MEMÓRIA PESSOENSE: Balneário às antigas - Sérgio Botêlho



Pouca gente sabe, mas, João Pessoa já teve um “balneário” onde eram alugados calções de banho. Não creio que o negócio tenha chegado à década de 60. A lembrança não ultrapassa o meu tempo de criança. Mas, que existia, existia! O aluguel de calções funcionava ali por trás do Elite Bar.

Aliás, um lugar (o Baixo Tambaú), na divisa com a praia de Manaíra, meio mágico na história das praias paraibanas. O setor atraía uma multidão de banhistas populares que chegavam a Tambaú vindos de todas as partes do estado, ou de João Pessoa mesmo. A outra parte desses banhistas do povo preferia a Penha.

Também lá no balneário por trás do Elite alugavam-se maiôs. Na época, biquíni, só pelas fotos de Brigite Bardot. Certamente – ao menos, acho – que o quesito higiene fosse devidamente respeitado, embora, considere oportuna alguma desconfiança.
O local, pelo que a memória ainda sustenta, era provido de ambientes fechados e separados para homens e mulheres se trocarem, ambos apetrechados com escaninhos, com chaves exclusivas, para a guarda de roupas.

Tempos atrás, em conversa com Nelson Coelho e o saudoso Wellington Aguiar, eles foram precisos na lembrança do local, tão utilizado antigamente. O que significa que não era comum as pessoas terem calções de banho em casa. Ao menos, as mais desprovidas de recursos.

Os calções de aluguel eram praticamente todos da cor azul, aos moldes dos que até hoje usam os solados para os exercícios diários na caserna. Bem próximo ao local, estava o final da linha do bonde para Tambaú. Depois, virou final das marinetes.

Voltando ao aluguel de calção, até o nome “calção” é dificilmente reconhecido hoje como uma peça do vestuário destinada ao banho. Tanto assim que fica complicado a um jovem contemporâneo entender, precisamente, a existência, um dia, de algum tipo de estabelecimento dedicado ao negócio.
Mas, que havia, havia!

MEMÓRIA PESSOENSE: Elite Bar - Sérgio Botêlho



O Elite Bar consagrou-se, durante décadas, como referência da geografia urbana e do roteiro do prazer e do turismo, em João Pessoa. Não é mais. Agora, em seu lugar, existe um equipamento completamente diverso, em tudo: uma agência do Banco do Brasil. Definitivamente, o Elite Bar não existe mais.

Enquanto existisse por ali algo parecido com restaurante, com bar – até lanchonete servia! -, o espaço onde funcionou o Elite continuaria guardando algo do antigo empreendimento. Mas, banco, é demais. Não tem nada a ver com O Elite, nem com a cabeça de galo, uma de suas peças de resistência.

Isso tudo não apaga a memória de um restaurante e-bar, primeiro equipamento turístico montado nos limites entre Tambaú e Manaíra, na mesma linha geográfica do antigo Piá (se alguém não se lembra do Piá, nesses dias vou lembrar), e da gameleira centenária que ficava por ali.

Durante algum tempo, há bastante tempo, no caso, o Elite foi marco do final da linha de bondes que levava passageiros da cidade para Tambaú, democratizando o acesso às principais praias urbanas de João Pessoa, e, na sequência, dos ônibus que despejavam banhistas em busca de mar e sol. Por trás do Elite funcionava um equipamento então chamado de balneário, que, entre outras coisas, alugava calções, possuía armários para a turma guardar roupas, e chuveiros, para tirar a água de sal da praia.
O Elite Bar nem sempre foi da elite pessoense, embora, sempre, Elite Bar. Em seus primeiros anos, serviu a todos os que chegaram desejosos de Tambaú e Manaíra. Às noites, de todos os dias da semana – isto, até a urbanização definitiva das praias mais próximas – se prestava como refúgio aos casais em busca de diversão e sexo.

Não que O Elite tenha se constituído em uma espécie de motel. Quem servia mesmo para isto eram as praias desertas de Tambaú e Manaíra. O Elite conformava-se como parada estratégica para as boemias e as cantorias acompanhadas de violão. Depois, a noite era uma criança.

A resistência de O Elite Bar possibilitou, de maneira paulatina, a chegada de outros empreendimentos semelhantes que, na sequência histórica, fizeram de Tambaú a principal simpatia turística da Capital da Paraíba.

Ali, foram se instalando outros comércios, e, na primeira metade da década de 70 do século passado foi inaugurado o Hotel Tambaú. Aliás, foi isto que faltou ao chamado Sítio Histórico, no Varadouro, uma resistência maior objetivando sua consolidação (um dia a gente conversa sobre isso).

Um capítulo à parte da história do Elite Bar foi escrito a partir da inauguração da não menos famosa Boate do Elite, que funcionava no ritmo de Crocodile Rock, Pertinho de Você, You Set My Heart on Fire, I Feel Love, e, também, com Mutantes, Rita Lee, entre outros sons.

O Elite Bar foi o representante pessoense mais importante da década das discotecas, ao lado da boate do Hotel Tambaú. Naquele rol de ritmos de embalo cabiam ainda baladas do tipo Killing Me Softly, de Charles Fox e Norman Gimbel, na hora dos corpos grudados.

