Ayrton sai de cena - Ramalho Leite



Como diria o Martinho Moreira Franco, o trocadilho é horrível, mas irresistível. Ayrton Senna saiu de cena, há vinte e cinco anos, na curva de Tamburello, no circuito Ímola de Formula 1, em San Marino, Itália, a primeiro de maio de 1994. Dizem que os americanos do norte costumam testar a memória de seus próximos, indagando onde estavam quando de um acontecimento importante. Assim, se pergunta: onde você estava quando Kennedy foi morto? E no 11 de setembro? Antes que algum americano me pergunte, na hora do acidente de Ayrton Senna eu estava em um hotel de Salvador, a espera de uma segunda feira de trabalho no interior da Bahia. Como diretor do Banco do Nordeste, atendera a convite do então deputado Aroldo Cedraz para testemunhar a assinatura de contratos do banco com associações e cooperativa s, na cidade de Ourolândia. Com a TV ligada na prova, assisti, ao vivo, o acidente e, na minha mente, conclui que fora fatal. Quarenta minutos depois, o mundo recebia a confirmação: o jovem brasileiro, tricampeão da formula um, saiu da vida para entrar, definitivamente, na história do esporte mundial.

Até hoje as versões sobre as causas do acidente queimam os neurônios dos especialistas. Comecemos com o ânimo do piloto. Amargava, Ayton Senna, alguns contratempos. Um novato chamado Michael Schumacher já conseguira duas vitórias naquela temporada e Ayrton, apesar de tricampeão, não somara nenhum ponto. Aliás, com o brasileiro fora, o alemão conquistou o título mundial. Por outro lado, a bruxa andava à solta na pista de Ímola. Nos treinamentos, dois acidentes e um deles fatal. Na sexta feira, Rubens Barrichello foi gravemente ferido e no sábado, perdeu a vida o austríaco Roland Ratzenberger. Na mesma curva que ceifou a vida de Ayton Senna já se espatifara o carro de Nelson Piquet anos antes.

A pista não era das melhores. Cheia de ondulações, exigia que o veículo ficasse “grudado” ao asfalto e, essas ondulações facilitavam as derrapagens. Ayrton, que vinha comendo poeira dos seus concorrentes, esperava dias melhores, agora montado na Williams. Todavia, esses bólidos estavam difíceis de guiar pois, a “equipe ainda estava se adaptando à proibição do uso do sistema de suspensão eletrônica”, segundo Flavio Gomes, da ESPN Brasil.

Há o registro de que Ayrton mandara aumentar a coluna da direção para que ficasse o volante mais próximo dele. Essa coluna teria quebrado e provocado o acidente. Consultando-se, porém, os dados da telemetria, que contém as informações enviadas pelos sistemas eletrônicos do veículo, contatou-se que “havia força sendo aplicada na coluna da direção”, o que seria a prova de que esta não quebrou antes do impacto. Outra teoria bota a culpa nos pneus: na primeira volta da prova, houve um acidente e os carros tiveram que deslocar-se mais devagar. Com isso, os pneus esfriaram e perderam pressão. Ficando o carro mais baixo, pode ter desestabilizado a aerodinâmica, perdendo a aderência da Wlliams com a pista, explicam os investigadores.< br /> Aylton se despediu no domingo. Na segunda feira logo cedo, em um pequeno avião nos dirigimos ao interior da Bahia. A partir do campo de pouso, era uma festa. Carros de som anunciavam a presença do deputado e do diretor do banco. Os interessados nos pequenos empréstimos faziam fila no posto de atendimento situado na própria feira, onde garrotes, porcos e galinhas se misturavam à espera dos seus donos, devidamente financiados pelo banco. Por onde passei, não ouvi qualquer referência à morte de Senna. Parece que estávamos em outro país.

Terminamos essa excursão na cidade de Jacobina onde uma grande comitiva esperava o deputado e o diretor do banco. Em um restaurante local, ambos recebemos homenagens e, mais uma vez, não ouvi qualquer referência à morte de Senna, o assunto que, naquela segunda feira, ganhava as primeira páginas de todos os jornais do mundo. Os baianos estavam mais preocupados em financiar suas lavouras e seus pequenos negócios. O certo é que, depois desse episódio, nunca mais perdi meu tempo vendo uma corrida de formula um. Gostava mesmo era de ver Ayrton Senna agitando a bandeira nacional após cada vitória.

Uma carta de JK - Ramalho Leite



Era março de 1972 e Juscelino Kubitschek, ex-presidente cassado pelo regime militar, cujo primeiro presidente ajudara a eleger com o seu voto e seu apoio, chegou à Paraíba disposto a aproveitar o carnaval do Clube Cabo Branco, atendendo a convite da sua diretoria. Adolfo Bloch, dono da Revista Manchete, o banqueiro Walter Moreira Sales, o cantor e compositor Dilermando Reis e Fernando Cunha Lima, organizador do tour, formavam com dona Sara, a comitiva do líder mineiro que o Brasil adotou. Juscelino foi recebido discretamente no Hotel Tambaú e nenhum jornal local noticiou sua presença. E nem precisava. Os órgãos de segurança chegaram antes.

Sabe-se hoje, graças ao trabalho da Comissão da Verdade, que os agentes do SNI alugaram dois apartamento ao lado dos que estaria hospedada a vigiada comitiva. Antes que aportassem os hóspedes ilustres, colocaram microfones em vários ambientes, para a escuta clandestina. A partir de então, cada passo de JK esteve sob as vistas constantes dos agentes, que registraram conversas e encontros e. também, os nomes dos paraibanos que chegavam para abraçar o ex-presidente, ciceroneado desde seu desembarque pelo consul Raimundo Onofre, que nunca foi diplomada mas ganhou esse apelido pela “representação” que fazia do senador Rui Carneiro. Outro Raimundo, o Lira, foi objeto das informações sigilosas: então vendedor de carros em Campina Grande, mandara um especial para servir aos deslocamentos de JK .

