MEMÓRIA PESSOENSE: Ágaba e Sady - Sérgio Botêlho



Fazia pouco mais de um ano que em São Paulo acontecera a Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, uma reunião de artistas que impôs profundas modificações nas artes brasileiras, com fortes repercussões nos costumes.
Na verdade, a década de 20 - logo após a I Guerra Mundial, da qual o Brasil participou por meio de tropas enviadas à Europa – ficou conhecida como um momento de importantes mudanças nos costumes por todo o mundo ocidental.

As mulheres adotaram comportamentos mais desamarrados de cânones religiosos e sociais extremamente rígidos, vigentes até o Século XIX, e, então, livraram-se dos espartilhos, passaram a mostrar as pernas, metidas com a moda das melindrosas, e a usar maquiagem.

Dessa forma, a Semana de 22 marca, no Brasil, esse movimento por mais liberdades a sacodir o mundo, ao lado do Tenentismo, um movimento de jovens oficiais do Exército que percorreram o Brasil na defesa do voto secreto, e de reforma na educação pública.
No Rio de Janeiro, desde 1919, a cientista Bertha Lutz, filha de Adolfo Lutz, outro cientista famoso, dera início à luta pelo voto feminino, fundando a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.

Contudo, a Paraíba continuava dominada, mais do que nunca, por arraigadas ideias patriarcais, sem qualquer sopro de modernidade, algo que, apenas, embalava os sonhos contidos da juventude pessoense.

As mais importantes instituições de ensino na capital paraibana eram o Lyceu (assim, com ‘y’, como na época) e a Escola Normal. O Lyceu, no prédio que depois passou a ser a Faculdade de Direito, e a Escola Normal, no local onde hoje funciona o Tribunal de Justiça.

A separar os dois educandários, a Praça Comendador Felizardo Leite, que depois da morte de João Pessoa passou a ter o nome do ex-presidente da Província, assassinado pelo advogado João Dantas, em Recife, em 26 de julho de 1930.
Preocupados com as paqueras entre as moças da Escola Normal e os moços do Lyceu, as autoridades educacionais da época, dominadas pela Igreja e seus dogmas mais conservadores, proibiram que rapazes “estacionassem” na calçada da Escola Normal.

Para garantir o cumprimento da ordem, foi determinado que a Guarda Civil montasse prontidão no local, em nome dos bons costumes e em defesa da família na capital paraibana. E, assim foi feito.

Estava, assim, composto o quadro político-social para a tragédia. Num sábado, em 22 de setembro de 1923, o jovem Sady Castor Correia Lima, do Lyceu, chegou-se até a calçada da Escola Normal, em nome de uma paixão chamada Ágaba Gonçalves de Medeiros, da Escola Normal.

Logo foi abordado por um guarda civil, vulgo Guarda 33, daí estabelecendo-se uma discussão que resultou na execução sumária do jovem Sady. Para completar a tragédia, 15 dias depois, Ágaba se suicida, causando enorme comoção na sociedade pessoense.

Revoltados, os estudantes do Grêmio 24 de Março, do Lyceu, promoveram manifestações pela cidade, em protesto contra as mortes, tendo como objetivo derrubar aquela retrógrada determinação. Ao fim e ao cabo, apenas o Guarda 33 acabou penalizado.

A história de Ágaba e Sady não deixa nada a dever aos mais célebres personagens de Shakespeare, representando um contraponto importante, e sinistro, ao tradicionalismo, ao coronelismo e ao patriarcalismo que marcaram a história paraibana.

Creio que, como disse a Luciano Henriques, que sugeriu a recuperação da história, ser esse um tema do maior significado para um filme. Não sei o porquê de, até hoje, isso não ter sido realizado, assim como já aconteceu com outra história pessoense, igualmente trágica, de Anayde Beiriz e João Dantas.

De minha parte, está, aí, recuperada a história de Ágaba e Sady, que, embora não faça parte de minhas memórias, por óbvio, não pode ser apagada, jamais, das memórias pessoenses, em sua parte mais triste.

(Recorri às informações contidas em brilhante tese de Doutorado, defendida por Favianni da Silva, na Universidade Federal do Ceará, intitulada “O Caso Sady e Ágaba: O Crime da Praça Comendador Felizardo Leite e a Revolta dos Estudantes do Grêmio 24 de Março na Parahyba de 1923”, afora pesquisas na Wikipédia, e no texto “Sady e Ágaba: Uma trágica história de amor”, no blog culturapopular2.blogspot.com.br)
(Foto de 1921 da Praça Comendador Felizardo Leite (atual Praça João Pessoa), palco da tragédia Ágaba-Sady, ainda com o coreto no centro. Aos fundos, o prédio da Escola Normal, atualmente Tribunal de Justiça da Paraíba. Crédito da foto: História Crítica-Universidade dos Andes)

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MEMÓRIA PESSOENSE: as tardes de xadrez no Cabo Branco - Sérgio Botêlho




Havia mais tempo que a sede central do Cabo Branco era ocupada por enxadristas. Pelo que pesquisei, isso acontecia, desde a década de 50. Cheguei no final da década de 60 e início da década de 70, e parte da turma era a mesma, onde pontificava o doutor Arnaldo Tavares.

