Um pouco da triste história do povo brasileiro... Fôlego aí... Francis Lopes de Mendonça



 Os generais, que controlavam o país na base do porrete e exploravam a sociedade auferindo “vantagens competitivas” para grupos empresariais “amigos” da ditadura militar, foram substituídos por um "mecanismo" de dominação mais suave em que as “eleições democráticas” legitimam a exploração econômica da sociedade por grandes fornecedores do Estado associadas a quadrilhas de salteadores mascaradas de partidos.

Tudo começa quando as esquerdas estavam entrincheiradas no MDB. Os parcos recursos que elas conseguiam eram os 25% desviados de contratos obtidos pelo partido nos limiares da ditadura. Só que de grão em grão foram “engordando” o caixa. Ao chegarem ao poder já não mais fazia sentido desviar os 25% para o partido, agora não mais disfarçados de MDB, mas com a grana nas mãos, foi mais fácil botar a bolada no bolso. O resultado todo mundo está vendo agora. Os larápios da nação investigados e condenados, que foram heróis no passado, no presente viraram traidores da consciência do povo brasileiro que se vê iludido, ludibriado e enganado.

É preciso entender, no entanto, que esse mecanismo de dominação e de exploração ampla e recorrente, empresarial e juridicamente estruturada, sempre teve a função precípua de pilhar os recursos públicos, que nada mais são do que uma parcela do árduo trabalho do eleitor e contribuinte, no caso, o explorado, funcionando de várias formas e se disseminando em todas as esferas do poder público “democraticamente constituído” no país, em todos os níveis: no governo federal, nos 26 estados, nas 5.570 cidades e em suas respectivas Assembléias Legislativas.

Nessa trapaça, que se acentuou ainda mais com a Constituinte, e nunca mais cessou, o representado ou o eleitor e contribuinte mais pobre é excluído de privilégios e vantagens de que usufrui a representação dita democrática, numa afronta a essência da representatividade que nada mais é que a igualdade entre o representado e o seu representante.

Naturalmente que um sistema de exploração com tal dimensão só podia existir mediante a encampação de legislação especializada. Não há dúvida de que os generais sabiam que magistrados e políticos usavam meios ilícitos para se manterem no poder: da compra simples de votos ao enriquecimento fraudulento. Tanto que o próprio SNI, no final dos anos 70, arquivou os processos dos corruptos. O Exército usou os inquéritos como barganha de apoio contra os chamados “subversivos comunistas”.

Foi então que todos os partidos que atuaram de 64 a 88, inclusive ARENA e MDB, aprenderam e passaram a ensinar e aprimorar essas práticas. E os novos partidos surgentes ampliaram ainda mais o processo de corrupção para se transformarem em verdadeiras organizações de saqueadores, a exemplo do PSDB, que nunca passou de um vômito ideológico, e do PMDB, que tirou o “p” de propina para continuar sendo o que sempre foi: uma máfia cuja única ideologia é o crime.

O que temos, hoje, é a sofisticação do sistema de meter a mão no dinheiro da nação por essas quadrilhas cada vez mais especializadas na montagem de empresas fajutas, na emissão de notas frias, na distribuição de recursos desviados, na organização de entregas de malas com dinheiro vivo, no pagamento de despesas para aliados políticos e suas prostitutas, na viabilização de aportes de caixa dois em campanha eleitoral, nas remessas para empresas “offshore” e por aí vai.

É bem verdade que a Lava Jato conseguiu metralhar quem estava nesses esquemas de poder ou quem está pendurado neles até agora, sem metralhar todo o sistema, mas a ação da banda boa da Justiça por si só não resolveu e nem vai resolver o problema da corrupção. Pois a desonestidade e a ladroagem continuam campeando, principalmente através da indústria do propinoduto nacional.

Além do mais, "reformas" são promovidas sem um mínimo gesto para diminuir despesas e privilégios, para reduzir as verbas de representação ou contenção de gastos supérfluos e as vantagens abusivas e indecentes que são fabricadas dentro da legalidade e transformadas em "direitos adquiridos”, mesmo a despeito do abismo fiscal em que o país se encontra, causado por uma catástrofe sócio-econômica associada a uma corrupção generalizada no Estado brasileiro, em todos os níveis, e protagonizada por políticos de todos os partidos e altos funcionários, com a conivência de um Judiciário inoperante, politizado e comprometido.

Daí, eu pergunto: que autoridade moral tem um Congresso Nacional, composto por castas viciadas em mamatas, para propor reforma da Previdência para professores, policiais e contribuintes mais pobres que não têm aposentadoria em condições especiais, não se valem de foros especiais para se safar e nem votam os seus próprios salários? Por que não começaram a reforma votando uma lei para extinguir suas mordomias imorais e os mimos da magistratura, que é outra casta de privilegiados com altos salários e benesses do Estado corrupto? Por que preferem cortar na carne dos pobres assalariados, quando se sabe que um terço do dinheiro da Previdência é gasto com altos funcionários federais da elite do país?

Não é à toa que só permanece crescendo o desalento, no seio da maioria da população de insatisfeitos, já que se percebe cada vez mais que a vida da maioria só vai piorando à medida em que as eleições se sucedem, com o acúmulo e a exaustão de anos e mais anos de roubalheiras, safadezas, traição, decepção e vergonha de viver explorado e tripudiado. A representação nada democrática é só suruba com o dinheiro dos impostos, que é fruto de trabalho, de horas e dias e meses de esforço, de chateação, de repetição, de calor e de frio, de dor e suor. De tempo de vida! O resultado é que cidadãos e contribuintes mais pobres não são iguais perante a lei na hora de pagar a conta.

Aqueles que mandam no país passam a vida criando leis, regras e mandamentos que anulam cada vez mais o princípio universal de que “todos são iguais perante a lei”. No Brasil não: todos são oficialmente desiguais. Isso é resultado da prática de criar tais “direitos adquiridos” para todos que nunca foram para todos - ao contrário, são para as elites encasteladas nos três poderes e não são direitos adquiridos, e sim vantagens imagináveis e inimagináveis. Não existe nenhuma democracia no mundo que seja assim.





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