Sady Castor e Ágaba, um caso de amor e morte na Paraíba VI



Pesquisa pela Tese de FAVIANNI DA SILVA apresentada à Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará, como requisito para à obtenção do título de doutor em Educação Brasileira. Área de concentração História e Memória da Educação. Orientador: Prof. Dr. José Gerardo Vasconcelos.

E artigo do Jornalista e escritor Ramalho Leite.

Filme curta metragem

Adaptação e roteiro – camilo Macedo

PRODUÇÃO E DIREÇÃO – DANIEL RIZZI

Assistente de Direção –

DIREÇÃO DE ELENCO e roteiro – camilo Macedo

Edição - DANIEL RIZZI

FIGURINO - VIVI Lopes

Maquiagem -

Direção Musical -

Fotografia - IGGO NICOLAS DE MACED

Desenho e Arte -

Montagem e edição -

Técnico de Som -

Produtora de Objetos -

Assistente de Produção de Objetos -

Produção de Locação -

Narra a história de um crime ocorrido no dia 22 de setembro de 1923, na cidade de Parahyba, capital do Estado da Parahyba do Norte, com repercussão nos anos seguintes. A escolha do tema não foi ao acaso: entre o crime e as ações do Grêmio existe uma relação explicita; já entre o crime e as tensões políticas, há uma relação mais sutil, tecida com fios tênues que se desdobram em aspectos de uma cultura histórica, específica do lugar e da época pesquisada. tendo como fio condutor a participação do Grêmio Cívico Literário 24 de Março Lyceu Parahybano nos protestos e manifestações desencadeadas pelo assassinato do “inditoso” Sady Castor.

 O esquife da “pranteada menina”, até o “campo santo”. Numerosas colegas da Escola Normal, e também, os colegas do seu “inditoso noivo, assim como representantes de todas “as classes” (sociais), amigos, parentes e conterrâneos”.124 Segundo o Jornal Correio da Manhã125.

Ao contrario da imprensa oficial, o evento foi amplamente registrado por diversos outros órgãos de imprensa, considerado um acontecimento tão marcante quanto o de Sady. O “préstito”, chega ao cemitério às nove horas da manhã. Ainda segundo o repórter do jornal Correio da Manhã, era intensa a multidão que ali aguardaria a chegada do féretro, sendo conduzida a mão pelos irmãos da “saudosa” vítima.

Sobre o caixão, continua a folha, viam-se muitas grinaldas, outro tanto conduzindo por suas colegas da Escola Normal, que em grande número se incorporaram ao cortejo. Ao ser feita a “inumação”, isto é o ato de baixar o caixão, discursou o estudante do Lyceu Parahybano, Plínio Lemos, “em palavras repassadas de comoção”, referiu-se ao desolador acontecimento, pondo em destaque as “excelsas” virtudes de Ágaba de Medeiros e a “inexcedível” sensibilidade do seu “amantíssimo” coração. O estudante Plínio Lemos terminou depositando uma grinalda sobre o túmulo de Ágaba, feito de saudade da mocidade estudantina da Parahyba.

Em seguida, discursou o professor João Falcão, em nome da Escola Normal, “produzindo uma sensibilizante oração”. As suas colegas da Escola, choravam copiosamente em fato digno de ser registrado ainda mais pela impressionante circunstância: Ágaba foi sepultada numa catacumba contígua à de Sady. O Sr. José Castor Correia Lima, outro irmão de Sady, estava presente havia ido a Cidade visitar o túmulo do irmão em nome da família, mas, de tão emocionado, acabou tendo uma “syncope” de que foi acometido o seu outro “desolado” irmão. Por ironia ou coincidência, ao lado do túmulo de Sady estava aberto outro, como esperando o cadáver frio de Ágaba, para que os dois “infelizes amantes” fossem, enfim, unidos pela morte.126 A Parahyba cobre-se de luto.

Missas e romarias são oferecidas em prol das almas do casal. Anunciada em diversos jornais (A Tarde, Correio da Manhã, Jornal a União e o Jornal O Norte), a missa de sétimo dia de Sady Castor foi realizada na sexta-feira, dia 28 de setembro na Catedral de Nossa 126 Fonte: Arquivo Umberto NóbregaUNIPÊ. Jornal Correio da Manhã [sd]. Provável 09 ou 10 de outubro de 1923. Imagen Anexas 33. Referências: P2070439. 117 Senhora das Neves, sendo celebrada pelos padres José Coutinho, Pedro Cardoso e Sylvio Mello.