Na mesma época das boates de Elite e Hotel Tambaú, convém lembrar outras iniciativas de grandes e médios sucessos, para que a história das discotecas em João Pessoa fixe o máximo de iniciativas na área. O Maravalha, Clube dos Solteiros, já registrado em nossas crônicas, O Vagão, de Vinícius, a boate do Cabo Branco, O Circo, de Adalberto Barreto, Pasargada, de Marcos Pires, Casablanca (no Altiplano), de Golinha Miranda, Marrakech, de Floriano Miranda, e Papillon, também de Floriano. Sem esquecer as associações corporativas que inscreveram suas boates entre as boas opções da época, como as da Caixa e da Asufep, no Altiplano do Cabo Branco.
A década de 70, das discotecas, que foi marcada, em seu início, pelo Festival de Woodstock, e, em seu epílogo, pelos embalos de sábado à noite, foi uma década inteira marcada por aberturas e fechamentos de boates, como foi o caso da boate do Elite, e dessas outras. Marcou, também, o auge e o declínio do Elite Bar, enquanto referência de lazer pessoense.

Inúmeros outros bares e restaurantes, inclusive ocupando, paulatinamente, casas de veraneio na João Maurício, na Almirante Tamandaré, e, na Avenida Cabo Branco, além da beira-mar, terminaram por roubar o brilho do Elite, para sempre.

Mas, com certeza, no Elite - bar, restaurante ou boate - ficou um pouco do lado prazeroso da vida de muita gente. E da história social e etílica da João Pessoa, para todos os séculos, amém!

MEMÓRIA PESSOENSE: Pascoal Carrilho Sérgio Botêlho



O rádio paraibano possui figuras históricas que ainda hoje motivam conversas saudosas e enchem de curiosidade os que fazem mídia no estado. Motivos variados fizeram a fama de muitos profissionais que passaram pelos microfones da Tabajara, da Correio ou da Arapuan.

A rádio Tabajara, especialmente, tem a maior reserva histórica desses profissionais. Com certeza, por ser a mais antiga e a que experimentou tempos memoráveis de glória na chamada Era do Rádio.

(Abro um parêntesis para lamentar a pouca preocupação dos que faziam rádio na Paraíba em preservar a própria história. Há uma dificuldade enorme quando se trata de buscar gravações sobre a passagem dessas figuras relevantes pelos microfones da radiofonia paraibana. Aqui e acolá você encontra alguma coisa preservada com vozes e momentos importantes do nosso rádio. É comum, no entanto, nada ser encontrado sobre essas passagens históricas. A maioria das histórias é preservada pela chamada memória oral).

Pois bem. Nas décadas de 40, 50 e 60 do século passado pontificou no rádio paraibano, precisamente na rádio Tabajara, um radialista de marca maior e histórias deliciosas e fantásticas chamado Pascoal Carrilho. Dele, contam-se dezenas de situações em que o profissionalismo se misturava com romantismo, saudável amadorismo e agudo senso de humor.

Um dia entrevistei (eu comandava um programa aos sábados chamado Cultura e Lazer) nos microfones da Tabajara o nosso saudoso Golinha, dos Mirandas, outro que fez época na história de João Pessoa, ele e seu irmão Floriano, à frente dos Quatro Loucos. Na oportunidade da entrevista, Golinha estava acompanhado de Hugo Guimarães (Huguinho), que também militou no conjunto Os Gentleman, na mesma época dos Quatro Loucos. Durante a conversa no ar, ao vivo, Golinha contou histórias extraordinárias e hilárias do nosso herói Pascoal Carrilho.

Uma dessas histórias, que terminaram provocando gargalhadas intermináveis no estúdio, foi a seguinte: Quando a Tabajara ainda funcionava ali na esquina da Palmeiras (Rodrigues de Aquino) com a Almeida Barreto havia uma íngreme escadaria que levava aos estúdios, no segundo andar do prédio da rádio. Vizinho à emissora funcionava providencial barzinho com tira-gostos de livrar, qualquer um, das preocupações de tempo e espaço. Bem perto da hora de entrar no ar o seu programa, Pascoal ainda se deliciava com uma branquinha amparada num caldinho de feijão.
E a turma gritava lá de cima: – Pascoal, o programa vai entrar no ar!
Pascoal pedia calma e ao mesmo tempo uma saideira.

– Pascoal, não dá mais tempo!
– Espera aí, rapaz!

E em cima da hora, Pascoal subiu desembalado a escadaria de quase 90 graus. Quando entrou no estúdio, acendeu a luz vermelha: NO AR.

E, aí, ele, ofegante, improvisou um testemunhal sobre penicos: – Caaagaaar a gente caaaga em toodo caaanto. Agoora, caaagar com cooonfoorto sóóó nos peniiicos (aí, deu a marca dos penicos, que não consigo lembrar, agora). kkkkkkk
Imagine o terror na direção da rádio.

Mas, afora esses lances folclóricos, junto a muitos outros atribuídos a Pascoal Carrilho, ele comandou durante muito tempo programas de estúdio e de auditório na Rádio Tabajara, tendo recebido nomes famosos da Era do Rádio no Brasil.

Dessa forma, a fama de Pascoal Carrilho ultrapassou as divisas da Paraíba e do Nordeste, se estendendo ao Sul e ao Sudeste do país. Assim, o espírito pessoense é impossível de ser devidamente apreendido sem que figuras como Pascoal Carrilho, e suas histórias, sejam lembradas.