Segundo tomei conhecimento pelas pesquisas que fiz - evidentemente, para saber mais sobre o assunto -, eram contumazes frequentadores, desde o princípio, Fernando Amaral Marinho, Jeová Mesquita, Romero Peixoto, desembargador Espínola, Arnaldo Carneiro Leão e Herul Sá. Muitos desses continuavam nos fins de 60 e começo de 70.
Eu não gosto de citar nomes nesses artigos que faço de memória já que frequentemente esqueço de quem não deveria esquecer, e, nesse sentido, espero ser corrigido por quem de direito que venha a ler essa crônica.

Das pessoas com quem convivi nas disputas de xadrez no Liceu Paraibano e na Federação de Xadrez, em Manaíra, lembro de Fernando Melo (presidente da Federação), de Frank Lins (enxadrista mais festejado da época), Washington Rocha, Ivo Bechara, Silvino Espínola, José Mário Espínola, Rômulo Marinho, Arnaldo Tavares (filho) e Flávio Tavares... e, a memória falhou, pois tinha muito mais gente.

Jogar xadrez no Cabo Branco do centro não era privilégio somente dos associados. Desde que o eventual interessado tivesse a mínima noção do que estava fazendo com as pedras no tabuleiro, era muito bem-vindo.

O importante era o jogo, que era jogado da maneira mais rápida que existe na modalidade, o chamado xadrez relâmpago, onde, em cinco minutos, ou o sujeito conclui o jogo ou o jogo estava perdido. Dois relógios, um para cada contendor, avançam ou param ao toque da mão do jogador.

O combinado era esse a fim de que houvesse oportunidade à todos, já que era elevada a quantidade de jogadores que ficavam por ali, peruando, esperando sua vez. O silêncio era a regra geral, mas, quem podia impedir as gozações dos jogadores, eventualmente?

A sala ocupada pelos enxadristas era a primeira sala, à direita, logo depois do hall de entrada onde se postavam aqueles sócios mais antigos do Cabo Branco, diariamente, a rever amigos de velhas jornadas e jogar conversa fora.

Na parte de cima do Cabo Branco ficava o pessoal do carteado e da sinuca, estabelecendo, no conjunto, um grande movimento, ainda mais com o restaurante que funcionava no térreo, ao pé da escada, na parte final da sede.

De vez em quando chegava em João Pessoa algum enxadrista famoso nacionalmente e o Cabo Branco servia de local para a realização de partidas chamadas simultâneas, por conta de o famoso jogar com vários enxadristas ao mesmo tempo.

É uma forma de jogar que exige bastante daquele que está se exibindo, como grande-mestre que tem de ser no jogo de xadrez, ainda mais pelo fato de os competidores não serem, embora teoricamente mais fracos, tão bobos, assim.

Hoje a sede do Centro não pertence mais ao Esporte Clube Cabo Branco, pois teve de ser leiloada para honrar dívidas, embora esteja, graças à intervenção do Estado, em pé, e intocável, a provocar saudades, nos velhos frequentadores ainda vivos, em função dos momentos de glória patrocinados por um dos dois clubes sociais mais famosos da história de João Pessoa.

E foi acatando a sugestão da amiga Neuza Cavalcante, leitora que é dessas mal traçadas memórias pessoenses, que resolvi adiantar o assunto, já no prelo. Ao passar pela sede central do Cabo Branco, nesses dias, bateu um banzo em Neuza, e, ao me fazer a comunicação do referido banzo, ela acabou me contagiando.

MEMÓRIA PESSOENSE: Oca do Piá - Sérgio Botêlho



Há equipamentos de lazer, do tipo bares, em João Pessoa, que se fizeram efêmeros, mas, que deixaram suas marcas, seja pela localização ou pelo cardápio ou pelas bebidas que eram servidas ou o conjunto dessas coisas. O fato é que não desapareceram, e “zé fini”.

Um desses equipamentos funcionou vizinho ao Edifício Cannes, na urbaníssima praia de Tambaú, no mesmo espaço onde tempos depois se instalaria o icônico Maravalha-Clube dos Solteiros, que já foi assunto de artigo nesta série de memórias pessoenses.
Na época, Tambaú estava desenvolvendo a vocação de centro de divertimento preferido da população pessoense, pois, desde o início da década de 50 que a avenida Epitácio Pessoa recebera calçamento, facilitando o deslocamento de massas humanas cada vez mais numerosas àquela praia urbana, para curtir ou para morar.

É por esse tempo que começaram a surgir novos bares e restaurantes na orla marítima a se juntarem ao Elite Bar que, durante anos, reinou absoluto na orla marítima, e que ainda haveria de brilhar muito pela década de 70 afora.

Lembro, hoje, da Oca do Piá, um barzinho maneiro, como se diz na modernidade, que servia tira-gostos simples, afora cerveja, whisky e o indefectível Ron Montilla, uma verdadeira coqueluche das décadas de 50-60, normalmente entornado com Coca-Cola, formando a dupla conhecida como Cuba Libre.

Calculo a data de funcionamento da Oca do Piá como sendo entre os anos de 1966 e 1969, já com o edifício Cannes construído, esta, uma obra de 1965 segundo estudo da arquiteta e urbanista Patrícia Alonso de Andrade, intitulado Verticalização em João Pessoa-Produção do Espaço e Transformações Urbanas.

O formato do bar era mesmo de uma oca, imitando uma cabana indígena, havendo muitas mesas do lado de fora, pois, dentro, o espaço era mais diminuto e não cabia tanta gente quanto o bar terminou acolhendo em alguns dias de glória.

A Oca do Piá entrava em função tanto durante o dia quanto a noite, podendo ser entendido, no turno da noite, como local de aquecimento para noitadas mais endiabradas pelas discotecas-boates que iam surgindo, na época.

