Quando eu chegar no céu. - Marcos Pires



 Não tenho a menor dúvida de que irei para o céu quando não tiver mais como me divertir aqui. Por isso fico perguntando aos amigos como é que eles imaginam que seja o céu. Para M., um gordo exponencial, o céu é um lugar mágico, onde os gordos podem comer tudo o que quiserem, inclusive muitas sobremesas, aí incluídos o pudim com furinhos, tortas de limão e chocolate e muito sorvete, sem que engordem uma grama. Ao contrário, quanto mais comerem, mais os gordos emagrecerão.

Já o B. é um amigo que gosta de, como direi..., comentar sobre a vida alheia. Há quem o chame de fofoqueiro, alguns até de fuxiqueiro, que seria a sublimação dos fofoqueiros. Pois bom; o B. acha que no céu não haverá necessidade de escarafunchar a vida alheia, porque é só acessar o computador divino que lá estarão registrados todos os malfeitos dos humanos que sejam dignos de uma boa fofoca. Só que no céu não há pecado nem maldade, e no meu entender celestial as fofocas estariam entre os dois. Por isso perguntei a ele de que adiantaria saber dessas histórias cabeludas se não teria com quem fofocar. “- Deixa de ser besta, Marcão; vez por outra deve ser aberta uma janelinha para o inferno e nessas horas eu conto tudinho aos amigos daqui que foram ser diabos lá”.

O amigo Z. é sabido. Ele imagina que no céu terá vantagem em tudo; assim tipo comprar uma dúzia de laranjas e receber uma grosa. Para Z. os bancos do céu errarão sempre em favor dos clientes quando fizerem os lançamentos em suas contas correntes e as operadoras de cartões de credito esquecerão de mandar as faturas para cobrar dos usuários.

Já minha amiga C. é daquelas pessoas que reclamam de tudo e de todos. Aliás, eu estou convencido que ela, bem no íntimo, adora ser mal atendida ou ter um prejuízo, só para poder reclamar. Ela disse que imagina o céu com um enorme balcão de reclamações para atender aos anjos. Sem filas e com muitas secretárias, ar condicionado, cafezinho e água gelada. Nada de reclamações por telefone, porque isso de passar horas pendurada no celular com uma atendente invisível (e sempre cair a ligação) já é o inferno aqui na terra.

Eu só achei estranho essa coisa de fazer reclamações no céu. Se é o céu, reclamar do que? A amiga abespinhou-se. “- Oxente, se lá não tiver do que reclamar prefiro mil vezes ir para o inferno”.

Que cousa!

O que os motoboys veem - Marcos Pires



marcos@piresbezerra.com.br

 

Assim como os garçons dos diversos restaurantes da praia que se reúnem no bar do pastel para sus hilariantes conversas madrugada adentro depois que o expediente termina, os motoboys também tem essa mania. Depois de muito tentar, finalmente consegui ser aceito num desses papos, apresentado pelo motoboy que trabalha com a farmácia onde compro meus oitocentos remédios mensais.

Minha curiosidade foi despertada pelas inusitadas histórias de todos os tipos, desde problemas com o transito ao que mais me empolgou; os clientes que eles atendem.

Um dos motoboys, que trabalha com restaurantes, contou que foi entregar uma pizza no apartamento de uma senhora que ele estima ter mais de 75 anos. Ela autorizou sua subida e quando ele chegou à porta, ela estava enrolada numa enorme toalha, como se tivesse sido surpreendida ao entrar no banho. Pediu que ele colocasse a pizza na mesa da sala enquanto ia pegar a grana. Quando ele virou-se para receber o dinheiro, ela deu um jeitinho de fazer a toalha cair. “- Rapaz, eu dei uma carreira escada abaixo que cheguei no térreo mais ligeiro do que havia subido pelo elevador. E olha que eram doze andares”. Dois outros motoboys que estavam na roda da conversa conheciam a cliente, que praticara o mesmo expediente com eles. Pelo que disseram a estratégia da romântica balzaquiana não surtiu nenhum efeito.

