O pescador de histórias - Marcos Pires



 Aluízio Nicácio nasceu bom e o tempo só aperfeiçoou essa condição. Por isso é dono de um excelente humor, do qual finalmente colocou uma pequena parte no livro “Pescador de histórias”.

Vou dar alguns exemplos. Todos os anos, juntamente com numeroso grupo de paraibanos, Aluízio vai ao pantanal pescar. Pelo menos essa é a desculpa, porque levam várias grades de cachaça Rainha que milagrosamente desaparecem ao fim de viagem. Naquele ano ele estava “aperreado” porque fizera uma promessa de não beber por um certo período, e aproximando-se o dia da viagem finalmente encontrou um doido que deu a solução; terceirizar a promessa. Contrataram um pinguço famoso que aceitou ficar sem beber durante o tempo que durasse a pescaria, mediante a paga de 500 reais. Ocorre que contra todas as possibilidades, Aluízio e o parceiro de pescaria Germano Toscano não pegaram nem gripe. A razão? O tal pinguço quebrara a promessa e torrou os 500 reais em cana.

Outra dele; o radialista Paschoal Carrilho, de quem era amigo, foi fazer o exame de próstata depois de muita resistência. Ao ver Dr. Osório Abath colocando uma luva na mão, suplicou: “-Doutor, já que vou me lascar, dá para o senhor tirar pelo menos o anel do dedo?”.

São dezenas de boas gargalhadas guardadas no livro, mas não posso encerrar sem mencionar o planejamento de uma viagem a Fortaleza que ele iria fazer com os casais amigos Luiz Carlos Florentino e Luiz Guimarães, colegas do Banco do Brasil. Reuniam-se todas as sextas feiras para trocar ideais sobre a viagem, mas os aperitivos que tomavam não permitiam o tal planejamento. Enfim decidiram fazer uma última reunião e não beber até resolverem tudo.

Só que adotaram um curiosíssimo modo de viajar. Iriam parando onde houvessem bares com bons tira-gostos e cerveja gelada. Parariam inicialmente em Bayeux, onde havia um excelente picado. A segunda parada seria em Waldemar do Buchão em Varzea Nova, porque o caranguejo era espetacular. Não poderiam esquecer a buchada de D. Zefa Preá em Tibiri, né? E por aí foram até que Luiz Carlos Florentino perguntou onde planejavam dormir na primeira noite. Feitas as contas só dava para chegarem em Santa Rita. Desistiram da viagem.

Se o leitor gosta de rir, favor comprar o livro desse pescador de amizades.

No meu tempo - Marcos Pires



A certeza de que estou ficando velho me chegou com força no sábado passado, quando fui ao aniversário de 15 anos do meu neto Pedro e ouvi as conversas dos amigos dele.

Como eram diferentes nossas diversões. Um exemplo simples; assistir filmes. Hoje em dia eles se limitam a ver o filme e comentar depois. No meu tempo não era assim, havia muita “interação”.

Lembro que minha turma do bairro do Miramar marcou no cine Rex para assistirmos um filme de Maciste. Para os mais novos, vale dizer que era um personagem superforte que sozinho resolvia qualquer parada. Lembrava esse Conan, o bárbaro. Pois bem, nosso amigo Neno Rabelo antecipou-se e assistiu à primeira sessão, de modo que quando chegamos ele já sabia de toda a história.

Como sempre, quando apareceu na tela a propaganda da Condor filmes, todo o cinema gritou xô ou assoviou até que o pássaro símbolo da empresa exibidora voasse da imagem. Era uma praxe. Em seguida o silencio total, enquanto Maciste enfrentava e derrotava dezenas de inimigos, até que caiu numa armadilha e conseguiram prender nosso herói numa cela. Maciste esperou anoitecer, quebrou as pesadas correntes que o amarravam a uma coluna, entortou as barras da grade e seguiu pelo corredor sem fazer qualquer barulho para não acordar os guardas. Naquele silêncio angustiante ouviu-se a voz de Neno: “- Ei, Maciste!”. Pois não é que o ator parou, olhou para trás (ou seja, para Neno, na plateia) e logo depois voltou a correr para a liberdade? Neno ficou famoso com essa sacada. Isso sim era interagir.

