MEMÓRIA PESSOENSE: As casas de Irene e Hosana - Sérgio Botêlho



 

O salão era margeado por cadeiras onde moças permaneciam sentadas, bem vestidas, bem maquiadas, a maioria, risonha, outras, mais quietas como a pensar distante, mas, todas, esperando clientes; alguns, já conhecidos, outros, que nem sequer sabiam quem eram.

A porta, geralmente fechada por dentro, só era aberta depois de uma observação, por meio de uma portinhola, para ver de quem mais ou menos se tratava. Após o esquadinhamento, da cabeça aos pés, então a porta podia ser aberta, ou não.

No salão, a indefectível luz vermelha. Na sala contígua, as mesas com os clientes, com ares de supremacia masculina inquestionável e, via de regra, risos largos nos rostos. Aqui e ali, a vista cubava as moças sentadas no salão.

O ambiente era brega, como se diz, hoje, mas, um brega de certo luxo. Os garçons, profissionais, em sua maioria, atendiam com presteza, e, ao longo do tempo, tornavam-se amigos das moças. Normalmente, não passavam desse ponto. Mas, aqui e acolá, até podia pintar um casamento.

Ao fundo, uma vitrola de ficha atendia às preferências dos clientes manifestadas justamente por meio de uma ficha antecipadamente adquirida junto aos garçons ou no próprio balcão do estabelecimento.

De vez em quando, um cliente ia tirar uma daquelas moças para dançar, no maior respeito. A partir dali, seria possível evoluir para um “namoro” que geralmente terminava num dos quartos das casas. Não havia ainda os hoje tão famosos motéis.
A descrição que faço tanto serve para entender o que era a Casa de Irene ou a Casa de Hosana, ou melhor, o Cabaré de Irene ou o Cabaré de Hosana, na João Pessoa das décadas de 50, 60 e início de 70 (nesta última quadra, já em decadência).

Sabe aquelas vitrolas de ficha de que falei ainda há pouco? Pois bem. Havia época em que a música era executada por orquestras, ao vivo e a cores, como se diz, em bailes onde só entrava “quem tinha negócio”, ou seja, os mais abastados.

Empresários, altos representantes comerciais, fazendeiros, médicos, advogados, engenheiros, e raros “filhinhos de papai” reconhecidos por Hosana e Irene formavam a clientela mais prestigiada nesses dias de gala dos cabarés.

Nos dias comuns, era possível, então, ver estudantes universitários e, mesmo, secundaristas, em busca do amor das jovens comandadas por Irene e Hosana. Muitos amargavam contínuos insucessos já que não eram, apesar da juventude, objeto de desejo das moças: “turma de liso e de xexeiro”.

Outros cabarés existiam em João Pessoa, na época a que me reporto. Eles se distribuíam entre a rua da Areia, a Maciel Pinheiro, e, mais populares, ainda, na rua Silva Jardim e em Tambaú, ali por trás do Elite Bar.

Contudo, os mais famosos, porque mais organizados e mais requintados, eram os cabarés de Hosana e de Irene. O primeiro, na Maciel Pinheiro, na parte mais alta da rua, o segundo, na rua da Areia, já mais perto de a via se encontrar com a Maciel.
Era desse jeito que funcionava parte do lazer durante uma época em João Pessoa, e creio, pelo Brasil afora. Uma época de puritanismo militante e dos exames de virgindade a comprovar “honras” femininas, onde alguns dos mais puritanos dos homens podiam ser facilmente encontrados nos cabarés de Hosana e de Irene. Cabarés que fizeram história na vida noturna de João Pessoa.

MEMÓRIA PESSOENSE: Malhação do Judas, na Vila dos Motoristas - Sérgio Botêlho



Se o estudioso se decidir por levantar a história cultural e social de João Pessoa, não vai conseguir entender muita coisa se não fizer uma incursão demorada pelas memórias dos bairros de Jaguaribe, Torre, Centro, Cordão Encarnado e Roger.
Pois bem. Relembro hoje um evento dos mais tradicionais que João Pessoa já registrou e é mais um do bairro de Jaguaribe. Falo da Malhação do Judas, na Vila dos Motoristas e que tem nome e sobrenome vinculados à referida tradição: Ednaldo Marinho, o Galego da Vila.


Aliás, a Vila tem uma carga memorial formidável e profundamente ligada a Jaguaribe de ontem e de hoje, principalmente em virtude de certa vivência comunitária entre vizinhos, compondo uma grande família, que, como toda família, tem encontros e desencontros.

Sobre a Malhação do Judas, a festa atraia em seus momentos mais grandiosos gente de todos os recantos da capital, além, é claro, do povo de Jaguaribe, sempre ligado aos eventos do bairro, para acompanhar o espetáculo comandado pelo Galego.
Na verdade, Marinho sempre foi uma figura que transcendia, em popularidade, o seu próprio bairro. E ele contribuía para que esse prestígio fosse cada vez mais consolidado, cultivando um folclore em torno de sua figura, como no tempo em que andava com um símio em sua moto.

Fazia parte do show, naturalmente, e, com isso, ele carreava ainda mais as atenções para o evento anual da Vila. Contava, a bem da verdade, com a ajuda do pessoal da praça na preparação do ato, de sempre, ao meio dia do Sábado de Aleluia.
O Judas, a ser malhado, trata-se do Judas Iscariotes, o mais famoso traidor da história da humanidade, que vendeu Jesus Cristo por 30 dinheiros, levando o Filho de Deus a ser crucificado, depois de muito sofrimento pelas ruas de Jerusalém.