Muitos dos motoboys queixaram-se da entrega que fazem de cerveja, sempre com reclamações de que está quente, mesmo sendo transportada em caixas de isopor. A bronca aumenta quando quem pediu as cervejas está no meio de uma festa e já embalado no álcool. Aliás, sobre isso de festas é impressionante as histórias que contam meus amigos motoboys. O que eles veem de festas malucas não dá pra contar. Vez por outra os clientes ao receberem as encomendas convidam os motoboys para as festas. Neste ponto achei arretado o profissionalismo deles. Nunca aceitam, mesmo porque sempre tem outras entregas para fazer. Mas me interessou demais a confirmação, por alguns deles, de uma certa autoridade que vez por outra faz pedidos de madrugada para mimosear parrudos garotões de praia, bronzeados e tatuados, exibindo músculos inflados, a quem a excelência chama de seus sobrinhos. O engraçado é que toda vez que as entregas são feitas os tais sobrinhos são diferentes.

Deve se tratar de uma família enorme, hem?

Os brasileiros - Marcos Pires



 Povinho danado esse, viu? Meu colega escritor Ariano contava que sempre ia aos domingos tomar caldo de cana e comer pão doce no mercado São José, em Recife. Na porta um ceguinho mendigava e Suassuna lhe dava uma grana. Foram tantos anos de esmolas que o ceguinho identificava Ariano pelos passos. Um dia saudou: “- Seu Ariano, estou precisando de um favor seu”. Meu colega escritor se pôs ao dispor. “- Sabe o que é, seu Ariano? É que eu gostaria que o senhor adiantasse quatro semanas de esmolas porque eu vou tirar um mês de férias”. É, amigos leitores, no Brasil é assim.

Esses brasileiros são fantásticos mesmo quando confessam crimes. Prestem atenção nessa história absolutamente verdadeira. Numa cidade do nosso interior o cidadão tinha uma bodega onde vendia de um tudo, inclusive agua mineral, pela qual cobrava 1 real a garrafa. Um concorrente estabeleceu-se bem em frente a ele e começou a baixar os preços. Para vocês terem uma ideia do estrago, a agua mineral que ele vendia a 1 real o concorrente passou a vender a cinquenta centavos. Claro que ele ficou possesso. Passava o dia reclamando aos clientes, encostado no balcão. “- Tá vendo só, seu Francisco. Eu trabalho que nem um condenado todo dia há mais de 20 anos. Aí vem um amarelo safado desses e quer me quebrar. O senhor imagine que ele está vendendo a agua mineral pela metade do meu preço. E olha que eu tenho fabricação própria. É um marginal”.

Esses brasileiros são incríveis. Numa outra cidade de nosso interior um desses nossos conterrâneos era conhecido por não pagar suas contas. Um dia ele foi à loja de seu Eurípedes e disse que queria comprar a tesoura que estava na vitrine. O seu Eurípedes, antevendo o prejuízo com o calote, tentou convencê-lo a não comprar a tesoura em sua loja: “- Compadre, na loja de dona Chiquinha essa tesoura está pela metade do preço, é melhor você comprar lá”. Mas o velhaco não deu trégua: “- Ah não, compadre Eurípedes, não vou fazer uma desconsideração dessas com você. E tem mais, já dei minha palavra, vou comprar é aqui”. Essa discussão demorou quase uma hora, e enfim o dono da loja cansou. Foi buscar a tesoura e a promissória a vencer em 30 dias para o caloteiro assinar. Preencheu a promissória e quando terminou, deu um suspiro e desabafou: “- Olha aqui, compadre, eu sei que o senhor não vai pagar essa promissória, mas que eu botei pra lascar no preço, ah, isso eu botei”.

Eita povinho que eu amo.

Os meus assaltos - Marcos Pires



É mais ou menos como o primeiro sutiã para a garotas; o primeiro assalto a gente nunca esquece. No meu caso deu-se que eu caminhava com alguns amigos de manhãzinha pela calçada do Cabo Branco quando dois bostinhas numa moto anunciaram o assalto. O mais valente de todos nós, filho do legendária Capitão Panta, o conhecido Nerivan, deu uma carreira que Bolt teria inveja, e foi se esconder atrás de um poste. Só que a geografia corporal do bravo é interessante; magro e barrigudo, assim como uma azeitona espetada no meio de um palito. Não fosse a agonia do momento seria motivo para boas risadas ver ao longe aquele abdômen projetado por trás do poste, como se existisse sozinho, sem estar pendurado num corpo qualquer. Não nego o tamanho de minha coragem; também corri, só que em direção ao mar, por isso tive que saltar o banco da calçadinha. Dei uma topada e cai na areia, de onde o filho de uma ronquefuça me fez levantar sob a mira do revolver. Resumidamente perdemos celulares, relógios, alianças e cordões de ouro.

