MEMÓRIA PESSOENSE: As Nações Unidas - Sérgio Botêlho



 

Até início o final da década de 50 do século passado (tenho que me acostumar com esse “século passado”, no qual nasci, exatamente em 50), em João Pessoa, não havia nenhuma emissora de TV. Nem sequer retransmissora dos canais recifenses, o que somente veio a acontecer no limiar da década de 60. Nessa época, dominavam a parada do lazer as salas de cinema que, perto de duas dezenas, se espalhavam por todos os bairros da então João Pessoa.


No Centro, da cidade, entre o Ponto de Cem Réis e a descida da Guedes Pereira, no tradicional comércio pessoense, as lojas se esmeravam em apresentar vitrines, transformadas em verdadeiras obras de arte. Os vitrinistas iam se especializando cada vez mais em preparar com pompa e circunstância as exposições por trás dos vidros transparentes, à frente das lojas.

Aos domingos, havia passeio de casais e filhos na calçada em frente às lojas com o objetivo de apreciar e comentar as arrumações artísticas e as peças expostas. A romaria era ainda maior nos finais de semana, com destaque para os domingos. As vitrines foram para as famílias locais a antecessora da TV, que, ao seu tempo, acabaram substituindo não apenas as vitrines, como atração máxima, mas, também, as salas de cinema.

No Ponto de Cem Réis, o Centro geográfico físico e humano de João Pessoa, reinava absoluta a vitrine de As Nações Unidas, uma loja de tecidos que ficava no prédio ainda hoje em pé e chamado de Prédio das Nações Unidas, no local onde exerce o comércio, contemporaneamente, uma loja de eletrodomésticos. Bem na esquina do Ponto de Cem Réis com a Padre Meira.

Aos domingos, a calçada das Nações Unidas se transformava naquele enxame de gente bem vestida, geralmente proveniente ou da segunda sessão da tarde, ou da primeira e segunda sessões da noite do Plaza e do Rex (ainda não eram os tempos do Municipal). As vitrines de domingo de As Nações Unidas eram como se diz “show de bola”. A preparação dessas vitrines era feita a cortinas fechadas, somente abrindo no início da noite, para apreciação do pessoense.

Qual a dona de casa que não obrigava os seus maridos a irem deleitar-se com aqueles espetáculos de arte e moda? Fingindo alheamento, os homens se faziam de rogados de braços dados com a mulher, ou, então, formavam pequenos grupos com outros amigos ali encontrados. Para as mulheres, no entanto, aquilo era material indispensável aos comentários da semana inteira, não apenas com relação ao visual produzido pela vitrine, como, evidentemente, pela novidade da moda – e das estampas – ali exposta.

Assim eram aqueles tempos de João Pessoa. A loja de As Nações Unidas ainda persistiu pelos anos 60 e 70, com suas vitrines, apesar do desleixo que foi tomando conta da iniciativa ao correr dos anos. Contudo, ficou em nós aquela impressão deixada, de uma época em que nas noites de João Pessoa praticamente não havia qualquer tipo de diversão familiar, afora estas dos cinemas e das vitrines.




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