O Judas, na malhação, é representado por um boneco geralmente cheio de trapos, serragem e todo tipo de “fuleragem”, que passa a ser surrado violentamente pela turba, além de arrastado sem piedade pelas ruas, representando a vingança contra o traidor.
Talvez seja a mais tradicional representação de que o povo não gosta dos traidores, nem no Brasil nem em parte nenhuma do mundo, já que a malhação do Judas acontece em todos os países católicos, e, também, ortodoxos da Terra.

Na Malhação do Judas em Jaguaribe, o boneco, comumente, além de bombons e guloseimas para a garotada, carregava críticas políticas e, até, fofocas sobre os moradores de Jaguaribe, o que terminava, por vezes, a provocar confusões danadas.
Dessa forma, fica registrada nessas memórias pessoenses que tenho postado o registro da Malhação do Judas em Jaguaribe, sob a batuta de Ednaldo Marinho, o Galego da Vila, na famosa Vila dos Motoristas no final da Bento da Gama.

MEMÓRIA PESSOENSE: Bar da Fava, da Treze de Maio - Sérgio Botêlho



Nas décadas de 70-80 brilhou ali na rua Treze de Maio um barzinho, pequeno, estreito, um verdadeiro bafon, do francês bas-fond, barraco, bagunça. Pois era mais ou menos, assim, o Bar da Fava.

Aliás, é de empreendimentos desse tipo que alguns apreciadores da cachaça com um bom tira-gosto preferem. E, naquele barzinho, havia uma fava que era uma beleza – aliás, motivo maior do nome do bar, como se pode perceber.

O Bar da Fava sobre o qual me reporto ficava bem perto da Padre Meira, e era inteiramente lotado, de segunda a sexta-feira, a partir das 11 horas da manhã até mais ou menos 20 ou 21 horas.

Parte de seu público era formado por estudantes universitários, ainda que funcionasse assim, distante do campus universitário. Além da cachaça, a velha cerveja, bem gelada, compunha o cardápio das bebidas.

Ali, se conversava de tudo, desde os assuntos do dia a dia, passando pelos temas da Academia, até os temas políticos, intelectuais e ideológicos os mais diversos e sob as óticas mais díspares e conflitantes.

Às vezes fico imaginando quanta conversa rica em sabedoria perde-se nas mesas dos bares da vida. Tenho certeza de que se tudo resultasse gravado e, após a devida transcrição, acabasse editado em forma de livro, teríamos obras interessantíssimas circulando por aí.

No Bar da Fava essas conversas eram disparadas em mesas juntas umas das outras de forma que quase não se podia ouvir alguma coisa porque se ouvia tudo ao mesmo tempo e na mesma hora num vozerio parecido com uma Torre de Babel.

Na verdade, as conversas eram quase na base do grito, em meio aos pedidos de mais uma cerveja ou caninha ou de um tira-gosto, que, é bom esclarecer, não se restringia apenas à peça de resistência do bar.

Para esclarecer: não eram apenas estudantes que frequentavam o Bar da Fava, mas, também gente de todas as espécies e profissões, em manga de camisa ou em palitós advocatícios ou em jalecos médicos. Jornalistas, estes também eram contumazes frequentadores.

Por sinal, a diversidade é o que predomina nesses barzinhos da vida, com especial destaque para as sextas-feiras, no chamado horário do happy hour, a conhecida hora feliz que marca o fim do último dia da semana de trabalho, para muita gente.

No Bar da Fava o happy hour era mesmo no final de todos os dias, e, nesses horários, o refúgio da Treze de Maio estava sempre lotado. Mas, como já afirmei, a partir das 11 horas da manhã a frequência já era muito boa.

O bar sobre o qual estamos falando concorria com outros bares da cidade especializados em fava. Um deles, cujo nome esqueço, mas que oferecia uma superfava, na esquina da Nino Lima (continuidade da João Machado) com a Rodrigues Chaves, no Cordão Encarnado.

Então, e, assim, atendendo a pedidos, fica registrada, nessas memórias pessoenses, o Bar da Fava, da Treze de Maio, num prédio onde hoje existe a livraria Semeador da Bíblia no Brasil. Ali ficava o outrora famoso Bar da Fava.

MEMÓRIA PESSOENSE: Feira dos Municípios, na Praça da Independência - Sérgio Botêlho




Eita! Era uma feira boa danada a que acontecia na Praça da Independência em alguns anos da primeira metade da década de 80, em João Pessoa. Os stands ocupavam todo o espaço da praça representando a ampla maioria das cidades paraibanas.
A iniciativa aconteceu durante pelo menos uns dois ou três anos, no governo Wilson Braga, e se constituiu, enquanto teve vez, num espaço privilegiado para a cultura do estado e, particularmente, para o artesanato.

A apresentação de artistas do interior e da capital era um dos pontos altos da Feira dos Municípios, e milhares de pessoas circulavam pelos stands, diariamente, se a memória não me trai, por cerca de uma semana.

Os stands onde eram apresentados os trabalhos dos artesãos tinham, naturalmente, o apoio das prefeituras, e eram ocupados por obras artesanais que alcançavam, em representação, todas as regiões do estado.

Não apenas pessoenses e paraibanos em geral circulavam e fechavam negócios na Feira dos Municípios, mas, também, os turistas, sinalizando que, em se tornando uma tradição, hoje em dia teria atingido elevado prestígio.