MEMÓRIA PESSOENSE: Macaxeira, um piloto velocíssimo! Sérgio Botêlho



Quando os porteiros dos cinemas Rex e Plaza davam um refresco, Macaxeira passava por eles, disparado, guiando um carro imaginário e fazendo com a boca o barulho mais próximo possível de um automóvel em movimento: bruuuuuuummmm…

As duas mãos vivam segurando uma direção que somente ele via. Os porteiros corriam feitos loucos atrás de Macaxeira, pois era tumulto certo na sessão. Ele pulava nas cadeiras acolchoadas do cinema, mais do que um menino, podendo quebrar algumas delas.

Macaxeira deve ter corrido a cidade inteira. Só andava correndo. Nunca mais foi visto nem ouvido. Não sei se ainda está vivo ou se já morreu. Era louco por aqueles radinhos de pilha. Mas, quando as pilhas se acabavam, ele aproveitava e jogava tudo fora, inclusive o rádio. Outro dia, passando ali na Visconde de Pelotas, nas proximidades do antigo cinema Plaza, me deu a impressão, logo dissipada, de ter visto Macaxeira.

Certas vezes ele chegava perto de alguém, olhava o relógio, dava a hora, e disparava. Mantinha a sua característica básica: andar disparado. Nunca fiquei sabendo de onde ele vinha nem para onde ia. Algumas vezes vi a sua mãe – ou parente próxima – protegendo-lhe dos perigos nas ruas de João Pessoa.

Não me recordo, porém, de nenhuma perversidade que lhe tenha sido feita. Talvez nem houvesse tempo para o malfeitor executar a perversidade em virtude de sua rapidez permanente. Quando corria, seus olhos se apertavam como se o vento efetivamente se tornasse forte demais. E já que não usava óculos…

Macaxeira só corria tanto porque o tempo em que viveu era parado demais. Não havia tantos carros em João Pessoa e dava para ele atravessar as ruas quase sem olhar, praticamente atropelando os automóveis em movimento. Fossem os tempos de hoje, e não daria para Macaxeira viver tão solto como vivia. Seja por conta do grande número de automóveis, definitivamente mais velozes que ele, seja pela quantidade de pessoas pelas ruas, tornando bem difícil a vida de um corredor contumaz e diuturno como era Macaxeira. Ele foi, literalmente, um homem do seu tempo, feito para o seu tempo, e somente livre e possível no tempo em que viveu.

Lembrar de Macaxeira, portanto, é lembrar de uma outra João Pessoa bem diferente dessa João Pessoa de hoje. Sem qualquer sombra de saudosismo, era uma cidade mais tranquila, menos apressada, e, desse jeito, do tamanho perfeito para o tipo de vida de Macaxeira. Não apenas Macaxeira, mas, ainda, para Mocidade, Pão de Bico, Doutor Cagão, e outras personalidades espetaculares do nosso dia a dia de outros tempos.

Um cotidiano que deve ser desnudado, sempre, retirado permanentemente da sombra aonde não merece ser escondido. Lembrar da João Pessoa de outras épocas é, assim, uma necessidade para que possamos entender a cidade de hoje.

Somos o que somos por conta do nosso passado e de nossas gentes, das mais equilibradas às mais loucas, das mais importantes às mais obscuras. Macaxeira foi uma dessas gentes, uma dessas personalidades extraordinárias, inesquecíveis, agora, encantado, mas, certamente, ainda a percorrer as ruas da Capital, guiando o seu carro inexistente.

MEMÓRIA PESSOENSE: o Gambrinus - Sérgio Botêlho



 

As figuras mais expressivas da imprensa paraibana se reuniam, durante a década de 80 e parte de 90, no restaurante Gambrinus, em um espaço que hoje faz parte daquele maior que é ocupado pela Feirinha de Tambaú.


Lembrar do Gambrinus é reviver tertúlias homéricas da mídia paraibana. Assemelhados ao Gambrinus certamente serviram à mídia, em épocas diferentes, o La Veritá, na Souto Maior, o Drive In, da Epitácio Pessoa, e, sem dúvida, o Cassino da Lagoa e a indefectível e imorredoura Churrascaria Bambu. Mas, nunca houve local onde tantos jornalistas se reunissem com tanta frequência, de uma vez, só, quanto no Gambrinus.

Um dia, o português Moita – inventor e proprietário do lugar – decidiu que devia retornar à pátria mãe, e adeus João Pessoa, para nunca mais outro Gambrinus. Ficamos a ver caravelas. Depois, a turma se espalhou de um jeito que, sinceramente, até os dias de hoje ficou muito difícil reencontrar todos, de uma só vez, em um determinado lugar. Assim como uma colmeia desmanchada. Dificuldade piorada em função do número de coleguinhas amontoados, hoje em dia, pelas redações de TVs, jornais, rádios, sem falar das dezenas de sites de notícias. É gente demais para andar junta!

Mas, enquanto durou, ali nós tínhamos a possibilidade de, a partir das quartas-feiras, conviver com Martinho Moreira Franco, e sua incrível verve, Nonato Guedes, e suas análises políticas, Paulo Santos, sempre alerta, Agnaldo Almeida, questionando os fatos, Tico Pinto, com intervenções cirúrgicas, Rubens Nóbrega, dissecando as personalidades, Walter Santos, antenado sobre os furos, Arlindo Almeida (de saudosa memória), problematizando as análises correntes, Erialdo Pereira e Silvio Osias, sempre sintonizados com o mundo global e com a cultura, Biu Ramos, implacável nas observações, Manoel Raposo, Willis Leal, imprescindível, sempre, Abelardo Jurema, ligado no jornalismo social, Paulo Soares, amigo permanente da imprensa.

