MEMÓRIA PESSOENSE: O Maravalha Sérgio Botêlho




Em meio à década de 70 ergueu-se um equipamento de lazer na orla marítima de Tambaú que acabou fazendo história na capital paraibana. O moinho de ideias chamado Willis Leal, descendente em linha direta de José Leal, decano da imprensa paraibana, foi o responsável. Homem ligado à história do jornalismo, do cinema e do turismo peessoense, celibatário por convicção, junto a outros da mesma orientação voacional, fundaram o Clube dos Solteiros. A expressão física maior desse clube acabou sendo o Maravalha Praia Clube, na Avenida Tamandaré, zona central das praias urbanas pessoenses.

O Maravalha situava-se vizinho ao Edifício Cannes, tendo promovido durante sua existência, que não foi tão longa, lamentavelmente, festas homéricas reunindo associados e convidados. Na parte da frente, ocupando generoso terreno, estavam as mesas para servir a quem bem quisesse e entendesse no dia a dia da vida boêmia e turística de Tambaú. A localização e a mística do Maravalha atraiam centenas de fregueses, celibatários ou casados, especialmente nos finais de semana, quando Tambaú, como ainda hoje acontece, recebia milhares de frequentadores em suas areias.

No Maravalha predominava a música eletrônica, mas, nos finais da tarde, era comum rodas de violão em suas mesas, acompanhadas por batuqueiros improvisados. A festa do dia, comumente, entrava pela noite, muitas vezes, para desespero dos vizinhos do Cannes. A alegria predominava no Maravalha, tendo se transformado em um dos points turísticos de João Pessoa naquela época. Aliás, registre-se que eram poucas as ofertas nesse setor na capital paraibana daqueles tempos.

De onde Willis tirou o nome de Maravalha, há pistas. Na cidade de São Miguel de Taipu, a história registra o Engenho Maravalha, da família Lins, certamente parentes de José Lins do Rego, que também era filho dos engenhos paraibanos. Nascido há menos de 100 quilômetros das terras do Engenho, mais precisamente em Alagoa Nova, Willis Leal pode ter ido buscar por ali a sua inspiração, ou sido motivado por alguns dos fundadores do Maravalha, descendente direito dos Lins de São Miguel do Taipu. Mas, vivinho da silva, ele próprio, pode informar com certeza sobre a origem do nome que deu ao Clube dos Solteiros.

Só sei dizer que, seja lá como tenha sido, o Maravalha foi desses ambientes do lazer pessoense que marcaram época, deixando saudades, até hoje. E, tanto assim, que ainda domina a nossa memória sobre a João Pessoa de algumas décadas atrás. Justamente quando se estava construindo o viés turístico da cidade, rumo a uma vocação da qual, apesar de natural resistência do pessoense, vai se firmando irresistivelmente. E, nessa construção, Willis Leal, seus companheiros de então, e o Maravalha, têm lugar de destaque.

MEMÓRIA PESSOENSE: Fogo no paiol do 15 RI - Sérgio Botêlho




Nunca foram escutados tantos pipocos em João Pessoa, como naquela madrugada, às vezes parecendo, até, rajadas de metralhadora. Morteiros também explodiam e o barulho era ensurdecedor. Apurando o ouvido, dava para perceber que o “tiroteio” estava acontecendo para as bandas de Cruz das Armas. Literalmente, tocou horror em João Pessoa naquele dia.

Pouco a pouco a notícia ia ficando mais precisa: a zoada acontecia no Quartel do 15º Regimento de Infantaria, o famoso 15 RI. Cenário, em 1930, de uma batalha entre revolucionários liberais e defensores do governo Washington Luiz, a muitos pareceu que, em plena ditadura, o histórico quartel podia estar sendo palco de outro embate político.

Lembro que, dia claro, cessado o barulho, as famílias trocavam informações sobre o que teria ocorrido no “15”. Pouca coisa, no entanto, vazou para a opinião pública. Apenas a certeza de que o tumulto teria mesmo partido dali. A procedência acabou firmada após comentários de gente que residia no ABC, bairro que fica vizinho ao Quartel, inclusive composto por residências de militares a serviço justamente do quartel do paiol “conflagrado”.

Segundo o relato dessas pessoas do ABC, e, também, de parte de Jaguaribe, aquele povo viveu inevitável angústia, uma vez que, apesar de próximos, seus moradores não sabiam exatamente o que estava acontecendo. As mulheres corriam pelas ruas do bairro ainda de camisolas, enquanto os militares se apressavam em chegar ao Quartel para tomar parte de alguma providência, vestindo suas fardas pelo caminho.
Pouco a pouco, ao menos para essas pessoas mais próximas do inusitado evento, a verdade foi aparecendo. Tudo foi sendo esclarecido (“foi o paiol que pegou fogo!”) com o retorno dos militares às suas casas.