A cobertura do bar, naquele formato de cabana indígena, era de palha, mesmo, transformando o local em algo singular na vida noturna da capital paraibana, especialmente na orla marítima, que ia se transformando, aos poucos.
Tambaú foi palco de outros bares que fizeram sucesso por determinados momentos, como, por exemplo, a Moeda, se o espírito não me engana, do mesmo Pedro que era dono do Pietros, na Lagoa.

A Moeda, já na década de 70, palco de jornadas intermináveis de cerveja misturada com o jogo do xadrez, ficava praticamente vizinho ao edifício São Marcos, quase de frente para o Hotel Tambaú, na mesma Avenida Tamandaré onde existia a Oca do Piá.
O que caracterizava a Oca do Piá era mesmo o ambiente diferentemente decorado. Mas, lembro que havia um bom atendimento dos garçons, incansáveis a servir piratinhas e piratões para a turma, normalmente, majoritariamente de jovens.

Penso que os vizinhos do Edifício Cannes não deviam gostar muito da Oca do Piá devido ao natural barulho dos amantes da alegria. Problema, evidentemente, transferido, com acréscimo de algazarra, para o Maravalha.

Pois, assim, fica inscrito nessas memórias pessoenses o bar Oca do Piá que, um dia, desapareceu do mapa, mas, que não ficou esquecido, merecendo estar sendo lembrado, agora, aqui, no maravilhoso Facebook.

MEMÓRIA PESSOENSE: Corrinha - Sérgio Botêlho




Entre as primeiras notícias que recebi nesta quinta-feira, 11, pela manhã, uma delas provocou, em mim, imensa tristeza. Lena, minha irmã, chorosa, me informou que Corrinha havia morrido.

“Como, assim?! A morte apagou o sorriso de Corrinha?! Não podia ter começado o dia de forma mais terrível do que essa. Logo, grupos do whatsapp e gentes e grupos do Facebook começaram a divulgar a notícia, ao mesmo tempo que os blogs noticiosos.

Junto com a notícia, a indefectível foto da grande rainha do Cafuçu, espalhada nas redes sociais, chocava pela alegria que sempre a caracterizou, com aquele sorriso largo, permanente, sincero, ingênuo e profundamente emocionante, de toda a sua vida. Impossível não chorar!

Nascida em Cajazeiras, Corrinha chegou em João Pessoa para cativar - da mesma maneira com que já se comportava em sua terra de nascimento - a todos com quem fez amizade, distribuindo sua marca registrada, que era aquele sorriso.

Mulher de seu tempo, Corrinha não se eximiu de participar ativamente dos movimentos que se lhe apresentavam como afirmativos, a exemplo de sua atuação no processo de consolidação do movimento dos professores, na Ampep.

Daí para o Folia de Rua, e para o Cafuçu, foi um passo normal, assumindo, rapidamente, uma a uma as características de uma pessoense imensamente identificada com a terra que ela escolheu para derramar sua alegria contagiante.
Me perdoem, mas, tive que suspender o post que havia programado para hoje, sempre levado ao ar entre as 19hs e as 20hs30min, de cada dia, no Facebook, para que pudesse inscrever, desde já, na parte mais saudosa das memórias pessoenses a nossa querida Corrinha.

Pois bem. Embora pareça inacreditável, Corrinha agora é saudade. Ela passa a compor as figuras inscritas nas lembranças indeléveis da história da capital paraibana, no escaninho da felicidade e dos fatos positivos de João Pessoa.
Escrevo, confesso, buscando conter as lágrimas e, nesse esforço contínuo, penso que Corrinha está apenas voltando ao planeta de onde veio, primeiro para Cajazeiras e, depois, para a nossa terra querida, nossa, e, mais do que evidentemente, dela, também.

É porque começo a achar que Corrinha apenas está retornando a um espaço onde todos vivem sorrindo, um território onde moram eternamente os encantados, assim como ela, agora, sempre e sempre sorrindo.

E, nesse devaneio, ponho-me a pensar que seu retorno deve ser muito mais motivo de felicidade, para todos nós. Receio, assim, que possa estar sendo extremamente egoísta em desejar reter, entre nós, um espírito de luz tão brilhante, quanto foi Corrinha, quando sua terra se encontra, na verdade, em outro plano mais elevado e mais feliz.

Mas, o fato é que existe a saudade, sentimento que passa a nos dominar, irresistivelmente, a partir de agora, algo que nem Corrinha, em sua extrema bondade e alegria, vai conseguir arrancar de todos nós que com ela convivemos.

Queira Deus que um dia possamos todos nos encontrar com ela, e, neste momento, rir e rir muito, zombando das infelicidades que teimam em vir se apresentando, nestes tempos terríveis, dos quais nossa amiga mangou enquanto pôde.

Vá em paz, querida amiga!

MEMÓRIA PESSOENSE: o Underwood - Sérgio Botêlho



Não foram poucos os educandários, na história da Educação, em João Pessoa, incluídos no rol das instituições do tipo “pagou-passou”. Sendo privada (mas, não confessional), era o suficiente para o disse-me-disse ter início, algumas vezes com histórias “verídicas”, do tipo “eu vi” ou “quem me disse foi alguém de lá, mesmo”.