A notícia chamava atenção para a “grande comissão de alunas da Escola Normal” seguida de colegas do morto, que se dirigiam para o Cemitério. No local, além de muitas flores, uma coroa com a seguinte inscrição “Ao Sady Castor, eterna saudade das alunas da Escola Normal”. Durante o ato, houve discursos com destaque para os Sr. Silvino Santos, pelo primeiro ano do Lyceu Parahybano, Cezar de Oliveira Lima, pelo corpo discente do mesmo estabelecimento e o próprio Antonio Benvindo, representando o Centro Acadêmico de Recife.

Dias depois, as mesmas alunas iriam convidar “seus colegas do Lyceu e de outros estabelecimentos de ensino, bem como o povo em geral para celebrar outra missa, a de trigésimo dia da morte de Sady”128. O mesmo aconteceu na missa de sétimo dia Ágaba, primeiramente convocada por sua família, onde agradeciam a “todas as pessoas que acompanharam à ultima morada dos restos mortais de sua desventurada filha.

Algumas noticias falam apenas que foram as alunas da Escola Normal que mandaram celebrar a missa, convocando os estudantes e o povo em geral para a celebração de missa. A missa aconteceu no dia 11 de outubro, também na Catedral de Nossa Senhoras das Neves, às sete

horas da manhã, tendo como oficiante o reverendo Padre José Coutinho. A Catedral estava repleta de normalistas e lyceanos notando-se também a presença da “digna família Gonçalves de Medeiros” e de muitas pessoas da “alta sociedade”.

Depois do ato religioso na Catedral, boa parte dos que estavam presentes, principalmente os estudantes, amigos e parentes das vitimas, se dirigiram, em “comovida romaria”, ao cemitério do Senhor da Boa Sentença, onde foram depositar, junto ao túmulo da “infeliz noiva” de Sady Castor, uma “rica” coroa de flores, “derradeiro preito de sua enternecida saudade pela morta querida”. 130 Segundo o Jornal A TARDE, a coroa tinha o seguinte dizer; “Ágaba, imorredouras saudades das alunas da Escola Normal”. As moças do 3º ano da Escola também ofereceram uma “artística” coroa de flores artificiais, tendo a seguinte inscrição: “saudade de suas companheiras de estudo” .

Em seguida, vieram os discursos, falando a “senhorinha” Corina Novais, em nome do 4º ano da Escola Normal, “expressando, “muito comovida, a saudade das suas colegas por aquela que tão cedo se foi, deixando tão profundo sulco de dor nos seus corações”.

Ao terminar, depositou um ramalhete de flores naturais sobre o túmulo. Em seguida falou o acadêmico Antonio Benvindo, “que no feliz improviso, recapitulou com todas os seus dolorosos transes, a tragédia em que desapareceram os dois jovens patrícios”. 132 Suas últimas palavras “arrancaram dos olhos dos presentes muitas lágrimas”.

Por fim usou da palavra a “talentosa” terceiranista, Josepha Coelho, que em nome do corpo discente da Escola Normal e das suas colegas de turma, oferecia suas grinaldas, como “sincera” manifestação de pesar pelo desaparecimento daquela sua colega, que em vida fora uma boa e dedicada companheira e cuja morte causara profunda dor no seio das suas colegas da Escola Normal.

Terminou pedindo aos presentes para, de joelhos, rezarem um terço diante o tumulo de Ágaba, o que foi feito. Depois foram tiradas fotografias da duas sepulturas e das pessoas que se achavam presentes, tendo em seguida se retirado todos “comovidos” e “calmos” do campo Santo, deixando ali os corpos de Sady e Ágaba.

Bentinha Zácara, sobrinha de Ágaba, em entrevista a Amaury Vasconcelos (em 23 de 1996), explica como a família conseguiu o sepultamento cristão. Segundo ela, “como tinha sido suicídio voluntário, tudo de conhecimento público, o laudo cadavérico foi dado como excesso de barbirúticos”, isto é, por excesso de substância sedativa ingerida por engano, cuja pouca margem entre a dosagem terapêutica e tóxica pode ser mortal. A família negou no início, mas depois admitiu um engano (VASCONCELOS, 2009, p. 185).