Paulo (para os mais íntimos, Paulinho) Soares, profissional da Saúde exercendo a Medicina Infantil, ele, na verdade, tornou-se, desde tempos imemoriais, presença indispensável a uma mesa ocupada pela mídia, na certa por que, melhor do que qualquer um de nós, “Paulinho” consiga exercer uma crítica permanente, imperdível e impiedosa envolvendo fatos e gentes da hora; características marcantes, por sinal, também de seu irmão, Soares Madruga, que foi, enquanto vivo, jornalista e deputado estadual com incursões memoráveis na história crítica da política paraibana.

Curioso de saber de onde Moita havia buscado inspiração para o nome Gambrinus, acabei encontrando pistas a respeito, na quase infalível Internet. É nome, por exemplo, de um restaurante-bar-cervejaria que funciona em Lisboa. De acordo com as informações obtidas no site do Gambrinus lisboeta, era uma antiga “tasca”, um restaurante simples, que data de 1937. Em 1964, passou por uma reforma que transformou o empreendimento no que ele é, por ali, nos dias de hoje.

Segundo a cada vez mais acessada Wikipédia, Gambrinus é, ainda, nome de um rei de Flandres, na Bélgica, com certeza um inveterado tomador de cervejas, de tal maneira que se tornou o patrono não oficial da cerveja, emprestando o nome, enfim, a uma das cervejas tipo pielsen, de fabricação tcheca, considerada como das mais conhecidas do mundo.

Portanto, tanto em uma quanto em outra referência, duas inspirações de peso que poderiam muito bem ter servido a Moita na hora de escolher o nome do seu empreendimento em nossa Capital.
Muito bom era o Gambrinus, em sua versão pessoense!

MEMÓRIA PESSOENSE: O CEU (Clube do Estudante Universitário) Sérgio Botêlho




Vivíamos o ano de 1968. A inquietude dominava o espírito da juventude internacional. Os jornais, rádios e a ainda jovem TV registravam movimentos estudantis em todas as partes do mundo. Os jovens diziam NÃO a um mundo cujos valores estavam desmoronando. E isto acontecia tanto nos países capitalistas quanto os ditos socialistas. Do Oriente ao Ocidente. O mundo inteiro assistia a uma transmutação de costumes definitivamente marcada na história. E, no Brasil inteiro a juventude mergulhou de corpo, alma e muita coragem nessa fantástica onda mundial.


Em João Pessoa a história não era diferente. Provinciana e cosmopolita, ao mesmo tempo, como sempre foi e continua sendo, a capital paraibana vivia plenamente a contemporaneidade. Os estudantes estavam nas ruas protestando contra tudo o que consideravam necessário ser transformado. As locações da resistência estavam geralmente nos prédios públicos que abrigavam escolas estaduais e federais, e faculdades. Esses prédios serviam de refúgio para quando era preciso fugir dos instrumentos de repressão de prontidão no Brasil inteiro, em João Pessoa, também, na época do autoritarismo. Um autoritarismo que, infelizmente, ainda viveria seu período mais perverso.

Um desses prédios da resistência estudantil era o Clube do Estudante Universitário, o CEU. Na verdade, era onde funcionava o restaurante universitário da UFPB, no prédio onde depois passou a existir o Cassino da Lagoa. Assembleias estudantis aconteciam regularmente naquele prédio aberto por todos os lados. As greves estudantes que se sucediam diariamente elegiam o CEU como sede de seu comando central, lugar permanentemente tomado por um maravilhoso tumulto que apenas cheirava a mudança e rebeldia.

O CEU marcou boa parte da vida pessoense das décadas de 50 e 60. Lembro de uma das mais importantes greves estudantis daquela época, que mobilizou universitários e secundaristas. A polícia do estado a serviço da ditadura estava acantonada no anel interno da Lagoa. De frente para o restaurante universitário. Mas, não entrava no CEU. Por alguns dias, foi assim. Em determinado momento, no entanto, e para correria geral, começou a invasão. Mais uma vez, jovens que lutavam pela liberdade e pela paz no mundo inteiro eram levados à prisão como se fossem simples bandidos.

O CEU foi também palco de históricos movimentos culturais. Em suas mesas de refeição forjaram-se projetos culturais que movimentaram a irrequieta João Pessoa daquela época. Época em que começaram a pontificar na capital paraibana elementos da categoria de Linduarte Noronha, Paulo Pontes, Ipojuca Pontes, Carlos Aranha, Cleodato Porto, Luiz Ramalho, Jurandy Moura, Wladimir Carvalho, Elba Ramalho, tudo em meio ao crescimento nacional do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes.

Nesta série de crônicas breves que resolvi desenvolver para rememorar coisas, fatos, histórias, figuras, lugares e movimentos da história pessoense aproveito, portanto, para registrar a existência nas décadas de 50 e 60 desse bastião da liberdade e da luta contra o autoritarismo que foi o Clube do Estudante Universitário, o famoso CEU. Um local que serviu de verdadeiro cadinho para ideias transformadoras, e, por conseguinte, insuportáveis para os ditadores de então, e de todos os tempos.

MEMÓRIA PESSOENSE: *Lojas Seta* _- Sérgio Botêlho_



 

Em boa parte da década de 50 e parte da década de 60 moda era coisa de mulher. Os estabelecimentos que comercializavam roupas se destinavam às mulheres ou apenas vendiam tecidos que serviam para confeccionar roupas para homens.