Quando a dupla de celerados já se retirava, o meu bom amigo Dr. Fernando, Diretor do Laureano, conhecido nos grupos de corrida como Fernando Pezão (nenhum parentesco com o ladrão que desgoverna o Rio de Janeiro), diminuiu o passo da corrida e perguntou a um dos assaltantes do que se tratava. O selvagem da motocicleta apontou o revolver para Fernando e disse: “-É um assalto, seu curioso”, e levou tudo que Pezão conduzia.

Foi eficiente a polícia. Dias depois a dupla foi presa e identificada pelo nosso CSI Bessanger, que afirma ter curso de segurança feito em Israel, no Mossad.

Há quem afirme que meses depois o cão levou a dupla de inocentes.

Já no segundo assaltou eu estava andando sozinho pela calçadinha de Tambaú quando notei a uns 50 metros duas turistas sendo assaltadas. Uma delas gritou dizendo que os revólveres dos bandidos eram de brinquedo e eu parti para cima deles, chamando um senhor que estava do meu lado para ajudar. Os assaltantes fugiram e depois de acalmadas as duas senhoras (uma delas havia sido jogada no chão) eu notei no meio da pequena multidão que se formou, aquele tal senhor que eu chamara para ajudar e que não fizera nada. Reclamei, e ele se explicou: “-Mas meu amigo, essas senhoras disseram que os revolveres eram de brinquedo e o senhor acreditou? Ora, mulher não sabe nem escolher marido vai lá saber o que é revolver de brinquedo…”.

Até hoje não sei se sou corajoso ou ingênuo. Quem sabe descobrirei no próximo assalto…

De ônibus no Rio de Janeiro - Marcos Pires



  Fim do ano passado estávamos no centro do Rio de Janeiro e me deu uma vontade danada de relembrar meus tempos de passageiro de ônibus. “-Pois é, cada doido com sua mania”, me disse Mãe Leca, já com raiva porque esse tipo de vontade não dava em mim para relembrar nossa viagem a Paris. Eu quis responder que a vontade depende do bolso, mas deixei pra lá.

Demos sorte; conseguimos sentar nos dois últimos bancos disponíveis. Bem a tempo, porque logo depois uma multidão vinda da estação Central do Brasil superlotou o coletivo. Eu sabia que precisava anotar o que ia acontecer, dada a diversidade da “fauna” ali presente. Extraio agora umas anotações do meu inseparável caderninho. Só preciso que o atento leitor imagine um ônibus totalmente lotado, com mais gente em pé do que sentada, sem ar condicionado, com um motorista meio maluco num clima de quase 40 graus.

“- Ei, seu motorista, o senhor tá levando gente, né gado não”.

“- Deixa a gestante sentar, por favor. Povinho mais sem educação. Aí, não, madame, aí sou eu”.

“- Ei seu motorista, pode correr que a galera aqui não tem medo de morrer”.

“- Corra não, pelamordeDeus, que minha mãe não tem dinheiro pro caixão”.

Pá, pá, pá, era o cobrador batendo na caixa, tentando ser ouvido pelo motorista no meio daquele caos.

“- Ei, seu motorista, tá correndo pra ver se pega o urso em casa, é? ”.

“- Seu motorista, queima a parada, não para não, aqui só cabe se for no colo”.

“- Licença, desculpa, licença, desculpa...”.

Pá, pá, pá, o cobrador continuava a bater na caixa gritando sei lá o quê. As reclamações prosseguiam:

“- Eita, passou meu ponto!”.

“- É um safado, tá fingindo que está dormindo pra não dar o lugar pra veia”. As frases que eu anotei dariam duas colunas, mas não posso esquecer de registrar o filosofo que estava sentado ao meu lado no corredor (Mãe Leca, metida a chique, só queria andar na janela do ônibus): “- Meu amigo, quem diz que a beleza é passageira nunca andou nessa linha da Central do Brasil”. Por educação achei graça nessa idiotice. Pra que? Lá veio o filosofo com outra pérola: “- Vou te dizer uma coisa, viu? Namorar é muito bom, mas não existe sensação melhor do que pegar o ônibus de manhã cedo, quase vazio”.

Aquele filosofo deve ter uma vida sexual muito medíocre, hem?

