MEMÓRIAS PESSOENSES: o Luzeirinho - Sérgio Bôtelho



 

Não lembro de ter saboreado, em João Pessoa, melhor picado de porco do que no Luzeirinho. Servido por Zé ou por Antônio, dois de seus mais famosos garçons, o Luzeirinho foi uma referência importante do tradicional e festeiro bairro de Jaguaribe, até meados da década de 70.

Refúgio de boêmios de todas as latitudes intelectuais e preferências ideológicas, de políticos de partidos variados e de seresteiros, o Luzeirinho, enquanto esteve em função, a exercia na hoje movimentadíssima avenida Vasco da Gama.

Pois, acreditem, era, ali mesmo, onde o Luzeirinho atendia sua vasta clientela, inclusive, com mesas pela calçada, num tempo em que João Pessoa andava mais lenta, com menos automóveis nas ruas, e a geografia urbana da cidade ainda não havia transformado a Vasco da Gama no que ela é, hoje.
Bom mesmo era ter sorte para conseguir uma mesa aos sábados, por exemplo, dia internacional da boêmia, quando o Luzeirinho era uma festa para os olhos, para a mente e para o paladar.

Contudo, na quarta-feira, já, dia pactuado pela boêmia para iniciar os trabalhos da semana, depois de uma segunda-feira de ‘pausa’ forçada pelo cansaço, e uma terça-feira, de angústia, o problema era o mesmo: tudo lotado.

A cerveja gelada, desejo supremo de qualquer boêmio, era marca registrada do Luzeirinho, que tinha em seu cardápio outras iguarias - afora o picado de porco -, a exemplo de petiscos e pratos à base de carne de carneiro ou cabrito ou de frutos do mar.

Não era exatamente o que possa ser avaliado como um bar elegante, marcado por guardanapos de pano, toalhas e requintes assemelhados, como outros bares e restaurantes da velha João Pessoa. Embora poucos, a bem da verdade.

Diferentemente disso, o Luzeirinho era o que se pode chamar de “bar pé-sujo”, porque aconchegante, com a assepsia das mesas procedidas, mesmo, pelo guardanapo do garçom, após cada rodada de fregueses; além dos decibéis lá em cima, provocados pelo vozerio.

Mas, convém assinalar que referido ambiente é o preferido da boêmia para um happy hour, pertençam os boêmios a qualquer dos estratos sociais, tendo em vista que a maior contribuição para a hora feliz é mesmo o ambiente, a cerveja gelada, o tira-gosto de primeira, a intimidade com o garçom, com o proprietário, e, não, possíveis tamboretes ou mesas descobertas.

Entre uma mesa e outra, os papos tinham cores de diversos matizes profissionais e culturais, por conta daquela clientela tão variada, onde apenas uma identidade a unificava: a paixão inveterada pela boêmia.

Se numa mesa havia gente de esquerda, conversando sobre os caminhos para superar o capitalismo, noutra, comerciantes capitalistas, noutra, ainda, bancários, lá numa ponta, cinéfilos, noutra ponta, teatrólogos, críticos de arte. Enfim, poetas, políticos, médicos, um verdadeiro caleidoscópio sociológico.

Não foram poucos, no Luzeirinho, os negócios iniciados, as produções artísticas rascunhadas, os acordos políticos alinhavados, os movimentos sociais encaminhados, mas, também, as inevitáveis brigas separadas ao lado de entrosamentos pessoais conjuminados pela força da cerveja gelada do Luzeirinho.

Um dia, fruto do avanço urbano desenfreado de João Pessoa, já na década de 70, o Luzeirinho simplesmente deixou de existir, deixando, em seu lugar, o desabrigo a uma parte da boêmia, que acabou se dispensando.

Ainda bem que, ali por perto, já começava a despontar um ambiente semelhante chamado Bar do Zé, com cerveja gelada, cardápio de tira-gostos para ninguém botar defeito, garçons prestativos, e praticamente a mesma áurea. Mas, essa é uma outra conversa.




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