Em João Pessoa, era das camisarias e alfaiatarias de onde saia basicamente a roupa masculina. Essas camisarias geralmente se situavam na parte baixa de João Pessoa, as alfaiatarias, entre o Centro e a mesma cidade baixa.

Quem também se ocupava de preparar roupas para homens eram as costureiras. Havia muitas de plantão por toda a cidade de João Pessoa. As fardas colegiais dos meninos – mas, também, das meninas – eram feitas pelas costureiras de confiança, vizinhas de rua ou em bairros mais distantes.

Registre-se o fato de que, na capital paraibana, até explodir a década de 60, com a moda ditada pelo rock de Elvis Presley, dos Beatles, e dos Rolling Stones, e outros grupos que tais, não havia muita diferença entre o que os alfaiates e costureiras e camisarias faziam para adultos, crianças e jovens. Aquilo que diferenciava os meninos eram as calças curtas.

Quando a moda começou a ser também coisa de homem, o comércio paralelo fez chegar a João Pessoa as calças “Lee”, os cinturões com fivelões, as camisas Volta ao Mundo, as calças de Nycron “que nem amarrotam e nem perdem o vinco”, o tergal. Chegavam até sapatos, sandálias, tudo feito para o gosto masculino, tendo os pessoenses ao seu dispor, a partir de então, vestuário para homens fabricado em série e de forma diferenciada. Você comprava a roupa pronta, em João Pessoa, mesmo, vindas até a capital paraibana, como se diz, por debaixo dos panos, no contrabando mais aberto que jamais se viu.

Foi então que se instalou no Centro da cidade as Lojas Seta para Homens, ou simplesmente, Lojas Seta, vendendo legalmente roupas prontas, obedecendo a uma escala de números. Bastava experimentar, e levar. Qualquer ajuste, para quem tivesse uma barriga maior, o braço mais longo ou mais curto do que os padrões usados pelas fábricas de roupas internacionais, novamente a costureira, o alfaiate, ou o camiseiro teriam de providenciar os ajustes. Mas, enfim, havia à disposição dos senhores, dos jovens e dos meninos uma loja de roupas para homens.


O empreendimento Lojas Seta vivenciou momentos importantes da história social, econômica e política de uma João Pessoa que ainda se arrastava do ponto de vista de suas finanças, e de sua política extremamente provinciana, excessivamente patrimonial, e marcadamente familiar. Mas, também, assistiu a manifestações populares, com destaque para as estudantis, que postulavam a redemocratização do país, uma vez que as Lojas Seta para Homens praticamente atravessaram, em João Pessoa, praticamente toda a época do regime autoritário instalado no país em 1964.
Instalada na esquina do Ponto de Cem Réis com a Praça 1817, no prédio do Paraiba Palace Hotel, as Lojas Seta para Homens foram testemunha de dois momentos físicos da Praça Vidal de Negreiros, desde a concepção antiga, que incluía o Ponto Chic, até o efêmero Viaduto Damásio Franca, recentemente aterrado para dar lugar a um Ponto de Cem Réis, questionado, é certo, mas com a mesma configuração plana que já teve um dia. Em todo o caso, foram a Lojas Seta para Homens testemunhas de boa parte da história recente da nossa querida João Pessoa. E, portanto, razão suficiente para o nosso registro.

MEMÓRIA PESSOENSE: O Pastoril do Cordão Encarnado - Sérgio Botêlho



 

A tradição das lapinhas parece ter morrido, em João Pessoa, embora tenha sido forte em outros tempos. Na época de menino, lembro bem de uma festa assim que acontecia no Cordão Encarnado. Para conhecimento das mais novas gerações, o Cordão Encarnado é toda aquela área urbana que se situa a partir do Pavilhão do Chá (Praça Venâncio Neiva) até as proximidades do Cemitério Senhor da Boa Sentença. Dentro do espaço situado entre as ruas índio Piragibe, São Miguel, Nina Lima (que continua a João Machado até o Cemitério), e Rodrigues Chaves, voltando às proximidades do Pavilhão do Chá. Extensão do que se chama Centro da cidade.
O próprio nome “Cordão Encarnado” decorre justamente da tradição da lapinha, representação de tipo teatral, nos períodos natalinos, também conhecidas como pastoril. Representam a devoção das pastoras ao nascimento de Jesus Cristo, elas, as pastoras, divididas em dois cordões: o encarnado, que simboliza Nossa Senhora, e o azul, Cristo. Durante a apresentação, as pastoras dançam e cantam em louvor ao Menino Jesus. A mestra comanda o Cordão Encarnado, e a contramestra, o Azul. Ao centro, a Diana, vestida metade de vermelho e a outra metade de azul. A disputa entre os cordões é ferrenha.


Em meio à disputa, o povo em geral, os comerciantes e as pessoas mais abastadas, presentes, e os políticos, em particular, colaboravam financeiramente com o cordão preferido. O cordão que arrecadasse mais era o vencedor. Não raras vezes essas disputas, de tão acirradas, terminavam até em brigas, entre os participantes.
As pastoras, com pinturas e adereços, cada qual metida em sua cor, desviavam olhares furtivos e dissimulados aos assistentes, conquistando corações e apoios. Era uma festa bonita, que marcava o Cordão Encarnado, geralmente encenada na Rodrigues Chaves, por ser uma rua mais larga e propícia à festa, que contava com a participação das famílias do bairro.