O incêndio do paiol do 15º RI foi certamente um desses episódios que marcaram época em João Pessoa. Um vexame que deve ter provocado grande frisson no Comando. O pior foi que o acidente, em virtude de toda a paranoia vivida pelas sociedades civil e militar brasileiras, acabou sendo, mais adiante, posto nas costas de estudantes que lutavam contra o autoritarismo.

Isto mesmo: meses depois, jovens estudantes tiveram que responder pela azáfama, debaixo de torturas, sendo aquele o ano em que mais plenamente valeu o Ato Institucional nº 5, editado em dezembro do ano anterior. Presos por motivos diversos, que, aliás, será tema de outra crônica, esses jovens foram também enrolados no incêndio do paiol do “15”.

A parafernália armada em torno do incêndio do paiol do “15”, ai incluídas as tentativas de responsabilização improcedentes, deixa uma lição que, por sorte, aprendemos finalmente: o valor da democracia. Erros que possam provocar incêndios em quartéis, ou em qualquer outro lugar do mundo, existiram e vão continuar existindo. O autoritarismo e suas paranoias é que não devem mais nunca vigorar em nosso país.

MEMÓRIA PESSOENSE: Bar de Camões - Sérgio Bôtelho



Nunca mais comi um prato de língua de boi tão gostoso como aquele que outrora Camões preparava e servia. O Bar de Camões lotava a partir das 11 horas da manhã de todos os dias da semana. Acho que fechava aos domingos, afinal de contas, ninguém é de ferro. Localizado na Praça Barão do Rio Branco, bem ao lado do prédio onde funcionou durante algum tempo a Escola de Engenharia da Universidade Federal da Paraíba.


Além da língua, Camões tinha uns caldos para você abrir o apetite junto com uma cachacinha que fazia tanto sucesso quanto a língua, minha preferida. Com destaque para os caldos de feijão e de peixe. Ou, ainda, ensopados de alguns dos chamados frutos do mar, tão comuns em diversos bares da Capital paraibana.

O Bar de Camões fazia parte do roteiro para os boêmios de plantão. Aos sábados, Camões recebia uma freguesia extra. O bar ficava lotado. Parecia uma daquelas redações de jornais às antigas, com todo o mundo falando ao mesmo tempo, e alto! E quanto mais crescia o consumo mais alto falavam todos. Difícil saber como as mesas se suportavam. Aliás, para variar, o que não faltava naquele autêntico botequim era jornalista. Um verdadeiro refúgio.

Camões não era manso, não! Na verdade, para comandar aquela confusão, toda era necessário certo grau de brabeza. Bêbado é meio que irreverente, indócil, e, aqui e acolá, valente e brigão. Naquele bar apertado, um pouco mais alto do que a calçada, qualquer briga podia acabarem tragédia. Suponho que, por isto, apesar de receber todo o mundo bem – demais, até! - o velho Camões tinha que se fazer irascível, mesmo.

Torcedor fanático do Botafogo da Paraíba, nos tempos áureos do Belo, não deixava desaforo sem resposta caso fosse atingida a honra do tricolor pessoense - tricolor, isto por decisão de um paulista chamado José Flávio Pinheiro de Lima, sampaulino roxo, que dirigiu o clube pessoense. Costumeiramente, Camões estava vestido com a camisa botafoguense, sendo, ainda, presença constante no Almeidão, em jogos do Time da Estrela Solitária. Nas paredes do Bar ele pendurava imagens e flâmulas com símbolos do Botafogo.

Camões, dele consta que virou um pássaro. Um dia desses resolveu, ele mesmo, empreender a sua própria fuga do mundo terreno. Faz, tempo, já! Eu morava, então, em Porto Velho, Rondônia, quando soube da notícia. E reparto, agora, as lembranças do velho amigo e companheiro de torcida, junto com outros paraibanos, também, eles, antigos frequentadores daquele boteco maravilhoso da Praça Rio Branco.
Grande Camões!

MEMÓRIA PESSOENSE: o Foto Condor, de Ariel e Arion - Sérgio Botêlho



 

Não tinha quem não parasse para olhar aquelas imagens bizarras expostas do lado de fora do Foto de Ariel e Arion (com nome de fantasia de Foto Condor). Tanto podia ser um inhame disforme e gigante quanto um porco que nascera coma cara de gente. Hoje, nos tempos do Adobe Photoshop, montagens assim são cafés pequenos para os versados no programa. Quero ver naquele tempo de técnicas ainda primárias de revelação de filmes. Foto colorida – muito rara naqueles tempos – tinha que ser revelada em Rio ou São Paulo. Demorava uma eternidade para voltar. As mais comuns eram mesmo as fotografias em preto e branco.


Aliás, tem muita gente que, ainda hoje, prefere as fotografias em preto e branco. Com efeito, não há comparação entre uma foto em preto e branco e outra colorida, quando se trata de jogo de sombras. O nu, o mais das vezes, se configura muito mais artístico em preto e branco. Não tem parelha, em termos de beleza, apreciar os detalhes de um anoitecer urbano, e chuvoso, com um rio e uma mata ao fundo, isto, em preto e branco. Tudo tem que ser trabalhado com muita arte, durante a revelação, para resultar numa foto em preto e branco de qualidade.