Claro que existiam outras formas de “interação”. Lembro que fui com meu primo Juca assistir um filme no cine Santo Antônio, em Jaguaribe, onde ele morava. Estranhei porque quando entramos no cinema, ao invés de irmos para as primeiras filas do térreo, meu primo e sua turma fizeram questão de sentar no primeiro andar. Notei que um deles levava um saco que os demais arrodeavam para disfarçar. Mas conhecedor do “animo” daquela turma da Vila dos Motoristas, fiquei na minha. Pois não é que no meio do filme eles abriram o saco e arremessaram uma galinha que saiu planando e cacarejando sobre o pessoal lá embaixo?

Sinceramente não entendi porque minha nora mais linda e querida do mundo pediu para que eu não contasse mais histórias do meu tempo ao meu neto e seus amigos. Logo quando eu ia contar sobre Carlos Carreiro, Juca Buranha e outros saudosos amigos.

O que é uma amizade - Marcos Pires



 Quando “O livrinho de Marcos Pires” ficou pronto eu estava totalmente liso. Gastara os últimos trocados na editora. Mas tinha esperanças de ficar rico e famoso. Afinal, era o primeiro livro destinado aos futuros advogados, ensinando coisas “muito importantes”, como cobrar honorários, dar más notícias aos clientes y otras cositas más.

Para o lançamento eu arrisquei a parte do meu capital até então intacta, minhas amizades. Consegui convencer o Presidente do Superior Tribunal de Justiça, Ministro Humberto Gomes de Barros, a vir até a Paraíba para lançar, em conjunto com o Livrinho de Marcos Pires, um livro que ele havia escrito recentemente. Aproximando-se o dia do duplo lançamento eu voltei ao Ministro e o convenci de que deveríamos fazer uma venda casada. Mais ainda, combinamos que eu apresentaria o livro dele e ele apresentaria o meu livro.

Portanto, sem gastar um tostão, eu conseguira que o Ministro Presidente do STJ fizesse a apresentação do meu livro e ainda desse um empurrão enorme nas vendas, afora evidentemente uma belíssima festa que contou com a presença das mais expressivas personalidades do mundo jurídico.

Terminada a solenidade, houve um coquetel e discretamente eu convidei o Ministro e sua esposa para irem jantar comigo e mãe Leca no restaurante Gulliver. Seriamos só os dois casais, oportunidade na qual eu prestaria a ele as contas dos livros vendidos e repassaria a grana apurada.

Tão logo chegamos eu informei que o faturamento fora de 5 mil reais, sendo que para cada um de nós tocaria a metade. Entreguei a parte do Ministro e brindamos o sucesso com um uísque Gold.

Mas de repente eu notei que os presentes à solenidade da Fundação José Américo estavam chegando maciçamente ao restaurante, bebendo e comendo nas mesas vizinhas. Eles pensaram que o jantar fazia parte da festa e no final chegou a conta de 6.200 reais que eu o Ministro tivemos de dividir. Saímos com um prejuízo de 600 reais cada um.

Pro resto da vida ele recordava o fato: “-Olha só o que é amizade. O Marcos me fez ir à Paraíba para ajudar a vender o livrinho dele e ainda tive que pagar a conta do restaurante. Mas gosto demais dele”.

Um homem desses tem que estar no melhor lugar do céu.

Quanto ao meu livrinho…ainda não foi dessa vez que fiquei famoso e rico.

As mortes de Pinto - Marcos Pires



Vou logo avisando; se vierem com uma conversinha de que Pinto do Acordeom morreu, não acreditem.

