MEMÓRIA PESSOENSE: Vinho Celeste - Sérgio Botêlho



Houve um tempo em que a Reitoria da UFPB funcionava naquele prédio onde hoje existe uma unidade da Previdência Social, na Lagoa do Parque Solon de Lucena, ali permanecendo desde o final da década de 60 e boa parte da década de 70.
Era um prédio moderno e de equipamentos avançados, e que sediava eventos culturais importantes, em seu auditório, cuja lateral ficava voltada para a Princesa Isabel, com vista total para a rua através de uma parede de vidro.

(Nomeado após concurso realizado pelo antigo Dasp, passei a trabalhar na instituição, em 1970, no reitorado do médico Guilhardo Martins, secretariado por Wilma Bezerril, e que tinha como seu chefe de gabinete o então professor de Direito, Tarcísio Burity).
Os eventos culturais de que falo, em sua maioria, eram ligados à música clássica, mas, também, a seminários em geral, recepção a autoridades educacionais, palestras e outros assemelhados. Tanto a frequência de eventos quanto a de público eram intensas.

Faço o preâmbulo para situar o leitor no tempo e no espaço, e, evidentemente, em minha vivência pessoal. E, dito isso, avanço no que me proponho a falar, hoje: Não me lembro de nenhum desses eventos em que o coquetel não fosse à base de vinho Celeste.

O vinho Celeste era fabricado em João Pessoa, pela Tito Silva & Cia, fábrica localizada na rua da Areia, desde os finais do século XIX, única na produção de vinho de caju, no Nordeste, com aceitação em países da Europa e nos Estados Unidos.

Não sei se o mesmo acontecia em outros locais de eventos culturais em João Pessoa ou outras cidades da Paraíba, mas, o esforço da UFPB em preservar a indústria do vinho de caju pessoense era evidente.

O sabor peculiar do vinho de caju, servido gelado, levemente adocicado, bastante suave no gosto, permanece na memória assim como permanecem em nós todas as lembranças de um certo tempo das nossas vidas ligadas aos sabores e aos aromas.
Valho-me, então, de uma pesquisa na Fundação Joaquim Nabuco, sediada em Recife, que guarda farto acervo da Tito Silva, como rótulos comerciais, materiais gráficos pertencentes à empresa, nos formatos de propagandas e materiais de expediente, acervo este doado por uma das herdeiras, Maria Olga Silva, após o fechamento definitivo da fábrica, em 1984.

Segundo documento da Fundação Joaquim Nabuco, “fundada pelo jornalista Tito Henrique da Silva, em 1892, na cidade de João Pessoa, Paraíba, a Fábrica de Vinhos de Caju Tito Silva, era a mais antiga e a maior produtora nacional do vinho de caju, bebida bastante popular no Nordeste por um longo tempo”.

Prossegue o documento: “A fábrica, ao longo da sua história, ganhou diversos prêmios de reconhecimento pela qualidade dos seus produtos, dentre eles, um em Bruxelas, em 1911, e outro na Exposição do Centenário do Brasil em 1922, no Rio de Janeiro”.
A história da Tito Silva, segundo a Fundação Joaquim Nabuco, localiza o início da decadência do empreendimento exatamente a partir de 1964, com o aumento absurdo da carga tributária, no interior de um processo que fechou diversas indústrias pequenas pelo Brasil afora, associado, no caso da Tito Silva, ainda, ao desaparecimento impressionante dos cajueiros, na região.

Mas, durante boa parte da história, por quase cem anos, pontificou em João Pessoa a fábrica Tito Silva & Cia, que produzia vinho de uva, de jaboticaba, vinagre, álcool, aguardente e genebra, afora néctares de frutas, como jenipapo e, naturalmente, do próprio caju.

Mas, sobretudo, fabricava o vinho Celeste, com fama ultrapassando as fronteiras do país. Tudo, diretamente de João Pessoa, do mesmo local onde, hoje, restaurado, o prédio da fábrica, serve, pelo menos, a um objetivo nobre: a Oficina Escola de João Pessoa, projeto social que capacita jovens adultos para atuar na conservação e restauração do Centro Histórico de João Pessoa.

(No que pese estar pegado com a edição do livro, vai mais essa memória de João Pessoa: o vinho Celeste, da Tito Silva, de saudosa memória).




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