Por Ramalho Leite

A guarda civil estava encarregada de manter essa determinação. Um sábado à tarde, Sady Castor, aluno do Liceu, pretendeu ir ao e ncontro da sua namorada, a futura professora Àgaba Gonçalves de Medeiros. Foi admoestado pelo Guarda 33, que fazia o papel de “guardião da honra das moças”, um pernambucano batizado Antonio Carlos de Menezes. O estudante resolveu desobedecer à autoridade e ultrapassou a faixa proibida. Surgiu uma discussão entre os dois, resultando daí a morte de Sady, atingido por um tiro certeiro do destemperado guardião da praça.

Os estudantes do Lyceu Parahybano transformaram sua escola em palco de protesto e revolta contra as autoridades estaduais. O presidente Solon de Lucena se fez representar no funeral pelo secretario geral Álvaro de Carvalho, e substituiu o diretor da Escola Normal pelo seu conterrâneo do Bananeiras, o cônego Pedro Anísio.Nesse dia, a terceira escola ent&atilde ;o existente, a Academia de Comercio, liberou seus alunos que, incorporados, compareceram ao funeral.

Mas não terminaria aí essa tragédia que quase derruba o presidente Solon de Lucena. A jovem Ágaba, inconsolável com a perda do namorado, cometeria suicídio alguns dias depois. Em carta, pediu desculpas àquela que seria sua futura sogra e, revelou suas razões: “ Resta-nos confiar na justiça da terra? Não, confiarei na Divina, pois que aquela falha e esta jamais falhará”. E conclui: “Peço-vos que abençoeis aquela que amanhã irá fazer companhia àquele que soube honrar e fazer-se honrar”.

A inconformada normalista pertencia a família importante da nossa sociedade.

A Paraíba, um dos primeiros territórios a serem ocupados pelos colonizadores portugueses, foi anexado em 1534 à Capitania de Itamaracá. Ia da foz do Rio Santa Cruz, hoje Igaraçu,até a Baía da Traição. Cobria, assim, todo o território do atual Estado da Paraíba. Essa capitania foi doada a Pero Lopes de Sousa. Com sua morte, os franceses e potiguares tinham multiplicado sua ação de domínio, inclusive com audacioso avanço ao engenho 57 Fonte: Jornal Correia da Manhã, 25 de setembro de 1923 [s/n] – A IMPRESIONANTE TRAGEDIA DE SABADO: OS FUNERAIS DO ESTUDANTE CASTOR. AS DEMONSTRAÇÕES DE PESAR DA CIDADE. DISCUSOS E NOTAS. Imagens Anexas 22 e 23. Ref. PTDC0042/PTDC0044. 67 Tracunhaém58. O rei de Portuga, D. Sebastião, assombrado com os acontecimentos e para assegurar a tranquilidade dos habitantes de Itamaracá e Olinda, resolveu criar a Capitania Real da Parahyba, em 1574, compreendendo parte das terras da capitania de Itamaracá. Durante a Colônia, sua importância servia para garantir a segurança política e econômica das capitanias mais ricas, mas foi só no século XVII, no apogeu da produção açucareira e da pecuária (e o algodão entre o século XIX e XX), que a região passou a ter destaque no cenário nacional.(FREIRE, 1974). A futura cidade de Parahyba, hoje chamada de João Pessoa, foi fundada em 5 de agosto de 1585, com o nome de Nossa Senhora das Neves. Durante esse tempo, recebeu uma variedade de denominações, tais como: Cidade de Nossa Senhora das Neves, em 1589, Cidade de Filipéia de Nossa Senhora das Neves, em 1600, em homenagem ao rei Felipe da Espanha. Logo após a sua conquista pelos Países Baixos, a cidade passou a se chamar Frederikstad, a partir de 1635. Depois do declínio da Nova Holanda e com a saída dos neerlandeses, a Cidade retoma o nome de Cidade de Nossa Senhora das Neves, de 1655 até 1817, quando passou a se chamar Cidade da Parahyba. Segundo alguns historiadores paraibanos, a localidade já nasceu cidade, sem nunca ter passado pela designação de vila, povoado ou aldeia, visto que foi fundada pela Cúpula da Fazenda Real, uma Capitania da Coroa. Chamou-se Capitania da Coroa porque foi conquistada com dinheiro e soldados do Estado independente e administrada por governadores nomeados pelo Rei. Entre as cidade brasileira, é a terceira capital mais antiga do Brasil e também a penúltima a ser fundada na Colônia no século XVI e adentra o período ainda com uma pequena população, de pouco mais de 3.000 mil moradores, em 1808, passando para aproximadamente 52.900 mil, em 1920. (ALMANAQUE, 1922, p38). Apesar do fascínio pela História paraibana do período colonial e monárquico, é o primeiro período republicano que mais interessa contar (1889-1930), essencial para se poder compreender os significados políticos do caso Sady e Ágaba em meio às tensões faccionais da década de 1920. Neste