A primeira vez que essa notícia circulou tem tempo. Naquela ocasião os vizinhos de Pinto, na sua cidade de Patos, ficaram chocados. Muito querido onde quer que vá, chega a ser idolatrado por lá. Comovidos, cuidaram de preparar os comes e bebes para o velório, como é costume no interior. Uma vizinha fez pamonhas, a outra fez mungunzá, os amigos cuidaram de estocar cachaça e gelar cervejas...enfim, tudo pronto para chorar o meu compositor de cabeceira.

Lá pelas cinco da tarde chegou o desmentido da tragédia. Pinto gozava de plena saúde e estava inclusive em excursão artística, encantando o mundo com sua arte. O que não impediu uma vizinha muito cruzeta de colocar as mãos nos quadris e reclamar com o marido: “ – Mas esse Seu Pinto faz cada presepada com a gente, né? ”.

De outra feita o queridíssimo compositor de “Neném” chegou em casa às sete da manhã, bêbado até a terceira geração. Claro que à porta estava Dona Madalena, anjo de guarda da família e de minha mãe (explico mais adiante), não muito satisfeita com a situação, se é que vocês me entendem. Quando ela ia começar a reclamar, Pinto assoou o nariz e compungidamente disse: “- Ah, Madalena, eu estava até agora no velório de compadre Edivaldo Mota. Vou dormir, me chame às dez horas para irmos ao enterro”.

Como combinado, às dez horas Dona Madalena foi acordar o marido para irem ao enterro do querido compadre: “- Acorda, Pinto, vai te arrumar para irmos ao enterro do compadre Edvaldo Mota”. Pinto sentou na cama, aboticou os olhos e abriu o peito: “- Como é? Compadre Edvaldo morreu? Como assim; nós estávamos bebendo até as sete da manhã. De que foi que ele morreu? ”.

Por essas e mais uma centena de histórias iguais e por muitas outras razões é que Pinto não pode morrer tão cedo. Tranquilamente segue vivendo e encantando o mundo, já que seu lugar no céu está garantido. É que Deus adora os homens bons. Nesse quesito eu tenho um testemunho guardado. Quando minha mãe se elegeu Vereadora aqui em João Pessoa, não tínhamos grana para nada. Graças a Pinto e Dona Madalena, Creusa Pires tomou posse encadernada em um belo e caro vestido amarelo.

Bota pra lascar na vida, amigo!

Se eu fosse autoridade - Marcos Pires



Meus queridos leitores, se Deus permitir completarei 35 anos de intensa advocacia daqui a pouco. Garanto a vocês que na profissão já vi de tudo, do bom e do ruim. Na sabedoria popular os médicos devem ser jovens e os advogados preferencialmente velhos, porque acumulam conhecimento. Na inflexão dessa curva se diz que o diabo sabe mais por ser velho do que por ser diabo, donde….

Fiz esse arrodeio somente para dizer que se eu fosse autoridade de verdade, dessas com patente e mandato, resolveria rapidamente essas questões das vítimas das tragédias de Brumadinho e do Flamengo.

Uma razão muito simples me leva a esse escrito. É que qualquer processo judicial que seja promovido pelas famílias das vítimas ou pelo Ministério Público demorará no mínimo dez anos. Acham muito? Lembram do naufrágio do Bateau Mouche no réveillon de 1988? Pois bem, somente trinta anos depois o STJ decidiu que os familiares das vítimas terão direito a indenizações cujos parâmetros fixou.

Trinta anos depois a dor aumentou exponencialmente ante a morosidade da justiça, graças a uma infinidade de recursos e com o crescente receio de que as empresas culpadas pela tragédia não tenham mais condições de fazer frente às condenações.

O que eu defendo é que seja encarado o obvio; tudo termina em dinheiro. Sabemos até qual será a média das condenações, a seguir o entendimento do STJ, que é a última instancia para casos do tipo. Portanto, se eu fosse autoridade criaria um mecanismo legal para obrigar os causadores dessas dores a ofertarem aos familiares das vítimas indenizações compatíveis com o que o STJ entende. Claro que esses familiares não estariam obrigados a aceitar esses valores e poderiam discutir o caso no judiciário, mas duvido muito que assim o fizessem, mesmo porque esses procedimentos em nenhum momento iriam frear as ações penais movidas pelo Ministério Público.

