De ônibus no Rio de Janeiro - Marcos Pires



  Fim do ano passado estávamos no centro do Rio de Janeiro e me deu uma vontade danada de relembrar meus tempos de passageiro de ônibus. “-Pois é, cada doido com sua mania”, me disse Mãe Leca, já com raiva porque esse tipo de vontade não dava em mim para relembrar nossa viagem a Paris. Eu quis responder que a vontade depende do bolso, mas deixei pra lá.

Demos sorte; conseguimos sentar nos dois últimos bancos disponíveis. Bem a tempo, porque logo depois uma multidão vinda da estação Central do Brasil superlotou o coletivo. Eu sabia que precisava anotar o que ia acontecer, dada a diversidade da “fauna” ali presente. Extraio agora umas anotações do meu inseparável caderninho. Só preciso que o atento leitor imagine um ônibus totalmente lotado, com mais gente em pé do que sentada, sem ar condicionado, com um motorista meio maluco num clima de quase 40 graus.

“- Ei, seu motorista, o senhor tá levando gente, né gado não”.

“- Deixa a gestante sentar, por favor. Povinho mais sem educação. Aí, não, madame, aí sou eu”.

“- Ei seu motorista, pode correr que a galera aqui não tem medo de morrer”.

“- Corra não, pelamordeDeus, que minha mãe não tem dinheiro pro caixão”.

Pá, pá, pá, era o cobrador batendo na caixa, tentando ser ouvido pelo motorista no meio daquele caos.

“- Ei, seu motorista, tá correndo pra ver se pega o urso em casa, é? ”.

“- Seu motorista, queima a parada, não para não, aqui só cabe se for no colo”.

“- Licença, desculpa, licença, desculpa...”.

Pá, pá, pá, o cobrador continuava a bater na caixa gritando sei lá o quê. As reclamações prosseguiam:

“- Eita, passou meu ponto!”.

“- É um safado, tá fingindo que está dormindo pra não dar o lugar pra veia”. As frases que eu anotei dariam duas colunas, mas não posso esquecer de registrar o filosofo que estava sentado ao meu lado no corredor (Mãe Leca, metida a chique, só queria andar na janela do ônibus): “- Meu amigo, quem diz que a beleza é passageira nunca andou nessa linha da Central do Brasil”. Por educação achei graça nessa idiotice. Pra que? Lá veio o filosofo com outra pérola: “- Vou te dizer uma coisa, viu? Namorar é muito bom, mas não existe sensação melhor do que pegar o ônibus de manhã cedo, quase vazio”.

Aquele filosofo deve ter uma vida sexual muito medíocre, hem?




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