Pois bem. Nos tempos de Ariel e Arion havia outras casas de fotografias, em João Pessoa, ainda hoje na memória dos que viveram aqueles tempos. Por exemplo: o Foto Lira, vizinho ao Rex. Outro: o Foto Stuckert, entre a Igreja da Misericórdia e o Ponto de Cem Réis. Os descendentes de Lira não seguiram a profissão do pai. Mas, os descendentes de Stuckert, sim. Ricardo Stuckert, jovem descendente do velho fotógrafo paraibano, é repórter fotográfico em Brasília. Ele e seu irmão. Ricardo foi o fotógrafo oficial da Presidência da República, na época Lula, e, hoje, acompanha o ex-presidente, no Instituto Lula, em São Paulo.

Tinha ainda o Foto Nuca e o Foto Estrela, localizados na Treze de Maio, segundo recorda o sempre atento Lelo Cavalcanti. Agora, somente Ariel e Arion expunham essas fotos, assim, toscas, em frente ao prédio onde funcionava o estúdio fotográfico de pai e filho, ali na Miguel Couto, bem pertinho da Visconde de Pelotas, hoje em dia transformado em barbearia bem frequentada. Recordo como se fora hoje verdadeiras aglomerações que se formavam em torno daquelas fotos umas mais esquisitas do que as outras.

MEMÓRIA PESSOENSE: Caixa D’Água Sérgio Botêlho



 

Não tinha jeito de ele chamar Nonato {Guedes} corretamente. Depois daquele puxado constante, Caixa D’Água, atacou, certa vez: “veja aí, Donato, vou lançar meu 14º livro. Aproveite e dê uma olhada!”. Obediente, Guedes passou a ler as novas poesias de Caixa, apontando os erros em tempo real: Isso aqui está errado. Essa outra frase aqui, não pode. Precisa corrigir essa outra construção…”. Foi quando Caixa tomou o livro, e encerrou a correção: “me dê o livro, Donato Tu fica aí corrigindo minhas poesias, e, ainda não lançou nenhum livro. E este já é o meu 14º…” Haja paciência!


Caixa D’Água foi uma das figuras mais permanentes das noites João Pessoa de todos os tempos. Na época da Bambu, o périplo era menos corrido, pois bastava a Caixa chegar na churrascaria para encontrar meio mundo de gente. Aliás, Caixa sofreu muito com a derrubada da Bambu, assistindo à queda de pedra por pedra, haste por haste de bambu. Ele sabia bem do sofrimento pelo qual teria de passar, dali em diante, com toda aquela gente espalhada pelos quatro cantos da cidade. E ele a procurar.

Pois bem. Derrubada a Bambu, Caixa passou a cumprir roteiros, em sua vida noctívaga, que ia de Jaguaribe, passando pelo Pietros e Flor da Paraíba, na Lagoa, até a Paraibambu. O Tabajara, já no fim da noite, era imprescindível. Mas, então, ele já se aproximava da Ladeira da Borborema, onde morava, e para onde deveria se dirigir, aos primeiros sinais da manhã.

Nunca vi um andarilho igual. “O poeta não tem dinheiro”, assim explicava ao sentar-se em alguma mesa para saborear uma cerveja, sua única bebida. E não adiantava querer pagar outra bebida que não fosse cerveja! Caixa D’Água não aceitava, mas, de jeito nenhum! Encarava, mesmo, como afronta.

O nosso poeta era muito querido de Gilberto Gil, isto mesmo, o fantástico Gil, da Bahia de Todos os Santos, de todos os ritmos e de poetas extraordinários. Segundo Sílvio Osias, amigo do baiano, ninguém imita com mais semelhança aquele soluço eterno, seguido do puxado, cultivado a vida inteira por Caixa D’Água, do que ele, Gil. Sílvio me disse ter Gil lhe contado que em um de seus shows pelo Brasil afora havia estabelecido um diálogo imaginário com Caixa D’Água.

Gil abstraiu-se do show para conversar telepaticamente com Caixa D’Água.
De acordo com Silvio Osias, também o finado compositor Gonzaguinha havia se tornado fã de Caixa D’Água.

Dessas coisas, tenho certeza, ninguém sabia. O que eu sempre soube, por ter convivido bem assiduamente com o poeta, nas boêmias pessoenses, especialmente na década de 70, era de que ele despertava certo interesse nas pessoas. Ao ponto de sempre achar quem lhe pagasse uma “gelada”. “Calhordas!”, atacava, enraivecido, ao menor constrangimento que lhe fosse causado nessas noitadas.