Se eu fosse autoridade, começaria por interromper o acesso dessas empresas aos créditos dos bancos públicos e a quaisquer incentivos tributários. Nomearia uma força tarefa para escarafunchar a contabilidade desse povo até espremer os números. É no bolso que dói.

Ai sim, os acordos sairiam rapidamente.

Carta ao Capitão - Marcos Pires



Excelência, espero que esta missiva o encontre bem e em paz. Tal qual quase dois terços da população não fui seu eleitor. É que não voto em ninguém há muito tempo. Menos importa, porque torço pelo sucesso do seu governo, que já foi declarado legitimo pelo TSE quando o diplomou.

Se me permite, Capitão, vou contar duas pequenas fabulas que não são de minha autoria, mas servem bem ao proposito desta cartinha.

Consta que Deus avisou a Noé sobre o diluvio e a necessidade de construir a tal arca. Mas também teria dado o mesmo aviso a um poderoso rei. Enquanto Noé construiu sua arca solitariamente, o monarca nomeou uma comissão de gerenciamento da obra, que por sua vez contratou uma consultoria para assessorar os trabalhos, que por sua vez aconselhou a contratação de vários grupos de estudo, cada uma dedicada a um setor; madeiras, amarras, isolamento... desnecessário dizer que quando o diluvio chegou ainda não haviam começado a construção da segunda arca, né?

A outra fabula é mais simples ainda. Depois da ceia de natal, a neta pediu à mãe a receita do pernil, que estava delicioso. A mãe explicou que era um segredo de família, iniciado pela avó. Temperava-se o pernil em vinho e alho, acrescentavam-se tomilho e outras especiarias e deixavam o pernil dormir. No dia seguinte, antes de colocar no forno, cortavam dez centímetros de cada ponta do pernil. Esse era o segredo. Curiosa, a neta foi até a avó e perguntou por qual razão cortavam-se as pontas do pernil. A avó explicou: “- É que no meu tempo os fornos eram menores”.

Portanto, capitão, se seu governo simplificar as práticas administrativas e não der ouvidos às verdades estabelecidas pelo “çabios” de plantão, já irá bem.

Mas me permita um último conselho de quem deseja o bem do país; cuide para que o dinheiro circule, de preferência tapando os furos da corrupção, porque assim os empregos voltarão, o povo vai consumir mais, o que gerará mais impostos e por consequência aumentará a arrecadação dos cofres públicos, sem necessidade do aumento de tributos. Quanto aos salafrários de plantão no Congresso, que tentarão chantageá-lo, solte seus cachorros em cima deles, mas cuide avisar ao distinto público quem são.

Que Deus continue cuidando do senhor e de todos nós.

Feliz 2019.

Retrospectiva 2018 - Marcos Pires



Esta coluna é o resultado de uma pesquisa simples que lancei nas mídias. Perguntei quais teriam sido os fatos mais importantes de 2018.

Um amigo se mostrou embasbacado com um fato que eu sequer sabia ter acontecido. Pois não é que a Receita Federal decidiu cobrar do Ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União, o imposto de renda devido pela propina que ele recebeu?

Pausa para você respirar, leitor. Mas é isso mesmo que você entendeu. Vá ao Google e confirme; um Ministro do TCU vai ter que pagar imposto sobre um suborno. É bom lembrar que esse Ministro julga nesse Tribunal exatamente os casos de suborno de empreiteiras, entre milhares de outros malfeitos. Bom, pelo menos ele entende do assunto, né? Mas eu fiquei imaginando, se a moda pega... . Imaginem uma prostituta dirigindo-se ao balcão da Receita Federal para fazer sua declaração. O espantado funcionário sem entender direito, questiona a profissional do sexo sobre aqueles lançamentos dispares; “- Ah, meu filho, é que são diversas fontes de renda cujos valores dependem do tempo da prestação do serviço. É a mesma coisa de um taxi que cobra pelo tempo da corrida, só que no nosso caso cada banco do carro tem um preço diferente”. Não, não vai dar certo.