A presença de JK entre salgadinhos e whisky na casa de admiradores foi tolerada, sem atropelos. Aceitá-lo, porém, diante da multidão que frequentava o carnaval do Cabo Branco, era outra história. Partiu da maior autoridade militar local a ordem para desconvidar o presidente. E a diretoria do Cabo Branco rendeu-se, mesmo com a interferência de autoridades mais condescendentes, a exemplo do médico Manoel Gaudêncio, chefe da Casa Civil do governador Ernani Satyro. O gerente do Hotel Tambaú, chocado com a desfeita aos seus hospedes, resolveu improvisar um carnaval para JK , na boate do hotel, ainda não concluída. Uma troça de bairro, com seus integrantes cheios da cachaça da tarde, abrilhantaram a noite carnavalesca do construtor de Brasília.

Não se registra qualquer pronunciamento ou reclamação de JK, com relação ao episódio que desmerecem os valores paraibanos de hospitalidade. O presidente cuidou de desfrutar as delícias do hotel, que não conhecia e, fez chegar ao seu projetista, o arquiteto Sergio Bernardes, a alegria de compartilhar aquela obra que considerou “a mais aprazível não apenas do Brasil, mas do próprio mundo”.

E acrescenta: “Já andei muito, conheço demais as rotas de turismo internacional e nunca me abriguei num hotel que cativasse tanto pelo sóbrio, elegante e simpático arranjo de todas as suas peças. Os meus parabéns são realmente calorosos, porque você pode estar certo de que, em assuntos de hotéis de turismo, ninguém produziu um melhor do que o seu”.

E conclui JK, dirigindo-se a Sergio Bernardes: “com meu abraço muito afetuoso, os votos para que você prodigalize seu gênio, através deste pais, e produza outras obras tão interessantes como a que assinalou o êxito de Tambaú. Abraço afetuoso de Juscelino Kubitschek”.

A carta de JK para Sergio Bernardes, que me chegou às mãos através desse grande pesquisador que se chama Osvaldo Trigueiro do Vale, revela a alma imortal de JK. Humilhado na Paraíba, relegou a desfeita e preferiu proclamar ao mundo, as excelências dessa obra de arte que nasceu da cabeça de João Agripino e do compasso de Sergio Bernardes. Uma obra que mudou a história da Paraíba.

 

Nota deste blogueiro: Eu indiretamente participei desse episódio, pois era recepcionista do Hotel Tambaú e junto com seu Lucas que era chefe da Recepção, recepcionamos o ex-presidente trazido pelo ‘Consul‘ Raimundo Onofre.

A noite o então gerente o Senhor José Sales, tendo em vista que Juscelino não iria mais para o Clube Cabo Branco, queria apresentar algum bloco de Carnaval na ainda inacabada Boate Tropical e aí fui encarregado de buscar os integrantes do Bloco carnavalesco ‘Os Trocos na Troça‘, do qual eu fazia parte e de fato foi feito.

Juscelino, Dilermando Reis, Adolfo Bloch, o banqueiro Walter Moreira Sales, dentre outros da sua comitiva, curtiram a noite ao som dessa nossa banda paraibana.

 

 

Uma dor sem adjetivo - Ramalho Leite



 Alguém me mandou dizer pela net: quando um pai morre, deixa órfãos. Quando falece um marido, nasce uma viúva. Quando morre um filho não há substantivo ou adjetivo que qualifique essa perda. Estou procurando palavras para descrever a dor que senti ao ver sepultar meu filho mais novo, vítima da violência das estradas. Para nascer, pulou apressado do ventre da mãe, só dando tempo ao médico colocar as luvas. Eu entrava ainda na sala de parto, por isso foi o único filho que não vi nascer. Se tinha pressa para viver, viveu feliz com a família que constituiu e amava acima de todas as coisas. Se entrou apressado no mundo, foi embora cedo demais, esse filho que eu amava tanto.

Filho de políticos, nunca utilizou as benesses que o poder poderia oferecer. Lutou para conquistar seu lugar ao sol. Trabalhou em empresa privada, submeteu-se a concursos públicos e colocou sua inteligência e capacidade a serviço da causa da justiça. Era um revoltado com as injustiças. Costumava me procurar para que eu ajudasse um conhecido em dificuldade. Não precisava ser amigo dele, bastava que tomasse ciência da sua história. E quantos desses seus interlocutores eu não atendi e resolvi problemas. Preocupava-se mais com o próximo do que consigo mesmo. Era religioso e tinha absoluta fé em Deus e nos seus desígnios.

Quando criança foi vítima de um medicamento aplicado em dose excessiva. Corri em busca de Fernando Cunha Lima, seu pediatra. O socorro lhe salvou a vida mas deixou sequelas visíveis em um tique nervoso que não o largou até a morte. Agora o poeta Fernando me manda um poema em homenagem ao seu pequeno cliente: Hoje essa dor maior a te afligir,/Bem maior do que uma punhalada,/E dor como paixão fica marcada,/Dentro do peito sem querer sair. E conclui: Apenas pede a Deus compreensão/pra suportar tamanha provação/De Pai pra Pai ao enterrar teu filho/. Agradecido ao poeta, chorei por ele não poder, pela segunda vez, salvar a vida do meu filho.

Flávio era a alegria em pessoa. Onde chegava dominava o ambiente com seu afeto contagiante. Por onde passou só fez amigos e todos eles choram a dor da sua partida. Companheiros que o conheceram nos colégios Pio XII e Pio X, na Faculdade de Direito da UFPB, da antiga TELPA ou no TRE estiveram a rememorar passagens, gestos e atitudes do seu comportamento exemplar como amigo solidário e afetuoso. Recebi milhares de mensagens e foi impossível responder a todas, uma a uma.