Para a realização da Feira dos Municípios, não havia lugar melhor, uma vez que permitia o acesso de um público que vinha de todos os bairros. Ali perto, na Lagoa, paravam, e, ainda param, ônibus de todas as regiões da capital, quando não, na própria praça, conforme ainda ocorre.

Rendeiras, com seus bilros, os artistas que trabalhavam a arte primitiva com o barro, seguindo a tradição do mestre Vitalino, de Pernambuco, as redeiras, muitos desses artesãos, executavam suas habilidades, ali mesmo.

A música nordestina também pontificava na Feira dos Municípios, com pífanos e trios de forró se apresentando para o público, num riquíssimo espetáculo de arte popular, nas barracas e no meio da praça, ao vivo e a cores.

Recordo bem do jornalista querido e saudoso, Raimundo Nonato Batista, secretário de Cultura do governo Wilson Braga, como um dos principais organizadores da festa e certamente o maior responsável pelo seu brilho, enquanto durou.

A principal característica da Feira dos Municípios, ocupando a Praça da Independência, é que o evento era absolutamente escancarado ao público, e não poderia ser de outra forma, já que a “praça é do povo como o céu é do condor”.
A festa acabou por conta de um debate malconduzido sobre estragos ao meio ambiente, na praça. Mas, pelo que lembro, toda a grama do local era replantada pelo governo, tão logo a festança tinha fim. E as árvores, esparsas, continuavam, sempre, nos mesmos lugares.

Quero crer que um evento semelhante, daquele jeito, em praça pública, e, se possível, na mesma Praça da Independência, possa ser realizado, novamente, um dia. Porque, aquele da década de 1980, deixou saudade.

Dessa forma é que inscrevo a Feira dos Municípios que havia na primeira metade da década de 80, em João Pessoa, na histórica Praça da Independência, como uma das melhores iniciativas, na Capital, de promoção da arte e da cultura popular paraibana. Parte indiscutível das boas memórias pessosenses.

MEMÓRIA PESSOENSE: Red Cross - Sérgio Botêlho



Em 1952, o campeonato paraibano foi disputado por seis times: de João Pessoa, havia três clubes, a saber, o Auto Esporte, o Botafogo e o Red Cross; de Campina Grande, o Paulistano; de Guarabira, o Guarabira; e de Rio Tinto, o Rio Tinto.


Evidente que essa versão do campeonato estadual não faz parte da minha memória, já que, na época, tinha apenas dois anos de idade. Mas, importa informar que, nesse ano, o campeão paraibano foi o Red Cross. E, aí, chega o tempo de minhas lembranças: a do Red Cross.

Confesso que andava esquecido do velho Red (na tradução do inglês, Cruz Vermelha), mas, as recordações mais vivas logo vieram após ser chamado a atenção pelos velhos amigos Armando Ribeiro, Lourenço Adolfo e Marcelo Borges.

Então, me pus, imediatamente, a pesquisar histórias sobre o Red Cross para ajudar minha memória, presa nas goleadas sofridas pelo clube ao longo da história do campeonato paraibano, sofregamente acompanhado por mim, a partir da adolescência.
Em 1964, por exemplo, o Red Cross levou uma goleada fenomenal do Campinense Clube (este, a caminho do hexacampeonato estadual, conquistado um ano depois), pelo placar de 11 X 0, um dos mais impiedosos placares da história do futebol paraibano.
Foi desse jeito que conheci, e que me lembro, do velho Red Cross, ou seja, um verdadeiro saco de pancadas, sempre figurando entre os lanternas do campeonato, uma equipe mais para gozação do que para glorificação.

Contudo, tem mais, muito mais sobre o Red Cross. Para os que não sabem – e eu não sabia – o clube está entre os que fundaram a Lyga Parahybana de Foot Ball, no dia 05 de março de 1914. Antes da Lyga, o Red já havia sido campeão paraibano pela primeira vez, em 1912.

Esses primeiros clubes de futebol da Paraíba surgiram da iniciativa de estudantes paraibanos em outras cidades do país que, ao voltarem à terra natal, trouxeram com eles uma bola de futebol e a paixão pelo esporte.

Dessa forma, a gente fica sabendo que o Red Cross foi, na verdade, duas vezes campeão paraibano de futebol, antes de virar aquele saco de pancadas que caracterizou o clube, principalmente na década de 60.

Mas, também foi o Red Cross que revelou um dos jogadores de futebol mais festejados, em todas as épocas, na Paraíba, que foi o velho e saudoso Coca Cola, um capítulo à parte das memórias pessoenses.

Ei a formação do Red Cross em 1959: Peixoto; Pedro Paulo, Louro; Orlando, Baiano, Vasconcelos; Zeca, Cidinho, Vadinho, Tiquinho, Coca-Cola. Nesse ano, o Red ficou em terceiro lugar no Torneio Início do campeonato, uma disputa que não existe, mais.
O Red Cross, como Lourenço Adolfo e Marcelo Borges fazem questão de lembrar, pertencia à constelação jaguaribense das grandes iniciativas da história social de João Pessoa, ao lado do Estrela do Mar, também, ex-campeão paraibano, formado a partir da Cruzada do Frei Albino.

A sede do Red Cross, durante bom tempo, funcionou na Primeiro de Maio, em Jaguaribe, endereço, também, do complexo religioso representado pela Igreja do Rosário e pelo convento dos franciscanos alemães, onde, justamente, surgiram e frutificaram a Cruzada e o Estrela do Mar.

