Antigamente era assim III



 

Marcos Pires

Apesar de não ter a menor ideia de como as coisas funcionam hoje em dia com relação às escolas e aos alunos, tenho certeza de que as angustias continuam as mesmas.

Antigamente angustia era o dia de apresentar o boletim aos pais. Certa vez Zé Moreira tentou uma saída nova. Quando a mãe perguntou pelo boletim, já sabendo que o filho era o campeão de péssimas notas, o safado disse que emprestara o boletim a um amigo para que ele fizesse um susto aos pais.

Esse mesmo Zé Moreira desenvolveu uma tática incrível. Nos dias de entrega do boletim, ao contrário de todos nós que ficávamos fazendo “cera” com medo de chegar em casa, ele disparava com o boletim na mão e já entrava anunciando as péssimas notas. Nós pensávamos que era coragem. Qual o que! Um dia ele confessou: “-É que pai chega tarde do serviço, aí eu mostro o boletim a mãe e ela me dá uma surra. Quando pai chega eu já estou apanhado. Daí ele não pode me bater de novo, né?”. Como ninguém entendeu coisa alguma dessa estupida estratégia, ele confessou:”-Mãe só fica em casa, cozinha, arruma, engoma… essas coisas. Já pai é cabeceiro no mercado central. Vai ver a diferença das lapadas que cada um deles dá…”.

No meu tempo professora era professora. Hoje em dia é tia. Não sei em qual momento elas passaram a pertencer às famílias dos alunos. Mesmo sem esse parentesco atual, lembro com muito carinho de todas elas, desde dona Tânia. Uma dessas professoras tinha um amor enorme pela turma e às vésperas do final do ano ela caiu em contemplação, dirigindo-se à turma e tentando adivinhar nossos futuros: “-João com certeza um dia será engenheiro. Já Noemi vai ser uma ótima médica”. E desembestou por aí, até mesmo profetizando um bom futuro para Zé Moreira. Quando ela terminou, o estrupício do Zé Moreira quis retribuir a visão de futuro da mestra: “-Eita, nesse tempo a senhora já vai estar morta de velha, né professora?”. Pior é que conseguiu dizer com muita ternura.

Mas voltemos à angustia. A professora dava 10 dias de prazo para fazermos os tais trabalhos escolares. O que significava que os nove primeiros dias eram de pura vagabundagem e o ultimo dia de pânico, né?

Porém a pior das angustias era quando Ovídio, o parrudo da sala, dizia: “-Vou te pegar na saída!”.





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