Perdi também o meu maior admirador. Tudo que eu fazia, escrevia ou publicava era motivo de seu orgulho. Muitas vezes, lhe entreguei a primeira leitura de meus trabalhos. Ele também fazia o mesmo, e só depois, mandava os seus escritos à publicação. Seus trabalhos técnicos revelavam um estudioso do direito eleitoral, preocupado em descobrir a verdade e ver realizada a justiça. Alguns sítios da internet a nível nacional, publicaram sua obra, esporádica mas na direção da melhor verdade.
Agora devo procurar o aconchego das minhas netas. A vida pública costuma nos afastar da família. Flavio chegou a proclamar essa sua mágoa em trabalho escolar. Lamentava não ter o pai por perto em todas as horas, para o cinema, para o futebol ou para buscá-lo na escola. Essa dívida eu procurei pagar me aproximando mais do homem que se tornou. Mas perdi grande parte da sua alegria infanto-juvenil. Que Deus me dê uma vida mais longa. Eu preciso pagar a minha netas o carinho que não dei ao pai delas.

Me incluam fora - Ramalho Leite



 Quando leio os acontecimentos da política paraibana nos dias atuais, chego a conclusão de fiz muito bem em não tentar voltar a uma cadeira parlamentar. Aproveitei bem o meu tempo, dei a minha contribuição, por mais modesta que tenha sido e a encerrei com o advento da nova Constituição Estadual. Os tempos eram outros. O parlamentar era respeitado e o político estimado. Ao ocupar uma vaga na Câmara Federal já no pós-Collor, v ivi o inicio da era da deteriorização da imagem da classe. Sempre que saia à rua, mesmo em Brasília, tinha a preocupação de retirar da lapela o broche que identifica o membro do Congresso Nacional. Em Fortaleza, era diretor do Banco do Nordeste e para facilitar o ingresso em um estacionamento oficial mostrei minha identidade parlamentar. O guarda olhou com desdém e comentou:

– Vocês tão levando os tubos…passa! Deveria estar se referindo aos subsídios dos parlamentares. Foi a última vez que exibi a carteirinha que tanto me orgulhou conquistá-la.

Vivi outros tempos. Era vice-lider do Governo Ivan Bichara. Antes de ir ao aeroporto recepcionar Antônio Mariz que anunciava uma dissidência contra a decisão do Planalto que escolhera Burity para governador indireto, renunciei ao posto. A dissidência foi consumada e não houve pressão, aceno, vantagens oferecidas que demovessem os nossos propósitos. Todos os deputados dissidentes permaneceram firmes até o final da disputa. E se vivia o auge do poder militar.

Os convencionais, mesmo confinados no Hotel Tropicana e arrebanhados em grupos para a convenção na AL, votaram com independência e perdemos por muito pouco. Essa posição me custou o mandato, reconquistado, porém, quatro anos depois.
Agora tudo mudou. Os apoios duram pouco e mudam com o vento. Basta que sopre uma melhor vantagem vindo de outra direção. As desculpas são as mais esfarrapadas. E às vezes, românticas. Se fala em namoro, noivado e casamento como fases preparatórias da união política. Mas basta uma das partes não concordar com o regime da comunhão de bens e o casamento se desmancha.

O debate chega a ser impróprio para menores. Nas ofensas, até o reino animal é atingido. Como hoje em dia sou um leão sem dentes, me incluam fora dessa arena. (P.S: esta próxima semana, despeço-me do último cargo público que ocupei.Volto à planície. Sou um político sem mandato, um advogado sem causas e um jornalista sem jornal. Mas estou vivo e forte, graças ao bom Deus)

Getúlio e suas ameaças de suicídio - Ramalho Leite



Tenho escrito sobre fatos históricos e figuras públicas que já se foram. É uma maneira prática de passar incólume pela reprovação dos pretensos ofendidos. Os mortos não pedem direito de resposta. Quando o personagem se chama Getúlio Vargas, cresce meu entusiasmo e tenho certeza, desperto a curiosidade dos meus poucos leitores, porque esse gaúcho de São Borja, depois de vinte anos governando o Brasil, deu tudo de si aos brasileiros e encerrou seu ciclo de poder com essa frase emblemática: “ Nada mais vos posso dar, a não ser o meu sangue”.

Antes de chegar a 1954, os arquivos de Vargas gravaram vários episódios em que expressara claramente sua vontade de por fim à vida, como forma de perpetuar o nome e lavar com seu sangue a honra ultrajada. Os fatos, até então, lhe favoreceram para que não cumprisse as ameaças. O desfecho final resultou de obstáculo intransponível colocado à sua frente. “A possibilidade de sacrifício pessoal era relacionada a uma questão de brio, de preservação da honra, de um sentido heroico de posteridade”, como define Lira Neto, seu mais recente biógrafo.

Já em 1930, quando eclodiu o movimento revolucionário que o levou ao Poder, escreveu no seu diário: “Começo os preparativos a fim de seguir para o teatro das operações, no Paraná. Desejo fazê-lo, porque esse é o meu dever, decidido a não regressar vivo ao Rio Grande, se não for vencedor”. Venceu e se tornou Presidente da República. Dois anos depois, a Revolução Constitucionalista de São Paulo colocava Getúlio em situação de resistência extrema e ele prepara uma nova despedida: “Reservava para mim o direito de morrer como soldado, combatendo a causa que abraçara. A ignominia duma revolução branca não m´o permitiu. Escolho a única solução digna para não cair em desonra, nem sair pelo ridículo”. Mais uma vez era o seu cadáver ofertado ao sacrifício.

Os paulistas foram derrotados e Getúlio reforçara seus poderes. Foi um poderoso Getúlio Vargas que aderiu às Forças Aliadas e mandou os pracinhas para o cenário da Segunda Guerra. Mas antes, preveniu o subsecretário de Estado americano que, “nessa decisão eu jogava a minha vida, porque não sobreviveria a um desastre para a minha pátria”.

Os que pesquisam a vida de Vargas estranham que, quando de sua queda humilhante em 1945, não tenha cumprido as ameaças anteriores. Há quem afirme que, na sua sagacidade, ele avistava um horizonte favorável ao seu retorno. Chegara a dizer que a política se assemelha a um jogo de xadrez. “Por exemplo, eu sou uma pedra que foi movida da posição que ocupava. E eles pensam que vou permanecer onde me colocaram. É o grande erro deles. Não sabem que vamos começar um novo jogo- e com todas as pedras de volta ao tabuleiro”.

