BRASOMÁLIA – BRASIL COM PERFIL DA SOMÁLIA - Virgolino Alencar



Virgolino de Alencar

Nos anos cinquenta, o Brasil se dividia entre os políticos alinhados com a política dos Estados Unidos, chamados então de entreguistas, e os nacionalistas, chamados de xenófobos. Os primeiros também eram anatematizados como direita reacionária e os segundos como camarilhas comunistas. Para o grupo político que afirmava ser bom para o Brasil o que fosse bom para os Estados Unidos havia a réplica de que eles consideravam nosso país como Estados Unidos do Brasil.

Embora essa divisão, de certo modo e teoricamente, continue a ser lembrada nas questões político-ideológicas, ao longo do tempo ela tomou muitos rumos e muita água rolou por debaixo da ponte, enquanto em cima se discutia os caminhos para o país.

Mesmo aos trancos e barrancos, o Brasil cresceu, sempre dentro de seu modelo, em que a riqueza é concentrada nas mãos de poucos e a maioria é excluída do banquete onde se come refinadas iguarias. Com a população crescendo, mesmo que o modelo mantenha-se uniforme, com o próprio fosso de separação de ricos e pobres aumentando de profundidade, o número dos que podem consumir aumenta e o mercado torna-se mais poderoso.

Quando ocorreu, a partir dos anos setenta, um crescimento e uma modernização mais acentuados, Edmar Bacha, economista e cientista social e escritor, criou para o Brasil a alcunha de Belíndia, significando que a economia do país tinha porte de uma Bélgica, mas mantinha índices sociais dignos de uma Índia, que à época se caracterizava por ser um país grande em dimensão, tanto quanto enorme na pobreza.

Já tínhamos riquezas de primeiro mundo e situação social, em termos de distribuição de renda, que se nivelava com o terceiro ou quarto mundo. Nos anos recentes, em que pese os maus governos que tivemos, com a globalização e o mercado mundial unido em tempo real, o Brasil ganhou o rescaldo da riqueza criada no primeiro mundo e cresceu bastante.

O nosso país, pelo seu potencial, foi descoberto pelas potências que formavam o G-7 e estas o elegeram, como também a China, a Índia e juntando mais a Rússia que faz parte dos dois blocos, para despejar seus maciços investimentos e aplicar seus dólares, atraídos, no caso especial do Brasil, pelos generosos juros pagos ao sistema financeiro e pelos governos que sujeitaram-se ao monitoramento das grandes potências.

A imprensa econômica mundial criou, informalmente, o grupo chamado de BRICS (iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), para onde estavam sendo carreados os recursos excedentes nos caixas dos países componentes, principalmente, do G-8. Do BRICS, o Brasil é o país que mais recebe investimentos estrangeiros em relação a seu Produto Interno Bruto-PIB, mas é o que apresenta menor índice de crescimento e maior taxa de inflação. A atração dos investimentos, como dito antes, deve-se à taxa de juros, uma das maiores do mundo.

Nesse modelo, a economia do Brasil é, hoje, grande na dimensão de seu PIB, mas permanece o mesmíssimo estado de coisas, ou seja, o enorme fosso entre os ricos e os pobres. 20% dos brasileiros detêm 80% do bolo das riquezas, restando 20% dele para 80% de brasileiros. A distribuição de renda é acanhada, muitas vezes feita mediante assistencialismo, doação, com caráter de esmola, de dinheiro sem retorno, sem geração de produto, ou seja, dinheiro que vira fumaça.

O Brasil tentou em época recente seguir, na economia, embora muito atrás, os caminhos da China, com algum desenvolvimento. Contudo, por outro lado, conservou um volumoso nível de pobreza, de baixo Índice de Desenvolvimento Humano-IDH (nesse item, o Brasil é o 72º país no mundo, perdendo para nações cronicamente atrasadas, porém com qualidade de vida humana melhor do que em nossa grande nação).

Por isso, lembrando Bacha e sua avaliação do Brasil dos anos setenta/oitenta, que intitulou o Brasil de Belíndia(Mistura de Bélgia e Índia), agora podemos dizer que o Brasil se aproxima da

Somália, com índices sociais da nação norteafricana, onde a fome impera desumanamente, matando populações, cujas vítimas chegam à casa da dezena de milhares.

Esse quadro do Brasil, por si só lastimoso e negativamente singular, é agravado pela imensa corrupção que destrói as estruturas administrativas públicas, fazendo com que os projetos de melhoria e benefícios para a população tenham os seus recursos desviados para contas de paraísos fiscais, em nome exatamente de muitos daqueles que são responsáveis pelo destino





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