Foi sepultado com a carteira da API no bolso de trás da calça. Ele era um apaixonado pela entidade da imprensa paraibana, onde, inclusive, seu corpo foi velado.
E não foi apenas Gilberto Gil que lamentou abertamente um dia a sua morte assim que lhe foi comunicada por Silvio Osias. Nós, seus convivas, também. Na verdade, as noites de João Pessoa – pelos bares do Centro e do Varadouro – jamais foram as mesmas, desde então.

“Se minha mãe se abruma, se o mar geme, se os mortos não voltam mais…” Com versos assim Caixa brindava seus convivas noites adentro. E não adiantava exigir explicações sobre o significado da construção “se minha mãe se abruma”: – isso é negócio de mãe mesmo, arrematava Caixa.

Nos tempos de Zé Américo e Renato Ribeiro Coutinho, quando ambos, assim como Caixa D’Água, só andavam de terno branco, o poeta apresentava sua diferença: “aqui na Paraíba, só quem anda de branco sou eu, Renato Ribeiro e Zé Américo; só que eu e Zé Américo somos intelectuais e Renato, não”.

Mais tarde, no governo Geisel, ele acrescentou: “os três homens mais importantes do Brasil sou eu, Geisel e Gilberto Gil”. Certamente veio daí a grande admiração de Gil pelo nosso poeta.

MEMÓRIAS PESSOENSES: O Boiadeiro - Sérgio Botêlho



 

Falar sobre O Boiadeiro e o que ele representou para as noites pessoenses é mexer com uma gama de emoções muito fortes. Ficava no Baixo Tambaú. Mais do que um bar, um restaurante, ou qualquer coisa semelhante a casa de pastos e de bebidas, ou recanto de boêmios, o local serviu como uma espécie de ponto de resistência cultural durante parte do chamado “anos de chumbo”.


O proprietário do Boiadeiro, Bento da Gama, ele próprio era um sobrevivente do Golpe. Junto ao seu inesquecível pandeiro – fazendo parceria com inúmeros violões que todas as noites apareciam por lá – o boteco compunha um dos cenários mais admiráveis da vida noturna pessoense na década de 70. Pinto, um dos mais renomados craques do futebol de salão de João Pessoa, sócio de Bento na vida noctívaga, e, enfim, genro, era presença constante, ele e o seu violão.

Bento representava um espetáculo à parte, sendo figura indispensável em qualquer noite de O Boiadeiro. Nas diversas mesas, grande parte dos fregueses portava violão e se revezava na apresentação musical. A MPB dominava inteiramente o cenário musical. De resto, tudo o que compunha O Boiadeiro exaltava a liberdade e o prazer.
O Boiadeiro foi sucedâneo do Asa Branca, que, naquele local, cumpriu as mesmas funções. Foi no Asa Branca que aconteceu, segundo a prodigiosa memória de Sílvio Osias, um show hoje perdido nas brumas do tempo. Refiro-me a uma apresentação conjunta de Zé Ramalho e Carlos Aranha, antes de Zé pegar fama, intitulado Ramaranha.

E, desse jeito, O Boiadeiro acolheu, em noites homéricas, não apenas compositores e músicos, mas, também, artistas de teatro e de cinema, conferencistas de esquerda, gente de todos os naipes, que, de passagem pela capital paraibana, terminava a noite nas mesas de O Boiadeiro, num grande coral, numa catarse coletiva de espantar os males da vida e a ausência de liberdade vigente no país.

Havia os que não se acostumavam com a escuridão interna do Boiadeiro, uma das principais características do bar. Entre os mais cegos, Lelo Cavalcanti me confessou outro dia que quase não via nada, quando, por acaso, perdia seus óculos. Entretanto, as queixas eram muito poucas, inclusive de Lelo, personagem de momentos inesquecíveis em O Boiadeiro. Aliás, não dá para imaginar um cenário para o bar de Bento da Gama que não fosse aquela escuridão determinada pelo proprietário.
Quem é guardião de histórias no bar de Bento é o indefectível Vital Farias, uma das glórias paraibanas da música popular brasileira, autor de Ceiça, uma bela composição e que tem tudo a ver com a história do Boiadeiro e de seus principais personagens e fatos vividos naquelas noites memoráveis.

Bento, infelizmente, já morreu. E, nunca mais, O Boiadeiro.

MEMÓRIA PESSOENSE: Vassoura - Sérgio Botêlho



No dia em que completei 18 anos, e morava na Santo Elias, “Vassoura” chegou bem no meio da ruidosa festa, em pleno mês de fevereiro, e de carnaval. A casa em que a gente residia tinha um alpendre alto de forma que dava para que a cavaleira, ainda montada, ficasse à altura dos convidados que bebiam e comiam no terraço.

“Vassoura” chegou – como sempre chegava às casas de família, às praças, às ruas, e, ainda, ao Palácio do Governo – calçando botas longas, cavalo arreado, broches patrióticos no peito, colares, empunhando garbosamente em uma das mãos a bandeira brasileira. Naquele dia, como tudo era festa, ninguém ousou galhofar daquela figura ímpar da história de João Pessoa, Bayeux e Santa Rita, a insubstituível Maria Isabel Bandeira Brasileira. E como ninguém galhofou dela, especialmente do seu apelido, ficamos livres da resposta que ela tinha pronta para todas essas ocasiões: “Vassoura é a mãe”. Imprecação que costumava não ser proferida isoladamente.

