Nelson Coelho - Personagem ou testemunha da história - Ramalho Leite



RAMALHO LEITE

Em homenagem ao jornalista e historiador Nelson Coelho da Silva, que recentemente nos deixou, republico texto que escrevi sobre o lançamento do seu último livro: “Testemunha da História”.

Considerar Nelson Coelho, apenas, como testemunha da história, é muito pouco. As histórias que conta no seu mais recente trabalho o envolvem totalmente. É mais personagem do que testemunha. Na cena dos acontecimentos políticos da Paraíba nos últimos cinquenta anos, como catador de noticia ou com “gato de palácio”, Nelson viu quase tudo. O que não viu, lhe contaram, e se não contaram, imaginou, pois o que não lhe falta é a capacidade de perquirir e investigar. De tudo, acumulou um acervo de fatos que ganham em seu livro “Testemunha da História”, o selo da perpetuidade.

Vinculado a um partido político, não procura demonstrar isenção na sua narrativa. Pelo contrário, destaca essa condição de militante e, por vezes, revela frustrações e decepções com os companheiros de luta aos quais serviu e não foi correspondido como julgava ser merecedor. Penitencia-se e se confessa arrependido de alguns momentos em que se deixou vencer pela paixão e defendeu com fúria seus amigos injuriados. Colheu desilusão e vai perpetuar inimizades.

A leitura é interessante e nos faz voltar a um passado recente. Rememora fatos que só mereceriam o esquecimento da história, como o vergonhoso desconvite que o Cabo Branco fez a JK para que participasse do seu carnaval. Os milicos vetaram a presença do ex-presidente cassado, apesar do esforço de Nelson para que o fato fosse contornado pelo governador Ernani Satyro. Um fato para mim inédito: um segundo atentado à vida de Aloisio Afonso Campos, acontecido em Brasília e que fez vítima de um balaço a sua secretária. Do hospital, Aloiso se socorre de Raymundo Asfóra para as providências legais e abafamento da mídia. Na ocasião, quem estava com Asfora em um restaurante de Brasilia? Justamente Nelson, que ajudou a acudir a moça.

O testemunho de Nelson Coelho envereda pela sua vida familiar e narra, sem meias palavras as dificuldades que enfrentou ao virar oposição. Não esconde, por igual, sua decepção com os que lhe voltaram as costas naquele momento de sofrimento, negando-lhe uma oportunidade de trabalho. Renova sua fidelidade a José Maranhão mesmo diante da sua negativa de lhe favorecer com um exilio voluntario e remunerado junto a um governo amigo de estado vizinho. No governo a que serviu, se o chefe lhe faltava, os culpados eram Giovanni Meireles e Solon Benevides, nunca o chefe maior. Revela esse comportamento, um acelerado sentimento de gratidão e de respeito, coisa incomum nos dias de hoje.

Quando aportei no Palácio da Redenção como repórter de Sala de Imprensa e depois oficial de gabinete do governador Pedro Gondim, Nelson Coelho já estava lá. Ele sai e ele ficou. E como foi difícil tira-lo de lá… ( do meu livro A Botija de Camucá)

A última conspiração - Ramalho Leite



Para quem não sabe – MAG é uma sigla formada pelas iniciais do nome do ex-deputado Manoel Alceu Gaudêncio de tradicional família caririzeira que já deu até senador. Onde hoje está edificado o MAG Shopping, existia uma ampla residência que somada ao espaço do Hotel Manaíra, deu lugar ao novo empreendimento. A Casa de Manezin, como era conhecida, foi sem dúvida o cenário principal da última conspiração política que a Paraíba testemunhou.

Decorria o ano de 1978 e os militares escolheram Tarcísio Burity para o cargo de Governador da Paraíba contrariando amplo movimento popular que desejava a ascensão de Antônio Mariz ao Palácio da Redenção, através da eleição indireta. A dissidência da Arena, da qual eu fazia parte juntamente com Manoel Gaudêncio, Edvaldo Motta, Chico Soares, José Lacerda, Tarcísio Telino e Américo Maia, para só falar nos deputados estaduais, resolveu apoiar Mariz no enfrentamento ao regime, disputando no voto a indicação da Convenção da Arena. Para que houvesse a concorrência foi preciso que contássemos com o apoio decisivo de Waldir dos Santos Lima, Presidente da Arena e partícipe dos entendimentos que culminaram com a escolha de Burity. Todavia, considerando-se traído pelo grupo palaciano, Waldir resolveu engrossar as nossas fileiras e aceitou ser candidato a vice na chapa de Mariz.

Outro inesperado rebelde foi Ernani Satyro. Homem de confiança da chamada revolução de março, ex-lider de Costa e Silva e ex-Ministro do Tribunal Militar, completou a chapa disputando a vaga de Senador biônico, epíteto pejorativo com que premiaram os senadores sem voto popular.