Fica, então, registrado nas memórias pessoenses que venho escrevendo, a existência, por longos anos, na Paraíba, do Red Cross, um clube de futebol, hoje, lamentavelmente extinto.

(A foto, de um recorte do jornal O Norte, de 1952, está em História do Futebol – A enciclopedia do futebol na Internet)

MEMÓRIA PESSOENSE: Casablanca - Sérgio Botêlho



Mais ou menos na década de 90 o angolano Fred, e família, dono, já, da Adega do Alfredo, apresentou ao público outro empreendimento, colado ao restaurante marco inicial de toda a empreitada: o Casablanca.

A Adega começou bem menos espetacular do que passou a ser com o tempo, e cresceu em cima do trabalho e da dedicação de Alfredo (Fred), proprietário e chef da casa, estilo portuguesa, que ganhou elevado prestígio na sociedade paraibana, até hoje.

Localizada num dos espaços mais valorizados da cidade de João Pessoa, do ponto de vista turístico, na bela e histórica praia de Tambaú, à Adega logo se juntou outra atividade empresarial: o Royal Hotel.

Na sequência, veio o Casablanca, um restaurante-boate, com shows, desfiles e música ao vivo, num ambiente bastante requintado, e onde era possível dançar, não ao ritmo das velhas discotecas, mas, de músicas selecionadas, onde, naturalmente, rolava também o rock.

O Casablanca nasceu sob a inspiração do sucesso hollywoodiano homônimo, de 1942, ambientado na capital do Marrocos, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, ainda hoje um dos maiores sucessos do cinema internacional.

Uma imensa tela no interior do Casablanca, por sinal exibia permanentemente cenas do filme norte-americano, antes e depois de qualquer show, desfile ou de performance de bandas. A decoração acompanhava o estilo das décadas de 40 e 50.

O ingresso na casa era bastante concorrido, sendo muito difícil que alguém conseguisse, sem ter reservado, antes, uma mesa. Na época, era, talvez, a casa noturna mais frequentada de João Pessoa.

Fred aproveitava a cozinha comum à Adega do Alfredo para servir o cardápio do Casablanca. Mas, o curioso é que havia diferenças importantes entre os dois cardápios, como me recordo, bem.

Da mesma forma que acontecia na Adega, o proprietário se desdobrava pessoalmente para atender os clientes de ambos os empreendimentos, sendo frequente sua presença no Casablanca, em seus dias de glória.

Era a mesma época de outro restaurante famoso, na mesma área, o Gambrinus, de outro gajo, este, português, mesmo, o Moita, sobre o qual já falamos nessa série que compõe as minhas memórias pessoenses.

Aliás, aquela área da cidade, mais conhecida como Baixo Tambaú, reunia um bom número de ambientes de diversão, aliás, como ainda hoje acontece, que tornava a referida área de João Pessoa em um dos setores, digamos, assim, mais felizes da capital paraibana.

Nunca perguntei a Alfredo – se fiz isso, não lembro – porque um dia o Casablanca fechou. Continuei frequentando a Adega, especialmente o setor de drinks, colado ao restaurante, com direito a piano-bar, com a inexcedível Isa y Plá, e tudo, já que era, e continua sendo, também, um ambiente bastante agradável.

Mas, nunca mais João Pessoa contou com um restaurante-boate no estilo do Casablanca, o que terminou fazendo uma falta danada pelos anos subsequentes, tenho certeza que não somente para mim, mas, também, para seus frequentadores.
Então, está aqui registrada a existência em João Pessoa, há cerca de 20 anos, ou um pouco mais, do Casablanca que, como todo empreendimento de lazer bem cuidado e singular, deixou saudade.

MEMÓRIA PESSOENSE: o Santos de Tereré - Sérgio Botêlho



 

Existe uma história, das antigas, em João Pessoa, que, de tão repetida, transformou-se em verdade. Contam que uma família pessoense foi embora para o Sudeste do país, São Paulo ou Rio, não sei dizer bem, com os filhos ainda pequenos. O pai da família havia sido jogador de futebol, na categoria dos amadores.


Tempos depois, uma das crianças dessa família, que havia se tornado um adulto, e jogava futebol, despertou o interesse de um clube local. Quando foram ver, o rapaz tinha os direitos federativos ligados a um clube de futebol paraibano.
Puxa documento para cá, puxa documento para lá, telefone vai, telefone vem, e, afinal, ficou confirmado que o rapaz tinha mesmo vínculo com um clube paraibano, mais precisamente, de João Pessoa.

Tratava-se do Santos Futebol de Clube, dirigido pelo desportista José Walter Marinho Marsicano, mais conhecido como Tereré, clube fundado em 1949 e que desde a primeira metade da década de 50 disputava o campeonato paraibano com atletas na condição de semiamadores ou amadores pura e simplesmente.

Garantem os “folcloristas” que, mal a criança nascia, e era filho de um bom jogador, Tereré já providenciava “assinar” o menino com o clube. Evidentemente que há exageros. Mas, a fama correu os quadrantes esportivos paraibanos.

As diversas histórias que perfilam Tereré como protagonista, todas elas apenas servem para eternizar o seu nome, não somente na história do próprio Santos, como, acima de tudo, na própria história do futebol paraibano.