Wilson, o empreendedor.- Marcos Pires



 

Conheci Wilson ainda menino, muito ativo e querendo ganhar dinheiro. Lembro bem que ele me contou ser coisa de família. Seu pai dizia sempre aos filhos, repetindo um sábio da antiguidade: “- Ganhem dinheiro, nem que seja honestamente, mas ganhem dinheiro”.

Uma vez ele foi flagrado fazendo parceria com a Secretária de nossa escola, que reproduzia as provas no mimeografo. Depois daquele evento que lhe custou a expulsão do colégio “só porque recebia grana dos amigos para antecipar as perguntas que iriam cair nos exames” (era assim que ele se justificava) perdi Wilson de vista. Aqui e acolá sabia dos seus progressos empresariais. Alguém o vira em Manaus apressando o desembaraço de mercadorias na Zona Franca, usando aquele método de não pagar impostos. Outro me disse que ele partira para a Bahia, onde contratava trios elétricos para festas por todo o Brasil. Nesse caso ele chegou mesmo a ser preso porque só existiam os papeis dos contratos, músicos que é bom nada.

Depois de 50 anos reencontrei Wilson. Ele soube da minha quase morte nas redes sociais e me procurou no escritório. Rimos muito da falsa notícia, mas eu sabia que viria alguma novidade. E veio. “- Meu amigo, essa sua falsa morte foi muito importante. É um aviso que poucos tem direito de receber. Nós sempre pensamos que somos imortais e quando partimos desta vida deixamos o ônus das providências para nossos entes queridos. Isso é péssimo porque além da dor da perda eles terão que escolher o caixão, providenciar o tumulo. Pior ainda, quem morre cria uma terrível obrigação para os que ficaram, como aquelas visitas mensais ao cemitério que não consolam quem está vivo nem melhoram a situação de quem se foi, isso sem contar o custo com flores e lanches nos dias de finado”. Fiquei impressionado. Wilson não somente deixara de ser gago como estava falando feito um político. Mas é claro que ele queria me vender algo, e era a minha cremação, como ele anunciou em seguida. Disse que tinha 3 planos; prata, ouro e diamante. E que tudo estava incluído, até uma suíte com frigobar.

Êpa! Suíte para o defunto? “- Não amigo, para os seus entes queridos, que vão lhe prantear naquela hora fatídica”. E continuou a oferecer tanta coisa boa que eu quase me ofereci para ser cremado mesmo ainda vivo.

Para cortar a conversa de vez, expliquei a ele que infelizmente não ia dar porque não tinha mais ninguém que fosse à cremação para chorar por mim. Wilson deu um muxoxo, balançou a cabeça e segredou: “- Tranquilo, Marcão; no plano diamante plus nós oferecemos um casal e quatro crianças que choram uma tarde inteira como se fossem teus filhos e netos”.

Acho que vou topar.

O Uber - Marcos Pires



 

Eu e Mãe Leca estávamos voltando da maravilhosa festa de Fred e Tereza em Areia Dourada e chamamos um Uber. O motorista chegou num carro meia boca, pequeno, sem ar. Com um forte sotaque foi logo dizendo (sem que tivéssemos perguntado) que aquele carro era de um genro seu e que ele estava ali somente passando tempo, porque na verdade era milionário e não precisava nem trabalhar mais.

“- Eu sou do Mato Grosso. Crio gado em muitas fazendas e estou passando as festas na casa dos meus parentes. Como foram todos para Campina Grande eu tirei o carro da garagem só para ter com quem conversar. Mas eles não sabem que eu sou milionário, porque aí minha vida iria virar um inferno”.

Quem me conhece sabe que meu faro por mentiras vai longe. Senti ali uma queimando, mas precisava confirmar e indaguei do tamanho de seus rebanhos.

“- De gado leiteiro eu tenho oito mil cabeças, mas a maior parte é gado de corte. Da última vez que contei tinha pra mais de cem mil reses”.

Mentira? Quis tirar a prova dos nove e perguntei a ele como conseguira juntar aquela fortuna.

“- Eu era o capataz de duas fazendas de um político da minha região. Sem que eu soubesse ele tinha colocado aquelas fazendas e muita coisa mais em meu nome. Como eu era analfabeto nem sabia de nada. Uma vez ele me fez ir ao cartório assinar um papel para ele, só com o dedão, né? Depois eu soube que era uma procuração. Com o tempo aprendi a ler e fui percebendo tudo, mas ele morreu e como não tinha filhos e a mulher dele era mais burra do que eu, findou que eu fiquei com tudo e aí aumentei muito as coisas”.

