Nelson Coelho - Personagem ou testemunha da história - Ramalho Leite



RAMALHO LEITE

Em homenagem ao jornalista e historiador Nelson Coelho da Silva, que recentemente nos deixou, republico texto que escrevi sobre o lançamento do seu último livro: “Testemunha da História”.

Considerar Nelson Coelho, apenas, como testemunha da história, é muito pouco. As histórias que conta no seu mais recente trabalho o envolvem totalmente. É mais personagem do que testemunha. Na cena dos acontecimentos políticos da Paraíba nos últimos cinquenta anos, como catador de noticia ou com “gato de palácio”, Nelson viu quase tudo. O que não viu, lhe contaram, e se não contaram, imaginou, pois o que não lhe falta é a capacidade de perquirir e investigar. De tudo, acumulou um acervo de fatos que ganham em seu livro “Testemunha da História”, o selo da perpetuidade.

Vinculado a um partido político, não procura demonstrar isenção na sua narrativa. Pelo contrário, destaca essa condição de militante e, por vezes, revela frustrações e decepções com os companheiros de luta aos quais serviu e não foi correspondido como julgava ser merecedor. Penitencia-se e se confessa arrependido de alguns momentos em que se deixou vencer pela paixão e defendeu com fúria seus amigos injuriados. Colheu desilusão e vai perpetuar inimizades.

A leitura é interessante e nos faz voltar a um passado recente. Rememora fatos que só mereceriam o esquecimento da história, como o vergonhoso desconvite que o Cabo Branco fez a JK para que participasse do seu carnaval. Os milicos vetaram a presença do ex-presidente cassado, apesar do esforço de Nelson para que o fato fosse contornado pelo governador Ernani Satyro. Um fato para mim inédito: um segundo atentado à vida de Aloisio Afonso Campos, acontecido em Brasília e que fez vítima de um balaço a sua secretária. Do hospital, Aloiso se socorre de Raymundo Asfóra para as providências legais e abafamento da mídia. Na ocasião, quem estava com Asfora em um restaurante de Brasilia? Justamente Nelson, que ajudou a acudir a moça.

O testemunho de Nelson Coelho envereda pela sua vida familiar e narra, sem meias palavras as dificuldades que enfrentou ao virar oposição. Não esconde, por igual, sua decepção com os que lhe voltaram as costas naquele momento de sofrimento, negando-lhe uma oportunidade de trabalho. Renova sua fidelidade a José Maranhão mesmo diante da sua negativa de lhe favorecer com um exilio voluntario e remunerado junto a um governo amigo de estado vizinho. No governo a que serviu, se o chefe lhe faltava, os culpados eram Giovanni Meireles e Solon Benevides, nunca o chefe maior. Revela esse comportamento, um acelerado sentimento de gratidão e de respeito, coisa incomum nos dias de hoje.

Quando aportei no Palácio da Redenção como repórter de Sala de Imprensa e depois oficial de gabinete do governador Pedro Gondim, Nelson Coelho já estava lá. Ele sai e ele ficou. E como foi difícil tira-lo de lá… ( do meu livro A Botija de Camucá)




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