A catástrofe - Gilvan Freire


Ninguém é capaz de decifrar as lições e sentenças do tempo, a não ser quando elas já aconteceram. Melhor assim, pois nunca se saberá nada sobre as surpresas que o tempo prega, ao menos que os fatos sejam previsíveis. Se as pessoas soubessem com antecedência o que lhes vai acontecer, a vida humana seria uma obra de planejamento, puramente mecânica e manipulável, sem grandes novidades surpreendentes. E, então, o que se faria com a morte, que poderia ser identificada, adiada ou evitada? Fosse assim, o que se faria da morte súbita, dessas que não avisam nem dão sinais?

O desastre de avião que matou Eduardo Campos deve ser entendido assim: a vida e a morte são surpreendentes. Se há quem possa entendê-las e até explicá-las, não há ninguém que possa advinha-las ou decifrar-lhes o mistério da surpresa - um enigma insondável que torna todos o seres humanos frágeis, vulneráveis, talvez para que não se julguem soberbos ou poderosos. A nenhum homem normal será dado o direito de ignorar a sua própria falibilidade, porque ela decorre de sua mortalidade inafastavel. Todos têm o direito de viver mas sem saber quanto, e têm a obrigação de morrer. Sim, morrer é um dever, porque é obrigatório. Ninguém pode estrebuchar, apenas lamentar.

A lamentação é o direito que o povo brasileiro tem, neste momento, para expressar o sentimento de perda que varre o país e se abate sobre o Nordeste diante da morte impensável de Eduardo Campos. Há razões de sobra para que o povo psicologicamente se choque e sentimentalmente se perturbe com a sua partida tão precoce.

Primeiro, ele era um espelho de um Nordeste que pode dar certo aos olhos do resto do Brasil. Um Nordeste não raquítico, não acanhado, capaz de criar seu próprio Jucelino e sua Brasília, um canteiro de obras de bilhões de dólares e milhares de empregos.

Segundo, ele era jovem, realizador, atrevido, ousado, sem complexo de inferioridade, e falava ao país todo com intimidade. Ou seja, era um nordestino com a mentalidade de um brasileiro metropolitano e cosmopolita, integrado à nova classe política que o Brasil está formando para compor as elites dirigentes do mundo globalizado.

Terceiro, ele pertencia ao movimento de resistência ao continuísmo político que transforma o país numa muleta do domínio partidário, e que faz do Estado e do governo uma só entidade a serviço de causas de pessoas e grupos.

Quarto, ele ia ajudar, a partir do Nordeste, ao povo se libertar do regime de escravidão eleitoral, baseado agora em esmolas institucionais que fidelizam o voto e o vinculam, por dependência, aos detentores do poder.

E AGORA?

Embora seja cedo, abre-se hoje inevitável especulação sobre os efeitos da morte de Eduardo Campos. De lado a tragicidade do acidente, mais trágico ainda é a sua saída do processo eleitoral, em que teria, no mínimo, um papel regulador. Contudo, a sua morte é o fato novo da campanha no Brasil, certamente um fato com imensa capacidade de mexer no tabuleiro político e alterar as expectativas do eleitor. Se toda campanha eleitoral está sujeita a surpresas e mudanças bruscas, a atual está começando com uma tragédia em que a morte humana sobe no palanque e promove reviravoltas.

Marina silva, uma espécie de Lula magro de saia, é a herdeira natural de Eduardo Campos, de quem recebe um legado repleto de significados políticos e comoções, talvez o que estava faltando para quebrar a monotonia e as polaridades das eleições. Não será esta mais uma das peças pregadas pelos tempos indecifráveis e uma catástrofe que exige esforço de reconstrução das perdas?

No próximo artigo, será abordada a repercussão política eleitoral da morte de Eduardo Campos na Paraíba. Será que RC bambeia para as bandas de Dilma e o PT, ou vai se agarrar a Marina como tábua de salvação e deixar Dilma e o PT a mercê da fera nova da selva amazônica?

Este artigo integrará o futuro livro:
‘PREVISÕES POLÍTICAS DE UM VIDENTE CEGO’
E-mail: gilvanfreireadv@hotmail.com





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