MEMÓRIA PESSOENSE: Grupo Piollin - Sérgio Botêlho



É bom a gente falar de memória, para se referir à criação de uma nova realidade, em determinada época, quando o que foi criado continua rendendo e fazendo sucesso, justificando o ato originário.

As atividades da chamada cultura sensível sempre se constituíram numa marca a distinguir positivamente João Pessoa, mesmo em épocas onde praticamente nada ajudava tal processo de aderência cultural dos artistas pessoenses.

O cinema essencialmente paraibano, com destaque para a produção pessoense, que hoje está meio longe do que já foi um dia, floresceu sob condições extremamente adversas, tanto do ponto de vista financeiro quanto político, nas décadas de 50 e 60.
Por outro lado, o teatro sempre foi outra das marcas importantes da disposição pessoense – mas, louve-se, ainda, de Campina Grande, Cajazeiras, do estado inteiro, afinal -, mantido sob as mais indispostas condições.

Hoje quero lembrar uma iniciativa do final da década de 70, em anos de poucas luzes políticas e culturais, na qual jovens artistas paraibanos, capitaneados por Luis Carlos Vasconcelos, Buda Lira, Nanego Lira, Soia Lira, Servílio Gomes, Escurinho e Everaldo Pontes, entre outros, criaram o Piollin, homenageando o palhaço Abelardo Pinto, um dos mais importantes nomes do circo brasileiro.

Essa turma, desafiando todas as dificuldades, e em nome do amor à arte do teatro, montou uma empanada de circo, no interior do complexo da Igreja de São Francisco, ocupando, ainda, algumas salas vazias, por perto. Pronto, estava criado o Grupo Piollin.

No local, eles davam aulas de teatro, dança e música, atraindo crianças e jovens para uma saudável imersão cultural e artística, ao mesmo tempo em que formavam consciências libertárias e igualitárias.

O sucesso do grupo veio aos poucos, vencendo as dificuldades, interagindo com instituições e com comunidades dispostas a aceitar o trabalho pioneiro que estavam fazendo, com forte repercussão no meio universitário, mas, também, popular, especialmente no Roger.

Montaram e produziram peças por todo o tempo, até os dias de hoje, tendo como destaques, conforme pesquisa que fiz, para não esquecer de nada, no portal Paraíba Criativa e na Enciclopédia Latino-americana, as seguintes produções teatrais: A Viagem de um Barquinho (1978); Os Pirralhos (1978); Silêncio Total: Vem Chegando um Palhaço (1978); Vau da Sarapalha (1992); A Gaivota: Alguns Rascunhos (2006); Retábulo (2010); A Pá (2013).

Mas, foi com Vau de Sarapalha, uma obra que reescreve para a cena teatral o fabuloso e brasileiríssimo universo de Guimarães Rosas, em Sagarana, que o grupo consolidou o prestígio nacional e internacional do trabalho realizado a partir de João Pessoa.
Vau de Sarapalha foi considerada pela exigente crítica nacional de teatro, Barbara Heliodora (falecida em 2015) como o maior espetáculo do ano, além de ser detentora, a peça, do Prêmio Shell, na categoria especial, em 1993, tendo sido apresentada mais de mil vezes em várias cidades do Brasil e do mundo, a encher, a todo o tempo, qualquer teatro em São Paulo.

Nesse compasso, vários dos atores do Piollin já participaram e participam de produções nacionais nos campos da televisão, do teatro e do cinema, com premiações nacionais em diversas oportunidades.

Assim, fica inscrita nas memórias pessoenses a criação, um dia, em 1977, do grupo Piollin, merecedor de todas as homenagens que se possa prestar a eles, não apenas pela extraordinária contribuição cultural, mas, também, política, consagrando João Pessoa como território privilegiado da arte nacional




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