Outro dia – digo, outro dia, mas, faz algum tempo, por volta de 20 anos, ou um pouco mais – tomei um desses ônibus circulares em João Pessoa. No banco de trás, um grupo de artistas populares tocava músicas nordestinas, ao som de pandeiro, zabumba e triângulo. Melodias e letras eram, para mim, desconhecidas. Mas, gostei das que ouvi na ocasião. Procurei saber e descobri que o líder da trupe era justamente um, ou, o único, filho de Maria Isabel Bandeira Brasileira. Lúcido, e tão desinibido quanto sua mãe, o rapaz executava um pandeiro, e cantava. Tinha a voz sonora e afinada. Fiquei emocionado. Um filho de “Vassoura” sobrevivia pelos caminhos de uma arte musical de sua própria lavra e arranjo. Nunca mais ouvi falar dele.

Quem, em vida, sempre protegeu Maria Isabel foi o ex-governador João Agripino. Aliás, o mesmo JA, que, na mesma época, também protegia “Mocidade”. Ele (o governador) gostava dessas figuras ditas folclóricas que ponteavam tanto na Capital, sede do Governo, e onde ficava o Palácio doa Redenção, quanto no Sertão de Catolé do Rocha, onde nasceu. “Vassoura” (eu nunca vi para confirmar se verdade foi, mas, dizem) entrava no Palácio da Redenção do mesmo jeito que se deslocava de Santa Rita para João Pessoa, e, pela cidade, isto é montada a cavalo. Pois bem. “Vassoura”, diz a lenda, com a aquiescência do próprio governador, entrava no hall do Palácio montada, com todas as pompas e circunstâncias, em seu cavalo.

“Vassoura” vagava pela cidade, da manhã à noite. Não houve um só lugar entre Santa Rita e João Pessoa, segundo creio, em que ela, tal qual uma Anita Garibaldi suburbana, não tenha estado. Todos os pessoenses, bayeuxense e santaritenses, do pobre ao rico, do poderoso ao humilde, do patrão ao empregado, que viveram na mesma época de “Vassoura”, a conheceram, ou tomaram conhecimento de sua existência. Sua montaria – não sei quantas chegou a possuir – estava sempre descansada, tranquila e calma. “Vassoura” trotava devagar, toda a vida. A não ser quando tinha que perseguir insultantes, principalmente meninos, coisa que não faltava no dia a dia de Maria Isabel.

“Vassoura” foi, durante toda a sua vida, uma peregrina urbana. Vivia da ajuda de todos os que pudessem auxiliá-la. E não era o governador João Agripino o único poderoso que lhe socorria! Outros, também o faziam.

Foi, sobretudo, uma figura indefectível, inapagável do cenário urbano da chamada Grande João Pessoa, de ontem, e de sempre.

MEMÓRIA PESSOENSE: Carboreto - Sérgio Botêlho



Nunca soube de onde aquele campinense de estatura baixa que fez fama em João Pessoa principalmente durante a década de 80. Carboreto, tirou o seu apelido. Sei que carbureto, assim, com ‘u’, é um derivado do carbono, inflamável, costumeiramente utilizado para apressar o amadurecimento de certas frutas, especialmente banana e abacaxi.

O nosso Carbureto andava pelas ruas e bares e repartições de João Pessoa assim como andavam Mocidade, Vassoura e Caixa d’Água, guardadas as devidas vocações de cada um deles. Sempre metido em um terno, às vezes numa composição entre calça, camisa, paletó e gravata, digamos, assim, meio ao cearense Falcão, o nosso herói sempre procurou trabalhar.

Não digo que ele não pedisse de vez em quando algum recurso aos amigos para a sua sobrevivência. Mas, quando o fazia, era de forma discreta. Por necessidade, exatamente. Era comum encontrá-lo com uma bolsa tipo 007 contendo algumas bugigangas para vender. Vendia de tudo, feito esses coreanos e chineses que pululam pelas cidades brasileiras afora.

Quando morreu, na primeira metade da década de 90, atropelado, em Tambaú, Carboreto estava trabalhando, portando, no rosto, um par de óculos com luz própria. Enquanto isto, na mala, ele carregava novidades chinesas e coreanas, a serem oferecidas em mesas de bares e de restaurantes da praia.

Carboreto estava sempre apressado. Em João Pessoa, ele conhecia todo o mundo, especialmente os boêmios, apesar de não ser um deles. Sem dúvida, a figura impressionava muito menos pelo porte, e, muito mais, pela desenvoltura, pelo aparente desequilíbrio, pela força de vontade, uma espécie de caubói numa metrópole.

