MEMÓRIA PESSOENSE: As casas de Irene e Hosana - Sérgio Botêlho



 

O salão era margeado por cadeiras onde moças permaneciam sentadas, bem vestidas, bem maquiadas, a maioria, risonha, outras, mais quietas como a pensar distante, mas, todas, esperando clientes; alguns, já conhecidos, outros, que nem sequer sabiam quem eram.

A porta, geralmente fechada por dentro, só era aberta depois de uma observação, por meio de uma portinhola, para ver de quem mais ou menos se tratava. Após o esquadinhamento, da cabeça aos pés, então a porta podia ser aberta, ou não.

No salão, a indefectível luz vermelha. Na sala contígua, as mesas com os clientes, com ares de supremacia masculina inquestionável e, via de regra, risos largos nos rostos. Aqui e ali, a vista cubava as moças sentadas no salão.

O ambiente era brega, como se diz, hoje, mas, um brega de certo luxo. Os garçons, profissionais, em sua maioria, atendiam com presteza, e, ao longo do tempo, tornavam-se amigos das moças. Normalmente, não passavam desse ponto. Mas, aqui e acolá, até podia pintar um casamento.

Ao fundo, uma vitrola de ficha atendia às preferências dos clientes manifestadas justamente por meio de uma ficha antecipadamente adquirida junto aos garçons ou no próprio balcão do estabelecimento.

De vez em quando, um cliente ia tirar uma daquelas moças para dançar, no maior respeito. A partir dali, seria possível evoluir para um “namoro” que geralmente terminava num dos quartos das casas. Não havia ainda os hoje tão famosos motéis.
A descrição que faço tanto serve para entender o que era a Casa de Irene ou a Casa de Hosana, ou melhor, o Cabaré de Irene ou o Cabaré de Hosana, na João Pessoa das décadas de 50, 60 e início de 70 (nesta última quadra, já em decadência).

Sabe aquelas vitrolas de ficha de que falei ainda há pouco? Pois bem. Havia época em que a música era executada por orquestras, ao vivo e a cores, como se diz, em bailes onde só entrava “quem tinha negócio”, ou seja, os mais abastados.

Empresários, altos representantes comerciais, fazendeiros, médicos, advogados, engenheiros, e raros “filhinhos de papai” reconhecidos por Hosana e Irene formavam a clientela mais prestigiada nesses dias de gala dos cabarés.

Nos dias comuns, era possível, então, ver estudantes universitários e, mesmo, secundaristas, em busca do amor das jovens comandadas por Irene e Hosana. Muitos amargavam contínuos insucessos já que não eram, apesar da juventude, objeto de desejo das moças: “turma de liso e de xexeiro”.

Outros cabarés existiam em João Pessoa, na época a que me reporto. Eles se distribuíam entre a rua da Areia, a Maciel Pinheiro, e, mais populares, ainda, na rua Silva Jardim e em Tambaú, ali por trás do Elite Bar.

Contudo, os mais famosos, porque mais organizados e mais requintados, eram os cabarés de Hosana e de Irene. O primeiro, na Maciel Pinheiro, na parte mais alta da rua, o segundo, na rua da Areia, já mais perto de a via se encontrar com a Maciel.
Era desse jeito que funcionava parte do lazer durante uma época em João Pessoa, e creio, pelo Brasil afora. Uma época de puritanismo militante e dos exames de virgindade a comprovar “honras” femininas, onde alguns dos mais puritanos dos homens podiam ser facilmente encontrados nos cabarés de Hosana e de Irene. Cabarés que fizeram história na vida noturna de João Pessoa.




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