Nas reuniões mais importantes envolvendo o esporte, ocorridas na Federação Paraibana de Futebol, lá esteve, por anos a fio, José Walter Marinho Marsicano, a opinar, e muitas vezes, a oferecer votos decisivos.

Genro do ex-presidente da FPF, Genival Leal de Menezes, figura de alta relevância na história do futebol paraibano, Tereré teve, muitas vezes, de enfrentar dificuldades como dirigente do Santos, por conta desse parentesco, a serem creditadas na conta das naturais ciumeiras.

Com a imprensa, Tereré sempre teve um bom relacionamento, garantindo boas entrevistas, e, aqui e ali, um furo ou outro sobre os encaminhamentos dados ao futebol paraibano; afora, é claro, informações sobre o próprio Santos.

Seja lá como tenha se passado verdadeiramente essas histórias de Tereré, no Santos, o fato é que o clube estava sempre participando do campeonato paraibano, mesmo que nunca tenha vencido nenhuma de suas versões. Tudo a ser capitalizado em favor do seu dirigente maior.

Desde o final da década de 1990 que o Santos Futebol Clube decidiu não mais disputar o campeonato profissional paraibano, após ser rebaixado para a segunda divisão e não conseguir ascender à primeira na versão seguinte do campeonato.
Contudo, pelo que significou para a história futebolística paraibana, especialmente como um dos representantes da Capital, ao lado de Botafogo e Auto Esporte (e, em alguma versões, pelo efêmero União), merece o Santos Futebol Clube, o Santos de Tereré, figurar com destaque no quadro das memórias pessoenses.

MEMÓRIA PESSOENSE: O velho estádio José Américo Sérgio Botêlho



Em 1969, mais precisamente no dia 14 de novembro, o Santos Futebol Clube veio a João Pessoa jogar contra o Botafogo Futebol Clube, de João Pessoa. Bicampeão paraibano, caberia ao time liderado por Carlos Alberto Torres enfaixar a equipe pessoense.

Além de Carlos Alberto Torres, o velho e saudoso “capita” que, menos de um ano depois, comandaria a Seleção Brasileira no tricampeonato mundial de futebol, no México, o Santos tinha entre suas fileiras simplesmente Pelé, que, da mesma forma, estaria na Copa 1970.

O Santos vinha de um jogo em Recife, contra o Santa Cruz, onde Pelé fizera o gol de número 998 de sua carreira, e, com mais dois, ele chegaria ao seu milésimo gol. A vítima poderia ser o festejado goleiro campeão paraibano, do Botafogo, o velho e saudoso Lula.

Esse jogo, realizado à noite, aconteceu no antigo Estádio José Américo, no bairro Pedro Gondim, inaugurado em 1957, localizado no Bairro dos Estados, com a frente para a bela casa da Fazenda Boi Só, hoje tombada pelo Patrimônio Histórico. E eu estava, lá.

{O Estádio José Américo transformou-se, depois, no Centro Integrado de Educação Física e Desportos (antigo DEDE). Hoje, no local funciona a Vila Olímpica Ronaldo Marinho. Mas, em seu arco de entrada, ainda está escrito Estádio José Américo}.
Para resumir o espetáculo, o Santos venceu o jogo por 3 x 0, sendo o terceiro gol marcado exatamente por Pelé, e, portanto, oficialmente, o gol de número 999 do rei do futebol foi feito em João Pessoa.

Depois do gol, Pelé passou à condição de goleiro do Santos. Comentaram depois que isso aconteceu para que o milésimo gol fosse marcado em outra praça maior. Centenas de jornalistas estavam acompanhando o time do Santos em excursão pelo Nordeste.

Dois dias depois, o Santos ainda jogou na Bahia, contra o Bahia, e Pelé quase faz o seu milésimo gol, com um zagueiro do time baiano salvando o tento na linha fatal. O milésimo gol, reconhecido pela CBF, foi feito no Maracanã, no dia 19 de novembro, em cima do goleiro Andrada, do Vasco.

Décadas depois, o jornal Folha de São Paulo, após meses de intensa pesquisa, descobriu que, por um erro de contagem, o gol contra o Botafogo-PB teria sido, na verdade, o milésimo gol de Pelé, ocorrido, pois, no velho Estádio José Américo.
No erro de contagem, um gol, acontecido em 1959, quando Pelé servia ao Exército, e jogava pela seleção das Forças Armadas Brasileiras, num campeonato sul-americano militar, não havia sido computado na contagem oficial.

Durante muito tempo, o Estádio José Américo foi o palco dos jogos pelo campeonato paraibano, em João Pessoa, com destaque para os times locais do Botafogo (então, alvinegro) e Auto Esporte (alvirrubro).

Levado por meu pai, ainda criança, assisti muitos jogos do Botafogo-PB, o Belo, no Estádio José Américo, principalmente numa época, a década de 60, em que o Campinense Futebol Clube acabou hexacampeão paraibano.

Era um tempo de semiprofissionalismo nas equipes de futebol paraibanas, com forte entrosamento entre torcedores e jogadores, marcado, esse tempo, por grande participação dos torcedores mais abastados no assalariamento dos jogadores.

Assim, fica registrado nessas memórias pessoenses que venho escrevendo, os dias de glória do velho Estádio José Américo, sucedâneo de outro velho estádio, o do Cabo Branco, em Jaguaribe, como palco central do futebol da Paraíba.