Não creio que tenha havido outra instituição na capital paraibana a sofrer mais esse tipo de ataque do que o Underwood, escola, que, nas décadas de 50-60, existia na Duque de Caxias, por trás do prédio de A União (que depois, virou aquele troço desconexo do conjunto arquitetônico da Praça João Pessoa, onde funciona a Assembleia Legislativa).

As histórias ganhavam mais cores, ainda, por ser um educandário onde a maioria dos alunos tinha origem nas camadas sociais menos favorecidas. Sendo assim, a fama passava a ser ainda mais forte, na suposição de que alguém de mais posses tenderia, mesmo, a ser beneficiado, por sua condição, e, portanto, corresse para o Underwood à procura de aprovação.

Na verdade, tratava-se, coisa que pouca gente procurava saber, de uma Escola Técnica de Comércio, dirigida pela professora Osmarina de Almeida Carvalho, na verdade, uma instituição dedicada, desde os idos de 1928, a formar, entre outros profissinais, técnicos em Contabilidade com destino à atividade comercial.
Tomei conhecimento mais detalhado da história buscando informações na Internet, como sempre faço, sobre o assunto que pretendia postar, aqui, no Facebook, parte dessa série dedicada à memória pessoense. A memória, pura e simples, apenas me conduzia à lembrança do Underwood e da carga existente contra a instituição.
Assim, pesquisando, me deparei com um texto resultado de pesquisa acadêmica realizada pelo Grupo de Pesquisa em História da Educação Contábil (GHEC) da Universidade Federal da Paraíba – Campus IV – Litoral Norte, na cidade de Mamanguape, assinado por José Jassuipe da Silva Morais e António Gomes Ferreira, ambos, doutores em Educação.

Foi a professora Osmarina, fiquei sabendo por conta do texto, a responsável, depois de intensa e incansável batalha por apoio ao Ministério da Educação e Saúde da época, para construção daquele prédio próprio da Duque de Caxias, quando a Escola Técnica de Comércio Underwood deixou a General Osório, um prédio alugado.

Segundo apuraram os pesquisadores, a escola mantinha os cursos Básico de Comércio, Técnico de Comércio, mas, também, Jardim da Infância, Primário, Preparatório ao exame de admissão, Datilografia e Estenografia (Taquigrafia). Foi possível saber, ainda, que o Underwood, assim como todos os colégios da época, era rigoroso no quesito disciplina.

Mas, há, sobre a Escola Técnica de Comércio Underwood, elementos, na pesquisa, que contribuem para a sua má-fama, perto do fim, fruto, precisamente, das crescentes necessidades de recursos, da concorrência da Academia de Comércio Epitácio Pessoa, e da diversificação dos cursos, para além dos especificamente destinados a formar trabalhadores para o Comércio.

Porém, segundo os pesquisadores, enquanto foi possível, a professora Osmarina conseguiu concretizar o propósito original da educação para o trabalho, mesmo enfrentando forte repercussão negativa na imprensa paraibana, quando do seu fechamento, que aconteceu na década de 1960.

MEMÓRIAS PESSOENSES: Bandas marciais de 60 - Sérgio Botêlho



Os desfiles colegiais de Sete de Setembro, em João Pessoa, eram cercados de muita beleza plástica, com as escolas secundaristas se esmerando no fardamento, nas alegorias e nas evoluções. Uma beleza!

Em meio a tudo isso, havia as bandas marciais, um espetáculo à parte! E, nesse tempo aconteciam, mesmo, os concursos envolvendo as bandas, o que geralmente significava uma disputa de grande competitividade.

No meu tempo, as três bandas que mais fortemente disputavam a preferência de eventuais jurados, e, aplausos do povo, eram as do Getúlio Vargas, do Liceu Paraibano e do Lins de Vasconcelos.

Também havia as bandas do Pio XII (esta, aqui e acolá, fazia bonito) e da Escola Técnica Federal (que também não fazia feio), que eu lembre. Cheguei a participar das bandas do Lins e do Liceu.

Falo, deixe esclarecer, dos desfiles de Sete de Setembro até os anos 60, uma vez que, após os anos 70, uma nova banda de um novo colégio particular acabou incluída entre as melhores, que foi a do IPEP.

Além dos movimentos coletivos sincronizados, das batidas diferenciadas e corretamente executadas, dos novos dobrados (simples, porque feitos para instrumentos de sopro sem grandes possibilidades musicais), algumas dessas bandas tinham suas balizas.

No caso, as que mais se utilizavam da apresentação de belas moças, a provocar a felicidade da rapaziada, eram as bandas dos colégios particulares, principalmente as do Lins de Vasconcelos e do Getúlio Vargas (onde brilhava minha amiga, querida, Marilda Macedo).

À frente de toda a banda, incluindo o maestro, as balizas realizavam acrobacias e deslocamentos sincronizados diversos, envolvendo muitos dos movimentos da ginástica artística, revelando força, equilíbrio, concentração e graça.

As balizas compõem, ainda hoje - porque as bandas marciais não morreram - um conjunto visual que ajuda bastante no desempenho da banda como um todo, podendo ser consideradas como expressão mais em evidência do espírito do grupo.

Os desfiles de Sete de Setembro eram geralmente realizados no conjunto urbano composto pelo circuito interno do Parque Solon de Lucena e avenida Getúlio Vargas, com o Cassino da Lagoa servindo de palanque para autoridades.

Alguma vez, o circuito envolvia a Praça da Independência, a Corálio Soares de Oliveira, com dispersão na Getúlio Vargas. Houve ano, ainda, que o palanque das autoridades foi armado na Getúlio Vargas. Tempos depois, é que a Beira Rio foi utilizada.

