Eu achei que havia morrido junto com Ariano! - Bira Delgado



Eu achei que havia morrido naquele fatídico dia 23 de julho de 2014, junto com Ariano Suassuna. Eu achava que, junto com ele, também iria a sua maior fortuna: o seu legado em defesa de nossa cultura. Mas hoje eu fui ressuscitado por um gesto nobre de um amigo. Tenho certeza que, agora, teremos outros Arianos espalhados por aí e que estas sementes precisam ser plantadas e regadas com carinho.

Primeiro, por mim mesmo; depois, por Ariano e a sua luta incessante em defesa da nossa cultura e pelo privilégio que tive de ter convivido com Ariano em momentos especiais, extraordinários. Eu chorei com o falecimento de Ariano; mais do que quando meu pai morreu! Foi uma perda para o Brasil, para a América Latina e para a Literatura mundial. Um cabra bom danado daquele teria que ter vivido pelo menos duzentos anos. Mas Ariano vive! Vamos à luta.

Os defensores da famigerada “globalização” estão rodeando o morto para devorar a sua carniça, mas não vamos entregar nada tão fácil. Com certeza. Contudo, a grandeza multidimensional, o valor político-pedagógico e cultural de Ariano é realmente imenso! Possui uma força, uma coerência, um tutano universal. Sua obra não morrerá. Como educador, estou convencido disso; e até coloco a perspectiva de estudá-la dentro da perspectiva científica, também, da Educação Popular. Quero dialogar com Carlos Newton Júnior para socializar esta ideia com ele a ver o que produziremos academicamente para mostrar também a dimensão político-pedagógica educativa de Ariano. Tem muito coisa para ser reiventada a erguermos bem alto sua bandeira sertaneja-universal.

Ainda em minha mente as mais importantes palavras que escutei de Ariano Suassuna, como se fosse uma convocação do mestre a fim de não me deixar correr da raia: "Os americanos não precisam mais de força ou tropas militares para continuar o seu império no mundo. Para tal, basta ‘Maico Jckson’, Madona e etc. O domínio é pela cultura-lixo levando uma cultura de massa. Eles ficam mais ricos (financeiramente) e mais poderosos imperialistas. Bira: eu já sou uma vítima de uma briga política na minha terra (Parahyba); como é que eu posso dar apoio a um projeto no qual irei provocar ainda mais divisão entre os meus?"

O extraordinário Milton Santos, em seus fecundos estudos, mostra e prova que o processo de “globalitarismo” – como ele classifica o atual processo de globalização – gera cotidianamente uma avassaladora e criminosa destruição deste formidável patrimônio cultural latino-americano, que é nossa cultura popular. Os Estados Unidos, sua indústria bélica e de entretenimento nefasto, preconizam para o mundo o “American Way Of Life”, isto é: “o modo de vida americano”. E, infelizmente, a Internet tem sido usada como uma dessas nefastas pontas de lança do processo, pois há hegemonia do idioma inglês no seu contexto.

A obra de Ariano é fantástica, também, pelo fato de existir uma unidade formidável entre o pensar e fazer do seu próprio autor. A coesão, a coerência, a simbiose entre o que Ariano dizia e fazia produzia está numa dimensão pedagógica tão bela quanto a do saudoso e imortal educador Paulo Freire.

Vejo que as pegadas do mestre Ariano estão aí bem definidas, claras, nos desafiando a nos mantermos firmes, irresolutos na defesa, proteção e promoção (real) da cultura popular brasileira. E não estou falando de sua folclorização, ou carnavalização; estou me reportando ao que foi objeto de suas pesquisas, sonhos, trabalho, angústia, sofrimentos do ser humano que, como Euclides da Cunha – a quem admirava – também entrava nas entranhas mais profundas, belas, amplas e reais de nossos sertões tornando-os universal.

Ariano é madeira latino-americana que cupim não rói.

Precisaremos ir à Recife, Taperoá e outros lugares do universo cultural de inspiração de Ariano para agregar valores ao projeto e estabelecermos os necessários diálogos com companheiros e companheiras destes lugares.

Eu acredito na viabilidade, necessidade, importância, validade e extremo valor do projeto “Nas pegadas de Ariano”. Ele vai nascer para Ariano, lá no céu, poder continuar dando, com máxima lucidez, suas belas gaitadas.

Acho que tais considerações, mesmo emocionais, repletas de humanismo, amabilidade e fraternidade são muito pertinentes. Mais que desabafos, são posturas pedagógicas. A Paraíba e o Brasil continuam tendo uma grande dívida com pessoas pensadoras grandiosas como Ariano, Celso Furtado, Milton Santos e Josué de Castro – apenas para citar os mais próximos do Nordeste.

Vem aí “O Jumento Sedutor”, livro que Ariano deixou pronto para revitalizar, aprofundar, clarificar, aperfeiçoar e difundir este grande legado cultural de Ariano Suassuna.

Vai ser muito bom este acontecimento.

Da mesma forma que Ariano teve a capacidade de promover as conexões entre literatura, cinema, dança, teatro, escultura, artes visuais e arquitetura, nós temos o dever moral, ético, intelectual de nos esforçarmos, criativa e originalmente, para reiventarmos evolutivamente sua obra; principalmente por sermos sertanejos.

Ariano simplesmente é; para além do regional.

Cada vez que fizermos a defesa, proteção e promoção da obra do gênio de Ariano nós estaremos fazendo a nossa própria defesa, proteção e promoção. E quanto digo “nós” é a totalidade da legião de sertanejos, nordestinos e brasileiros reais, espalhados por este Brasil afora.

Eu percebo, embora que limitadamente, a natureza pluralista, multidimensional da obra daquele companheiro. Dentro do seu contexto, habita, pulsa, com vigor, ainda, a Educação, a Sociologia e a Filosofia, entre outros componentes do conhecimento.

Há "pano pras mangas" em Ariano, e ainda sobra.

Abraço fraterno.

Parahyba, 28 de janeiro de 2015 




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