Cadê o doce mundo prometido? José Virgolino de Alencar

 Cadê aquele doce mundo que me prometeram, quando ainda criança me ensinaram e quiseram me convencer de que eu estava entrando no caminho da felicidade e me foi assegurado o jardim do Éden? Eu entrei nesse mundo cheio de esperanças, aprendi que a fé me levaria a uma vida sadia e à salvação, depois de cumprir todas as jornadas na terra.

 

Realmente tive, quando criança, direito a todas as brincadeiras, umas sadias, outras nem tanto, mas perfeitamente justificáveis para aquela fase da vida. Vadiava, pulava, jogava peladas, traquinava nadando pelos rios de minha aldeia, comia frutas, às escondidas, nas propriedades ribeirinhas, fazia muitas travessuras inocentes, enquanto aguardava com animada expectativa o doce mundo que me prometeram.

 

Adolescente, já sonhava com o mundo perfeito que profeticamente viria, cantava as canções e hinos que me ensinaram, prometendo que aquelas lições eram a base da cidadania, da construção de uma vida vitoriosa, gloriosa, bastando ser um cidadão aplicado, devidamente ajustado às normas da convencionalidade que ditava seguros caminhos para o futuro.

 

Entre os sonhos e utopias que ia aprendendo, curioso me perguntava em que bases as lições me garantiam que eu iria encontrar um mundo imaculado, perfeito, porque afinal também me ensinaram que ele tinha sido feito pelo Criador, onipotente, onipresente e onisciente, infalível enfim.

 

Ao entrar na escola formal, a mente evoluindo e já tendo capacidade de pensar, cada vez mais aguçava a curiosidade sobre a verdade das lições, porque começava também a assistir as contradições do mundo, as guerras, as violências, as desigualdades, as grandes riquezas, as imensas pobrezas, as doenças que matavam crianças, adultos e idosos.

 

Um ponto de dúvida me assaltava, muita coisa na minha cabeça não via compatibilidade entre as lições ensinadas e a realidade observada. Os questionamentos bateram forte, sacudiram os neurônios do raciocínio e da inteligência, para formar uma visão crítica do mundo.

 

Vivendo na corrente e sob os ventos que sopram nossa vida, levando para caminhos que nem sempre a gente deseja, o tempo passou como um relâmpago e aqui me encontro, já na terceira idade, consciente de que muito fiz, muito construí, muito colaborei para um mundo melhor, venci na vida, se considerarmos as conceituações vigentes, mas o doce mundo que me prometeram quando criança, decididamente, não vi, não creio que veja mais.


Mesmo achando que vale a pena sonhar, não seguro mais os sonhos com o ânimo e a fé dos primeiros anos de vida. E continua na cabeça a indagação: cadê o doce mundo que me prometeram quando criança?





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