MEMÓRIA PESSOENSE. No tempo dos bondes - Sérgio Botêlho



De 0 a 16 anos morei na Arthur Aquiles, uma rua curta, no Centro da cidade, que liga a Visconde de Pelotas à Treze de Maio, tendo como bases, então, nas duas esquinas da Visconde de Pelotas, a padaria Paraibana e o Pronto Socorro Municipal. Durante o tempo em que vivi ali, havia famílias ocupando todas as casas. Nada disso existe mais. Apenas a rua.

Como fiz primário e ginásio entre o Instituto São José e o Pio XII, ambos, vinculados à Diocese e depois à Arquidiocese da Paraíba, meu caminho de casa para o colégio foi sempre o mesmo, durante 10 anos, subindo a pequena ladeira da Arthur Aquiles, pegando a Visconde de Pelotas, passando pela Praça do Bispo (Praça Dom Adauto), dobrando a Dom Ulrico, e chegando ao Pio XII, no conjunto arquitetônico da Igreja de São Francisco.

Era na Visconde Pelotas onde, quando dava sorte, encontrava o velho bonde, um meio de locomoção de enorme força poética e que trafegava lento o suficiente para que pudéssemos, não apenas homens e mulheres, mas, também, crianças mais ou menos a partir de 7 ou 8 anos, assim como o escriba, de agora, naqueles tempos, amorcegar o veículo ainda que estivesse em movimento.


O bonde tinha a suprema capacidade de poupar o caminho a pé, num trajeto curto e benfazejo, é verdade, mas, alternativa feliz para uma criança que cumpria o percurso, todos os dias, representando, além de tudo, aventura extra. Ainda mais quando estava em cima da hora fatal e rigorosa para entrada no colégio, no limite da tolerância de 15 minutos.

A aventura tinha início quando a gente se firmava no estribo lateral do bonde em movimento, depois de segurar firme numa das colunas também laterais do veículo. Isso devia ser feito, de preferência, com o corpo posto de frente para o trajeto do bonde. A não ser que ele já tivesse passado e houvesse, então, a necessidade de correr para alcançá-lo. Era bem mais complicado, então.

A descida do bonde em movimento tinha de ser feita meio que de costas, com aterrissagem no sentido contrário ao que vinha sendo desenvolvido pelo veículo. Ao aterrissar, a pessoa tinha de executar movimentos precisos com as pernas buscando frear o ímpeto com que ‘pousara’.

Fazer o contrário disso, isto é, no mesmo sentido do trajeto do bonde, era queda certa. E feia. Você não tinha como frear o impulso dado pelo movimento do veículo. Eu realizava essa aterrisagem na altura da Praça do Bispo, em cima do Pio XII.

Pela Visconde de Pelotas trafegavam os bondes que seguiam para Roger, Mandacaru e Cruz do Peixe, na Juarez Távora, onde funcionava a garagem da empresa e de onde partiam os bondes para Tambaú, exatamente no prédio onde hoje pontifica a Usina Cultural Energisa.

]Havia, ainda, linhas de bonde para o comércio e Varadouro, para Cruz das Armas-Oitizeiro e Jaguaribe. Representaram exatamente a época que mais abordo nessa série de crônicas, época de uma João Pessoa mais tranquila e mais humana que hoje.
Os bondes foram extintos em João Pessoa na administração do prefeito Apolônio Sales de Miranda, que administrou a cidade entre 1955 e 1959. Por ordem da prefeitura, as ruas da cidade, todas em paralelepípedos, começaram a ser asfaltadas, com o asfalto simplesmente cobrindo as linhas que serviam aos bondes. A partir disso, a cidade começava a ser outra, bem diferente. Do espetáculo, eu me lembro, com tristeza.

{A foto, que pertence à coleção do pesquisador norte-americano, de Nova York, Allen Morrison, é de um bonde chegando ao Ponto de Cem Reis (por onde todos os bondes passavam, exceto o de Tambaú), vindo da Visconde de Pelotas, vendo-se, ao fundo, o prédio do Cine Plaza, antes da reforma}.




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