Após ser apeado do poder, recolheu-se à estância Santos Reis, propriedade dos Vargas. A partir de então, foi alvo de uma campanha difamatória enquanto seus amigos eram perseguidos e vítimas de uma “série de mesquinharias”. Na paz do seu berço natal, “no meio de gente simples que não sabe trair”, redigiu verdadeiro testamento político depois achado entre seus papeis. Em quatro páginas de papel pautado, escrito a lápis, deixou “declarações para conhecimento do povo brasileiro”, asseverando: “Talvez, só com o meu sacrifício eu consiga remir os inocentes que estão sendo perseguidos e libertar-me das mesquinharias do governo de um títere togado influenciado por colaboradores odientos e covardes, muito inferiores à missão que se arrogaram” (Uma referência ao ministro José Linhares, pre sidente do Supremo e investido no cargo de Presidente da República).

Getúlio voltaria ao poder nos braços do povo. Antes fora eleito senador e deputado por vários Estados. Perto de concluir o mandato presidencial, obtido através do voto direto e secreto que implantara, acossado por forças poderosas e empurrado por fatos comprometedores tramados à sua revelia, revolveu “sair da vida para entrar na história”. Era 24 de agosto de 1954

Saudade dos escândalos do império - Ramalho Leite



 

Já escrevi sobre amantes de poderosos e, naquele texto, incluí gente da nossa época, a exemplo de Getúlio Vargas, Ademar de Barros, Juscelino Kubitschek e certo general que dizia gostar mais de cheiro de cavalo, mas consumia muitas milhas em busca de um cangote feminino. De passagem, lembrei Pedro I, que dividiu seu reinado com a principal amante, Domitília de Castro, a Marquesa de Santos. Acho que deixei em paz Pedro II, seu filho, um tremendo “come quieto”, que não ficava longe do pai em matéria de ocupar as camarinhas do Palácio. A diferença entre pai e filho residia na seleção das eventuais companheiras de alcova. Pedro I era mais promíscuo. Apesar da Marquesa de Santos, com quem teve cinco filhos, ainda engravidou outra filha do brigadeiro Canto e Melo, de nome Maria Benedita, casada com o Barão de Sorocaba. Antes da marquesa, uma atriz francesa inaugurou seu caderno de traição à Imperatriz Leopoldina.

Os costumes da época, pelo menos no ambiente das cortes, justificavam que o leito conjugal servia apenas para perpetuar a linhagem. As paixões e os prazeres eram coisa para se conseguir no aconchego das amantes. Uma comerciante francesa, de nome Clemence Saisset, também deu a Pedro I um filho bastardo. A atriz uruguaia Maria Del Carmem Garcia não lhe deu filho, deixando essa missão para a monja portuguesa Ana Augusta. No caderno do nosso primeiro Imperador ainda entraram uma escrava do Convento da Ajuda, a esposa de um general e uma atriz portuguesa, o que demonstra que ao voltar para Portugal, Pedro ainda carregava o fogo dos trópicos. Para encerrar, obteve favores sexuais da esposa de seu homem de confiança e, até, da filha do bibliotecário de dona Leopoldina.

Dom Pedro II era um galegão de um metro e noventa, pernas e voz finas, olhos azuis, mas tristes. Há quem diga, pelo abandono do pai e morte prematura da mãe. Conhecera a futura esposa por uma pintura da cintura para cima, obra de artista europeu. Pela pintura não dava para saber que Tereza Cristina era baixa, feia e puxava por uma perna. Foi uma desilusão que o levou às lágrimas. Mesmo assim tiveram três filhos: o homem morreu ainda pequeno e as filhas Isabel e Leopoldina se transformaram na única esperança de Dom Pedro para um terceiro reinado. Isabel desempenharia papel importante e, ao assinar a Lei Áurea, assinou também a queda da monarquia. & nbsp; Mas quero falar das mulheres de Pedro II, a “ metade” que teria passado a vida procurando e, parece ter encontrado, na pessoa da preceptora de suas filhas, a Condessa de Barral. Ainda passaram pela biblioteca de Dom Pedro, transformada em alcova eventual, a Condessa de Villeneuve e Eponine Otaviano, esposa de um seu amigo de infância, a Condessa de La Tour e outras menos votadas. O Imperador era pouco generoso com suas amantes e, não foram poucos os maridos da Corte que, orgulhosos, chegaram à falência para permitir que suas consortes continuassem a frequentar a “biblioteca” do Palácio São Cristóvão. A busca de Dom Pedro II por sua alma gêmea começou com Maria Lopes de Paiva, filha do barão de Maranguape, sua primeira paixão. Um filho bastardo de Pedro I, portanto, seu meio irmão, era casado com Carolina Bergaro e foi à porta dessa dama que a ronda policial surpreendeu o Imperador e alguns amigos, animados pela bebida.

Identificado o Imperador, o policial debulhou-se em desculpas e acordou seu chefe pela madrugada para contar o ocorrido na certeza de que estava encerrando sua carreira. O historiador americano Roderick Berman acredita que esse relacionamento de Dom Pedro II com a cunhada durou cerca de dez anos, na maior discrição. Pedro II recebera esmerada educação para, justamente, não ser comparado ao pai, devasso e inconsequente ao ponto de conceder título de nobreza a quase todos os filhos bastardos. A todos não podia dar, pois foram contados mais de sessenta bastardinhos entre o Brasil e Portugal. Hoje, com os escândalos revelados na nossa corte republicana, haveremos de ter saudade dos esc&aci rc;ndalos do Império.

O farmacêutico que inventou uma vacina e ficou famoso - Ramalho Leite



 O epíteto de “Vornoff Brasileiro” foi dado ao major José Fábio da Costa Lira, farmacêutico em Bananeiras mas nascido em Umbuzeiro, onde foi prefeito municipal. O jornal “A Noite”, do Rio de Janeiro, em edição de 11 de agosto de 1936, na primeira página, revela a existência, “no interior da Parahyba, do autor de um processo a que se atribuem curas assombrosas”. Doentes com tuberculose, câncer, lepra e diabetes eram objeto de tentativas de curas pelo método que denominou “lymphotherapia” e que consistia na “transmutação do princípio vital que afflora de certas glândulas de creanças e menores, desde que estejam sãs, par a pessoas doentes, isto é, para aquelas cuja energia orgânica esteja perturbada, diminuída ou esgotada”, explica José Fabio, para finalmente comparar: “se posso dizer, é a voronofftherapia simplificada”.