Conheci Carboreto, de conversar com ele. Cheguei mesmo a comprar-lhe algumas daquelas coisas tipo caneta, relógio, baralhos, porta-cartões, porta-objetos diversos, ninharias eletrônicas. Quando se sentia ameaçado, ou muito ironizado, Carboreto reagia. Ele não era assim tão manso, não. E nem devia ser! A luta pela sobrevivência numa capital com todas as suas humanas idiossincrasias sugere que sejam evitados comportamentos excessivamente passivos.

No instante de sua morte, o nosso agora lembrado personagem deixava a casa de um político que o havia recebido na qualidade de assessor, com todas as pompas, circunstâncias e ato lavrado e publicado no Diário Legislativo. Embora, como já disse, continuasse a vender seus troços com o intuito, é claro, de subir na vida.

Mesmo residindo em João Pessoa, Carboreto nunca abandonou sua cidade natal, Campina Grande. Era figura tanto na Capital quanto na Serra, portanto, frequentando, nas duas cidades, as mesas mais importantes das noites locais. Governadores e prefeitos lhe cediam espaço para bate-papos regados a cerveja e uísque, embora não consiga trazer de volta à memória a imagem de Carboreto bebendo.
Sem qualquer exagero, uma figura inesquecível.

MEMÓRIA PESSOENSE: Havia as marinetes! - Sérgio Bôtelho



Velhos tempos os das marinetes! Desapareceram mais ou menos junto com os bondes. A parte fechada era de madeira onde cabiam cerca de 10 a 12 pessoas. Lembro delas fazendo a linha Róger-Tambiá. O percurso tinha início no Ponto de Cem Réis no prédio ainda hoje conhecido como o de As Nações Unidas (importante loja de tecidos da vida pessoense). Havia ainda linha de marinete para o bairro da Torre, partindo da Treze de Maio, ao lado da Igreja das Mercês.

As marinetes, que precederam as kombis, e, mais contemporaneamente, as vans, tinham suas cabines de madeira montadas em chassis de caminhonetes. Mas, não se limitavam às linhas interurbanas. Algumas, até, se aventuravam em trechos interestaduais mais longos, como Rio de Janeiro e São Paulo, levando nordestinos em busca de futuro. Serviram, também, como os primeiros meios de transporte turístico no que se chamava de “excursão”.

Foi numa dessas marinetes que fiz minha primeira viagem turística. Minha mãe, Ivete Botêlho, era proprietária de uma escola de datilografia muito respeitada pelos concurseiros da época: a Escola de Datilografia Solon de Lucena. O microcomputador de hoje não era assunto nem para adivinhos. As aulas de datilografia eram ali na Arthur Aquiles, uma rua curta que desce da Visconde de Pelotas para a Treze de Maio, onde, durante muito tempo, funcionou o Hospital de Pronto Socorro.

Naquela época, a conclusão do curso de datilografia tinha status de formatura, com direito a baile nos salões do Clube Ástrea, excursão e tudo o mais a que um formando tinha direito. No ano de 1958, apenas com oito anos de idade, acompanhei os novos datilógrafos para a tal viagem a Fortaleza, de marinete. Foram seis dias na estrada (três de ida e três de volta), além de três dias na capital cearense. Tudo isto por estradas de barro através dos sertões da Paraíba e do Ceará.

Eram os tempos da marinete, tempos de um trânsito mais vagaroso, de uma população menos explosiva, de nenhum receio sobre colapso urbano, como os dias atuais, e de meios de transporte que não têm mais sentido de ser, que não voltam mais.

E entre aqueles meios de transporte pontificavam, justamente, as velhas marinetes, que só arrancavam na manivela. Difícil explicar esses veículos para alguém dos dias de hoje, que só conhecem os carros computadorizados. Porém, naquele tempo, uma parte dos automóveis em circulação não pegava na chave, e, sim, através de uma manivela que era encaixada bem na frente do carro e fazia girar o motor. Não raramente, dava um trabalho danado para o bicho pegar. Mas, como tudo era muito devagar, a demora não tinha a mesma importância dos dias de hoje.

Hoje, é o tempo da falta de tempo para tudo. Tudo tem que ser veloz, e meio trágico. Não é mais tempo de marinetes nem de bondes.

Mas, como diz o poeta, “recordar é viver”. E como ainda não perdi a memória me encontro decidido a remexer o passado e suas maravilhas, como é o caso das marinetes. Que eram charmosas, bacanas, até.

MEMÓRIA PESSOENSE: O corso - Sérgio Botêlho



Quando acabei de vir ao mundo, na Cândida Vargas, em Jaguaribe (vejam bem, nasci em Jaguaribe), segundo mamãe me repetiu incontáveis vezes durante a vida, naquele momento exato, foi passando uma charanga. Era o dia 20 de fevereiro de 1950, uma segunda-feira de carnaval. Nasci, portanto, em pleno festejo momesco, e virei folião por toda a vida.