O Pastoril ainda existe em várias cidades nordestinas, incluindo a Paraíba (notícias a respeito vêm de Santa Rita e Guarabira), e, mais especialmente, em Pernambuco, uma gente que gosta de preservar a cultura. Como nossa família residia no Centro, ali na Arthur Aquiles, entre a Visconde de Pelotas e a Treze de Maio, normalmente íamos à Lapinha do Cordão Encarnado. Um tipo de manifestação que, juntamente com outras que fizeram a história cultural pessoense, bem que poderiam tornar a ser incentivadas. Afinal de contas, um povo que não preserva suas identidades culturais simplesmente abdica da existência, enquanto povo.

MEMÓRIA PESSOENSE: As Nações Unidas - Sérgio Botêlho



 

Até início o final da década de 50 do século passado (tenho que me acostumar com esse “século passado”, no qual nasci, exatamente em 50), em João Pessoa, não havia nenhuma emissora de TV. Nem sequer retransmissora dos canais recifenses, o que somente veio a acontecer no limiar da década de 60. Nessa época, dominavam a parada do lazer as salas de cinema que, perto de duas dezenas, se espalhavam por todos os bairros da então João Pessoa.


No Centro, da cidade, entre o Ponto de Cem Réis e a descida da Guedes Pereira, no tradicional comércio pessoense, as lojas se esmeravam em apresentar vitrines, transformadas em verdadeiras obras de arte. Os vitrinistas iam se especializando cada vez mais em preparar com pompa e circunstância as exposições por trás dos vidros transparentes, à frente das lojas.

Aos domingos, havia passeio de casais e filhos na calçada em frente às lojas com o objetivo de apreciar e comentar as arrumações artísticas e as peças expostas. A romaria era ainda maior nos finais de semana, com destaque para os domingos. As vitrines foram para as famílias locais a antecessora da TV, que, ao seu tempo, acabaram substituindo não apenas as vitrines, como atração máxima, mas, também, as salas de cinema.

No Ponto de Cem Réis, o Centro geográfico físico e humano de João Pessoa, reinava absoluta a vitrine de As Nações Unidas, uma loja de tecidos que ficava no prédio ainda hoje em pé e chamado de Prédio das Nações Unidas, no local onde exerce o comércio, contemporaneamente, uma loja de eletrodomésticos. Bem na esquina do Ponto de Cem Réis com a Padre Meira.

Aos domingos, a calçada das Nações Unidas se transformava naquele enxame de gente bem vestida, geralmente proveniente ou da segunda sessão da tarde, ou da primeira e segunda sessões da noite do Plaza e do Rex (ainda não eram os tempos do Municipal). As vitrines de domingo de As Nações Unidas eram como se diz “show de bola”. A preparação dessas vitrines era feita a cortinas fechadas, somente abrindo no início da noite, para apreciação do pessoense.

Qual a dona de casa que não obrigava os seus maridos a irem deleitar-se com aqueles espetáculos de arte e moda? Fingindo alheamento, os homens se faziam de rogados de braços dados com a mulher, ou, então, formavam pequenos grupos com outros amigos ali encontrados. Para as mulheres, no entanto, aquilo era material indispensável aos comentários da semana inteira, não apenas com relação ao visual produzido pela vitrine, como, evidentemente, pela novidade da moda – e das estampas – ali exposta.

Assim eram aqueles tempos de João Pessoa. A loja de As Nações Unidas ainda persistiu pelos anos 60 e 70, com suas vitrines, apesar do desleixo que foi tomando conta da iniciativa ao correr dos anos. Contudo, ficou em nós aquela impressão deixada, de uma época em que nas noites de João Pessoa praticamente não havia qualquer tipo de diversão familiar, afora estas dos cinemas e das vitrines.

MEMÓRIA PESSOENSE: O Cinema de Arte do Municipal - Sérgio Botêlho




Havíamos acabado de assistir Teorema, do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, um dos diretores ícones do cinema mundial das décadas de 50 e 60. O filme conta a história de uma família de tipo burguesa ostentando uma vida aparentemente tranquila, sem atropelos, até receber em casa, como hóspede, um jovem (interpretado por Terence Stamp) que acaba desestruturando completamente o ambiente.

Parêntesis, agora, para explicar do que falo com relação a João Pessoa de outro dia. O Cine Municipal, na Visconde de Pelotas, recebia, às quintas-feiras, um público mais seleto, por que composto de cinéfilos e intelectuais de todos os naipes. Era o chamado “Cinema de Arte”, dedicado à exibição de filmes mais apurados intelectualmente e normalmente indesejados pelos circuitos comerciais.

O “Cinema de Arte” do Municipal foi adotado pelo empresário Luciano Wanderley após reivindicação e muita conversa – conforme me lembrou, outro dia, o jornalista Sílvio Osias, cinéfilo de carteirinha desde os tempos em que era menino prodígio pessoense –, mantida com o pessoal da Associação dos Críticos de Cinema da Paraíba (ACCP), onde brilhavam os gênios de Jurandy Moura, Barreto Neto e Linduarte Noronha, entre outros. O projeto conviveu durante muito tempo com um sucesso de público espetacular, sendo mesmo responsável pela introdução de muita gente no universo do cinema.

Pois bem. Após mais aquela sessão do “Cinema de Arte”, como sempre ocorria, fomos todos à sede da Associação Paraibana de Imprensa, isto é, na mesma Visconde de Pelotas do Cine Municipal, mesmo lugar onde ainda hoje funciona a entidade. Na verdade, a menos de 100 metros, entre um prédio e outro. O debate foi comandado por Jurandy Moura, que fez uma introdução à temática do filme, expôs as vertentes de interpretação e abriu a palavra à ansiosa plateia.