Ao usar o neologismo voronofftherapia, o criador da famosa “vacina de cuspe”, como ficou conhecida a injeção que aplicava nos enfermos, refere-se ao cirurgião russo radicado em Paris, Serge Voronoff (1866-1951) que foi pioneiro em método de transplante e prometia recuperar e garantir a vitalidade, a plena atividade física e mental… por meio do enxerto de glândulas sexuais de primatas não humanos, conforme explica Renata Moehlecke, da Fiocruz. A reportagem de “A Noite” sobre o “modesto farmacêutico do interior” também aludia à possibilidade de seu sistema provocar o rejuvenescimento e garantir uma “velhice mais sadia e mais alegre”.
O jornal carioca mandou a Bananeiras um repórter ouvir o esculápio, para tentar explicar aos leitores a razão da sua fama que já alcançava a Paraíba e os vizinhos Rio Grande do Norte e Pernambuco. Tal qual uma romaria, doentes de toda parte vinham pedir arrego na Farmácia de Zé Fábio. Sua atividade, porém, foi considerada irregular pela Sociedade de Medicina da Paraíba e ele mesmo reconhece – “sei que venho agindo fora da minha profissão, pois não sou médico, mas comprehendo também que a sciencia não pode ser patrimônio de uma classe”… Revela que suas experiências não fazem “victimas” e, conformado, conclui: “j&aacute ; me compensam as emoções de ter com o meu méthodo aliviado algumas dores humanas”

Depois do pronunciamento negativo da entidade médica paraibana começaram as perseguições ao boticário. O vigário de Bananeiras, José Pereira Diniz, “na qualidade de guia dos destinos espirituaes da parochia” ao tomar conhecimento de que José Fábio havia dito que “ a lymphotherapia provinha de uma missão divina recebida de um espírito superior que não era o Deus da religião de vocês”, resolveu interpelá-lo por carta, devidamente registrada no Livro de Tombo da Paróquia. As respostas às indagações do sacerdote foram atendidas uma a uma. “O meu methodo de cura lymphotherapia ou sialotherapia é resultado de estudos cient& iacute;ficos publicados em dois livros e um memorial inédito lido perante o corpo médico do Hospital Pedro I, de Campina Grande” informa. E conclui o cientista autodidata: “Vossa Reverendíssima sabe que tenho ideias espíritas, mas, que em tempo algum as empreguei para a cura do corpo e sim para as do meu espírito”.

Proibido de exercer suas experiências na Paraíba, o major José Fabio da Costa Lira (naquele tempo em Bananeiras todo ilustre era major) mudou-se para Serra Negra, no Rio Grande do Norte. Em pouco tempo, a categoria médica local agiu contra sua atividade. Deusdedith Leitão, conta em “Inventário do Tempo” que era um jovem viajante e, na sua faina comercial, encontrou José Fabio em plena atividade em Lavras de Mangabeira, no Ceará. E tomou a “vacina de cuspe” por recomendação de sua mãe, crente dos resultados advindos da injeção “milagrosa”. “Era o que ele chamava de salioterapia que nada mais era de que a saliva transformada num liquido injetável que se indicava a qualquer tipo de doença”, explica Deusdedith.

O trabalho experimental de José Fabio da Costa Lira está detalhado no livro “Da Lymphotherapia ao Physio-Pschismo” publicado em 1924 sob o patrocínio do seu compadre Sólon de Lucena, então presidente do Estado. Ele narra os resultados satisfatórios de seu método de curar e revela, na reportagem de 1936 que, conseguiu curar a tuberculose, “onde reste ainda uma parte do pulmão e espero retrogradar a lepra ao estado de eczema, como já tenho feito da tuberculose uma bronquite commum. Conforme observações mais recentes, consegui reduzir o assucar, num diabético, a mais da metade, e levantar-lhe as forças, dissipar-lhe a catarata e abater a febre do enfermo”.

Correligionário dos Pessoa, compadre e amigo do coronel Antônio Pessoa a quem chamava de Toinho, foi por ele escolhido prefeito de Umbuzeiro. Desgostoso da política local, trazendo uma carta de apresentação de seu chefe político para Solon de Lucena, em Bananeiras instalou-se e se tornou, além de amigo/irmão de Sólon, seu colega, como professor de francês no Instituto Bananeirense, por eles fundado, ao lado de Dionísio Maia e outros.

Foram vãs as tentativas do avô de Waldir dos Santos Lima em legalizar o seu método cientifico de curar. José Fabio da Costa Lira teria que se conformar com o apoio moral que recebia dos que alcançavam a saúde plena. Não acumulou fortuna, mas lhe sobraram sofrimento e frustrações, fruto das perseguições sofridas ao longo da existência. Sua maior consternação, porém, foi não ter conseguido, com a lymphotherapia, prolongar a vida do seu compadre Solon de Lucena. O clima saudável do curimataú, da Fazenda Pedra D´Àgua, onde morreu o ex-presidente da Paraíba foi insuficiente para a sua cura.

Na UTI se respira vida - Ramalho Leite



 RAMALHO LEITE
NA UTI SE RESPIRA VIDA

Para quem nunca foi levado a extrair uma unha encravada, ser hóspede de uma unidade de terapia intensiva é uma aventura inusitada. Colocado em leito de posição privilegiada, podia avistar outros à minha frente e o movimento frenético de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e outros auxiliares que se revezam a cada vinte e quatro horas. Os intensivistas cuidam de homens e mulheres, adultos ou crianças, que necessitam de melhores cuidados, quase sempre pós operatórios ou preventivamente, visando estabilizar um paciente com a saúde em risco.

