Carta ao Tom 94 - Francis Lopes Ferreira



 
João Pessoa, 08 de dezembro de 1994.

Querido Tom: hoje, quinta-feira, 08 de dezembro de 1994, minha vontade é não escrever. Escrevo como sonâmbulo, na esperança, talvez, de que as palavras consigam diminuir a minha tristeza. E me vem à mente que há dois tipos de tristezas: tristezas tristes e tristezas alegres. Tristezas tristes são tristezas pelas coisas que poderiam ter sido e não foram. Tristezas alegres são tristezas pelas coisas que poderiam ter sido e foram. É o que sinto com a sua morte: estou triste alegre. Triste porque você se foi e alegre porque você viveu. E confesso pra você aqui o que julgo ser a mais alta declaração de amor já feita por um fã: “Gosto mais de você que de mulher!”.

“Ora, ora!” – dirá um incorrigível machista – “uma declaração de amor a um homem...”. Pois não tenho vergonha alguma. Sônia Braga disse uma vez que você era o homem que toda mulher gostaria de ter, porque você era masculino e feminino ao mesmo tempo. Acho que ela tem razão. E porque você era feminino – aquele rosnado doce, tomando chope – me sinto com permissão para amá-lo com ternura. Acho, Tom, que o Brasil, atolado até a medula num pântano de mediocridades, é uma mãe com as cinzas do filho morto nas mãos. E choramos...

Choramos um choro triste alegre, pois há uma coisa que nem a morte pode fazer: não tem o poder de tirar da gente a música que você fez. Na verdade, Tom, não sei direito se você a fez. A música é eterna, existiu sempre, é anterior à germinação do cosmos. A Bíblia que diz “No princípio era a palavra...”, acho que se equivocou. O que ela queria dizer era “No princípio era a música...”. Talvez seja a isso que damos o nome de Deus.

Quase escrevi um absurdo, mas me detive a tempo. Eu ia dizer “mistério e silêncio do mar”. Mas me lembrei que o silêncio só existe para nós que temos ouvidos convencionais. Você se lembra, Tom, do que disse Fernando Pessoa num de seus poemas mais lindos?
...e a melodia que não havia
se agora a lembro,
faz-me chorar...

A música, Tom, é o mar misterioso e ignoto de onde germinamos. Dizer que o músico compôs a música é o mesmo que dizer que o peixe inventou o mar. Não era a música que brotava de você. Era você que abrolhava da música. O cosmos, como você, também floresceu da música. Você sabia que filósofos e místicos antigos sustentavam a acalentadora hipótese de que o cosmos fora criado como coro e orquestra que cantassem a melodia que não havia – para que houvesse? Com o que você concordaria. Músicos não são os que compõem música. Músicos são aqueles que tem o poder de ouvir a melodia que nossos ouvidos mortais não conseguem ouvir.
Você, Tom, tocava piano e a sua respiração pesada no instrumento, entre a letra das músicas, fazia-nos felizes no corpo e na alma. Mas você devia saber que você mesmo era piano que os deuses tocavam para sua própria felicidade. É que os deuses, Tom, têm inveja do que sentimos quando o corpo se comove com a beleza e mexe com o ritmo. Acho mesmo que, como um ritual de feitiçaria, os deuses inventaram o piano e homens iluminados como você no grato afã de que a música lhes desse corpo como os humanos. Vai ver que a música só atinja sua estética suprema ao ser ouvida com ouvidos mortais...

Olha, Tom, estou aqui improvisando num teclado de computador, tentando fazer música com palavras. Estou trabalhando num arquivo que está guardado faz tempo. Lembrei-me dele ao ouvir dizer que o seu problema era “edi...piano”. Gostosa brincadeira, mistura de amor e música. O nome do arquivo é "O piano": chama assim porque nele coloco idéias que tive depois de assistir ao filme de mesmo nome. Pensei em escrever alguma coisa, mas logo desisti: nada do que eu dissesse poderia se comparar àquele belíssimo filme em que o corpo nu de uma mulher e as teclas dum piano é a mesma coisa. Essa imagem inesquecível me marcou: o mar furioso lambendo a areia lisa da praia que a luz transforma em espelho onde se reflete um piano. Ali estava, numa única imagem, uma síntese dos mitos cosmogônicos: a eterna batalha entre a fúria do caos e a beleza do corpo, o mar em luta com o piano.
Que delicioso piano deve ter sido a sua famosa garota de Ipanema! Corpo e mar devem saber amar...

Penso, Tom, nesse filme e me lembro duma poesia antiga, acho que de Casimiro de Abreu:

Eu me lembro, eu me lembro, era pequeno e brincava na praia... O mar bramia. E erguendo o dorso altivo sacudia a branca espuma para o céu sereno. E eu disse à minha mãe naquele instante: Que dura orquestra! Que furor insano! Que pode haver maior que o oceano ou mais forte que o vento? Minha mãe, a sorrir, olhou para o céu e respondeu: ‘Um ser que não vemos é maior que o mar que nós tememos, é maior que o tufão, meu filho. É Deus!‘.

Em tudo igual, minha versão só é diferente no fim, Tom Jobim. E pra você a dedico, pois se há um cara com poder para dizer a última coisa que foi dita, esse cara é você.
Eu me lembro, eu me lembro, era pequeno e brincava na praia... O mar bramia. E erguendo o dorso altivo sacudia a branca espuma para o céu sereno. E eu disse à minha mãe naquele instante: Que dura orquestra! Que furor insano! Que pode haver maior que o oceano? Minha mãe, a sorrir, olhou para mim e respondeu: ‘o piano...‘.
Pois é, Tom, penso que é isso que você diria. Com o seu piano você amansou o mar. E sabendo que você já mergulhou no mar absoluto, sinto-me sonolento de novo. Por um breve instante, entre a vigília e o sono, tive a impressão de que seguira o som do piano. E então mergulhei no escuro do esquecimento...
Beijo deste,
Francis





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