As pessoas têm que ser empurradas dando um salto para além de Lula e de Bolsonaro.



 Francis Lopes de Mendonça

Estou um pouco afastado das redes sociais. Bem, é o seguinte. Que tristeza ver um país à mercê de uma polarização acirrada por sanguessugas e oportunistas que apostam no divisionismo e no confronto dessa classe contra aquela classe para fortalecer e perpetuar esquemas de poder. Mas sabemos que nenhum lado presta. Pois não dá para condenar o comunismo falido, o socialismo de gabinete e gravata e ao mesmo tempo fechar os olhos para o fascismo modinha e vice-versa.

Não estou em nenhum dos polos. Não dá. Não faço o jogo de nenhum dos lados. Tô fora! Só lastimo muito pelas pessoas de boa fé envolvidas que estão tão cegas pela paixão política que se recusam a ver os motivos de cada lado com racionalidade.

Lastimo essa cegueira que impede, a uns e outros, ter ideia de vida inteligente fora das suas respectivas bolhas doutrinárias. Mesmo assim tento ler todos com a mesma atenção que dou a quem tem posições mais próximas às minhas. Só que no meio duma maioria de comentários de bom senso, que discordam argumentando ou que concordam somando, estão muitos que compram qualquer burrice, qualquer preconceito, qualquer ideia equivocada, como verdade.

Aqueles de ambos os lados da polarização que radicalizam, ofendem, atacam quem escreve e não o que foi escrito. Boa parte limítrofes que nunca se preocuparam com política, mas são cheios de opiniões, se acham proprietários da verdade, destilando comentários que são típicos exemplos de inúmeras falácias, tornando inviáveis as discussões nas redes sociais, comentários que partem de premissas equivocadas, o que inviabiliza o debate. Porque o bom debate vai depender de não nos deixarmos cair em análises fáceis, teorias da conspiração, análises que já favorecem nosso pensamento logo de cara, empurrando goela abaixo a bobagem de que tudo que é esquerda é petralha, é corrupto, é ladrão ou de que tudo que é direita é elitista e deseja o mal para o povo.

Sanguessugas e oportunistas apostam num país em crise, porque a crise coloca o cidadão numa posição onde esses espertos têm mais poder. Quando a pessoa está em crise, ela aposta todas as fichas em quem vive de fazer discurso. Compra qualquer fala remotamente parecida com o que sonha. E se torna hostil à qualquer um que não pense como ela. Quanto a mim, modéstia à parte, procuro, tanto quanto possível, manter-me informado e coerente com o que suponho ser a realidade dos fatos. Digo isso porque, com frequência, vendo essa ou aquela postagem que aparece na minha linha do tempo sobre a libertação de Lula, surpreendo-me com a capacidade que as pessoas têm de amoldar a realidade ao que creem – ou lhes convêm.

Acho que as pessoas têm que ser empurradas para a reflexão, a discussão ética, a crítica social, inclusive dando um salto para além de Lula e de Bolsonaro. Foi pensando assim que na eleição passada fui votar para presidente em alguém que representasse a esperança de ter uma terceira via e não permitisse dois extremismos irem para o segundo turno; alguém que brigasse com chance de ganhar que não fosse essas duas alternativas anti-democráticas, pois eu dissera e ainda digo que nem Lula e nem Bolsonaro são exemplos de democratas, embora eu já soubesse que não havia e ainda não há nomes confiáveis que possam fazer a ponte da paz de que o país precisa depois de tanto confronto. Só que Lula, raposa velha que ele só, teve habilidade o suficiente para impor alguém que não poderia ganhar.

Foi então que, com Lula preso, Bolsonaro tornou-se a melhor opção. Pois a estratégia de Lula era evidente: fortalecer ao máximo Bolsonaro, impedindo a consolidação de qualquer terceira alternativa para forçar esta polarização em que estamos atolados até a medula e na qual pudesse aparecer depois como os salvadores da pátria ante o bolsonarismo. Foi um ato sórdido de hegemonismo. Tanto que Lula mandou omitir da campanha, sistematicamente, quaisquer críticas a Bolsonaro, porque era com ele que o líder da estrela vermelha solitária queria disputar o segundo turno de dentro da cadeia.

A ordem era assustar e bravatear para agora, solto, colher os frutos. Agora estamos vendo a merda de país que virou o Brasil dividido, de um lado por radicais que amam amar Lula, e do outro lado, por radicais que amam odiar Lula acima de tudo. Estes amam tanto que passam pano para Bolsonaro em rigorosamente tudo, inclusive no acordo feito com Toffoli para suspender 200 processos e paralisar a Lava-Jato, só para livrar a cara de Flávio, o rebento corrupto de Bolsonaro.

Aqueles amam tanto Lula que aceitam soltar seja lá quem for, porque o lulalivrismo é mais importante e não importa que esse cara tenha montado o maior esquema de corrupção de todos os tempos e aberto a porta para a devastação econômica de Dilma. Nada, nada têm importância porque afinal Bolsonaro é o anti-Lula e Lula é o anti-Bolsonaro então tudo é perdoável e está tudo perdoado daqui até o fim do mundo. É tudo uma mistura de síndrome de Estocolmo com vocação pra mulher de malandro com pitadas de hipnose coletiva! Se não acontecer um milagre qualquer que faça com que os radicais de ambos os lados da paixão política despertem dessa hipnose, o próximo presidente novamente será um maldito populista. Mas espero que haja tempo das pessoas, despojadas de anos de subserviência à direita ou à esquerda, acordarem dessa hipnose e ter um senso crítico sobre a história, para avançar numa nova direção e encontrar um caminho que não seja mais este de estar copiando em péssimo carbono tudo o que já foi experimentado e não deu certo neste lindo planetinha solto no infinito a que chamamos de Terra.





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