para provar à beira mar. Meu amigo correu a fim de evitar um prejuízo ainda maior, mas chegou tarde. Os parentes e os amigos que ele não havia convidado estavam dançando ao som altíssimo de “Adocica” e tomando as últimas gotas daquele uísque caríssimo em copos de caldo de cana, cada um misturado com as mais inusitadas substancias, desde agua de coco a coca cola, passando por ki suco de groselha e guaraná, chupando umbu como tira-gosto.

Foi demais. Ele começou a sentir um formigamento no braço, uma dor no peito, a visão turva e...desmaiou. Só acordou no hospital, já com soro no braço e a esposa à cabeceira da cama.

Hoje em dia ele passa os verões em Campina Grande, onde adquiriu excelente mansão com vista para o mar no bairro do Mirante...e onde ninguém o visita.

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