O conceito de terapia intensiva vem do século dezenove, quando em pela guerra da Crimeia, por volta do ano de 1854, alguém teve a ideia de separar pacientes graves de não graves e a partir de então estabeleceu uma vigilância continua, de dia e de noite sobre seu estado de saúde. Atribuiu-se a inciativa a Florence Nightingale, que ficou conhecida como a Dama da Lâmpada, pois conduzia uma lamparina durante a noite procurando os enfermos mais graves para separa-los dos menos graves. Mas a primeira UTI com esse nome, veio surgir em Boston, nos EE.UU pelo ano de 1927, através de um neuro- cirurgião chamado Walter Dandy, conforme me revela a Wikipédia. No Brasil, o honraria de encarar o tratamento intensivo foi conferido, historicamente, à Ana Nery, tida como Heroína da Pátria e pioneira da enfermagem no Brasil, principalmente em função de sua atuação, ao lado do marido e filhos na guerra do Paraguai.

Mas deixemos o bravos brasileiros que perderam avida nos pântanos paraguaios e nas batalhas navais e voltemos à UTI onde estive internado por alguns dias. Um ambiente de ansiedade. O isolamento provoca a angustia. Só há o desejo de rever as pessoas que amamos e que, no outro lado de uma parede, fazem fila para um abraço carinhoso, às vezes, não correspondido, por razões obvias. O velhinho de cabelos branco corre célere até o leito onde sua companheira dorme. Trouxeram-me lágrimas o gesto de carinho. Merecia uma foto. Mas proíbem celular naquele ambiente. O filho, mais ágil ainda que o marido aflito, procura um rosto, e faz carinho na face materna que parece não responder aos afagos. Lembrei minha mãe que padeceu em um daqueles tálamos. Vendo aquele filho acarinhar a mãe enferma, quanto me arrependi de, em nome da minha covardia, ter deixado de ir abraça-la. Preferia guardar a lembrança da sua imagem em vida. Agora tenho certeza que ela teria ficado muito feliz em me ver, mesmo que fosse pela última vez.

Foi uma boa invenção essa tal de UTI. O paciente, quando está em condições, pode avaliar os serviços que lhe estão prestando. Melhor ainda quando a luta de todos é coroada de êxito e o interno sai dali, recuperado, saudável. Numa UTI se respira vida. Acho que não incomodei muito. Bastava um sinal, e alguém já sabia que eu pedia o famoso bico de papagaio. Usei e abusei do bicho. Em hora nenhuma, porém, precisei avisar para todos, como o senador, o que desejava fazer...

Na chegada de Cabral nasceu a corrupção no Brasil - Ramalho Leite



Quando Cabral aportou nas costas da Bahia e, das naus de sua esquadra avistou-se um monte alto a que se denominou Monte Pascoal, começou a nascer um país que, quinhentos anos depois, ainda refletiria a semente plantada naquela terça-feira, 21 de abril. Não me acanho de repetir o lugar comum de que, a qualidade da gente trazida para ficar e se misturar com os índios não germinaria bons frutos. Pero Vaz de Caminha mandaria dizer a dom Manuel, o Venturoso, que o Capitão “mandou com eles (os índios) para ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. O degredado levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as d ar ao senhor, se lá o houvesse”. Foi a primeira ação de corrupção com pagamento de propina que se registrou nesta terra de Vera Cruz.

“O Capitão, quando eles (os índios) vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço…acenderam-se tochas e eles entraram…um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra.E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!…Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Narrou o escrivão da frota. < /span>

Os portugueses, sem dúvida, estavam interessados no ouro e na prata. A procura de especiarias era só uma desculpa para quem saiu com destino às Índias e, desviado da rota por falta de vento terminou por descobrir novas terras. Os silvícolas pediam pouco. Encantaram-se com as contas de um rosário e pediram-nas de presente, enfeitando de logo seus pescoços. Através de gestos, propunham a troca das contas por ouro e prata que, ao que indicava, era abundante na nova terra. Os visitantes tomaram a resolução de levar dois daqueles índios, mesmo à força, à presença do Rei de Portugal, deixando em seu lugar dois degradados. A primeira tentativa de sequestro entre nós foi abortada pela sugestão de que, o s degredados, ficando em terra, teriam muito mais a contar sobre o território conquistado. Assim foi feito e mandado dizer a El Rei:“E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui dois degredados quando daqui partíssemos”. Não esqueceu Pero Vaz de informar que, além dos degredados, “dois grumetes, que esta noite saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. Tutto buona gente!

“E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo” concluiria Pero Vaz. Na despedida, contudo, não deixou de cobrar do seu amo, um pequeno favor. Bastou demorar-se por aqui e respirar o nosso clima por alguns dias, para descobrir o jeitinho brasileiro. Escreveria ao final de sua famosa Carta: “E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé, a Jorge de Osorio, meu genro, o que d’Ela receberei em muita mercê.”Era a primeira notícia do nepotismo em terras brasilienses.

Lendo a Carta de Pero Vaz de Caminha, nosso primeiro testemunho escrito sobre a nova terra e sua gente, chego à conclusão de que o Brasil tem jeito. Basta começar tudo de novo…

Os dois barões de Ramalho: Um brasileiro e outro português



Vim descobrir recentemente por que a família da minha esposa fazia restrições ao seu casamento comigo. Para casar, tive que roubar a moça. O coronel Camporra, irmão do Barão de Araruna era seu trisavô. Com essa ascendência nobre, como permitir a união com o filho de um plebeu, cujo mais ilustre membro familiar era tenente da Guarda Nacional? Mas a história abre caminhos e a genealogia nos leva a conhecer o passado. Em busca desses ancestrais encontrei Joaquim Inácio Ramalho, Barão de Ramalho, um ilustre homem do direito, contemplado com todas as honrarias do Segundo Império. Um dia ainda vou reivindicar esse título de nobreza. Só não sei perante qual juízo...