(A foto é de Pelé, no Gol do Santos, em 14 de novembro de 1969, no Estádio José Américo, em João Pessoa, contra o Botafogo-PB, depois de ter feito o seu verdadeiro milésimo gol, direto do blog Leoa Alvinegra)

MEMÓRIA PESSOENSE: O prédio de A União na Praça João Pessoa - Sérgio Botêlho




Até início da década de 1970 o conjunto arquitetônico que formava o espaço urbano centralizado pela Praça João Pessoa era bem mais harmônico do que o existente na atualidade, harmonia perdida em função do desafinamento provocado pelo prédio onde ainda hoje funciona a Assembleia Legislativa.

No lugar da AL o que existia era o prédio da Imprensa Oficial, órgão de comunicação oficial do Estado, responsável pela edição diária do jornal A União, do Diário Oficial do Estado e de outras publicações eventualmente do interesse do governo.
(Em prédio no Distrito Industrial, o jornal União, fundado em 02 de fevereiro de 1893 - portanto, há 25 anos -, continua a ser editado diariamente, sendo o único órgão de imprensa, diário, pertencente ao Estado, no país. A Editora A União também segue publicando o DOE).

Inaugurado em 1926, o prédio da Imprensa Oficial passou a fazer companhia aos da Escola Normal (hoje, Tribunal de Justiça da Paraíba), do Palácio do Governo, da Igreja Nossa Senhora da Conceição (demolida em 1929), e da Faculdade de Direito.
É verdade que entre esses prédios havia séculos de diferenças, já que o conjunto formado pelo Palácio do Governo, da Igreja Nossa Senhora da Conceição e da Faculdade de Direito, obras dos jesuítas, datavam, ainda, dos séculos XVI e XVII.
Contudo, os estilos dos anos 1920 impressos nos prédios da Escola Normal e de A União terminavam não eram, assim, tão radicalmente desconformes com os de seus vizinhos mais antigos na praça, do que aconteceu com a chegada do prédio da AL.
No centro desse conjunto, estava a então Praça Comendador Felizardo Leite, antes, chamada, pela ordem cronológica de Pátio do Colégio, Largo do Paço, Jardim Público, e, depois, a partir de 1930, batizada de Praça João Pessoa, até os dias de hoje.

Com a plausível justificativa de dar uma sede definitiva ao Poder Legislativo, aproveitando, ainda, para constituir, em João Pessoa, uma praça com os três poderes, o então governador Ernani Sátyro resolveu derrubar o histórico prédio da Imprensa Oficial.

De nada adiantaram, e me lembro bem, as resistências manifestadas pela gente da intelectualidade contrária àquela intervenção urbana – resistências, naturalmente, tímidas, tendo em vista o regime autoritário vigente -, pois o prédio foi colocado no chão.

Em seu lugar foi erguido o atual prédio da Assembleia Legislativa da Paraíba, visivelmente destoante do conjunto arquitetônico geral, confirmando os temores manifestados pelos que fizeram resistência à derrubada do prédio antigo de A União.
Curioso é que ao longo da década de 70, outros prédios históricos foram derrubados pelo Brasil afora, como se a intenção dos governos de então fosse apagar a história. Um dos exemplos foi a demolição do Palácio Monroe, no Rio de Janeiro, até hoje lamentada pelos cariocas.

Outra curiosidade é que foi o próprio Ernani quem construiu, inaugurou e começou a usar um centro administrativo, onde passaram a funcionar os órgãos estaduais do governo, e, inclusive, um Palácio dos Despacho, em Jaguaribe, fora da Praça João Pessoa, desconjuntando, na prática, a Praça dos Três Poderes.

Certamente, uma intervenção desse porte não seria feita nos dias de hoje, onde a preocupação preservacionista é muito maior, junto com o poder de mobilização popular. Mas, naquela época, o que fazer? Hoje, é só lamentar.

MEMÓRIA PESSOENSE: Ágaba e Sady - Sérgio Botêlho



Fazia pouco mais de um ano que em São Paulo acontecera a Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, uma reunião de artistas que impôs profundas modificações nas artes brasileiras, com fortes repercussões nos costumes.
Na verdade, a década de 20 - logo após a I Guerra Mundial, da qual o Brasil participou por meio de tropas enviadas à Europa – ficou conhecida como um momento de importantes mudanças nos costumes por todo o mundo ocidental.

As mulheres adotaram comportamentos mais desamarrados de cânones religiosos e sociais extremamente rígidos, vigentes até o Século XIX, e, então, livraram-se dos espartilhos, passaram a mostrar as pernas, metidas com a moda das melindrosas, e a usar maquiagem.

Dessa forma, a Semana de 22 marca, no Brasil, esse movimento por mais liberdades a sacodir o mundo, ao lado do Tenentismo, um movimento de jovens oficiais do Exército que percorreram o Brasil na defesa do voto secreto, e de reforma na educação pública.
No Rio de Janeiro, desde 1919, a cientista Bertha Lutz, filha de Adolfo Lutz, outro cientista famoso, dera início à luta pelo voto feminino, fundando a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.

Contudo, a Paraíba continuava dominada, mais do que nunca, por arraigadas ideias patriarcais, sem qualquer sopro de modernidade, algo que, apenas, embalava os sonhos contidos da juventude pessoense.

As mais importantes instituições de ensino na capital paraibana eram o Lyceu (assim, com ‘y’, como na época) e a Escola Normal. O Lyceu, no prédio que depois passou a ser a Faculdade de Direito, e a Escola Normal, no local onde hoje funciona o Tribunal de Justiça.

