História da Polícia Civil X



 Ao tomar posse na Polícia quando da transformação do território em Estado, confesso que me senti como um peixe fora d’ água, pois tinha apenas a formação oriunda da iniciativa privada como gestor de diversos hotéis na cidade de João Pessoa, um curso de graduação como bacharel em Direito e nada além disso.

Ao tomar posse e sem muitas delongas, me foi entregue numa caixa contendo um revolver novo, seis munições e o documento funcional como delegado de polícia, além de um memorado para que me apresentasse no 3º Distrito Policial, onde ficaria como adjunto, para na prática aprender o difícil mister de como policial servir a coletividade.

Naquela unidade policial, já encontrei como titular o delegado Marcos Santiago e como adjunto o delegado Jório Ismael da Costa meu conterrâneo, sendo ali muito bem recebido por todos, delegados, agentes, escrivães e o pessoal administrativo.

Nos primeiros dias tendo como escrivão o excelente Manuelzinho, fiquei na sala do delegado Jório e ali acompanhava os depoimentos para assim aprender como fazer, o que perdurou por alguns dias, quando então, em determinado inquérito Jorio se levantou da cadeira e mandou que eu ali sentasse e tomasse a termo em seu nome as declarações de uma pessoa. Confesso que foi um momento muito difícil, mas as duras penas consegui realizar a contento o trabalho que me fora confiado e a partir daquele dia, passei a presidir meus próprios inquéritos.

Certo dia o colega Jório se envolveu num acidente, pois abalroou uma bicicleta que tinha como condutor um surdo-mudo, que em razão do forte impacto subiu no capô do fusca e estraçalhou o pára-brisa do veiculo, sofrendo ele a vitima várias lesões, sendo socorrido para um hospital.

O inquérito sob a minha presidência vinha tramitando bem até o dia que tive que ouvir a vitima o surdo-mudo e ai o tempo esquentou. Nomeei a irmã do mesmo como sua interprete, através de sinais e também por ela entender muita coisa que ele falava e iniciei a oitiva.

Cada pergunta que eu fazia ele o mudo se levantava para explicar e virava as cadeiras, derrubava o telefone, deitava no chão e até em cima da minha mesa, para explicar como tinha sido colhido pelo carro, sua forma de se fazer entender era um verdadeiro horror.

Temeroso que até o final da sua oitiva o mesmo terminasse por destruir toda delegacia fiz que o mesmo se sentasse junto de minha cadeira e fiquei e com uma mão manuseando o inquérito e com a outra fiquei segurando o mesmo até o final do depoimento, para que ele não se mais se levantasse e realmente foi muito duro contê-lo até o final, quando sob risos de todos os presentes, finalmente exausto terminei aquele trabalho e pela primeira vez um depoimento, foi como se eu tivesse carregado um saco de cimento nas costas por muitos metros, pois além da preocupação em ditar para o escrivão tinha que usando a força segurar a irrequieta e escandalosa vítima. Para um noviço como eu, foi uma estréia exaustiva e surreal.

 

 

 