Filho de um espanhol, o futuro barão nasceu a 6 de janeiro de 1809, em São Paulo. Os irmãos Antônio Nunes Ramalho (parente da Elba) e Anna Felisberta Ramalho foram seus pais de criação, recebendo deles o sobrenome Ramalho. Foi dos primeiros alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco onde se bacharelou em 1834 e foi doutor em 1835. No ano seguinte já era professor substituto da mesma escola onde se graduara. Dez anos depois foi eleito vereador e presidente da Câmara de São Paulo. Sua destacada atuação lhe valeu a nomeação, através de decreto imperial, para a presidência da Província de Goiás, até 1848 quan do se elege deputado geral por Goiás. No retorno, foi deputado provincial paulista, por duas legislaturas. É ainda comendador da Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo.

Conselheiro do Governo Imperial lidera um grupo de advogados para fundar o Instituto dos Advogados de São Paulo, ativo ainda hoje. Depois de aposentado como catedrático da Faculdade de Direito foi distinguido pelo Império com o baronato. Denominado Barão de Água Branca, em homenagem à cidade alagoana do mesmo nome, recusou o título. Somente aceitaria o título de Barão, caso houvesse referência à família de sua esposa Paula da Costa Ramalho, filha de um dos Ramalho que o criara. Assim, em 28 de maio de 1887, torna-se o Barão de Ramalho. Nomeado diretor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ocupa esse cargo até sua morte em 15 de ago sto de 1902, aos 93 anos.

Em artigo sobre os Notáveis do Direito, Alessandro Hirata, livre docente da USP, considera o Barão de Ramalho “um exemplo de carreira dedicada à academia. Passou a maior parte de sua longa vida nos bancos da São Francisco. Sua atuação é modelo não apenas para a tradicional faculdade paulistana, mas para todo o mundo acadêmico jurídico”.

Acabei de falar sobre o Barão de Ramalho brasileiro. Dona Maria II, de Portugal, contudo, destacou um político do Açores com o título de Barão do Ramalho. Chamava-se Antônio Tomé da Fonseca Carvão Paim Câmara, o 1º Barão. Seu neto, Antônio da Fonseca Carvão Paim da Câmara, foi o 2º. Barão e além de político e jornalista foi governador civil, por diversas vezes, do distrito de Angra do Heroísmo e de Ponta Delgada até 1878. Cavalheiro da Casa Real, comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, eram alguns dos seus títulos. Era formado em Ciências Naturais pela Unive rsidade de Bruxelas.

Com essa ascendência nobre, tanto brasileira quando d’além mar, juntei a Casa dos Aragão com a Casa dos Ramalho e ainda hei de reivindicar o meu título de nobreza. O coronel Camporra que me aguarde! (Do meu livro A HISTÓRIA COMO EU CONTO)

Nosso primeiro governador civil indicado por militares -Ramalho Leite



A notícia da deposição da Família Real chegou à Parahyba por telegrama. A República estava nascendo, mas por aqui, não havia um republicano para recebê-la. O paraibano Albino Meira, professor da Faculdade de Direito do Recife e único defensor da República entre nós, foi candidato à Assembleia Geral do Império e obteve míseros vinte e quatro votos. Confirmado o golpe militar comandado por Deodoro da Fonseca, assumiria a chefia do executivo o tenente-coronel Honorato Caldas que por doze dias tumultuados, se fez governador. Terminou preso e recambiado para a antiga Corte por ordem de Benjamim Constant, ministro da Guerra. Passou o governo ao capitão Oliveira Cruz, até a posse do governador nomeado, Ven&aci rc;ncio Neiva, juiz de Catolé do Rocha. Este, irmão de dois oficiais do exército, teve sua indicação reforçada pelo general Almeida Barreto e venceu Albino Meira, republicano histórico, patrocinado por Aristides Lobo, Ministro do Interior do governo provisório.

Venâncio Neiva tomou posse como governador no dia seis de dezembro de 1889. Epitácio Pessoa, que há pouco mais de um mês chegara à Corte para tentar a sorte, sob a sombra do Barão de Lucena, seu tio, regressou à Parahyba para assumir o cargo de Secretário Geral do Estado, ao lado de Coelho Lisboa, nomeado Chefe de Polícia, ambos os postos, de escolha federal. Dos três que formaram esse primeiro governo, somente Coelho Lisboa podia se dizer republicano. Foi um governo, provisório, literalmente: Epitácio saiu com dez meses para ser deputado constituinte e, Coelho Lisboa rompeu logo com o governador. Voltaria ao poder no governo seguinte, integrando-se à duradoura oligarquia de Álvaro Machado, nascida com a ascensã o de Floriano Peixoto à presidência da República.

Apesar da inexistência de muitos republicanos militando nestas plagas dos tabajaras, a partir da certeza da queda da monarquia, a Parahyba inteira “passou a manifestar convicções republicanas ou pelo menos, a disposição de servir ao novo regime”. Disso serviu-se o governador Venâncio Neiva para escolher auxiliares e dirigentes municipais, todos oriundos do antigo regime e das fileiras do partido conservador ao qual pertenceu o chefe do executivo. Osvaldo Trigueiro Mello, registra que, “só não podemos dizer que não se derramou uma lagrima pelo Império, por que o ultimo Chefe de Polícia, Sá e Benevides, ao ser informado dos acontecimentos, disse a Eugenio Toscano de Brito, como os olhos rasos de águ a: “A Republica será a desgraça desse país”. Coube a Venâncio Neiva a missão de organizar politicamente o Estado e foi ele que outorgou a nossa primeira constituição, a 25 de abril de 1891.


A Constituição Estadual, na parte referente a eleições e funcionamento da Assembleia, entraria em vigor de imediato. Sua vigência integral, todavia, dependia da aprovação dos deputados constituintes. Instalada a Assembleia, Venâncio Neiva foi eleito e tomou posse como governador, agora respaldado pela letra da Lei Maior, fato ocorrido em pleno São João de 1891. Mas, somente em agosto, a Carta seria promulgada pela Assembleia presidida pelo deputado Manoel da Fonseca Xavier de Andrade. Era a data da fundação da cidade de Nossa Senhora das Neves.