Muita gente fixou-se nas eleições, com destaques para a família Bolsonaro, bem assim nas péssimas previsões dos institutos de pesquisa principalmente nas eleições para o Senado na Paraíba e em Minas Gerais. E claro, como não podia deixar de ser, na Ministra que viu Jesus no pé de goiaba.

Mas o evento campeão na pesquisa foi a prisão de Lula. Esse sim marcou o ano de 2018. Uns defendendo, outros atacando. Portanto, leitores amigos, para o bem ou para o mal este ano de 2018 teve como fato mais marcante uma prisão.

Eu respeito mas discordo de todas as opiniões por mais relevantes que sejam. Para sempre irei lembrar do ano de 2018 como o ano em que algumas crianças magricelas conseguiram comover e unir toda a humanidade. Aqueles garotos presos em uma caverna na Tailândia não deram abrigo ao desespero, focaram no que era necessário e tiveram na crença o combustível para esperar por sua salvação. Com seu exemplo ensinaram ao mundo que a fé e a esperança sempre vencem ao final. É disso que precisamos neste Brasil fragmentado.

Feliz natal!

Ajudante de Papai Noel. - Marcos Pires



Ainda muito garoto eu acompanhava a comitiva do Papai Noel entregando presentes por toda João Pessoa. É que minha mãe, dona da maior loja do Estado, inventou que os pais que comprassem os brinquedos de natal na nossa loja, poderiam marcar uma data para que Papai Noel fosse até suas casas entregar esses presentes.

A infraestrutura da entrega se compunha de um caminhão baú e à frente uma Rural marrom, onde iam o motorista OX, o corneteiro, Papai Noel, eu e alguns outros maloqueiros do Miramar.

Entregar presentes na casa dos ricos era chato; descíamos na porta do casarão, o corneteiro morria de tocar mas só abriam a grade quando usávamos a campainha. Geralmente aparecia uma babá arrastando o filho do rico pelo braço, que quase sempre estava chorando e morrendo de medo daquela farandula. Acreditem, leitores, eu chegava a ter pena daquela criança.

Bom mesmo era entregar presentes no Varjão, Oitizeiro...bairros pobres. Quando nossa equipe aparecia no início da rua com aquelas bocas de som tocando “bate o sino”, era um furdunço. A garotada (com aqueles barrigões de fora, sujos de lama, narizes escorrendo) cercava o caminhão que descia vagarosamente as ladeiras esburacadas.

Ao chegar no endereço a família estava toda na porta da casa. Bastava o corneteiro dar o toque para Papai Noel descer da Rural e a mãe do garoto já chorava. Ao contrário do menino rico com medo, o filho do pobre corria para abraçar Papai Noel. Era uma alegria geral. Entregávamos o presente e a família fazia questão de oferecer um lanche, geralmente bolachas e ki-suco. Nos fundos da casa sempre rolava uma cervejinha para os mais velhos, inclusive para o Papai Noel, que muito prevenido andava com uns canudos para não sujar a barba.

À tardinha já estavam todos “alegres“, e foi num clima assim que terminamos as entregas do dia na Torre, em frente a um bar que servia rabada. A fome nos levou lá e os frequentadores espantaram-se com um Papai Noel entrando no bar. Um dos pinguços locais tentou fazer com o bom velhinho o que fizeram ao Doctor Ray no bar do cuscuz. Estourou uma briga fenomenal, da qual evidentemente saímos vencedores. Aquele Papai Noel era macho todo.

Muito orgulho do meu tio Polari, eterno Papai Noel.

Quero conhecer Caicó. - Marcos Pires



 Moro sozinho um flat com 14 metros, portanto qualquer hotel é minha casa. Some-se a isso minha paixão por viajar.

Mais que as cidades, entretanto, me fascinam seus habitantes. E conversando com amigos soube de histórias incríveis do povo de Caicó.

