MEMÓRIA PESSOENSE: O Cinema de Arte do Municipal - Sérgio Botêlho




Havíamos acabado de assistir Teorema, do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, um dos diretores ícones do cinema mundial das décadas de 50 e 60. O filme conta a história de uma família de tipo burguesa ostentando uma vida aparentemente tranquila, sem atropelos, até receber em casa, como hóspede, um jovem (interpretado por Terence Stamp) que acaba desestruturando completamente o ambiente.

Parêntesis, agora, para explicar do que falo com relação a João Pessoa de outro dia. O Cine Municipal, na Visconde de Pelotas, recebia, às quintas-feiras, um público mais seleto, por que composto de cinéfilos e intelectuais de todos os naipes. Era o chamado “Cinema de Arte”, dedicado à exibição de filmes mais apurados intelectualmente e normalmente indesejados pelos circuitos comerciais.

O “Cinema de Arte” do Municipal foi adotado pelo empresário Luciano Wanderley após reivindicação e muita conversa – conforme me lembrou, outro dia, o jornalista Sílvio Osias, cinéfilo de carteirinha desde os tempos em que era menino prodígio pessoense –, mantida com o pessoal da Associação dos Críticos de Cinema da Paraíba (ACCP), onde brilhavam os gênios de Jurandy Moura, Barreto Neto e Linduarte Noronha, entre outros. O projeto conviveu durante muito tempo com um sucesso de público espetacular, sendo mesmo responsável pela introdução de muita gente no universo do cinema.

Pois bem. Após mais aquela sessão do “Cinema de Arte”, como sempre ocorria, fomos todos à sede da Associação Paraibana de Imprensa, isto é, na mesma Visconde de Pelotas do Cine Municipal, mesmo lugar onde ainda hoje funciona a entidade. Na verdade, a menos de 100 metros, entre um prédio e outro. O debate foi comandado por Jurandy Moura, que fez uma introdução à temática do filme, expôs as vertentes de interpretação e abriu a palavra à ansiosa plateia.

Logo se formaram duas correntes interpretativas a respeito do conteúdo de Teorema. A primeira dizia que Pasolini havia baseado sua obra no pensamento de Freud. A outra achava que o cineasta italiano usou elementos justificadores tipicamente marxistas para a construção de Teorema. Para a primeira corrente, a desestabilização daquela família burguesa apenas revelava as fragilidades de cada uma das personagens diante das teses defendidas por Freud. Para a outra, tratava-se de uma metáfora sobre a decadência da família burguesa preconizada por Marx.

Quando o debate estava mais acalorado, eis que pede a palavra um militante comunista para expor seu pensamento. E o fez com a maior veemência, evidentemente se colocando ao lado dos que interpretavam o filme sob a ótica marxista. Mas, durante a defesa, não fez qualquer menção às cenas de Teorema. Em determinado momento, bastante intrigado, digamos assim, com a alienação da crítica, Jurandy foi lapidar: – Oh, bicho! Você viu o filme? A resposta, igualmente lapidar, não podia ser mais curiosa: – Não, e não precisava para entendê-lo. (risos)

Hoje, Luciano Wanderley, de grande importância para o cinema na Paraíba, já se mudou para a outra esfera. Jurandy Moura e Barreto Neto, também. Mas, bem que podia surgir outro “Cinema de Arte’ na Capital paraibana, com essas características, que incluam o debate sobre os filmes. Ressalvado que, por iniciativa do meu velho amigo de Pio XII, Mirabeau Dias, sempre coadjuvado pelo também ex-companheiro de Pio XII, Saulo Londres, e o Cine Mirabeau, a ideia do “Cinema de Arte” esteja, ‘en petit comité’, resistindo.




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