MEMÓRIA PESSOENSE: *Lojas Seta* _- Sérgio Botêlho_



 

Em boa parte da década de 50 e parte da década de 60 moda era coisa de mulher. Os estabelecimentos que comercializavam roupas se destinavam às mulheres ou apenas vendiam tecidos que serviam para confeccionar roupas para homens.


Em João Pessoa, era das camisarias e alfaiatarias de onde saia basicamente a roupa masculina. Essas camisarias geralmente se situavam na parte baixa de João Pessoa, as alfaiatarias, entre o Centro e a mesma cidade baixa.

Quem também se ocupava de preparar roupas para homens eram as costureiras. Havia muitas de plantão por toda a cidade de João Pessoa. As fardas colegiais dos meninos – mas, também, das meninas – eram feitas pelas costureiras de confiança, vizinhas de rua ou em bairros mais distantes.

Registre-se o fato de que, na capital paraibana, até explodir a década de 60, com a moda ditada pelo rock de Elvis Presley, dos Beatles, e dos Rolling Stones, e outros grupos que tais, não havia muita diferença entre o que os alfaiates e costureiras e camisarias faziam para adultos, crianças e jovens. Aquilo que diferenciava os meninos eram as calças curtas.

Quando a moda começou a ser também coisa de homem, o comércio paralelo fez chegar a João Pessoa as calças “Lee”, os cinturões com fivelões, as camisas Volta ao Mundo, as calças de Nycron “que nem amarrotam e nem perdem o vinco”, o tergal. Chegavam até sapatos, sandálias, tudo feito para o gosto masculino, tendo os pessoenses ao seu dispor, a partir de então, vestuário para homens fabricado em série e de forma diferenciada. Você comprava a roupa pronta, em João Pessoa, mesmo, vindas até a capital paraibana, como se diz, por debaixo dos panos, no contrabando mais aberto que jamais se viu.

Foi então que se instalou no Centro da cidade as Lojas Seta para Homens, ou simplesmente, Lojas Seta, vendendo legalmente roupas prontas, obedecendo a uma escala de números. Bastava experimentar, e levar. Qualquer ajuste, para quem tivesse uma barriga maior, o braço mais longo ou mais curto do que os padrões usados pelas fábricas de roupas internacionais, novamente a costureira, o alfaiate, ou o camiseiro teriam de providenciar os ajustes. Mas, enfim, havia à disposição dos senhores, dos jovens e dos meninos uma loja de roupas para homens.


O empreendimento Lojas Seta vivenciou momentos importantes da história social, econômica e política de uma João Pessoa que ainda se arrastava do ponto de vista de suas finanças, e de sua política extremamente provinciana, excessivamente patrimonial, e marcadamente familiar. Mas, também, assistiu a manifestações populares, com destaque para as estudantis, que postulavam a redemocratização do país, uma vez que as Lojas Seta para Homens praticamente atravessaram, em João Pessoa, praticamente toda a época do regime autoritário instalado no país em 1964.
Instalada na esquina do Ponto de Cem Réis com a Praça 1817, no prédio do Paraiba Palace Hotel, as Lojas Seta para Homens foram testemunha de dois momentos físicos da Praça Vidal de Negreiros, desde a concepção antiga, que incluía o Ponto Chic, até o efêmero Viaduto Damásio Franca, recentemente aterrado para dar lugar a um Ponto de Cem Réis, questionado, é certo, mas com a mesma configuração plana que já teve um dia. Em todo o caso, foram a Lojas Seta para Homens testemunhas de boa parte da história recente da nossa querida João Pessoa. E, portanto, razão suficiente para o nosso registro.




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