Pedro Marinho – Na sua recaptura o latrocida Sapeca de joelhos,
Mais ou menos no ano de 1985, como já acontecera outras vezes, o perigoso marginal oriundo do Amazonas, mais precisamente da capital Manaus, conhecido apenas por Sapeca, em razão da sua periculosidade e astucia, fugiu do 4º Distrito Policial depois de serrar as barras de ferro da cela.
Naquela ocasião, vários delegados e agentes policiais se dividiram em perseguição a Sapeca, pois em que pese ser ele um sujeito de pequena estatura, era destemido e capaz de livre cometer outros crimes e até mesmo matar para roubar, que era a sua especialidade.
Temerosos que o mesmo na ânsia de fugir fizesse novas vitimas, não faltaram esforços para a sua localização com equipes espalhadas por estradas diferentes, pois existia a informação que fugia a pé e que poderia se encontrar armado.
Certo dia com dois veículos Volkswagen, rumei com uma equipe de cerca de sete homens com destino a localidade de Abunã, pois Sapeca poderia tentar alcançar o Acre e seguíamos a pé no meio de muita poeira e os veículos vinham sempre atrás, cerca de mil metros, para evitar o barulho dos motores e assim espantar ele Sapeca caso estivesse ali por perto.
Depois de invadir propriedades e casas desertas e verificar se havia vestígios do citado fugitivo, via rádio mandávamos que o carro nos alcançasse e nós íamos mais adiante, quando novamente desembarcávamos e fazíamos o mesmo procedimento seguíamos a pé invadindo as propriedades abandonadas.
Depois de muitos quilômetros dessa cansativa jornada, subindo e descendo dos veículos, invadindo sem sucesso várias propriedades, eis que quando nos aproximávamos de um centro de umbanda, que existia num alto do lado esquerdo da pista sentido Abunã, avistamos parado defronte ao imóvel um individuo que parecia ser o Sapeca, quando então via rádio determinei que as viaturas lá atrás, desligassem os motores para não afugentar o individuo e neste instante dei ordem para que todos subíssemos sorrateiramente para confirmado ser o Sapeca o surpreender evitando assim qualquer reação por parte do mesmo.
Com as armas em punho, contornamos a modesta casa sem sermos vistos e fomos nos esgueirando pela lateral da mesma, até que eu surgi na frente da casa e ali vi Sapeca que tomava água num copo de alumínio, que havia solicitado a dona da casa e ele que já me conhecia do 4º D.P, [i] ao me ver, soltou o copo caiu de joelhos com as mãos na cabeça e gritou: “Dr. Pedro Marinho, não me mate e não deixe que ninguém faça nada comigo”. Evidente que diante da covarde reação do mesmo, ninguém iria fazer nenhum mal aquele marginal, que foi preso inclusive na presença de todos que se encontravam naquela casa.
De volta ao 4º DP a prisão de Sapeca foi comemorada por todos, principalmente pelo secretário de Segurança e pelo Diretor Geral que deu os parabéns para toda equipe responsável pela prisão do perigoso marginal e as outras equipes que não mediram esforços para localizar o foragido, que anos depois foi morto em Manaus num confronto com a Policia amazonense.
No dia seguinte todos os órgãos de imprensa destacaram com ênfase a prisão do bandido Sapeca, tendo o extinto Jornal a Tribuna, edição guardada hoje em meus arquivos, circulado com a interessante manchete ‘Latrocida Sapeca pede clemência ao delegado Marinho’.

Noberto Savala conta uma das suas muitas histórias na Policia Civil de Rondônia

Quando a zona leste começou a ser invadida, uma vez fomos fazer uma diligência a procura de um latrocida. Quando lá chegamos avistamos o dito cujo Carcará e como não poderia ser diferente ele começou s correr. Na época estávamos eu, Sérgio Barriga, José Maria e um motorista, cujo nome não recordo.
Naquele momento cada um correu para lados diferentes para assim fazermos o cerco. Naquela época as pessoas começavam construir casas e depois abandonavam sem concluir as mesmas e a ruas eram somente, na maioria, pequenos caminhos que os próprios moradores faziam e num desses cruzamentos tombei com o sujeito e ele vinha com uma faca e no choque da trombada eu que vinha com minha arma na mão e ele com a faca deixamos cair as armas.
O bandido não sabendo que minha arma tinha caído, saiu correndo e eu logo após recuperar minha arma sai correndo atrás do dito cujo, mas o perdi de vista, porém continuei o procurando e quando passava por um terreno já devidamente murado, avistei a figura saindo de um buraco lá no fundo do terreno há uns 45 metros de distância e gritei : ‘Parado é a polícia’ e mesmo assim ele correu e pulou um muro de uns dois metros de altura e mesmo porque esse individuo era também bastante alto e forte.
No momento em que ele pulou ai eu atirei, porém ele pulou o muro e eu continuei a procurá-lo até que em certo momento um garoto me falou: ‘Seu puliça , outro puliça pegou o bandido e o mesmo moleque me levou até onde estava o José Maria e lá verifiquei que o sujeito estava com um lençol amarrado no peito resultado do que o tiro que eu havia disparado, quando ele pulou o projétil o acertou bem do lado esquerdo e ele que era de cor negra já estava ficando branco.
Constatado o ferimento, o levamos para o Hospital de Base e lá chegando quem estava de plantão era o nosso saudoso colega médico-legista Dr. Rachid, quando então explicamos a situação e ele se prontificou a dar o atendimento de urgência.
Dalí, fomos para a Central de Polícia e o delegado de Plantão do dia era o delegado João Lacerda de cujo plantão eu fazia parte, pois naquela época cada delegado de Plantão tinha sua equipe de policiais.
Após colocamos o delegado a par da situação, permanecemos ali na porta de entrada da Central, momento em que um outro delegado apareceu por lá e falou: ‘Se fosse eu o plantonista tomava a arma desse policial e o atuava em flagrante delito’. No mesmo momento pulei lá fora e respondi: Minha arma está na cintura, venha tomá-la. Ele por acaso veio?
Logo em seguida Dr. Francisco Esmone que era Diretor Geral da Policia, soube de todo ocorrido e foi até a Central onde conversou com o delegado Lacerda, dizendo ao mesmo: ‘Faça o trabalho de moto que não prejudique o policial Norberto, porque bandido é bandido e policial é policial‘. Esse gesto dele Esmone, foi para mim muito marcante e até hoje nutro uma profunda admiração e respeito pelo mesmo. Enfim, o bandido se salvou, ficou bom e continuou sua vida de crimes e, acredito que deva estar preso até hoje ou foragido e, esse mesmo elemento depois do citado episódio, nunca mais correu de mim quando íamos procurá-lo em outras oportunidades.