Logo se formaram duas correntes interpretativas a respeito do conteúdo de Teorema. A primeira dizia que Pasolini havia baseado sua obra no pensamento de Freud. A outra achava que o cineasta italiano usou elementos justificadores tipicamente marxistas para a construção de Teorema. Para a primeira corrente, a desestabilização daquela família burguesa apenas revelava as fragilidades de cada uma das personagens diante das teses defendidas por Freud. Para a outra, tratava-se de uma metáfora sobre a decadência da família burguesa preconizada por Marx.

Quando o debate estava mais acalorado, eis que pede a palavra um militante comunista para expor seu pensamento. E o fez com a maior veemência, evidentemente se colocando ao lado dos que interpretavam o filme sob a ótica marxista. Mas, durante a defesa, não fez qualquer menção às cenas de Teorema. Em determinado momento, bastante intrigado, digamos assim, com a alienação da crítica, Jurandy foi lapidar: – Oh, bicho! Você viu o filme? A resposta, igualmente lapidar, não podia ser mais curiosa: – Não, e não precisava para entendê-lo. (risos)

Hoje, Luciano Wanderley, de grande importância para o cinema na Paraíba, já se mudou para a outra esfera. Jurandy Moura e Barreto Neto, também. Mas, bem que podia surgir outro “Cinema de Arte’ na Capital paraibana, com essas características, que incluam o debate sobre os filmes. Ressalvado que, por iniciativa do meu velho amigo de Pio XII, Mirabeau Dias, sempre coadjuvado pelo também ex-companheiro de Pio XII, Saulo Londres, e o Cine Mirabeau, a ideia do “Cinema de Arte” esteja, ‘en petit comité’, resistindo.

MEMÓRIA PARAIBANA: Cachete Sérgio Botêlho




“Meu filho, estou com uma dor de cabeça danada e preciso tomar um cachete, você compra para mim ali na farmácia”, pediu-me, ainda eu criança, uma tia, residente em Aparecida, no Sertão paraibano. Era a primeira vez que eu ouvia falar na palavra cachete. De férias, também era a primeira vez que havia viajado ao Interior da Paraíba, deixando para trás João Pessoa. O que poderia ser um cachete?


Não precisou de muito tempo para que a tia percebesse minha confusão, e, mais ou menos surpresa pelo meu desconhecimento do termo, me resolvesse o dilema: “meu filho, eu queria que você me comprasse um Melhoral”. Pronto, aí eu entendi o que ela queria, e, enfim, pude ir à farmácia fazer a compra. Foi, na sequência, e após muita observação, que acabei compreendendo a palavra “cachete” como referente a qualquer tipo de comprimido, seja lá qual fosse.

Pois é. Ainda hoje os sertanejos costumam chamar comprimido de “cachete”. Nesses dias, em Brasília, conversava a respeito com o repórter Genésio Araújo, cearense de quatro costados, que me deu sua versão sobre a palavra “cachete”. Segundo ele, a maioria dos remédios, antigamente, procedia da Suíça. Os grandes laboratórios se localizavam naquele país europeu. Então, nas caixas de medicamentos estava assinalado “tantos cachés”, na língua francesa, uma das que se fala na Suíça. De “caché” a “cachete”, foi um pulo. E ficou, até hoje!

Não consegui, pelo tradutor do Google, que nos socorre no dia a dia dos tempos modernos, comprovar a tese de Genésio. Como sinônimo de “caché” veio a palavra “oculto”. Gostaria que algum leitor mais sabido na língua francesa – principalmente, em sua variante suíça – pudesse me esclarecer em definitivo a tese genesiana. Mesmo porque o tradutor do Google é muito primário e se limita a lhe dar uma solução bastante limitada em termos de significado da palavra que se busca a tradução. Assim, pode ser que comprimido, no sentido de remédio, ou cápsula, tenha um significado francês quem sabe próximo de “caché”.

Seja lá o que tenha originado o termo, solenemente, no Sertão, comprimido é mesmo “cachete”. “Tomar um cachete” significa, portanto, tomar um comprimido. E a pessoa fala a outra com tanta convicção sobre a necessidade de “tomar um cachete” que passa a impressão de que todos em sua volta sabem exatamente o comprimido específico sobre o qual aquela pessoa está se referindo. Talvez pelo costume em tomar o mesmo remédio, há anos, por conta de uma posologia de uso contínuo, e imutável.
Procurando razões para “cachete” na WEB, me deparei com versos fantásticos, e com eles, encerro esta minha crônica de hoje. São versos da lavra do cordelista Ismael Gaião da Costa, nascido em Recife-PE. O cordelista pernambucano foi premiado na 4a Recitata-2009, da Fundação Cultura da Cidade do Recife, e assina a coluna Colcha de Retalhos, do jornal Besta Fubana. Ismael é engenheiro agrônomo, funcionário público federal, lotado na UFRPE – Estação Experimental de Cana-de-açúcar de Carpina. O cordel, que se chama “No Nordeste é diferente, é assim que a gente fala”, é longo, mas, dele extrai uma das estrofes, que, na sequência, encerra esta crônica.
(…)
Aprendi desde pivete
Que homem franzino é Xôxo
Quem é medroso é um Frouxo
E comprimido é Cachete
Sujeira em olho é Remela
Quem não tem dente é Banguela
Quem fala muito e não cala
Aqui se chama Matraca
Cheiro de suor, Inhaca
É assim que a gente fala

MEMÓRIA PESSOENSE: Padre Zé Coutinho - Sérgio Botêlho



Esta, quem me contou foi o saudoso deputado Antônio Ivo. Trata-se de um capítulo verdadeiro da vide dele (de Ivo), do qual ele nunca havia esquecido, provavelmente, até o último dia de sua vida, já que me foi relatada bem perto de sua até hoje lamentada morte.