As charangas eram compostas por gente profissional ou não da música, tocando instrumentos de percussão, arrumados em cima de uma caminhonete ou caminhão. Por vezes, essas charangas ensaiavam muito e terminavam formando um conjunto com certa harmonia. Usavam padrão único de roupas, ou fantasias. Tudo ficava bem até mais ou menos os eflúvios do álcool tomarem conta da turma. Mas, tudo era carnaval, e tudo valia se a alma era da folia!

Essas charangas, também conhecidas popularmente como troças – assim como os clubes que desfilavam no hoje chamado carnaval tradição de João Pessoa, de tribos de índios, de escolas de samba, de blocos de frevo – elas participavam de uma competição particular.

Enquanto os clubes carnavalescos desfilavam a pé, em circuito competitivo próprio, com destaque para os circuitos do Roger, de Jaguaribe, e do Centro da cidade (como se Roger e Jaguaribe não fossem Centro, também!), as troças desfilavam no tradicional corso, do qual hoje não existe mais nem rastro.

Quando chegava perto do carnaval, juntavam-se as turmas a fim de alugarem carros velhos para o corso. Consistia num cortejo repetitivo em termos geográficos, por três ou quatro horas, num roteiro que às vezes mudava.

O mais tradicional dos corsos tinha o seguinte percurso, em João Pessoa: Ponto de Cem Réis, Visconde Pelotas, Praça Dom Adauto, fazia a curva no Pio XII, entrava na Duque de Caxias, passava outra vez no Ponto de Cem Réis, retomava a Duque de Caxias, Praça João Pessoa, Pavilhão do Chá, dobrava na Academia de Comércio, pegando a Almeida Barreto, dobrava a antiga Rádio Tabajara, pegando a Rodrigues de Aquino, passava outra vez na Praça João Pessoa, chegava à Praça 1817 para voltar ao ponto inicial, no Ponto de Cem Réis, retomando o trajeto todo tantas vezes quando a paciência e animação suportassem. Aqui e acolá, mudava-se o trajeto, com a incorporação da Lagoa, por exemplo.

Os mais ricos, usavam elegantes conversíveis. Os mais pobres, preferiam caminhonetes e caminhões. Os mais novos, e irreverentes, fubicas e carros, muitas vezes, cortados em oficinas pela cidade adentro.

Oficialmente o corso era realizado aos domingos, segundas e terças-feiras de carnaval, antecipando-se aos horários destinados aos desfiles de rua e carnavais de clube. Alguns se obrigavam a algum tipo de descanso entre o corso e o clube, este, mais ou menos a partir da meia noite, para os adultos. Mas, era o corso onde terminava acontecendo a mais forte integração social dos três dias de Momo, embora fosse bem nítida a diferença entre a participação do rico e a do pobre. Porém, todos no mesmo espaço e compartilhando o mesmo momento de alegria.

Não sei bem avaliar a razão mais forte para o fim do corso nos carnavais de rua, não apenas em João Pessoa, mas, de resto, em todo Brasil. Ouso arriscar um palpite de razões combinadas: o aumento da população e do número de automóveis, e o fortalecimento dos carnavais de ruas e praças ao som de trios elétricos e de bandas, em praias e cidades como Olinda e Salvador.

O corso, a partir daí, arrisco eu, passou a ser um estorvo às cidades e algo crescentemente desinteressante para a juventude, ávida por mais animação, mais gente e mais aconchego, digamos assim, durante o carnaval.

O tempo e suas circunstâncias, portanto, acabaram com o corso. Tanto assim que hoje seria absolutamente impossível reconstruí-lo, restando, apenas, lembrá-lo como um item indispensável que foi do nosso memorável passado carnavalesco.
Embora o incansável Willis Leal tenha, um dia desses, até buscado ressuscitá-lo, em Tambaú. Em vão, contudo.

MEMÓRIA PESSOENSE: Casa dos Frios - Sérgio Botêlho



A Casa dos Frios era um bar que existia em prédio vizinho ao Bradesco de hoje (ontem, uma das extremidades da residência de João Minervino, dono do Paraíba Hotel), na Duque de Caxias, no Centro de João Pessoa.

Nas décadas de 50 e 60 o bar viveu a culminância do sucesso na boêmia pessoense. Embora todos os dias fossem dias de chope, o dia de maior movimento local eram os sábados, se bem me recordo.

Homens, principalmente, homens, já que mulheres muito dificilmente iam aos bares, lotavam todas as mesas disponíveis para conversas intermináveis. Conversas que iam aumentando em decibéis à medida que cresciam, sobre as mesas, aquelas cartelinhas, oficialmente chamadas “bolachas” de chope, que serviam para apoiar a tulipa cheia.
Ao final das farras, eram as referidas “bolachas” que se prestavam à contagem da quantidade de chopes consumidos, o que podia terminar em confusão devido ao mau hábito de um ou outro em esconde-las.

