MEMÓRIA PESSOENSE: Padre Zé Coutinho - Sérgio Botêlho



Esta, quem me contou foi o saudoso deputado Antônio Ivo. Trata-se de um capítulo verdadeiro da vide dele (de Ivo), do qual ele nunca havia esquecido, provavelmente, até o último dia de sua vida, já que me foi relatada bem perto de sua até hoje lamentada morte.

Antônio Ivo, jovem e pobre, assim como era comum acontecer com outros interioranos iguais a ele, veio de Santa Luzia para estudar em João Pessoa. O abrigo que encontrou na Capital paraibana foi patrocinado pelo indefectível Padre Zé Coutinho, ali, no Mosteiro do Carmo, na Praça Dom Adauto, vizinho à Igreja do Carmo, no mesmo conjunto arquitetônico, composta de construções de épocas diversas, onde se encontra o Palácio do Bispo.

Antônio Ivo arrumou namoro com uma moça que residia no Miramar. E o namoro ia até bem. Na época, Padre Zé recebia doações de todas as partes, aí incluídos, além do poder público, e dos políticos, pessoas físicas em condições de fazer alguma doação de recursos para aquela obra filantrópica.

O dinheiro destinava-se à compra de alimentos para as dezenas de pessoas que dormiam em redes, do porão ao sótão, e que ocupavam as imensas mesas para o desjejum matinal, o almoço e uma sopinha no jantar. Era uma luta diária que não tinha fim. Aqui e acolá, me disse recentemente o jornalista Manoel Raposo, um dos abrigados de então, e contemporâneo de Ivo, a situação se apertava e Padre Zé não conseguia esconder a angústia.

Um dos maiores sofrimentos de Padre Zé era quando faltava dinheiro para o pagamento da carne, da mistura, como diz o sertanejo, com a qual melhorava a dieta diárias dos pobres. Quase sempre pedia aos meninos e meninas (havia moças pobres, e, segundo Raposo, elas dormiam no andar de cima, no sótão) uma ajuda no sentido de pressionar os deputados representantes de cada uma daquelas regiões dos abrigados ou quem mais aqueles meninos e meninas conhecessem de seus municípios vivendo em melhores condições, em João Pessoa, a fim de arrumar algum dinheiro capaz de saldar dívidas assumidas. E meninos e meninas faziam o que podiam. Também eles, os albergados e comensais, se encarregavam da faxina diária do prédio e das louças, em revezamento.
O próprio Padre Zé saia esmolando em favor de seus pobres pelas ruas da cidade. Vi muito o nosso padre, numa cadeira de rodas, com uma varinha a cutucar quem quer que passasse pela rua, em busca de donativos. Tinha como pontos de sua vida de pedinte as frentes do Plaza, Municipal e do Rex. Ou a calçada do Paraiba Hotel. Sabe mais o que ele fazia? À noite, chegou muitas vezes a ir à Maciel Pinheiro, onde pontificavam os cabarés da época, pedindo esmolas. Não lhe interessava onde, o importante era garantir a manutenção de sua obra.

Votando ao relato de Antônio Ivo, estava ele num desses revezamentos de faxina quando a moça do Miramar, sua namorada, entrou no albergue, acompanhada da mãe. Foram levar donativos. Não deu tempo de Ivo se esconder. Olhares inquietantes foram trocados, sem palavra.

À noite, mesmo assim, Antônio Ivo arrumou-se todo e foi procurar pela namorada, no portão da casa dela, como sempre fazia. Bateu e foi atendido… pela empregada. Ela conduzia um pacotinho que foi entregue silenciosamente ao apreensivo namorado. O embrulho continha cartas, bilhetes e fotografias, em inconfundível ato de devolução, como era praxe ao findar os namoros de então. Ele ainda pediu para falar com a moça, no que não foi atendido. Restou-lhe ir embora. Estava tudo acabado.

Mas, no Instituto Padre Zé, dos interioranos pobres que ali residiam, muitos acabavam conquistando o sucesso. Como foi o caso de Antônio Ivo, que, pouco tempo depois do episódio que lhe marcou a juventude e a vida adulta, viu-se aprovado no vestibular de Medicina da prestigiada Universidade Federal da Paraíba, praticamente garantindo vida futura bem melhor do que aquela em que vivia.

Para concluir esse episódio da vida de Ivo, ele, como de praxe, raspou a cabelo, nos trotes da época, meteu um boné verde na cabeça, que caracterizava os aprovados em Medicina, e, foi assim que, de boné, no Ponto de Cem Réis, caminhando em direção ao Instituto, viu-se frente a frente com a ex-namorada. Foi um susto! Ela esboçou um sorriso e fez menção de abraçá-lo, ou, ao menos, cumprimentá-lo. Mesmo ainda gostando da moça, Antônio Ivo evitou o encontro, para nunca mais vê-la.

Foi o personagem de nossa crônica, depois médico, deputado e prefeito de Santa Luzia, um dos beneficiados pela suprema boa vontade de um homem insuperável, na vida pessoense, no desejo de fazer bem aos outros. Um homem chamado Padre Zé Coutinho, merecedor, todos os dias, de todas as homenagens que puderem ser feitas, em João Pessoa, pelos tempos afora.

Falar nisso: já existe algum movimento católico visando a beatificação de Padre Zé? Pergunto, por absoluta ignorância.




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