EUA Polícia do mundo ou máquina de guerra ?



 Francis Lopes de Mendonça


O governo americano desembolsou, em quase 20 anos de conflitos no Oriente Médio e no Golfo, cerca US$ 6 trilhões com gastos militares. Essa quantia não teria sido mais do que suficiente para resolver os problemas fundamentais do nosso planeta de onde surge a violência? Agora imagino uma comissão da ONU inspecionando os laboratórios militares, as fábricas de armas e os arsenais pesados dos americanos. Claro que isso não vai ocorrer.

Diante dessa proposta insólita o governo americano logo se riria e retrucaria sem se ruborizar: “Os Estados Unidos têm o direito de fabricar e estocar as armas que quiser por serem um país digno de confiança. Usamos as armas, sim, mas sempre por razões justas, em defesa da liberdade e da democracia. Somos os policiais do mundo”.

Essa tem sido uma crença partilhada pela maioria do povo americano. Quem primeiro a exprimiu de maneira clara, se não me engano, foi Henri Kissinger, secretário de Estado, há mais de quarenta anos. Ele declarou que a política externa dos Estados Unidos é sempre determinada pela verdade e pela justiça. Sendo assim o uso das armas está justificado.E essa crença se incorporou ao cinema americano pela figura mitológica do ator John Wayne. Ele simboliza o herói solitário, forte e puro que, sozinho, enfrenta e derrota os bandidos. Clint Eastwood, Silvester Stallone, Arnold Schwarzenegger são variações mais modernas desse mesmo tema: “Somos o Cavaleiro Justo que luta contra o Dragão da Maldade…”

Quem não está conosco está contra nós.Trata-se de uma mitologia religiosa que o próprio Ocidente dito cristão definiu de maneira teológica ao afirmar que o que está em jogo é o confronto entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Demônio.

O problema é que as imagens míticas, como todas as imagens religiosas, não permitem que se veja com transparência, principalmente o povo americano quando olha para o seu passado e só vê o Cavaleiro Justo em defesa da liberdade e da democracia. Mas poucos sabem que o que o passado nos conta é trágico.

Ao que me consta – e nisso estou pronto a ser corrigido se minha informação for incorreta – foi o exército americano o primeiro a se valer das silenciosas, invisíveis e terríveis armas bacteriológicas. Aconteceu no século XIX. Havia uma nação indígena que precisava ser eliminada para permitir a expansão colonial para o oeste. Uma operação militar convencional seria possível mas traria muitos problemas. Surgiu, então, a possibilidade de se usar o poder letal das bactérias. Foram enviados aos índios, bondosamente, como presentes de boa vontade, cobertores, tão necessários como defesa contra o frio. Só que os ditos cobertores haviam sido usados por moribundos de varíola.

Depois os americanos conseguiram fabricar bombas atômicas. Seriam armas terríveis que rapidamente poriam um fim ao conflito, coisa que todo mundo desejava. Tão terríveis e devastadoras, poderiam ter sido lançadas sobre alguma ilha deserta ou sobre o mar. A simples contemplação da explosão levaria o exército japonês a se render. Mas não. Foram escolhidas duas cidades onde moravam civis, velhos, mulheres, crianças, operários, todos eles vítimas inocentes da esquizofrenia bélica dos militares japoneses: Hiroshima e Nagasaki. 80.000 inocentes mortos em poucos segundos. 250.000 mortos nos anos seguintes, em consequência das radiações.

Não quero nem falar dos horrores do Vietnã com as bombas de napalm, os produtos químicos despejados sobre as florestas e a imagem mais horrenda: o massacre da aldeia de My-Lay onde nem mesmo os bebezinhos foram poupados. Afinal de contas, o que é que os americanos tinham a ver com o Vietnã? Não é assombroso o desrespeito dos Estados Unudos à mais simples coerência? Ou estou errado?





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