Pronto! A conversa do velhinho tinha logica; é que em toda conversa que entra safadeza de político até o que parece absurdo se torna realidade.

Estávamos chegando ao destino e eu não sabia se ele era mentiroso. Arrisquei: “- Amigo, ficaremos aqui”. Tinha na mão uma nota de cinco reais (O Uber faz debito automático no cartão de credito) e disse a ele que se tratando de um milionário eu não iria constrange-lo oferecendo uma gorjeta. E tão pequena.

Ah, leitores queridos, o velhinho deu uma puxada na nota que quase levou meus dedos juntos.

Ainda hoje estou na dúvida se ele era sovina, miserável ou mentiroso.

 

O veraneio do terror- final - Marcos Pires



Marcos Pires

Semana passada iniciei aqui a história do amigo que comprou uma casa à beira mar em Camboinha e foi veranear pela primeira vez. Também contei como sua casa foi invadida sem qualquer convite por parentes e amigos que ele não via há muito tempo, até algumas pessoas que ele não conhecia.

Pois bem, depois de uma manhã estafante levando e trazendo gente entre Camboinha e a ilha de Areia Vermelha na sua jangada fibrape, o meu amigo enfim foi sentar à mesa com a esposa, a filha e o futuro genro para almoçar. Havia reservado para aquele dia uma garrafa de uísque raro e caro, que trouxera de sua viagem à Inglaterra, um puro malte que, se pudesse ser encontrado aqui, não custaria menos de mil reais. O uísque era tão bacana que os escoceses o bebiam com o nariz tampado para não sentir seu cheiro e ficar com agua na boca; nada de misturar aquele néctar a qualquer outra coisa, sequer gelo. Pois bem, sentado à mesa a primeira surpresa foi a querida doméstica Maria, que veio da cozinha com as mãos nas ancas (tipo assim um açucareiro) e pela primeira vez na vida elevou a voz: “- Apôi prepare minhas conta porque esse povo já comeu a feira toda, me butaro pra cozinhar derna de manhã cedo e eu tô que num aguento mais”.

Não acreditando na informação o amigo levantou e foi à cozinha verificar o estoque de comida. Realmente, só haviam sobrado um pacote de arroz, outro de sal e duas latas de sardinha. E aquilo seria o seu almoço. Para quem havia estocado dez quilos de camarão, mais dez quilos de filé e três enormes lagostas compradas na véspera (ali perto, na praia do Poço), era demais. A raiva aumentou porque quando voltou para a sala descobriu que seu caríssimo uísque não estava mais ali. A filha lhe disse que um dos primos havia levado a garrafa para provar à beira mar. Meu amigo correu a fim de evitar um prejuízo ainda maior, mas chegou tarde. Os parentes e os amigos que ele não havia convidado estavam dançando ao som altíssimo de “Adocica” e tomando as últimas gotas daquele uísque caríssimo em copos de caldo de cana, cada um misturado com as mais inusitadas substancias, desde agua de coco a coca cola, passando por ki suco de groselha e guaraná, chupando umbu como tira-gosto.

Foi demais. Ele começou a sentir um formigamento no braço, uma dor no peito, a visão turva e...desmaiou. Só acordou no hospital, já com soro no braço e a esposa à cabeceira da cama.

Hoje em dia ele passa os verões em Campina Grande, onde adquiriu excelente mansão com vista para o mar no bairro do Mirante...e onde ninguém o visita.

Lidando com a morte - Marcos Pires



Marcos Pires

Quando menino eu conheci uma amiga de minha mãe, daquelas solteironas do Miramar, que se dizia muito nervosa porque ficara no caritó. No bairro ninguém permitia que ela fosse aos velórios e enterros porque ao invés de chorar danava-se a dar risadas quando se aproximava do defunto.

Essas reações à morte são incríveis.

Mesmo as reações à ameaça de morte já são perigosas. O cidadão acabara de receber um péssimo diagnostico do médico. Encontrou um amigo e, muito deprimido, esperando uma força, confessou: “- Mas meu amigo, não lhe conto. Sai agorinha do médico e ele me deu seis meses de vida. O que você acha? ”. O amigo arregalou os olhos, balançou com força o seu ombro e disse: “- Pois corra, aproveite que seis meses para quem está morrendo passam em menos de uma semana”.

