MEMÓRIA PESSOENSE: Liceu Paraibano - Sérgio Botêlho



Quando pusemos os pés no Liceu Paraibano, em 1967, o colégio representava um dos principais centros de ensino da Paraíba, sendo os seus cursos Científico e Clássico os mais conceituados do estado.

Às gerações mais novas, uma explicação: o que se chama hoje de 2º Grau, na época era denominado de Científico (de Engenharia e de Medicina, separados) e de Clássico (para quem iria seguir Direito e demais cursos de Humanidades).

O Liceu era uma espécie de funil para os que pretendiam ingressar na Universidade Federal da Paraíba. Ali estudavam os que haviam concluído o Ginasial (hoje, as quatro últimas séries do 1º Grau), tanto nas escolas de ensino público quanto nas de ensino privado.

Carregando o peso de ter sido o centro de formação intelectual mais importante da Paraíba, desde a época do Império, por onde passaram líderes políticos, poetas, escritores, críticos literários e cientistas que fizeram história no estado e fora dele, o Liceu era um grande desafio para todos os que ali chegavam.

Firmava-se em todos um sentimento de enorme orgulho pelo fato de estar frequentando a mesma escola pela qual já passaram essas pessoas. Você estava, afinal, no mais tradicional colégio de ensino de todo o estado.

Para quem vinha das escolas de ensino privado, o primeiro choque era o da liberdade. Afora a disciplina no interior do colégio, evidentemente, em seus corredores e salas de aula, o controle da chegada no Liceu nada tinha a ver com o que havia, por exemplo no Pio XII, Lourdinas, Colégio das Neves, Pio X ou Lins de Vasconcelos.

Você podia perder a primeira, ou até a primeira e a segunda aulas, mas, chegar para a terceira. Sebastião era o inspetor geral do Liceu, na minha época, duríssimo, e, até, mal digerido pelos estudantes, na época (depois, até virou amigo). Mas, ele nada podia fazer contra os ‘atrasados’, no horário.

Quando ingressei no Liceu, a instituição era dirigida pelo professor Ivan Guerra, extraordinário diretor, que, mesmo diante do arbítrio, nunca deixou alunos do Liceu, líderes do movimento, principalmente, abandonados diante de detençoes efetuadas pelo regime.

Outro choque, este, de forte e maravilhoso impacto, era o encontro, nas mesmas salas de aula, de rapazes e moças, tanto uns quanto outros, em sua maioria. acostumados, nos tempos de ginásio, a escolas específicas para meninos e meninas.

Ah! Aqueles canos do muro da frente do Liceu, onde moças e rapazes sentavam à vontade para bater papo em intervalos de aulas! Aquilo era uma magia, uma felicidade, uma libertação, exatamente numa época em que o mundo experimentava profundas transformações de costumes, justamente capitaneadas pelos jovens.

Nas páginas de jornais, você encontrava greves quase no mundo inteiro, tanto em países capitalistas quanto comunistas, em sua esmagadora maioria, comandadas pela juventude, que ouvia Beatles e Rolling Stones, afora The Woo, Jane Joplin, Jimi Hendrix etc etc.

Na França, por exemplo, quase a juventude tomava o poder em 1968, durante uma greve que paralisou o país, o que não aconteceu por conta da decisão do movimento operário francês, comandado pelo Partido Comunista, de se retirar do movimento. Os jovens, no entanto, permaneceram nas trincheiras.

Esse era o clima que envolvia os estudantes do Liceu Paraibano naquela segunda parte da década de 60. E, daquela geração, somente não surgiram grandes líderes para o futuro do estado do próprio país porque o regime autoritário resolveu fechar todas as portas da Democracia, em dezembro de 1968, com o AI-5, prejudicando, enormemente, a própria vida pessoal dessas lideranças, e o futuro deles, enquanto quadros dirigentes, para prejuízo da Paraíba e do Brasil.




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