Francisco Alves Cipriano e mais uma de suas histórias na Polícia Civil de Rondônia

Nas minhas histórias sempre falo sobre taxi pelo fato de eu ter trabalhado como taxista antes de entrar para polícia e mesmo não trabalhando mais como taxista, assim mesmo continuei usando o taxi e sempre que chegava no primeiro Distrito Policial estacionava o taxi do outro lado da rua e por isso a maioria das pessoas entendiam que eu estava esperando passageiro.
Um dia um colega taxista me perguntou se eu estava tendo problemas com a polícia, pois tinha visto por três dias seguidos o meu táxi parado em frente à delegacia, eu respondi que não e que estava trabalhando lá e ai ele ficou muito admirado e feliz por saber que eu estava bem profissionalmente, pois conseguira um emprego fixo.
Certo dia circulava pelas ruas de Porto Velho e ai peguei um passageiro, que poucos minutos depois de entrar no táxi, indagou se eu tinha outra profissão além de taxista, quando então eu respondi que também era funcionário público, ele logo perguntou em qual secretária eu trabalhava, tendo respondido ao mesmo que era na secretária de segurança pública, quando então ele logo perguntou se eu era policial e diante da minha confirmação ele para minha surpresa respondeu, que se estivesse no meu lugar não aceitaria exercer nenhuma das duas profissões, pois na visão dele passageiro nas duas categorias só trabalhavam pessoas de mau caráter, quando então lhe respondi que quem esta do lado de fora só enxerga o lado negativo e que na minha opinião a maioria das pessoas que atuavam nessas profissões eram pessoas que trabalham com dedicação e responsabilidade, e que no futuro eu pretendia parar de trabalhar como taxista e me dedicar apenas a carreira de policial até chegar o momento de me aposentar.
Realmente não podemos negar que em qualquer profissão existem pessoas que são desonestas, na classe dos taxistas por exemplo, Dr. Elias que era delegado de polícia, uma certa vez me disse que viajando de táxi da cidade para o interior do Estado e pagou um determinado valor de sua residência até a rodoviária, ao retornar para a cidade de Porto Velho já trazia consigo o mesmo valor que havia pago ao taxista na ida, ao desembarcar na rodoviária da capital, pegou um taxi até a sua residência, chegando lá perguntou quanto tinha dado o valor da corrida, tendo o taxista lhe cobrado o dobro do valor que o mesmo tinha pago na ida. Surpreso o Dr. Elias apenas deu uma risada e disse que daria naquele momento apenas o valor que tinha em mãos e que no dia seguinte o taxista fosse até o terceiro D.P, onde ele trabalhava como delegado, para pegar o restante do valor. Ora, o taxista que durante todo trajeto estava com uma cara nada amigável logo se mostrou alegre e sorrindo disse que o delegado não devia mais nada e que estava tudo certo.
Já na classe dos policiais, trabalhando no quarto Distrito Policial. eu estava aguardando um colega policial que iria trabalhar naquele plantão comigo, o colega entrou as pressas no comissariado e um cidadão entrou logo atrás dele me perguntando se o colega também era policial, quando então eu respondi que sim, e a pessoa informou que era taxista e que o colega que entrará correndo no DP não queria lhe pagar a corrida. Surpreso eu pedi que ele sentasse e fui atrás do policial, pedindo que ele acertasse a corrida com o taxista, mas ele na maior cara de pau, disse que não tinha dinheiro. Dito isso, para resolver logo aquela situação, eu decidi me responsabilizar pelo pagamento da referida corrida, ficando claro naquele momento para mim, que no nosso meio existiam os bons e maus policiais.
O passageiro que citei no início da história, até tinha razão de me oferecer aquele conselho, mas da mesma forma que o Dr. Pedro Marinho não aceitou o conselho do amigo Cabeça Branca – Mas essa se trata de uma outra história - eu também não aceitei o conselho daquele passageiro.

 





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