Ao menos três instrutores de banda me vêm à memória, e eles eram disputados pelos colégios da mesma forma que são os técnicos de futebol: Velosinho, Inácio e Luis da Banda. Mas, havia outros que a memória resolveu trair.

Afora os desfiles de Sete de Setembro, na capital, outros momentos de belas disputas entre as bandas tinham vez na cidade de Carpina, em Pernambuco, quando se apresentavam bandas de outros estados nordestinos.

Ficam, assim, registradas, nessas memórias pessoenses, as bandas marciais dos colégios pessoenses que brilharam, principalmente na década de 60. E quem lembrar mais, que conte.

MEMÓRIA PESSOENSE: As matinais carnavalescas da AABB - Sérgio Botêlho



 
“Me lembro tanto e é tão grande a saudade, que até parece verdade, que o tempo ainda pode voltar (...) E frevo ainda apesar da quarta-feira no cordão da saideira vendo a vida se enfeitar”. Um tempo desses, havia as matinais da AABB.

Nos tempos em que no carnaval de João Pessoa brilhavam os clubes, onde se destacavam o Cabo Branco e o Astrea (sem esquecer, naturalmente, os animados carnavais do Clube dos Sargentos, em Jaguaribe), havia um outro clube, comandado pelos funcionários do Banco do Brasil, que tinha o seu próprio brilho.

Enquanto o clube de Miramar e o de Tambiá se revezavam, à tarde (para a criançada), e à noite (para os adultos), a AABB realizava seus carnavais, sem concorrentes, pela manhã.

A disputa pelos convites e ingressos para as matinais da AABB era grande, e, na hora da folia, os carros ocupavam os espaços ao longo de Pedro II, já que o estacionamento do clube restava impossibilitado de atender os foliões.

Herói musical dos carnavais pessoenses, em todos os clubes à disposição, o maestro Vilô e sua orquestra por vários anos abalou o pequeno salão da AABB, abrindo com a Vassourinha para levantar os foliões.

Falar em pequeno salão, tal limite físico nunca foi empecilho para que as matinais da AABB atraíssem tantos foliões, em busca da mais pura alegria, e, se possível, de encontrar uma cara metade para uma diversão ainda mais ao gosto de Momo.
Os brincantes, então, pulavam mesmo nas mesas, no bar do clube, na rua, no estacionamento, em tudo quanto era de canto, já que o som da orquestra alcançava bem mais longe do que exigia o espaço que era oferecido pelo clube.

O frevo pernambucano e as marchinhas de carnaval eram mais do que suficientes para sustentar a folia, até o seu final. Capiba e Nelson Ferreira eram nomes que, com suas composições, davam um brilho extra ao carnaval das terras irmãs de Pernambuco e Paraíba.

“Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon cadê teus blocos famosos, Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apôs-Fum, dos carnavais saudosos”. Era o momento do frevo-canção de Nelson Ferreira a aumentar os encantamentos entre os namorados.
Mas, logo voltava o tumulto maravilhoso quando a orquestra puxava Capiba: “Eu quero ver carvão queimar, eu quero ver queimar carvão, eu quero ver daquí a pouco pegar fogo no salão”. E, não dava outra, as dependências da AABB pegavam fogo.
E o cheiro de lança-perfume rescendia no salão, misturado aos confetes e às serpentinas e às vozes em coro dos foliões braços para o alto e as pernas se confundindo no embalo daquele ritmo absolutamente mágico.

As matinais da AABB duravam a tarde inteira e chegavam à boca da noite. Os foliões mais comedidos aproveitavam um espaço de quatro ou cinco horas para um cochilo, precedido de necessária reidratação e um pouco de alimento. Os mais dispostos, pegavam direto.

Porque, depois, era embarcar nos carnavais do Astrea e do Cabo Branco, até o dia raiar, numa pisada que ia até a quarta-feira, de manhã, quando, não raramente, a orquestra a animar o Cabo Branco deixava as dependências do clube puxando os foliões até a praça, senão, ninguém ia embora.
Houve um tempo que era assim.

MEMÓRIA PESSOENSE: O Ponto de Cem Reis - Sérgio Botêlho



 
Reginaldo ainda está no mesmo local, ali naquela ponta da calçada do Paraíba Palace Hotel, mais perto da Praça 1817. Boquinha, que tinha o seu negócio mais próximo da Duque de Caxias, infelizmente, segundo me informa Cristiano Machado, faleceu, e quem toma conta do ponto é sua filha.

Estou falando de dois tradicionais pontos de venda de jornais e revistas, da Paraíba e do Brasil, que, há décadas, funcionam no Ponto de Cem Réis, e que serviam de ponto de encontro e muita conversa sobre política e demais assuntos do noticiário, diariamente, em grupos de pessoas das mais variadas tendências ideológicas ou partidárias, em décadas anteriores.

Já não havia mais o Café Alvear, cujo ambiente foi tão bem descrito pelo mestre Gonzaga Rodrigues, e que, de alguma forma, se assemelhava com o que continuou sendo o Ponto de Cem Reis, posteriormente, com as bancas de jornais, e, ainda, o Café Santa Rosa e o Café São Braz, cada um na sua época, e do seu lado.

