MEMÓRIA PESSOENSE: As moças da Lagoa Sérgio Botêlho



As duas “trabalhavam”, assim como outras moças iguais a elas, na Lagoa do Parque Solon de Lucena, cartão postal idealizado por Burle Marx. Ali, todas as noites, Vera e Lindaci esperavam clientes para noitadas. Eu, menino entre os 16 e 17 anos, não tinha vez. Além de fedelho, não tinha dinheiro. Mas, sonhava em ter o amor de alguma delas. Acho que tinham em torno dos 21 ou 22 anos.


A Lagoa foi, durante muito tempo, local privilegiado para o chamado quem-me-quer. Mesmo nos tempos dos tradicionais cabarés, na Maciel Pinheiro, Rua da Areia e Silva Jardim, e, ainda, na Carlos Alverga, por trás do Elite, era na Lagoa que as chamadas “meninas de programa” faziam ponto para arranjar fregueses. Estes, na maioria, gente endinheirada, de prestígio na cidade e no estado. Nas calçadas do Parque, muitas delas viravam a noite.

Não eram poucas as confusões armadas por esta gente que apenas vislumbrava no horizonte de seus próprios futuros exatamente o Nada. Com certeza, o termo futuro, quando muito, alcançava a perspectiva das próximas horas, do próximo cliente, da dormida, do café da manhã do outro dia. O almoço do dia seguinte, para muitas daquelas moças que faziam companhia a Vera e Lindaci, na Lagoa, era algo muito distante ainda.

No máximo, elas se permitiam a alguma conversa com a gente formada de pequenos luxuriosos com hora para chegar em casa, fixada em torno das nove e meia da noite, quando muito. Mas, seja pala falta de recursos, e, principalmente, de lugar e idade, evidentemente, por conta da Lei, elas apenas riam e davam o fora a qualquer proposta mais ousada.

Infelizmente, não dava tempo para que pudéssemos avaliar o quão terrível era a prostituição. Até penso que, na nossa cabeça, o amor com essas criaturas devesse mesmo ser por amor, sem dinheiro no meio. Mas, elas estavam ali não por graça ou por quimera. Cuidavam de sobreviver. Sem eira nem beira, apesar de bonitas, Vera e Lindaci, não tinham tempo para aventuras, a não ser a aventura representada pelo próximo cliente. Sem qualquer dúvida, um risco permanente.

De vez em quando, as moças da Lagoa tinham de enfrentar a Polícia, principalmente a Radio Patrulha. E não era muito raro servirem aos policiais após as “batidas”. Mais do que tudo, o mundo da prostituição, ainda hoje, não possui regras tão determinadas assim que impeçam tais abusos. Dessa forma, a noite de cada garota daquela era de uma incerteza de fazer chorar.

Hoje, você tem as Delegacias das Mulheres. Antigamente, quando isto não existia, o que campeava era o desrespeito. As mulheres entregues à prostituição ou vítimas de estupro eram atendidas em delegacias totalmente comandadas por homens. O resultado mais comum era o do mais impiedoso desrespeito, da chacota, do mau tratamento, e, via de regra, da submissão aos desejos dos próprios policiais.
Vera e Lindaci, estas, nunca mais eu vi nem soube de paradeiro. Guardei os nomes pela impressão que elas deixaram na concupiscente adolescência nossa.

Representaram, acima de tudo, o desejo não consumado, para sempre marcado na lembrança. Se vivas estiverem, o que será um milagre, sabe Deus em que condições. Mas, um dia, apesar de todo o sofrimento, foram bonitas, apesar da má-sorte.




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