Domingos Montagner e Camila Pitanga: Sucesso e tragédia se unem e mergulham nas águas revoltas do Rio São Francisco - Gilvan Freire




É de relembrar Airton Sena, na curva Tamburello , manhã daquele trágico 1 de maio de 1994, em Ímola, onde o caminho de sua vida perdeu o prumo e a morte assumiu a direção de sua MacLaren. A vida é assim : uma pista comprida cheia de curvas pela frente e abismos por todos os lados.

A morte de Domingos Montagner, no cenário dramático e místico do Rio São Francisco, assim como aconteceu com Sena, mexeu com o psicológico do povo brasileiro, já traumatizado pela tragédia política que se abateu sobre o país e gerou uma depressão coletiva. E mergulhou a esperança nos redemoinhos.

Parece o fim surpreendente e chocante de outro Sena, não mais nas pistas mas nas águas agitadas do rio das assombrações , onde canoas e embarcações usam carrancas de monstros para afugentar maus presságios e maldições milenares.


RIo da integração nacional, porque é o maior rio que nasce e escoa dentro do território brasileiro, o São Francisco é um mar de lendas, quase todas fatídicas. Teria surgido, segundo uma delas, das lágrimas da bela índia Iati , diante da morte inesperada de seu amado , um guerreiro tribal charmoso e sedutor. Ele próprio teria criado o caminho das lágrimas pisoteando o chão com suas tropas de guerra, descendo pela Serra da Canastra, lugar onde surgiu a primeira calha.


Diz outra crença que mora no São Francisco um ser esquisito, musculoso e de pele cor de bronze, que tem o corpo assemelhado ao de um menino de doze anos, com um só olho grande na testa, meio feioso, tendo unhas enormes e não tendo cabelos. Seria o defensor do rio contra invasores e predadores. Seu nome é Caboclo D‘água, ou Nego D‘água, o virador de canoas, que já fora visto com escamas misturadas a peles pelo corpo.


As carrancas assustadoras colocadas na frente dos barcos teriam o poder de espantar o misterioso Caboclo, que ataca quando o rio dorme e os pescadores perturbam os peixes. Se só perturbam, vira o barco, mas se lhe agradam soltando fumo nas águas, são generosamente recompensados. Seus gemidos de fúria são aterradores.


Ribeirinhos do Juazeiro crêem no fantasma da menina muito linda que, encantada
com a sua própria beleza refletida nas águas cristalinas do velho Chico, não percebeu o passar da hora da Ave Maria sem voltar para a casa de seus pais, e virou serpente que vomita fogo - Serpente da Ilha do Fogo, protetora da cidade, do rio, e carrasca dos pecadores, dos que agridem o meio ambiente e dos que comentem injustiças sociais.
Domingos e Camila, talvez impulsionadas pelo fogo de uma paixão ardente, ou arrastados pelo feitiço e a magia das águas místicas do rio das divindades e dos monstros, só queriam purificar seus espíritos, sem entender que há horas em que o S. Francisco dorme e corre manso, como mansos eram eles próprios, mas há horas em que os fantasmas se enfurecem, fazem redemoinhos nas correntes agitadas e atacam - assim como atacaram e puniram aquela menina muito bela do Juazeiro.


Mas, por quais razões Camila e Montagner teriam sido vítimas de ataques tão desumanos e traiçoeiros, sem culpa e sem pecado mortal ? Por que essas divindades-monstros se irritaram tanto ?


Seriam ciúmes da parte de Nego D‘água, porque não tem a formosura e garbo de sua última vítima fatal inocente, desprevenida para entender as armadilhas de seu cruento esconderijo aquático ? Seriam também ciúmes da menina do Juazeiro, porque as águas do rio refletiram o rosto e o corpo de Camila, mulher mais linda do que ela ? Ou seria uma vingança da índia Iati, ainda pranteada e inconformada com a perda de seu guerreiro tribal encantador ?


Bem, enquanto não há respostas, inocentes morrem para que as lendas sobrevivam.





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