Quem sempre me fez sorrir, hoje me fez chorar. - Leila Araújo



 

 Eu o conheço faz tempo. Ele é muito magro e aparenta ter bem mais idade do que deve ter, provavelmente por conta das drogas e da miséria em que vive.

Mas continua mandando muito bem no malabarismo com argolas que faz num sinal de trânsito em que frequentemente paro.

Como já me conhece, nem se dá ao trabalho de levantar a camisa e girar para mostrar que apesar de tudo não é assaltante. Ou não está assaltando ainda, ou naquele momento. Tanto faz.

Na nossa sociedade essas coisas tanto fazem. O fato é que hoje ele, que nunca vi sorrir, sorriu. Um sorriso bem sem prática, um malabarismo de rosto que certamente não está acostumado a fazer.

Espontaneamente sorri de volta e fui pegando o trocado na cadência rotineira entre a abertura do sinal e sua aparição na janela do ônibus. Ele me olha, já com a habitual tristeza no olhar e diz - "guerreira, hoje não precisa dar nada... seu sorriso já valeu".


O ônibus arranca e ainda observo seu aceno pela janela. Quem sempre me fez sorrir, hoje me fez chorar. E posso dizer que lamento, profundamente, viver num país em que historicamente deixamos o futuro para trás.




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