capitulo, a intenção é não só contextualizar o nascedouro das richas faccionais, mas, principalmente, ambientar o enredo do caso Sady e Ágaba, desde uma visão panorâmica das configurações políticas ao longo da Primeira República, a luz das transformações sociais trazidas pela Modernidade. 58 O ataque ao engenho Trucunhaém, também conhecido como tragédia de Trucunhaém ou chacina de Trucunhaém foi um ataque de índios potiguaras dirigidos ao Engenho Trucunhaém, próximo a Goiana, Pernambuco, ocorrido em 1534. Neste ataque, toda a população colonizadora da região foi dizimada. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ataque_ao_engenho_Tracunha%C3%A9m 68 Segundo Carvalho (2013), do ponto de vista da representação política, a República não significou grande mudança. Ela introduziu a Federação, de acordo com o modelo dos Estados Unidos, em vez do centralismo monárquico do Império. Os presidentes dos estados (antigas províncias) passaram a ser eleitos pela população. A descentralização tinha o efeito positivo de aproximar o governo do povo via eleição de presidentes de Estado e prefeitos; contudo, a descentralização facilitou a formação de sólidas oligarquias estaduais, apoiadas em partidos únicos, também estaduais que, quando vitoriosos, monopolizavam o controle político e econômico, tecendo uma teia de alianças e rivalidades que se estendia do poder local até instâncias políticas e burocráticas dos estados e da União. Durante a maioria desse período, o poder passou a ser controlado por uma aliança entre as oligarquias paulista e mineira, que se expressava no revezamento de representantes desses dois estados na Presidência da República. Com isso, esse período ficou conhecido como a “República dos coronéis”, ou “política dos governadores”. (FAUSTO, 2013). Na Parahyba, assim como no resto do País, durante a Primeira Republica (1891 a 1930), o poder passou a ser exercido pelos coronéis e suas oligarquias59 (GURJÂO, 1999 p. 53 a 95). Os “novos donos do poder”, passaram a governar a nação com base na dominação da política de seu estado, exercendo uma prática política personalista e patrimonialista (FAORO, 2001). Segundo Linda Lewin (1993, p.73), o Estado da Parahyba do Norte passou por três oligarquias: o “venancismo”, comandado por Venâncio Neiva60 (juntamente com Epitácio Pessoa61), primeiro governador republicano do estado, no período de 16 de 59 Em sua configuração original, a palavra oligarquia indica o “governo” (archein) “de poucos” (oligos). Contudo, o pensamento político ligado à oligarquia não esteve rigidamente submetido a essa única forma de compreensão. Na Grécia Antiga, a expressão oligarquia era negativamente empregada para se fazer referência a todo o regime que fosse comandado por pessoas com alto poder aquisitivo. Desta forma, os governos oligárquicos foram confundidos com o governo das elites econômicas.

Apesar dessa acepção, o termo oligarquia poder ser muito bem empregado em outras situações políticas. Quando observamos, por exemplo, que um mesmo partido político ocupa os mais altos escalões de um governo, podemos identificar o desenvolvimento de uma oligarquia. Em geral, a presença das práticas oligárquicas impede que amplas parcelas da população participem do debate político. Dessa forma, podemos ver que a oligarquia diverge do atual sentido dedicado à democracia. Na História do Brasil, o termo oligarquia é costumeiramente empregado para se fazer menção às primeiras décadas do seu regime republicano. Em tal período, compreendido entre 1894 e 1930, os grandes proprietários de terra utilizavam de sua influência política e econômica para determinar os destinos da nação. Apesar da presença de um sistema representativo, a troca de favores, a corrupção do processo eleitoral e outros métodos coercitivos impediam a ascensão de outros grupos políticos. 60 Venâncio Augusto de Magalhães Neiva, foi Juiz de Direito e o primeiro governador republicano da Paraíba, além de responsável pela instalação oficial do Superior Tribunal de Justiça do Estado do Parahyba do Norte. Tinha cerca de 40 anos quando se proclamou a República no Brasil. Antes e depois de exercer o cargo de presidente estadual, foi por cerca de 30 anos juiz (imperial) municipal e juiz de Direito, além de juiz federal na antiga Província e no Estado.

 

Continua amanhã

 

 




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