Esse episódio da advogada com o ministro Marcos Aurélio, lembrou-me a "seção pastelão" na qual fui o protagonista.



 

Albergio Gomes de Medeiros

Era patrono de uma causa cuja apelação estava para ser julgada por uma das Turmas do TJ da Paraíba. Exatamente no dia do julgamento estava eu com febre de 39 graus, um mal-estar considerável, corpo mole, sensação horrível, mas o cliente queria que eu fizesse a sustentação naquele dia, apesar de minhas perorações e objeções.

Compareci para pedir adiamento, e tão confiante no deferimento, que fui sem gravata. Para minha surpresa, tão logo começou a sessão, meu pedido foi indeferido.
Chegado o momento, foi minha primeira sustentação oral. Lá fui eu ao parlatório - na época, bem próximo dos Desembargadores, separado apenas por uma peça em madeira imitando um muro baixo e vazado -, com um tremendo mal-estar, febre, e, o extremo nervosismo de falar perante experientes julgadores, e dos colegas então presentes - para "meu azar", lotado estava o auditório por conta de um rumoroso caso que seria julgado.

Assim que peguei o processo o danado caiu de minhas trêmulas mãos e praticamente desfez-se quando bateu no chão. Foram folhas espalhadas aos montes, tantas que um dos oficiais de Justiça precisou acudir-me e sair recolhendo as folhas. Nem preciso dizer que todos gargalharam na hora, menos eu, claro.

Bem, para não alongar essa postagem, nem preciso dizer que perdi o Norte, e pouco usei o tempo. Ao final desse "crudelíssimo sofrimento", sentei-me; todavia, para pôr a "pá de terra e cal", um Desembargador, hoje aposentado, muito moralista e exacerbadamente religioso, que fora Relator, tão logo teve a palavra, criticou-me porque eu não estava usando gravata, como se eu não tivesse suscitado nada, nem preliminares nem mérito aventado (apesar do hilário momento que protagonizei). Os demais da Turma seguiram na mesma linha, com menos contundência, e só o Procurador de Justiça (falecido, Dr. Eurico Rangel, de quem depois fui assessor até aposentar-se) presente, socorreu-me e tornou público meu desconforto em razão da febre etc.

A única coisa que chamou a atenção dos eminentes julgadores na época foi a ausência de gravata.

Alguns dias após a comentar sobre esse evento com Marcos Antonio Ferreira Dias, que, com sua verve e excelente bom-humor me disse que teria reagido da seguinte forma: Arranjaria uma gravata de alguém emprestada, a poria no parlatória para em seguida dar o comando: - Fale gravata, fale.

Por sinal, Marcos Antonio Ferreira Dias é um dos melhores oradores que já tive o prazer de ouvir. Ele tem o poder de encantar, de fazer as pessoas emocionarem-se, chorarem etc. É de um talento ímpar.





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