No Brasil todos permanecem oficialmente desiguais



 Os generais, que controlavam o país na base do porrete e exploravam a sociedade auferindo “vantagens competitivas” para grupos empresariais “amigos” da ditadura militar, foram substituídos por um "mecanismo" de dominação mais suave em que as “eleições democráticas” legitimam a exploração econômica da sociedade por grandes fornecedores do Estado, em conluio com quadrilhas de salteadores.

Tudo começou quando as esquerdas estavam entrincheiradas no MDB. Os parcos recursos que elas conseguiam eram os 25% desviados de contratos obtidos pelo partido nos limiares da ditadura. Só que de grão em grão foram “engordando” o caixa. Ao chegarem ao poder já não mais fazia sentido desviar os 25% para o partido, agora não mais disfarçados de MDB, mas com a grana nas mãos, foi mais fácil botar a bolada no bolso. O resultado todo mundo está vendo agora. Os larápios da nação, que foram heróis no passado, no presente viraram traidores da consciência do povo brasileiro que se vê iludido, ludibriado e enganado.

É preciso entender, no entanto, que esse mecanismo de dominação e de exploração ampla e recorrente, empresarial e juridicamente estruturada, sempre teve a função precípua de pilhar os recursos públicos, que nada mais são do que uma parcela do árduo trabalho do eleitor e contribuinte mais humilde, no caso, o explorado, funcionando de várias formas e se disseminando em todas as esferas do poder público “democraticamente constituído” no país, em todos os níveis: no governo federal, nos 26 estados, nas 5.570 cidades e em suas respectivas Assembléias Legislativas.

Nessa trapaça, que se acentuou ainda mais com a Constituinte, e nunca mais cessou, o representado ou o eleitor e contribuinte é excluído das vantagens de que usufrui a representação nada democrática, numa afronta a essência da representatividade que nada mais é que a igualdade entre o representado e o seu representante. Naturalmente que um sistema de exploração com tal dimensão só podia existir mediante a encampação de legislação especializada. Não há dúvida de que os generais sabiam que magistrados e políticos usavam meios ilícitos para se manterem no poder: da compra simples de votos ao enriquecimento fraudulento. Tanto que o próprio SNI, no final dos anos 70, arquivou os processos dos corruptos. O Exército usou os inquéritos como barganha de apoio contra os chamados “subversivos comunistas”.

Foi então que todos os partidos que atuavam de 64 a 88, inclusive ARENA e MDB, aprenderam e passaram a ensinar e aprimorar essas práticas. E os novos partidos surgentes ampliaram ainda mais o processo de corrupção para se transformar em verdadeiras organizações de saqueadores. Hoje, o que temos é a sofisticação do sistema de meter a mão no dinheiro da nação por essas quadrilhas cada vez mais especializadas na montagem de empresas fajutas, na distribuição de recursos desviados, na organização de entregas de malas com dinheiro vivo, no pagamento de despesas para aliados políticos, na viabilização de aportes de caixa dois em campanha eleitoral, nas remessas para empresas “offshore”. Muito embora a Lava-Jato tenha conseguido metralhar quem estava nesses esquemas de poder ou quem estava pendurado neles, sem metralhar todo o sistema, essa ação por si só não resolveu e nem vai resolver o problema da indústria do propinoduto nacional enraizado no intestino de todos os Órgãos e Instituições do Estado brasileiro, em todos os níveis.

Em face disso, percebe-se cada vez mais que a vida da maioria só vai piorando a medida em que as eleições se sucedem, com o acúmulo e a exaustão de anos e mais anos de traição, decepção e vergonha. Pois a representação nada democrática é só masturbação com o dinheiro dos impostos, que é fruto de trabalho, de horas e dias e meses de esforço, de chateação, de repetição, de calor e de frio, de dor e suor, de tempo de vida. Agora mesmo milhões e mais milhões dos recursos da saúde, educação e outras áreas foram cortados para alimentar o repugnante e escandaloso Fundão Eleitoral, que obriga o cidadão a pagar a campanha dos políticos.

Pessoalmente, sempre duvidei de que o Congresso Nacional fosse capaz de fazer as reformas de que realmente necessitamos. Eu acreditaria, sim, se a lei das ditas reformas começasse com um gesto mínimo de diminuir despesas e reduzir as verbas de representação e contenção das vantagens abusivas que são fabricadas dentro da legalidade e transformadas em "direitos adquiridos”. Pois o certo seria os representantes do povo, portadores do seu sofrimento e de suas esperanças, por um ato declarar abrir mão de todos os privilégios que os colocam acima do povo e determinar que os seus direitos sejam os mesmos que determinam os direitos de todos os cidadãos, os mais humildes. Declarariam, portanto, abolidas todas as leis que os colocam acima do povo. Estariam proibidos de legislar em causa própria. Mas não. Preferem cortar na carne dos pobres assalariados, quando se sabe que um terço do dinheiro da Previdência é gasto com altos funcionários federais das castas encasteladas nos três poderes, a exemplo da magistratura cujos mimos e adiposidades provocam a ruína fiscal.

Não há, por fim, uma reforma real das leis que regem o jogo da política. E não se sabe quem fará essa mudança. O que se sabe é que os cidadãos não são iguais perante a lei na hora de pagar a conta. Aqueles que mandam no país passam a vida criando leis, regras e mandamentos que anulam cada vez mais o princípio universal de que “todos são iguais perante a lei”. No Brasil não: todos permanecem oficialmente desiguais. Não existe nenhuma democracia no mundo que seja assim.

(por Francis Lopes de Mendonça)





Comentários


Comentar


Sidebar Menu