Antônio Ivo, jovem e pobre, assim como era comum acontecer com outros interioranos iguais a ele, veio de Santa Luzia para estudar em João Pessoa. O abrigo que encontrou na Capital paraibana foi patrocinado pelo indefectível Padre Zé Coutinho, ali, no Mosteiro do Carmo, na Praça Dom Adauto, vizinho à Igreja do Carmo, no mesmo conjunto arquitetônico, composta de construções de épocas diversas, onde se encontra o Palácio do Bispo.

Antônio Ivo arrumou namoro com uma moça que residia no Miramar. E o namoro ia até bem. Na época, Padre Zé recebia doações de todas as partes, aí incluídos, além do poder público, e dos políticos, pessoas físicas em condições de fazer alguma doação de recursos para aquela obra filantrópica.

O dinheiro destinava-se à compra de alimentos para as dezenas de pessoas que dormiam em redes, do porão ao sótão, e que ocupavam as imensas mesas para o desjejum matinal, o almoço e uma sopinha no jantar. Era uma luta diária que não tinha fim. Aqui e acolá, me disse recentemente o jornalista Manoel Raposo, um dos abrigados de então, e contemporâneo de Ivo, a situação se apertava e Padre Zé não conseguia esconder a angústia.

Um dos maiores sofrimentos de Padre Zé era quando faltava dinheiro para o pagamento da carne, da mistura, como diz o sertanejo, com a qual melhorava a dieta diárias dos pobres. Quase sempre pedia aos meninos e meninas (havia moças pobres, e, segundo Raposo, elas dormiam no andar de cima, no sótão) uma ajuda no sentido de pressionar os deputados representantes de cada uma daquelas regiões dos abrigados ou quem mais aqueles meninos e meninas conhecessem de seus municípios vivendo em melhores condições, em João Pessoa, a fim de arrumar algum dinheiro capaz de saldar dívidas assumidas. E meninos e meninas faziam o que podiam. Também eles, os albergados e comensais, se encarregavam da faxina diária do prédio e das louças, em revezamento.
O próprio Padre Zé saia esmolando em favor de seus pobres pelas ruas da cidade. Vi muito o nosso padre, numa cadeira de rodas, com uma varinha a cutucar quem quer que passasse pela rua, em busca de donativos. Tinha como pontos de sua vida de pedinte as frentes do Plaza, Municipal e do Rex. Ou a calçada do Paraiba Hotel. Sabe mais o que ele fazia? À noite, chegou muitas vezes a ir à Maciel Pinheiro, onde pontificavam os cabarés da época, pedindo esmolas. Não lhe interessava onde, o importante era garantir a manutenção de sua obra.

Votando ao relato de Antônio Ivo, estava ele num desses revezamentos de faxina quando a moça do Miramar, sua namorada, entrou no albergue, acompanhada da mãe. Foram levar donativos. Não deu tempo de Ivo se esconder. Olhares inquietantes foram trocados, sem palavra.

À noite, mesmo assim, Antônio Ivo arrumou-se todo e foi procurar pela namorada, no portão da casa dela, como sempre fazia. Bateu e foi atendido… pela empregada. Ela conduzia um pacotinho que foi entregue silenciosamente ao apreensivo namorado. O embrulho continha cartas, bilhetes e fotografias, em inconfundível ato de devolução, como era praxe ao findar os namoros de então. Ele ainda pediu para falar com a moça, no que não foi atendido. Restou-lhe ir embora. Estava tudo acabado.

Mas, no Instituto Padre Zé, dos interioranos pobres que ali residiam, muitos acabavam conquistando o sucesso. Como foi o caso de Antônio Ivo, que, pouco tempo depois do episódio que lhe marcou a juventude e a vida adulta, viu-se aprovado no vestibular de Medicina da prestigiada Universidade Federal da Paraíba, praticamente garantindo vida futura bem melhor do que aquela em que vivia.

Para concluir esse episódio da vida de Ivo, ele, como de praxe, raspou a cabelo, nos trotes da época, meteu um boné verde na cabeça, que caracterizava os aprovados em Medicina, e, foi assim que, de boné, no Ponto de Cem Réis, caminhando em direção ao Instituto, viu-se frente a frente com a ex-namorada. Foi um susto! Ela esboçou um sorriso e fez menção de abraçá-lo, ou, ao menos, cumprimentá-lo. Mesmo ainda gostando da moça, Antônio Ivo evitou o encontro, para nunca mais vê-la.

Foi o personagem de nossa crônica, depois médico, deputado e prefeito de Santa Luzia, um dos beneficiados pela suprema boa vontade de um homem insuperável, na vida pessoense, no desejo de fazer bem aos outros. Um homem chamado Padre Zé Coutinho, merecedor, todos os dias, de todas as homenagens que puderem ser feitas, em João Pessoa, pelos tempos afora.

Falar nisso: já existe algum movimento católico visando a beatificação de Padre Zé? Pergunto, por absoluta ignorância.

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