Nomear as figuras que frequentavam aquelas conversas diárias, com maior afluência, nos finais de tarde, é um risco evidente, já que a memória, certamente, será traiçoeira e muito capaz de deixar que um ou outro nome escape, o que termina se configurando em clara injustiça para quem acabar esquecido.
Mas, eram muitos, desde jornalistas, passando por intelectuais, escritores, poetas, gente ocupada ou desocupada, aparentemente doidos e aparentemente sãos, curiosos e desatentos, todos, por ali, parados no tempo, sem pressa alguma, porque os apressados passavam, enquanto a conversa continuava, em voz alta, senão ninguém ouvia.

O Ponto de Cem Reis, principalmente ali perto daquelas duas bancas de jornais, se constituía em um verdadeiro sarau público e espontâneo, porque não programado, e, justiça seja feita, tanto antes da construção do Viaduto Damásio Franca quanto depois que o equipamento urbano dividiu o espaço daquela Praça Vidal de Negreiros, e, ainda, a opinião pública.

O que mudou foi o alambrado de metal separando a calçada do ‘abismo’, lá embaixo, por onde passavam ônibus e carros, vindos da parte baixa da cidade na direção da Lagoa do Parque Solon de Lucena. Alambrado, este, que, justiça seja feita, serviu bastante para acomodar as pessoas que, nele, passaram a se encostar ou se debruçar.

E o papo rolava solto. Foi por ali que se passaram os chamados anos de chumbo, onde, independente dos arapongas de plantão, discutia-se a plenos pulmões a situação do governo, onde, críticos e defensores, se digladiavam, em meio ao avanço do tempo e dos acontecimentos, ao redor. Era algo meio que irreal, mas, muito verdadeiro e desassombrado.

Pois bem. Hoje me deu uma saudade do Ponto de Cem Reis, danada, especialmente desses tempos de tanta conversa, por ali por perto dos jornaleiros Reginaldo e Boquinha, do Café Santa Rosa e do Café São Braz, da barbearia do Paraíba Hotel, e de sua calçada. Tempos bons, que, mesmo mantidas algumas características locais, não é, hoje, a mesma coisa.

Foi no Ponto de Cem Reis onde o velho Mocidade pronunciou vários de seus discursos, contra ou a favor, pois posicionamentos políticos pouco importavam ao velho tribuno. Também era ali que o poeta Caixa d’Água costumava fazer suas declamações aos ouvidos atentos dos espectadores eventuais.

Considero aquele espaço urbano de João Pessoa uma espécie de guardião a céu aberto do espírito pessoense, já que por ali transitaram, durante séculos, com certeza, a esmagadora maioria de nossa gente, e, ainda, dos que passaram pela capital paraibana, ou que na Paraíba do Norte resolveram acampar.

MEMÓRIA PESSOENSE: Liceu Paraibano - Sérgio Botêlho



Quando pusemos os pés no Liceu Paraibano, em 1967, o colégio representava um dos principais centros de ensino da Paraíba, sendo os seus cursos Científico e Clássico os mais conceituados do estado.

Às gerações mais novas, uma explicação: o que se chama hoje de 2º Grau, na época era denominado de Científico (de Engenharia e de Medicina, separados) e de Clássico (para quem iria seguir Direito e demais cursos de Humanidades).

O Liceu era uma espécie de funil para os que pretendiam ingressar na Universidade Federal da Paraíba. Ali estudavam os que haviam concluído o Ginasial (hoje, as quatro últimas séries do 1º Grau), tanto nas escolas de ensino público quanto nas de ensino privado.

Carregando o peso de ter sido o centro de formação intelectual mais importante da Paraíba, desde a época do Império, por onde passaram líderes políticos, poetas, escritores, críticos literários e cientistas que fizeram história no estado e fora dele, o Liceu era um grande desafio para todos os que ali chegavam.

Firmava-se em todos um sentimento de enorme orgulho pelo fato de estar frequentando a mesma escola pela qual já passaram essas pessoas. Você estava, afinal, no mais tradicional colégio de ensino de todo o estado.

Para quem vinha das escolas de ensino privado, o primeiro choque era o da liberdade. Afora a disciplina no interior do colégio, evidentemente, em seus corredores e salas de aula, o controle da chegada no Liceu nada tinha a ver com o que havia, por exemplo no Pio XII, Lourdinas, Colégio das Neves, Pio X ou Lins de Vasconcelos.

Você podia perder a primeira, ou até a primeira e a segunda aulas, mas, chegar para a terceira. Sebastião era o inspetor geral do Liceu, na minha época, duríssimo, e, até, mal digerido pelos estudantes, na época (depois, até virou amigo). Mas, ele nada podia fazer contra os ‘atrasados’, no horário.

Quando ingressei no Liceu, a instituição era dirigida pelo professor Ivan Guerra, extraordinário diretor, que, mesmo diante do arbítrio, nunca deixou alunos do Liceu, líderes do movimento, principalmente, abandonados diante de detençoes efetuadas pelo regime.

Outro choque, este, de forte e maravilhoso impacto, era o encontro, nas mesmas salas de aula, de rapazes e moças, tanto uns quanto outros, em sua maioria. acostumados, nos tempos de ginásio, a escolas específicas para meninos e meninas.

Ah! Aqueles canos do muro da frente do Liceu, onde moças e rapazes sentavam à vontade para bater papo em intervalos de aulas! Aquilo era uma magia, uma felicidade, uma libertação, exatamente numa época em que o mundo experimentava profundas transformações de costumes, justamente capitaneadas pelos jovens.