Pela Carta de 5 de agosto de 1891, o governador, com mandato de quatro anos, seria substituído nas suas ausências por um dos três vices e, não podia ser reeleito. Precisava ter mais de trinta e cinco anos para exercer o cargo. O Poder Legislativo era composto de um Congresso com trinta membros para um mandato de quatro anos, mas, a sua metade, seria renovável de dois em dois anos. As leis dependiam, como ainda hoje, da sanção do governador. A eleição era pelo voto direto, porém, não secreto. Era o chamado “voto de cabresto”.


Por outro lado, o Poder Judiciário, formado pelo Superior Tribunal de Justiça e constituído por cinco desembargadores, incluía ainda o júri criminal, os tribunais correcionais e os juízes de direito e os distritais. Eleito da mesma forma dos deputados seriam os prefeitos, que cuidariam da gestão municipal com a parceria de um Conselho de nove membros na Capital e sete nos demais municípios. Com o novo golpe de Deodoro, agora fechando o Congresso, Venâncio Neiva não tomou partido e limitou-se a declarar que a Paraíba continuava em paz. Caindo Deodoro, com ele foram derrubados todos os governadores. Venâncio Neiva ainda resistiu por alguns dias, até que foi forçado a renunciar. Seu vice não esquentou a prin cipal cadeira do estado. Depois de passar pela chefia de uma junta governativa, a Parahyba recebeu como governante o major Álvaro Machado que se manteria no poder até que sua oligarquia fosse substituída pela de Epitácio Pessoa, a partir de 1915.


Assim nasceu a República na Parahyba.( Do meu livro, A HISTÓRIA COMO EU CONTO)

Jô Soares na missa de Dom José - Ramalho Leite



 

Jô Soares, o teatrólogo, escritor, humorista, musicista, ator e jornalista nasceu em berço de ouro. Até a adolescência, sua residência foi o maior e mais refinado hotel brasileiro, o Copacabana Pálace, na famosa praia do mesmo nome. Correndo ao redor da piscina, ainda menino, ouvia o chamado do jornalista Assis Chateaubriand, o Chatô: - Ôi paraibano! Oi paraibano! Ao que o pequeno gordo respondia: - Eu sou carioca! Chatô, contudo, acrescentava: -Filho de paraibano, paraibano é!


Filho de Orlando, sobrinho de Orris e Oscar Soares, estes, nomes vinculados à cultura e à política da Paraíba nas primeiras décadas do século XX, eis as raízes paraibanas do gordo mais famoso do Brasil que acaba de nos brindar com o segundo volume de sua Biografia Desautorizada. Ambos os livros retratam a vida do autobiografado, crescendo paralelamente à evolução do teatro, do rádio e da televisão entre nós. Sua trajetória faz parceria com centenas de nomes que nos acostumamos a admirar, inseridos na literatura, no teatro e nos jornais, inclusive, no irreverente “O Pasquim”, produto, entre outros, de nomes como Ivan Lessa, Milhô Fernandes, Ziraldo e o próprio Jô que enfrentavam com galhardia a tesoura dos censores credenciados pela caserna pós 1964.

Orris Soares, tio avô de Jô, juntamente com o irmão Oscar fundaram, em outubro de 1908 o jornal O Norte, de saudosa memória. É dele a iniciativa e organização da edição do “Eu e Outras Poesias”, cujo prefácio ainda hoje serve de espelho aos que se debruçam sobre a vida e obra do paraibano do século. Por sinal, conta Jô, foi Orris que deu a notícia da morte de Augusto dos Anjos ao imortal Olavo Bilac. O baiano indagou: -“ Quem é Augusto dos Anjos?” Após ouvir alguns versos do pranteado paraibano, teria dito o príncipe dos poetas: -“ Fez bem em morrer. A poesia não perdeu muita coisa”. Para Ariano Suassuna, segundo Jô, a literat ura deveria agradecer a Orris Soares o fato de Augusto ser hoje um poeta conhecido.

Jô Soares confessa que se sente feliz em “relembrar e também de resgatar a importante presença cultural e política da Paraíba na vida nacional da primeira metade do século XX, hoje injustamente esquecida. Por ter, ao lado de Minas Gerais, apoiado o Rio Grande do Sul na chamada Aliança Liberal, a Paraíba e seus filhos ganharam um papel de peso na Capital da Republica após a Revolução de 1930”, registra.

Entre os talentos do Jô Soares deixei de incluir acima, sua missão religiosa, como Ministro Extraordinário da Eucaristia. Fazia sucesso nas igrejas, vestido de branco ou de roxo, atendendo às filas dos que recebiam a comunhão. Dom Helder, em Olinda, chegou a dizer baixinho, que a sua fila estava maior: - Você está tomando os meus fieis... Dom Avelar Brandão, em Salvador, também abria as portas da sua igreja para o famoso Gordo. Na Paraíba, esteve presente na missa de “dom José Maria Pires, que, por ser negro, era chamado carinhosamente de dom Pelé, embora preferisse ser chamado de Dom Zumbi.”

Para concluir, passo a palavra ao Jô Soares: “Ajudei também na comunhão em Joao Pessoa, terra de papai, na missa celebrada por dom Jose Maria Pires, o arcebispo da Paraíba, ele morreu há pouco tempo com quase cem anos. Quando chegou a hora do sermão, d. Jose Maria puxou uma folha de papel e eu pensei: Puxa, eis ai um Bispo que deve ser fraco de oratória, precisa trazer o sermão por escrito. Ai notei que ele nem olhava para o papel. Começou a pregar com uma beleza de oratória. Perguntei ao meu assistente:

- Mas falando tão bem, por que trouxe o sermão por escrito?

-Porque o DOPS o obriga a mandar uma cópia de cada sermão antes de pronunciá-lo
Então me virei para a porta da Igreja e vi dois tipos com cara de agentes do DOPS, papel nas mãos para conferir se o bispo dizia exatamente o que estava escrito ali. Aliás, no jubileu sacerdotal de d. Helder, foi d.Jose Maria quem falou numa bela homilia.

Sinto orgulho imenso de ter concedido a comunhão com esses três homens, três religiosos, três brasileiros corajosos.”

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