Minhas lembranças da Casa dos Frios são muito mais de menino e de adolescente ou acompanhante do ou à procura parentes e conhecidos da família. Um dos frequentadores da época que mais me chamavam a atenção, naquelas mesas da Casa dos Frios, além de Araújo, o meu pai, era a de “seu” Elízio, isto é, Elízio Alexandrino, pai de Floriano e Golinha, dos Quatro Loucos, e outros tantos filhos e filhas notáveis. “Seu” Elízio era uma figura admirável, do alto de sua enorme barriga, ao lado do meu pai, e de sua incomensurável orelha.

A chamada peça de resistência da Casa dos Frios era o ovo cozido. Já naquele tempo o pessoal sabia que a despeito da maledicência, o ovo não tinha nada de nocivo. E, por isto, o consumo era largo, ao lado, como dizia o nome, de pratos frios como queijos e enlatados em geral.

Não é possível afirmar que a Casa dos Frios tivesse como clientela característica a parte mais intelectualizada da cidade. Ela abrigava todo o espectro humano pessoense que se dispusesse a tomar um chopinho num momento qualquer. Mesmo porque era o Centro de João Pessoa o local de maior atração para comensais e cervejeiros e uisqueiros de uma forma geral. E nada mais central em termos urbanos do que aquela Casa.

Quando iniciei minha cruzada boêmia, no entanto, o local já não tinha o mesmo brilho de outrora. Alguns outros bares, inclusive para as bandas de Tambaú e adjacências, além da Bambu, é claro, e das primeiras boates ali pelo Centro, ou na praia, já dividiam as preferências.

Poucas referências existem sobre a Casa dos Frios. Apenas, hoje, a lembrança dos que, à época, assistiram o seu apogeu. Certamente, um traço indelével da vida pessoense do início da segunda metade do Século XX.

MEMÓRIA PESSOENSE: Stop-A Parada do Sucesso - Sérgio Botêlho



Os tempos eram os da discoteca. Eram os anos 70. Tempo de elevado prestígio internacional da música pop-rock. Brilhavam estrelas à altura de Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, Pink Floyd, Led Zeppelin, Aerosmith, Alice Cooper, Black Sabbath, Kiss, Queen, The Who, The Rolling Stones, Bob Dylan, Simon & Garfunkel, Joan Baez, The Mamas & the Papas, Donna Summer, Santana, além dos Beatles, pelas carreiras solo de George Harrison, Paul McCartney e o indefectível John Lennon. As boates – ou, discotecas – se multiplicavam no mundo e no Brasil afora, e, como não poderia deixar de ser, na Paraíba.

Foi nesta época que a dupla de irmãos Carlos Roberto e Roberto Carlos, ambos, de Oliveira, criaram e botaram para funcionar a Sorvelanches 36. O ambiente, que funcionava na Miguel Couto, antes da existência do viaduto, logo virou ponto de encontro da moçada pessoense.

As calçadas e o leito da rua (onde o movimento de carros era bem menor do que o que se verifica nos dias de hoje), a partir do meio dia (quando os colégios encerravam o turno da manhã), ficavam repletas de gente jovem. O mais curioso é que a maioria dançava para valer, em plena luz do dia, enquanto as conversas - repletas de gírias da época - e os namoros não paravam.

Por que isso era possível? Era possível porque Roberto Carlos (homem do rádio e da Comunicação, em geral, que já partiu, cedo demais, para outras esferas) e Carlos Roberto (insigne publicitário pessoense, que também já se foi, outro dia) tiveram a maravilhosa ideia de junto com a Sorvelanches 36, criarem a Stop-A Parada do Sucesso.

A Stop era uma loja de discos que recebia as principais novidades da música do mundo e do Brasil. Daqueles artistas globais, já citados – e de outros mais – que faziam a música da década de 70. Entre os brasileiros, Rita Lee, Os Mutantes, Secos e Molhados, Roberto Carlos, os baianos Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Gal Costa e Maria Betânia, entre outros.

Aquela era a década imediatamente subsequente à de 60, esta, uma década que comportou os maiores avanços sexuais e libertários de que se tem registro em toda a história da humanidade. A Sorvelanches 36 e a Stop passaram a ser um dos símbolos dessa época, na capital paraibana, um local de encontro dos viventes daquele extraordinário momento de uma revolução de costumes que ia transformando, debaixo de muito som e barulho, a maneira de ver o mundo, até então.

A empreitada se reproduziu em filiais. Várias outras lojas daquelas foram inauguradas pelos dois irmãos. Na própria rua Miguel Couto, mais acima (esquina com a Duque de Caxias), no Rique Center, na Epitácio Pessoa.

Quero crer que a ideia de Carlos Roberto e Roberto Carlos não tenha mais lugar no mundo, que continua pop, de hoje. Principalmente porque não há mais discos, nem sequer CDs. Mas, sem qualquer sombra de dúvidas, foram a Sorvelanches 36 e a Stop traços marcantes da vida social pessoense. Um desses empreendimentos que a gente tem obrigação de não esquecer.

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