Nas páginas de jornais, você encontrava greves quase no mundo inteiro, tanto em países capitalistas quanto comunistas, em sua esmagadora maioria, comandadas pela juventude, que ouvia Beatles e Rolling Stones, afora The Woo, Jane Joplin, Jimi Hendrix etc etc.

Na França, por exemplo, quase a juventude tomava o poder em 1968, durante uma greve que paralisou o país, o que não aconteceu por conta da decisão do movimento operário francês, comandado pelo Partido Comunista, de se retirar do movimento. Os jovens, no entanto, permaneceram nas trincheiras.

Esse era o clima que envolvia os estudantes do Liceu Paraibano naquela segunda parte da década de 60. E, daquela geração, somente não surgiram grandes líderes para o futuro do estado do próprio país porque o regime autoritário resolveu fechar todas as portas da Democracia, em dezembro de 1968, com o AI-5, prejudicando, enormemente, a própria vida pessoal dessas lideranças, e o futuro deles, enquanto quadros dirigentes, para prejuízo da Paraíba e do Brasil.

MEMÓRIA PESSOENSE: Cavaco chinês - Sérgio Botêlho



Armado de um cilindro, às costas, e tocando sem parar um triângulo, o vendedor de uma iguaria bastante famosa, principalmente nas décadas de 50 e 60, em João Pessoa, se anunciava com boa distância.

Não tinha menino que não ficasse alvoroçado para que os pais comprassem aquele alimento, cujo gosto mais se parecia com o da hóstia distribuída pelos padres durante as comunhões, só que, no caso, mais marronzinha.

Tratava-se do conhecidíssimo cavaco chinês, principalmente por quem viveu essa época, ofertado como se fosse uma espécie de canudo, bem sequinho e crocante, mas, que, uma vez na boca, se desmanchava como se fora mesmo uma hóstia.
O cavaco chinês, que, conforme pesquisei, não tem nada de chinês, podendo ter origem portuguesa ou indiana, é classificado na categoria dos biscoitos e feito por meios quase artesanais, mantendo aqauele gosto suave.

Nas décadas de 50 e 60, os vendedores de cavaco chinês se misturavam a outros vendedores de porta em porta, além dos prestadores de serviços diversos, cada um com uma forma diferentes de se anunciar.

Além dos cavaqueiros, vamos chamá-los, assim, tinham os amoladores de tesoura, os soldadores de panelas, os encanadores, os compradores de vidros quebrados ou inteiros, e de tudo o que fosse de velharia imprestável, em casa.
Alguns desses, até, já mencionei em artigo de outro dia, aqui, mesmo, no Face, a exemplo dos compradores de jornais velhos, e dos próprios prestadores de serviços, agora relembrados, neste artigo do momento.

Lembro, por exemplo, que verduras, frutas, inhame, macaxeira, tudo isso era vendido na porta das casas, pelos verdureiros animados e de vozes empostadas, tais quais locutores experimentados de rádio.

Ao redor de João Pessoa, havia um imenso e saudável cinturão verde, em sítios espalhados pelo Roger, Mandacaru, Jaguaribe, Cruz das Armas, Marés, Oitizeiro, Rua do Rio, principalmente, a produzir hortaliças e frutas em módulos familiares.

Isso garantia aos pessoenses, então, diretamente, na porta de casa, adquirir produtos absolutamente desprovidos de agrotóxicos, que, por sinal, nem era coisa que se ouvia falar naquela época.

Registre-se que João Pessoa - assim como todo o Litoral e regiões mais próximas - sempre foi beneficiada por muita chuva, possuindo, portanto, terra fértil e muito própria à agricultura, hoje, infelizmente, inteiramente ocupada pelo avanço da urbanização.
Sem falar no tradicionais leiteiros, que, a partir desse mesmo cinturão verde, levavam leite do peito da vaca, como se costuma dizer, também às portas das casas. O cuidado era, apenas, para não se comprar leite com água. Já tinha muito malandro na época! rsrsrsrs

Mas, pelo menos não era leite pasteurizado ou mantido em caixas à base de conservantes misteriosos. Lembrando que até soda cáustica já foi encontrada, um dia desses, em inspeções realizadas pelos órgãos de controle do Estado

MEMÓRIA PESSOENSE: Nau Catarineta, em Cabedelo - Sérgio Botêlho



O folclore sempre foi muito forte na cidade de João Pessoa, especialmente em bairros como Torre, Cordão Encarnado, Roger, Mandacaru, Tambaú, e nas cidades de Bayeux, Conde, Alhandra, Pitimbu, Baía da Traição e Cabedelo, tudo parte da Grande João Pessoa, e quase tudo conurbado.

Mas, das minhas lembranças, com relação ao folclore, de infância e juventude, uma das mais fortes, ao lado dos cabocolinhos, no carnaval de rua, é a da Nau Catarineta, em Cabedelo, geralmente encenada no Forte de Santa Catarina, mas, também, nas tradicionais festas de São Sebastião, padroeiro cabedelense, na segunda metade do mês de janeiro.

O passeio a Cabedelo, algumas vezes, feito como tarefa escolar, outras, por puro prazer, já, de maior idade, nos punha em contrato com uma das mais belas e tradicionais manifestações culturais de origem portuguesa, largamente espalhadas pelo país.

Estive pesquisando, até para reavivar a memória, e acrescentar informações à lembrança da Nau Catarineta, e descobri que no bairro da Torre (originalmente, Torrelândia), havia um grupo popular que encenava a Nau Catarineta sob o nome de Barca, devidamente pela expedição folclórica coordenada por Mário de Andrade, em 1938.
Aliás, essa manifestação popular, que conta histórias dos tempos da navegação lusa pelos mares afora, toma vários nomes, além de Nau Catarineta, como barca, marujada, fandango e chegança-de-marujo.

