MEMÓRIA PESSOENSE: Nau Catarineta, em Cabedelo - Sérgio Botêlho



O folclore sempre foi muito forte na cidade de João Pessoa, especialmente em bairros como Torre, Cordão Encarnado, Roger, Mandacaru, Tambaú, e nas cidades de Bayeux, Conde, Alhandra, Pitimbu, Baía da Traição e Cabedelo, tudo parte da Grande João Pessoa, e quase tudo conurbado.

Mas, das minhas lembranças, com relação ao folclore, de infância e juventude, uma das mais fortes, ao lado dos cabocolinhos, no carnaval de rua, é a da Nau Catarineta, em Cabedelo, geralmente encenada no Forte de Santa Catarina, mas, também, nas tradicionais festas de São Sebastião, padroeiro cabedelense, na segunda metade do mês de janeiro.

O passeio a Cabedelo, algumas vezes, feito como tarefa escolar, outras, por puro prazer, já, de maior idade, nos punha em contrato com uma das mais belas e tradicionais manifestações culturais de origem portuguesa, largamente espalhadas pelo país.

Estive pesquisando, até para reavivar a memória, e acrescentar informações à lembrança da Nau Catarineta, e descobri que no bairro da Torre (originalmente, Torrelândia), havia um grupo popular que encenava a Nau Catarineta sob o nome de Barca, devidamente pela expedição folclórica coordenada por Mário de Andrade, em 1938.
Aliás, essa manifestação popular, que conta histórias dos tempos da navegação lusa pelos mares afora, toma vários nomes, além de Nau Catarineta, como barca, marujada, fandango e chegança-de-marujo.

“Truléu, léu, léu, truléu da Marieta, que nós somos marinheiros dessa Nau Catarineta”. Ao som dessa e de outras cantigas, cordões de marujos e de oficiais dançam marcada e dramaticamente reproduzindo dificuldades ou batalhas em alto mar.

Interessante anotar - diante dessa recordação de nosso folclore, hoje, tão relegado a segundo plano frente à globalização da cultura – isso, que estamos fazendo, ou seja, que essas manifestações populares já foram valorizadas a nível, mesmo, de obrigações incluídas em nosso sistema escolar.

Outra anotação: o insigne paraibano, Ariano Suassuna, inclusive, tem, entre suas obras, um musical armorial, à base de pífanos e rabecas, dedicado à Nau Catarineta, muito bonita de se ouvir, e que pode ser tranquilamente acessada pela Internet.
Estive, ainda ontem, conversando com a amiga Jânia Miranda, cabedelense de quatro costados, e soube que a Nau Catarineta continua se apresentando em Cabedelo, normalmente, o que é sensacional.

Principalmente, quando sabemos do declínio absoluto das manifestações folclóricas em João Pessoa, o que é péssimo não apenas como decepção por conta de um mero saudosismo, mas, como enfraquecimento dos nossos traços culturais.

Recordar a Nau Catarineta, tão expressiva como lembrança de infância e adolescência, é, obrigatoriamente, evocar os trabalhos um dia desenvolvidos por Altimar Pimentel, tenente Lucena, José Nilton, Dadá Gadelha, Osvaldo Trigueiro, entre outros, que dedicaram ou que continuam dedicando suas existências ao estudo e à preservação da cultura popular, na Paraíba.

Fica então marcada entre as memórias de João Pessoa, que venho postando, aqui, no Face, as excursões a Cabedelo, que, durante um certo período da infância, era distrito pessoense, para ver e ouvir, com deleite, as apresentações da Nau Catarineta.




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