A separar os dois educandários, a Praça Comendador Felizardo Leite, que depois da morte de João Pessoa passou a ter o nome do ex-presidente da Província, assassinado pelo advogado João Dantas, em Recife, em 26 de julho de 1930.
Preocupados com as paqueras entre as moças da Escola Normal e os moços do Lyceu, as autoridades educacionais da época, dominadas pela Igreja e seus dogmas mais conservadores, proibiram que rapazes “estacionassem” na calçada da Escola Normal.

Para garantir o cumprimento da ordem, foi determinado que a Guarda Civil montasse prontidão no local, em nome dos bons costumes e em defesa da família na capital paraibana. E, assim foi feito.

Estava, assim, composto o quadro político-social para a tragédia. Num sábado, em 22 de setembro de 1923, o jovem Sady Castor Correia Lima, do Lyceu, chegou-se até a calçada da Escola Normal, em nome de uma paixão chamada Ágaba Gonçalves de Medeiros, da Escola Normal.

Logo foi abordado por um guarda civil, vulgo Guarda 33, daí estabelecendo-se uma discussão que resultou na execução sumária do jovem Sady. Para completar a tragédia, 15 dias depois, Ágaba se suicida, causando enorme comoção na sociedade pessoense.

Revoltados, os estudantes do Grêmio 24 de Março, do Lyceu, promoveram manifestações pela cidade, em protesto contra as mortes, tendo como objetivo derrubar aquela retrógrada determinação. Ao fim e ao cabo, apenas o Guarda 33 acabou penalizado.

A história de Ágaba e Sady não deixa nada a dever aos mais célebres personagens de Shakespeare, representando um contraponto importante, e sinistro, ao tradicionalismo, ao coronelismo e ao patriarcalismo que marcaram a história paraibana.

Creio que, como disse a Luciano Henriques, que sugeriu a recuperação da história, ser esse um tema do maior significado para um filme. Não sei o porquê de, até hoje, isso não ter sido realizado, assim como já aconteceu com outra história pessoense, igualmente trágica, de Anayde Beiriz e João Dantas.

De minha parte, está, aí, recuperada a história de Ágaba e Sady, que, embora não faça parte de minhas memórias, por óbvio, não pode ser apagada, jamais, das memórias pessoenses, em sua parte mais triste.

(Recorri às informações contidas em brilhante tese de Doutorado, defendida por Favianni da Silva, na Universidade Federal do Ceará, intitulada “O Caso Sady e Ágaba: O Crime da Praça Comendador Felizardo Leite e a Revolta dos Estudantes do Grêmio 24 de Março na Parahyba de 1923”, afora pesquisas na Wikipédia, e no texto “Sady e Ágaba: Uma trágica história de amor”, no blog culturapopular2.blogspot.com.br)
(Foto de 1921 da Praça Comendador Felizardo Leite (atual Praça João Pessoa), palco da tragédia Ágaba-Sady, ainda com o coreto no centro. Aos fundos, o prédio da Escola Normal, atualmente Tribunal de Justiça da Paraíba. Crédito da foto: História Crítica-Universidade dos Andes)

#PraçaComendadorFelizardoLeite #PraçaJoãoPessoa #LyceuParaibano #EscolaNormaldeJoãoPessoa #SadyÁgaba

MEMÓRIA PESSOENSE: as tardes de xadrez no Cabo Branco - Sérgio Botêlho




Havia mais tempo que a sede central do Cabo Branco era ocupada por enxadristas. Pelo que pesquisei, isso acontecia, desde a década de 50. Cheguei no final da década de 60 e início da década de 70, e parte da turma era a mesma, onde pontificava o doutor Arnaldo Tavares.

Segundo tomei conhecimento pelas pesquisas que fiz - evidentemente, para saber mais sobre o assunto -, eram contumazes frequentadores, desde o princípio, Fernando Amaral Marinho, Jeová Mesquita, Romero Peixoto, desembargador Espínola, Arnaldo Carneiro Leão e Herul Sá. Muitos desses continuavam nos fins de 60 e começo de 70.
Eu não gosto de citar nomes nesses artigos que faço de memória já que frequentemente esqueço de quem não deveria esquecer, e, nesse sentido, espero ser corrigido por quem de direito que venha a ler essa crônica.

Das pessoas com quem convivi nas disputas de xadrez no Liceu Paraibano e na Federação de Xadrez, em Manaíra, lembro de Fernando Melo (presidente da Federação), de Frank Lins (enxadrista mais festejado da época), Washington Rocha, Ivo Bechara, Silvino Espínola, José Mário Espínola, Rômulo Marinho, Arnaldo Tavares (filho) e Flávio Tavares... e, a memória falhou, pois tinha muito mais gente.

Jogar xadrez no Cabo Branco do centro não era privilégio somente dos associados. Desde que o eventual interessado tivesse a mínima noção do que estava fazendo com as pedras no tabuleiro, era muito bem-vindo.

O importante era o jogo, que era jogado da maneira mais rápida que existe na modalidade, o chamado xadrez relâmpago, onde, em cinco minutos, ou o sujeito conclui o jogo ou o jogo estava perdido. Dois relógios, um para cada contendor, avançam ou param ao toque da mão do jogador.

O combinado era esse a fim de que houvesse oportunidade à todos, já que era elevada a quantidade de jogadores que ficavam por ali, peruando, esperando sua vez. O silêncio era a regra geral, mas, quem podia impedir as gozações dos jogadores, eventualmente?