Já outro foi diagnosticado com um câncer e recebeu a visita do irmão ainda no hospital. “- Mano velho, eu que nem câncer tenho já estou lascado, avalie você que não deve ter nem três meses de vida”.

Seu Durval era meio assim...abilolado, e foi consultar um médico muito bom mas rude, beirando o estupido. Ao ser diagnosticado com pneumonia, quis duvidar. “- Mas Doutor, será que é mesmo pneumonia? Olha que eu tinha um amigo que foi diagnosticado com pneumonia mas morreu de outra doença”. O médico já aborrecido pela dúvida posta em seu diagnóstico, rebateu: “- Pois aqui é garantido, seu Durval. O senhor vai morrer mesmo de pneumonia, viu? Mas era só o que faltava...”.

Isso de morrer vai aos extremos do absurdo. Nerivan é testemunha de um estranhíssimo diálogo entre dois pinguços que frequentam o bar “Lavagem do rato”, no distrito mecânico. Um deles disse ao outro que o amigo comum Antônio havia morrido na porta do bar. O outro perguntou se ao morrer Antônio estava chegando ou saindo do bar. Quando foi informado que Antônio morreu quando entrava no bar, desabafou: “- Que azar, hem?”.

A mistura de bebinhos e mortos nunca deu certo. Zenildo conta que na cidade dele um bêbado foi a um velório e ao saber que fora suicídio, perguntou alto e bom som qual o veneno usado. Constrangido e querendo acabar com aquela cena macabra, um parente disse baixinho que o suicida tomara o veneno folidol. O bêbado não se conteve: “- Mas que imbecil. Folidol até que é bom, mas não há nada que se compare ao bom e velho chumbinho”.

Curso para corruptos – II - Marcos Pires



Na coluna anterior comecei a contar sobre o curso que vai preparar os novos corruptos, evitando prisões e delações premiadas. No primeiro ponto, relativo a dinheiro, a recomendação dos professores é a de que os corruptos tenham várias amantes e coloquem em nome delas uma terça parte de todo o dinheiro que furtarem, porque mesmo que algumas das amantes os traiam, sempre vai sobrar uma grana.

Com relação ao segundo terço do dinheiro roubado, recomendam que os próximos corruptos adotem jovens que já tenham CPF para serem seus laranjas, porque se torna impossível rastrear o parentesco, mas terão que evitar transferências bancarias de suas contas para o adotado. Só dinheiro vivo.

Igualmente importante será os corruptos identificarem parentes “gulosos” das autoridades honestas, porque na hipótese de um iminente escândalo o corrupto irá ameaçar Sua Excelência com as bolsas Chanel dadas à madama da autoridade sem o conhecimento do até então honesto.

Enfim o futuro corrupto deve investir a terceira parte da grana em gado ou cavalos. Garantem os professores que essa é a maneira mais fácil de esconder dinheiro, porque animais não falam nem chamam tanto a atenção como objetos de arte, além do que e ao contrário das obras de arte, os animais podem se reproduzir para justificar o aumento do patrimônio.

Encerrado o plano de aulas relativo ao dinheiro, passam os professores de corrupção a ensinar como evitar delações premiadas, mas isso será mais explicado durante o curso. Aqui apenas o “cardápio”.

Porém uma última informação se faz necessária; o preço do curso. Apesar de ser algo novo, o curso para preparar os novos corruptos é bastante caro. Mesmo porque os professores são os melhores do mundo (covardia, já que Brasil é campeão mundial na matéria), com especialização em cofres públicos e receitas desviadas. No currículo deles constam inúmeras denúncias e nenhuma condenação, diversos inquéritos de desvio de verbas inconclusos ou arquivados. Por ser tão caro é que eles estão oferecendo aos alunos uma opção de pagamento; ao invés dos 500 mil reais à vista, módicos 11% do que os futuros corruptos vierem a roubar. Quando perguntei o por que desse percentual, explicaram: “- É que 10% é coisa de garçom. Nós ofertamos o próprio banquete”.

Ah, Brasil!

Curso para corruptos - I - Marcos Pires



Quando os 3 sócios decidiram iniciar o curso que ensinaria corrupção não esperavam o tremendo sucesso que ocorreu. Primeiramente porque o curso se dá de forma quase secreta; só são admitidos os realmente vocacionados, e isso depois de uma seleção prévia rigorosíssima, entre candidatos que não se inscrevem. São convidados depois de um exame cuidadoso de suas vidas, onde são observados dados como quem era o aluno que comia na cantina da escola todos os dias e conseguiu terminar o ano sem jamais ter pago um lanche e nem por isso ter sido objeto de qualquer reclamação. Critério importante também foi a utilização de bizu no vestibular e nas provas da faculdade, obviamente sem nunca ter aberto um livro no curso (mais pontos contam para os que sequer compraram livros; economizaram para pagar mais caro pelos resultados).