Uma vez aportou por lá um circo, desses bem mambembes, que só tinha um magico, um palhaço e a equilibrista. Pois não é que o povo fez um abaixo assinado ao Bispo e o circo foi obrigado a sair da cidade? Tudo por culpa do palhaço, que usava umas calças muito frouxas, penduradas em suspensórios que eram fixados num bambolê que o palhaço usava à guisa de cinturão. A graça do palhaço era passear entre o público, olhar para baixo a cada dois passos e suspirar bem alto: “-Eita, olha a lapa!”.

Em Caicó nasceu uma das maiores figuras do Judiciário nacional, Dr. Ridalvo Costa, que teve o privilégio de ser o primeiro Presidente do TRF5. E nessa condição decidiu homenagear a cidade natal. Chegou lá na tradicional festa de Santana, famosa pelo bom gosto e refinamento do evento. Aconteceu que os habitantes da cidade nem deram pela presença dele, prestigiando um seu irmão que era dono do posto de gasolina da cidade. Perguntados pela preferência, foram unânimes: “- É que Toinho vende fiado”.

Pois foi nessa festa de Santana, mais precisamente no baile de gala, que Rui Mariz, primo de Ariano Wanderley, decidiu ir. Havia um problema; ele era solteiro e só podiam entrar casais. Em Natal ele contratou as duas mais badaladas vocês sabem o que e comprou caríssimas roupas para orna-las. Pagou mil reais a cada uma e prometeu outro tanto se elas se comportassem como damas. Nem falar podiam. Na festa, apresentou ambas como filhas tímidas e matutas de um riquíssimo fazendeiro do Mato Grosso. Foi um sucesso. Todo mundo elogiando a beleza e a fina educação de ambas, que caladas limitavam-se a bebericar taças de champanhe. Mas como tudo se revela, eis que anunciaram a atração da noite; o cantor Beto Barbosa. Ah, leitores, pra que!

Foi ele começar a cantar “Adocica” e as beldades esquecerem educação, recompensa e compromisso. Subiram nas mesas e mandaram ver.

Preciso ir a Caicó, quem sabe na próxima festa de Santana?

As eleições da OAB - Marcos Pires



 Foi um prazer e um privilegio ter participado da eleição do Dr. Arlindo Delgado como Presidente da OAB aqui na Paraíba no início dos anos 2000. Éramos tantos amigos juntos que nada poderia dar errado, apesar dos obstáculos que superamos, sem contar umas fake news que chegaram ao ponto de criar uma certa cueca azul celeste (cala-te boca).

Lembro que a chapa adversaria, igualmente prenhe de excelentes amigos, conseguiu às vésperas da eleição uma liminar que com certeza prejudicaria nossas candidaturas, e nos reunimos numa sexta-feira (a eleição seria no domingo) para deliberar o que fazer. Acho que Zé Edísio e Delosmar deram o norte; precisávamos cassar a tal liminar mas estava em cima da hora para irmos ao TRF5 com um...um o que? Cada um dos 30 advogados presentes tinha uma ideia diferente. Harrison tentava a convergência com aquela sua maneira eclesiástica, mas estava difícil um consenso, até que uma nova dúvida surgiu; quem seria competente para despachar? Atrevidamente ligamos para um dos integrantes do TRF e lançamos a dúvida. Pacientemente ele explicou que na ausência do Presidente quem despacharia seria o Decano. Já que a Excelência estava de bom humor, um advogado sem noção jogou a bomba: “- E o senhor acha que é caso de mandado de segurança ou agravo? ”. Ele riu e disse: “- Bem, como sou eu o Decano, se vier para mim eu prefiro que seja um agravo”.

Cinco minutos depois, Zeca Porto, Carlos Aquino e eu no volante disparamos para Recife. Redigindo a petição com o carro a 180 por hora, vez por outra um catabiu (o menino Aquino dizia que eram oscilações excêntricas no asfalto) desmanchava tudo. Resumidamente conseguimos a liminar e no domingo ganhamos a eleição. Jamais esquecerei a alegria do Dr. Arlindo, cercado por todos nós, cantando o grito da vitória até que percebeu a letra (Arlindo é f...), e tomado de vergonha foi comemorar mais adiante, moderadamente.

