O Uber - Marcos Pires



 

Eu e Mãe Leca estávamos voltando da maravilhosa festa de Fred e Tereza em Areia Dourada e chamamos um Uber. O motorista chegou num carro meia boca, pequeno, sem ar. Com um forte sotaque foi logo dizendo (sem que tivéssemos perguntado) que aquele carro era de um genro seu e que ele estava ali somente passando tempo, porque na verdade era milionário e não precisava nem trabalhar mais.

“- Eu sou do Mato Grosso. Crio gado em muitas fazendas e estou passando as festas na casa dos meus parentes. Como foram todos para Campina Grande eu tirei o carro da garagem só para ter com quem conversar. Mas eles não sabem que eu sou milionário, porque aí minha vida iria virar um inferno”.

Quem me conhece sabe que meu faro por mentiras vai longe. Senti ali uma queimando, mas precisava confirmar e indaguei do tamanho de seus rebanhos.

“- De gado leiteiro eu tenho oito mil cabeças, mas a maior parte é gado de corte. Da última vez que contei tinha pra mais de cem mil reses”.

Mentira? Quis tirar a prova dos nove e perguntei a ele como conseguira juntar aquela fortuna.

“- Eu era o capataz de duas fazendas de um político da minha região. Sem que eu soubesse ele tinha colocado aquelas fazendas e muita coisa mais em meu nome. Como eu era analfabeto nem sabia de nada. Uma vez ele me fez ir ao cartório assinar um papel para ele, só com o dedão, né? Depois eu soube que era uma procuração. Com o tempo aprendi a ler e fui percebendo tudo, mas ele morreu e como não tinha filhos e a mulher dele era mais burra do que eu, findou que eu fiquei com tudo e aí aumentei muito as coisas”.

Pronto! A conversa do velhinho tinha logica; é que em toda conversa que entra safadeza de político até o que parece absurdo se torna realidade.

Estávamos chegando ao destino e eu não sabia se ele era mentiroso. Arrisquei: “- Amigo, ficaremos aqui”. Tinha na mão uma nota de cinco reais (O Uber faz debito automático no cartão de credito) e disse a ele que se tratando de um milionário eu não iria constrange-lo oferecendo uma gorjeta. E tão pequena.

Ah, leitores queridos, o velhinho deu uma puxada na nota que quase levou meus dedos juntos.

Ainda hoje estou na dúvida se ele era sovina, miserável ou mentiroso.

 




Comentários


Comentar


Sidebar Menu