Mas enfim vamos ao curso. Os sócios iniciam explicando que são só 3 porque se fossem 4 sócios ou mais, cairiam no que dispõe o artigo 288 do Código Penal, que trata da formação de quadrilha ou bando. Dessa maneira, se o curso vier a ser descoberto pelo menos desse crime eles escapam.

Todo o ensino se baseia numa premissa muito simples: no Brasil a corrupção sempre prosperou porque é da natureza das autoridades esse comportamento, haja vista que não existe nada mais desorganizado do que as quadrilhas de políticos e empresários que assaltam nossos cofres públicos. Um exemplo claro é a dificuldade que os corruptos têm em esconder o produto dos seus saques aos cofres públicos, bem assim essa série de delações premiadas que derruba todas as quadrilhas, afora outras “amenidades”, como por exemplo obrigar todos os futuros corruptos a fazerem um curso superior, nem que seja por correspondência. Pode ser até de corte a costura ou culinária. Vale tudo para o distinto ocupar uma cela especial se por acaso todo o resto que aprender no curso falhar.

Na matéria dinheiro, é necessário que o futuro corrupto aprenda a extorquir e roubar o máximo possível porque nunca haverá dinheiro demais quando tiver que contratar advogados e começar a “pavimentar” a estrada de seus delitos com parceiros gulosos.

De fundamental importância que tenha várias amantes para pôr em nome de cada uma delas a terça parte do roubo, porque mesmo que duas ou três o enganem, sempre restará grana suficiente.

Continuarei na próxima semana.

Coach - Marcos Pires



  marcos@piresbezerra.com.br

 

Eu já confessei nesta coluna que sou apaixonado por palavras. E como sou brasileiro tenho um ciúme enorme das nossas palavras, o que me leva a detestar a utilização de “palavras do estrangeiro” (como dizia meu avô) em nossas vidas.

Vez por outra a moda pega. Ultimamente eu já vinha invocando com as pessoas que começam respostas com um ENTÃO, totalmente desnecessário e incabível. E olha que o tal então é bem nosso.

Pois agora eu descobri que a moda é ser Coach. Ora, que eu saiba isso aí significa treinador. Acontece que no Brasil ninguém está aprendendo um ofício para se tornar treinador, e sim fazendo um dos milhares de cursos que já existem aqui para serem treinadores. De que? Sabe-se lá. Ou seja, os cursos estão ensinando a ensinar.

No meu tempo havia o bom e velho professor, que em sua formação exigia estudo e aplicação. Agora não, num curso de fim de semana o cidadão já se torna Coach.

Por conta disso foi que iniciei uma conversa com um amigo americano que está querendo voltar ao Brasil e precisa contratar dois professores para aprender prosaicos ofícios, os quais ele confessa não existirem nas terras do tio Trump.

Nossa discussão se deu porque uma terceira pessoa nos interrompeu e sugeriu a contratação de Coachs e não de professores, e eu, idiota de carteirinha e papel passado, emburaquei contra.

O paciente amigo americano acompanhou tudo morrendo de rir, porque não estava entendendo bem qual a duvida que havia no Brasil sobre o tema, já que nas terras dele os tais Coachs são mais ligados a esportes, ao contrário do Brasil onde servem para tudo. É verdade, até o cara que tira cocos na praia...sabem aquele sujeito que sobe nos coqueiros sem escada, com os pés amarrados numa peia? Pois é (aqui bem caberia um ENTÃO, né?), até ele está montando uma estrutura para ensinar sua arte. Me garantiu que fez um curso e é Coach.

Mas voltemos ao amigo americano. Depois de uma discussão enorme, eu e o idiota que queria empinar a coalcherização em tudo tivemos uma mesma ideia; perguntar ao sobrinho de Trump o que é que ele queria aprender.

“- Ah, my friend, eu gosstarrria de aproveitar essa moda de coisas exóticas e ensinar aqui na América como se faz dindim de marrrracujá e como ser político ladronnn sem ser preso”.

Danou-se!

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