A sala ocupada pelos enxadristas era a primeira sala, à direita, logo depois do hall de entrada onde se postavam aqueles sócios mais antigos do Cabo Branco, diariamente, a rever amigos de velhas jornadas e jogar conversa fora.

Na parte de cima do Cabo Branco ficava o pessoal do carteado e da sinuca, estabelecendo, no conjunto, um grande movimento, ainda mais com o restaurante que funcionava no térreo, ao pé da escada, na parte final da sede.

De vez em quando chegava em João Pessoa algum enxadrista famoso nacionalmente e o Cabo Branco servia de local para a realização de partidas chamadas simultâneas, por conta de o famoso jogar com vários enxadristas ao mesmo tempo.

É uma forma de jogar que exige bastante daquele que está se exibindo, como grande-mestre que tem de ser no jogo de xadrez, ainda mais pelo fato de os competidores não serem, embora teoricamente mais fracos, tão bobos, assim.

Hoje a sede do Centro não pertence mais ao Esporte Clube Cabo Branco, pois teve de ser leiloada para honrar dívidas, embora esteja, graças à intervenção do Estado, em pé, e intocável, a provocar saudades, nos velhos frequentadores ainda vivos, em função dos momentos de glória patrocinados por um dos dois clubes sociais mais famosos da história de João Pessoa.

E foi acatando a sugestão da amiga Neuza Cavalcante, leitora que é dessas mal traçadas memórias pessoenses, que resolvi adiantar o assunto, já no prelo. Ao passar pela sede central do Cabo Branco, nesses dias, bateu um banzo em Neuza, e, ao me fazer a comunicação do referido banzo, ela acabou me contagiando.

MEMÓRIA PESSOENSE: Oca do Piá - Sérgio Botêlho



Há equipamentos de lazer, do tipo bares, em João Pessoa, que se fizeram efêmeros, mas, que deixaram suas marcas, seja pela localização ou pelo cardápio ou pelas bebidas que eram servidas ou o conjunto dessas coisas. O fato é que não desapareceram, e “zé fini”.

Um desses equipamentos funcionou vizinho ao Edifício Cannes, na urbaníssima praia de Tambaú, no mesmo espaço onde tempos depois se instalaria o icônico Maravalha-Clube dos Solteiros, que já foi assunto de artigo nesta série de memórias pessoenses.
Na época, Tambaú estava desenvolvendo a vocação de centro de divertimento preferido da população pessoense, pois, desde o início da década de 50 que a avenida Epitácio Pessoa recebera calçamento, facilitando o deslocamento de massas humanas cada vez mais numerosas àquela praia urbana, para curtir ou para morar.

É por esse tempo que começaram a surgir novos bares e restaurantes na orla marítima a se juntarem ao Elite Bar que, durante anos, reinou absoluto na orla marítima, e que ainda haveria de brilhar muito pela década de 70 afora.

Lembro, hoje, da Oca do Piá, um barzinho maneiro, como se diz na modernidade, que servia tira-gostos simples, afora cerveja, whisky e o indefectível Ron Montilla, uma verdadeira coqueluche das décadas de 50-60, normalmente entornado com Coca-Cola, formando a dupla conhecida como Cuba Libre.

Calculo a data de funcionamento da Oca do Piá como sendo entre os anos de 1966 e 1969, já com o edifício Cannes construído, esta, uma obra de 1965 segundo estudo da arquiteta e urbanista Patrícia Alonso de Andrade, intitulado Verticalização em João Pessoa-Produção do Espaço e Transformações Urbanas.

O formato do bar era mesmo de uma oca, imitando uma cabana indígena, havendo muitas mesas do lado de fora, pois, dentro, o espaço era mais diminuto e não cabia tanta gente quanto o bar terminou acolhendo em alguns dias de glória.

A Oca do Piá entrava em função tanto durante o dia quanto a noite, podendo ser entendido, no turno da noite, como local de aquecimento para noitadas mais endiabradas pelas discotecas-boates que iam surgindo, na época.

A cobertura do bar, naquele formato de cabana indígena, era de palha, mesmo, transformando o local em algo singular na vida noturna da capital paraibana, especialmente na orla marítima, que ia se transformando, aos poucos.
Tambaú foi palco de outros bares que fizeram sucesso por determinados momentos, como, por exemplo, a Moeda, se o espírito não me engana, do mesmo Pedro que era dono do Pietros, na Lagoa.

A Moeda, já na década de 70, palco de jornadas intermináveis de cerveja misturada com o jogo do xadrez, ficava praticamente vizinho ao edifício São Marcos, quase de frente para o Hotel Tambaú, na mesma Avenida Tamandaré onde existia a Oca do Piá.
O que caracterizava a Oca do Piá era mesmo o ambiente diferentemente decorado. Mas, lembro que havia um bom atendimento dos garçons, incansáveis a servir piratinhas e piratões para a turma, normalmente, majoritariamente de jovens.

Penso que os vizinhos do Edifício Cannes não deviam gostar muito da Oca do Piá devido ao natural barulho dos amantes da alegria. Problema, evidentemente, transferido, com acréscimo de algazarra, para o Maravalha.

Pois, assim, fica inscrito nessas memórias pessoenses o bar Oca do Piá que, um dia, desapareceu do mapa, mas, que não ficou esquecido, merecendo estar sendo lembrado, agora, aqui, no maravilhoso Facebook.

Sidebar Menu