Porque Hoje é Sábado - Tião Lucena

 

A feira de Princesa sempre foi grande. Por isso se realizava na Rua Grande, a maior e principal avenida da cidade. Só o açougue ficava distante, na Rua São Roque, saída pra Pernambuco. Por trás do açougue, a Lagoa da Perdição, onde a meninada pegava os fatos dos bodes e levava pra lavar e levar pra casa. Naqueles ontens buchada de bode não se vendia, era comida de pobre, comida gostosa que os ricos só vieram a descobrir depois e gostaram tanto que a incorporaram no seu cardápio.
**
O Bar de João França, na descida da Rua Grande, em frente à loja de Miguel Rodrigues e vizinha a de Zé Pires, era o point dos cachaceiros. Ficava lotado de uma ponta a outra. E João, sempre solícito e brincalhão, a todos atendia e atendia muito bem. Nesse bar aconteceu o famoso encontro de Lula Roberto com o sargento Aristides. Eu vi. Lula entrou no bar, o sargento se encontrava nos fundos comandando animada mesa, Lula do outro lado apontou o revólver e acertou três tiros na testa do sargento. Como o revólver era velho, as balas só fizeram perfurar o couro cabeludo, de modo que o sargento ainda saiu à calçada e disparou contra Lula que corria entre os sacos de farinha. As balas de Aristides se alojaram na parede da antiga igreja.
**
As lojas de tecidos eram comandadas por Belo Maia, por Antonio Maia, por Zé Pires, por Miguel Rodrigues, por Hermes Maia e por Valdemar Abrantes, todos hoje, parafraseando o conterrâneo Zé Medeiros, residindo no andar de cima, por ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a missão de preparar os mantos dos santos.
**
Descendo pelo beco da Rua São Roque, a parada obrigatória acontecia no Bar de Zé Brejeiro, que fazia uma cachaça Pau Dentro de entupigaitar de forte. A bicha era tão forte que se o cabra peidasse depois de engolir a lapada, a tampa do cu voava. Mas ele servia um caldo de mocotó com forças suficientes para minimizar os efeitos da marvada.
**
E o Bar do Peixe, de Dona Maria do Ó!? Dona Maria, figura terna, simpática e comunicativa, comandava os atendimentos. Preparava uma traíra frita e a servia com guarnições de tomate, cebola e alface. Crocante, era comida por inteiro. As espinhas se desmanchavam na boca. E quando não se desmanchavam, eram expelidas com a categoria ensinada por Zé Lima, pai de Genésio, que comia até cinco pratos, desde que não fosse ele o pagador.
**
No Bar de Dona Maria tinha até cantor. Paulo Bocão, com seu violão, imitava Vicente Celestino e se saía até melhor do que o original, tamanho era o seu volume de voz.
**
Bares, bares e mais bares. Arlindo abria o seu logo cedo, na entrada do açougue. A sua voz tinha dois tons, como voz de adolescente. Era abusado, não vendia fiado, parecia muito com Neco Rato de Guarabira.
**
Na outra esquina, perto do beco do quebra-queixo, tínhamos o Bar de Mirabeau Teodósio, que servia a Brahma da Antarctica mais gelada da cidade. Palco de namoros advindos dos assustados inesquecíveis, no Bar de Mirabeau tinha até reservado pra se beber escondido e namorar mais a vontade. Só perdia para o de Bartô, na Rua Grande, que alem dessas vantagens, oferecia um imenso quintal onde a rapaziada ia mijar.
**
E lá se vão meus abraços para Dil de Severino Almeida, Véi de Severino Almeida, Cicero, Zé, Richomer e Severino de Ada, Sales da Escorregada, Zé de Lourenço, Antonio Lira de Maria do Ó, Antonio Gordão, Agnelo Muniz, Paulo Mariano, Anita e Lourdinha de Zé Marreta, Dinha Mariano, Bibiu e Miguezim Lucena, Ivo de Lindolfo, Monica e Maria de Ada, Nicinha de Zezim Ourives, Eudésia de Tião da Padaria, Kunca de Antonio Eugenio, Maria de Tozinho, Alexandre de Antonio Maia, Moab de Pedro Crente, Antonio Laurindo, Bidiça de Benedito Sabe Tudo, Tadeu de Antonio Fonfon e João Fó.
**
Augusto Preto era marchante em Princesa, vendia carne de porco no açougue. Num fim de feira, salgou a carne que sobrou. Terminava a tarefa quando chegou o velho Piga, velhaco contumaz, solicitando quatro quilos de carne fiado, para pagar no sábado seguinte.
Sem levantar os olhos e segurando a faca enfiada num pedaço de carne, Augusto respondeu:
-Já to saigando pra num perder...”


 

 





Comentários


Comentar


Sidebar Menu