“Truléu, léu, léu, truléu da Marieta, que nós somos marinheiros dessa Nau Catarineta”. Ao som dessa e de outras cantigas, cordões de marujos e de oficiais dançam marcada e dramaticamente reproduzindo dificuldades ou batalhas em alto mar.

Interessante anotar - diante dessa recordação de nosso folclore, hoje, tão relegado a segundo plano frente à globalização da cultura – isso, que estamos fazendo, ou seja, que essas manifestações populares já foram valorizadas a nível, mesmo, de obrigações incluídas em nosso sistema escolar.

Outra anotação: o insigne paraibano, Ariano Suassuna, inclusive, tem, entre suas obras, um musical armorial, à base de pífanos e rabecas, dedicado à Nau Catarineta, muito bonita de se ouvir, e que pode ser tranquilamente acessada pela Internet.
Estive, ainda ontem, conversando com a amiga Jânia Miranda, cabedelense de quatro costados, e soube que a Nau Catarineta continua se apresentando em Cabedelo, normalmente, o que é sensacional.

Principalmente, quando sabemos do declínio absoluto das manifestações folclóricas em João Pessoa, o que é péssimo não apenas como decepção por conta de um mero saudosismo, mas, como enfraquecimento dos nossos traços culturais.

Recordar a Nau Catarineta, tão expressiva como lembrança de infância e adolescência, é, obrigatoriamente, evocar os trabalhos um dia desenvolvidos por Altimar Pimentel, tenente Lucena, José Nilton, Dadá Gadelha, Osvaldo Trigueiro, entre outros, que dedicaram ou que continuam dedicando suas existências ao estudo e à preservação da cultura popular, na Paraíba.

Fica então marcada entre as memórias de João Pessoa, que venho postando, aqui, no Face, as excursões a Cabedelo, que, durante um certo período da infância, era distrito pessoense, para ver e ouvir, com deleite, as apresentações da Nau Catarineta.

MEMÓRIA PESSOENSE: Café Alvear - Sérgio Botêlho



Há uma obra definitiva sobre o significado do Café Alvear para a vida social e intelectual de João Pessoa, e ela foi escrita pelo mestre Gonzaga Rodrigues, um dos mais importantes cronistas brasileiros, em estilo e inspiração.

Em sua obra, Gonzaga rememora a importância sociológica e emocional do espaço onde se degustava o café, além de outras culinárias típicas de um Café, ali no indefectível Ponto de Cem Reis, hoje, tão dessemelhante.

O cronista mor de nossa província revisitou, em sua obra, uma época em que o Café Alvear servia de ponto de encontro para políticos e intelectuais de vários matizes, além de outras figuras, nem tanto, assim.

O Alvear servia como uma espécie de liquidificador de ideias, cujo resultado terminava por influir, mesmo, no mundo da política e na cabeça de jovens jornalistas ou idealistas na consolidação ou desmanche de teses em conflito no mundo real.

A impressão de Gonzaga, transmitida em sua obra, justamente de nome Café Alvear, são as de um jovem já imerso no campo das letras e das ideias, sobre o alcance sensível daquele ponto comercial tão cheio de significantes para a formação da vida pessoense.

Me limito a recordar outro aspecto do Café Alvear, este, extraído da memória de uma criança da década de 50, exatamente, eu, acostumado a levantar cedo pronto para uma vitamina de banana, um cuscuz Bondade, um pão da padaria Paraibana e uma xícara de café Alvear. Assim fortalecido, só restava zarpar para o Pio XII.

A gente acordava com o cheiro vindo da fábrica do Alvear, o preferido das donas de casa da época, que funcionava na Miguel Couto, bem próximo ao então Foto Condor, de Ariel e Arion, e daquelas barbearias, ali, algumas, ainda em plena função.

O nosso café do dia-a-dia era comprado naquela pequena fábrica onde o grão passava pela moagem, transformando-se naquele pó - pronto para, em casa, virar um delicioso café - a ser comercializado para o cidadão comum da velha capital paraibana.

Esse processo final da produção do café em pó era feito, ali mesmo, no Centro de João Pessoa, com a chaminé espalhando aquele aroma tão característico, e inconfundível, que já se tornara uma característica odorífica da cidade.

Evidentemente, falo de uma outra João Pessoa, que não a de hoje em dia. Era uma João Pessoa menos numerosa, evidentemente, mais romântica, mais devagar, e, por tudo isso, mais permissiva a uma fabriqueta dessas no Centro de sua urbe.

Para nós, que morávamos nas redondezas, a fábrica do café Alvear era uma mão na roda, não apenas por aquele cheiro de todas as manhãs, mas, sobretudo, pela proximidade geográfica entre a nossa casa e o ponto de venda.

Um dia, o Alvear fechou, e, lembro de minha mãe reclamando de que seria difícil encontrar, dali avante, um outro café em pó que merecesse a confiança das donas de casa de João Pessoa.

Louvava-se, já na época, a vantagem, em gosto e pureza para os consumidores, sobre outros cafés industrializados. Mas, acabou, e, hoje, faz parte, apenas, da saudade. Saudade de uma época em que João Pessoa tinha, em pleno Centro da cidade, uma fábrica de café.

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