Estas lembranças me vêm porque na próxima quarta feira teremos novas eleições para a OAB. Confesso que não iria votar, mas uma pessoa que amo demais me pediu o voto. E me deu um argumento insuperável: “Ô pai, você sempre nos ensinou que todas as pessoas têm que ter ao menos uma chance para mostrarem do que são capazes”.

Acho a atual direção muito bacana. O Presidente é discreto, trabalhador e é um colega corredor. Mas não posso fugir do que ensinei a vida inteira. Todos têm que ter uma chance. Com todo o respeito aos demais, votarei em Carlos Fabio.

No frigir dos ovos - Marcos Pires



Recebi esta contribuição de V.M., o cearense mais paraibano do Brasil.

“- Marcos, observe como a língua portuguesa é rica em expressões! Veja o quanto o tema “alimento” está presente nas nossas metáforas. Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem ideias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa. E não adianta chorar as pitangas ou simplesmente mandar tudo às favas. Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo.

Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos. Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha; são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.

Há também aqueles que são arroz de festa; com a faca e o queijo nas mãos eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese…). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou. O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.

Por outro lado, se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha. O pepino é só seu e o máximo que você vai ganhar é uma banana; afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco…A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho.

Se embananar de vez em quando é normal. O importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.

Entendeu o que significa “no frigir dos ovos" ?”

Meus heróis. - Marcos Pires



Esses heróis que a história nos legou merecem meu respeito. Mas na minha idade e vivendo nesse Brasil catártico, não resta tempo para admirar quem arrisca a vida por uma ideia ou se martiriza por um sonho.

Meus heróis estão ali na esquina, no dia a dia. Às vezes quase famosos, tipo subcelebridades. Um exemplo recente é Marta, que ganhou pela sexta vez o título de melhor jogadora de futebol do mundo.

Marta joga numa seleção que há muito não sente o cheiro de títulos mundiais. Vale o registro de que futebol feminino no Brasil é praticamente desconhecido. Mas foi nesse contexto que ela se destacou. Também me motiva comparar Marta às tais “personalidades” do mundo da bola, como esse menino Neymar, muito bom de queda e de gastar. Só para definir o que digo; quem de vocês já ouviu dizer que Marta estava em baladas, namorava famosos ou ia e vinha pelo mundo a bordo do seu jatinho? Mas a minha heroína estava lá no palco da FIFA pela sexta vez com a mesma emoção e com a mesma simplicidade que caracterizam meu tipo de herói.

Também fazem meu tipo de heróis os corredores paraibanos da assessoria de corridas ZK, que no último domingo brilharam na Maratona de Buenos Aires.

Não porque correram bem, alguns baixando tempo e outros surpreendendo, como Mãe Leca, Otávio e Adelmar, que jamais haviam corrido mais de 21 Km. Só iriam correr meia prova, ou seja, dos 42 Km da Maratona eles só estavam preparados para a metade, mas num momento de total superação completaram todo o percurso. Aos que perguntavam como havia conseguido, Mãe Leca repetia Romário: “- Treino é treino, jogo é jogo”.

Isso é do esporte mesmo; ganhar, perder, completar ou não uma prova. O que diferencia atletas de heróis é que a organização da prova falhou e faltaram medalhas para os corredores que chegaram mais para o fim da prova. Foi naquele momento que nasceram meus novos heróis.

Me deu um orgulho danado, desses de encher os olhos d’agua, ver os atletas paraibanos veteranos de maratona, todos detentores de ótimos tempos, retirarem do peito suas medalhas e dá-las de presente aos atletas noviços que completavam pela primeira vez o percurso da Maratona.

Me diga, leitor, qual dos candidatos a qualquer cargo das próximas eleições seria capaz de um gesto desses?

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