MEMÓRIA PESSOENSE: O prédio de A União na Praça João Pessoa - Sérgio Botêlho




Até início da década de 1970 o conjunto arquitetônico que formava o espaço urbano centralizado pela Praça João Pessoa era bem mais harmônico do que o existente na atualidade, harmonia perdida em função do desafinamento provocado pelo prédio onde ainda hoje funciona a Assembleia Legislativa.

No lugar da AL o que existia era o prédio da Imprensa Oficial, órgão de comunicação oficial do Estado, responsável pela edição diária do jornal A União, do Diário Oficial do Estado e de outras publicações eventualmente do interesse do governo.
(Em prédio no Distrito Industrial, o jornal União, fundado em 02 de fevereiro de 1893 - portanto, há 25 anos -, continua a ser editado diariamente, sendo o único órgão de imprensa, diário, pertencente ao Estado, no país. A Editora A União também segue publicando o DOE).

Inaugurado em 1926, o prédio da Imprensa Oficial passou a fazer companhia aos da Escola Normal (hoje, Tribunal de Justiça da Paraíba), do Palácio do Governo, da Igreja Nossa Senhora da Conceição (demolida em 1929), e da Faculdade de Direito.
É verdade que entre esses prédios havia séculos de diferenças, já que o conjunto formado pelo Palácio do Governo, da Igreja Nossa Senhora da Conceição e da Faculdade de Direito, obras dos jesuítas, datavam, ainda, dos séculos XVI e XVII.
Contudo, os estilos dos anos 1920 impressos nos prédios da Escola Normal e de A União terminavam não eram, assim, tão radicalmente desconformes com os de seus vizinhos mais antigos na praça, do que aconteceu com a chegada do prédio da AL.
No centro desse conjunto, estava a então Praça Comendador Felizardo Leite, antes, chamada, pela ordem cronológica de Pátio do Colégio, Largo do Paço, Jardim Público, e, depois, a partir de 1930, batizada de Praça João Pessoa, até os dias de hoje.

Com a plausível justificativa de dar uma sede definitiva ao Poder Legislativo, aproveitando, ainda, para constituir, em João Pessoa, uma praça com os três poderes, o então governador Ernani Sátyro resolveu derrubar o histórico prédio da Imprensa Oficial.

De nada adiantaram, e me lembro bem, as resistências manifestadas pela gente da intelectualidade contrária àquela intervenção urbana – resistências, naturalmente, tímidas, tendo em vista o regime autoritário vigente -, pois o prédio foi colocado no chão.

Em seu lugar foi erguido o atual prédio da Assembleia Legislativa da Paraíba, visivelmente destoante do conjunto arquitetônico geral, confirmando os temores manifestados pelos que fizeram resistência à derrubada do prédio antigo de A União.
Curioso é que ao longo da década de 70, outros prédios históricos foram derrubados pelo Brasil afora, como se a intenção dos governos de então fosse apagar a história. Um dos exemplos foi a demolição do Palácio Monroe, no Rio de Janeiro, até hoje lamentada pelos cariocas.

Outra curiosidade é que foi o próprio Ernani quem construiu, inaugurou e começou a usar um centro administrativo, onde passaram a funcionar os órgãos estaduais do governo, e, inclusive, um Palácio dos Despacho, em Jaguaribe, fora da Praça João Pessoa, desconjuntando, na prática, a Praça dos Três Poderes.

Certamente, uma intervenção desse porte não seria feita nos dias de hoje, onde a preocupação preservacionista é muito maior, junto com o poder de mobilização popular. Mas, naquela época, o que fazer? Hoje, é só lamentar.





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