Nessa conspiração contra a decisão do regime militar, João Agripino, inicialmente, desempenhou papel muito aquém do nosso desejo. Ao chegar à Paraíba, ao invés de aderir ao processo tentou a conciliação e lutou com todas as suas forças para demover Mariz do que ele chamava de suicídio político. Na ocasião, três candidatos avulsos, digamos assim, resolveram enfrentar o Planalto. Um em Minas, outro em São Paulo (Maluf, vitorioso) e Mariz, na Paraíba. Agripino dizia que todos seriam cassados após a realização das convenções arenistas. Queria salvar Mariz. Amigo do General Golbery do Couto e Silva, suas palavras impressionaram a todos nós que não desejávamos abrir mão da permanência de Mariz na política da Paraíba. Faltava conseguir intimidar Mariz, uma tarefa impossível.

Aloísio Afonso Campos ditou, eu escrevi e João Agripino alterou o texto da renúncia de Mariz à disputa indireta. Para se chegar a essa solução negociamos que o próprio Agripino fosse nosso candidato ao Senado, na disputa direta. Guardei o original desse documento, depois publicado por Jório Machado em “Resistência ao Medo”. Decisão tomada, fomos todos para nossas casas. Acordei no começo da noite com um telefonema de Mariz que indagava:

– Você divulgou a renúncia ? Respondi que não, apenas datilografara o documento.

– Não mostre a ninguém e vamos nos reunir às oito horas na Casa de Manezim, recomendou-me.

Cheguei no horário. Muitos dos inconfidentes já se encontravam acomodados e curiosos para saber a razão da convocação. Aguardava-se a chegada de Mariz, que nos disse:

– Fiz alguns contatos e tomei uma decisão. Não poderia jamais pedir votos aos paraibanos, se recuasse da disputa, com medo da cassação. Prefiro ser cassado a recuar por medo. Sou candidato e vou à convenção. Conto com vocês? (Contou ! Inclusive com Agripino.)

Nem precisamos responder. Gritaria geral. Aplausos e abraços. Eu e Telino, a quatro mãos, nos encarregamos de rasgar a Carta Renúncia. A versão datilografada, bem entendido.

Desta vez não precisamos esperar ansiosamente pela chegada de Ernani para que Manezim abrisse o seu melhor whisky.

Fomos à convenção, perdemos por pouco, mas escrevemos um bom capítulo da história recente da Paraíba. ( Republico esse texto em homenagem ao ex-deputado Manoel Gaudêncio que acaba de comemorar seus oitenta anos de nascimento. Como se depreende, Manoel, além de testemunha é também e, com méritos, um personagem da história política da Paraíba).

Partiu a última datilógrafa - Ramalho Leite



RAMALHO LEITE

Quando cheguei à Assembleia Legislativa do Estado, como servidor, já encontrei Lourdinha Luna e a sua fama de melhor datilógrafa do quadro legislativo. Redatora de anais, redatora de debates ou simplesmente, eximia datilógrafa, sua requisição era indispensável aos que desejavam apresentar um trabalho bem elaborado nos tipos de uma Remington ou de uma Olivetti – manuais, pois a máquina elétrica foi um avanço alcançado mais diante.

Na posse de um novo presidente, se a solenidade exigia um discurso escrito, tinham que chamar Lourdinha para os retoques finais e a versão derradeira. O Palácio da Redenção já descobrira sua perícia e o governador Pedro Gondim passou a lhe mandar alguns trabalhos para aprimorar. Advogados famosos, a exemplo do meu sogro, José Aragão, recorriam a Lourdinha na hora de datilografar um recurso dirigido aos tribunais superiores. Até que, o solitário de Tambaú tomou conhecimento da sua técnica e, acostumado a colocar no papel os garranchos que a miopia permitia, resolveu a apelar ao presidente Clovis Bezerra para socorre-lo na digitação de suas memórias.

A partir de então, Lourdinha Luna passou a ser a datilógrafa exclusiva do imortal José Américo de Almeida. Datilógrafa? Secretária formada na Fundação Getúlio Vargas, foi muito mais além e se revelou a companhia indispensável ao velho guerreiro. Fosse no Rio de Janeiro, para ficar mais próximo à Academia ou à livraria José Olímpio, no Casarão da beira mar, nas fazendas de Zé Rufino, onde o primo famoso recarregava as energias, ou no frio de Areia onde se deliciava com o movimento da bagaceira e o perfume adocicado do mel e da cachaça recém saída dos alambiques, lá estava a inseparável Lourdinha.

Essa companhia permitiria a Lourdinha ser testemunha ocular e auditiva de inúmeros fatos da cultura e da política paraibanas que, em determinado período da sua história, giravam em torno do ilustre filho de Areia. De testemunha da história, passou a ser a própria história e se tornou, com o desaparecimento do seu ídolo, a vigilante e destemida protetora da sua memória. Publicou livros, escreveu crônicas, narrou fatos e omitiu detalhes que não estava autorizada a passar adiante, provando, com essa atitude, ser merecedora da confiança do grande paraibano que o Brasil sempre respeitou.

Tentei levá-la a disputar uma cadeira no Instituto Histórico. Esquivou-se e revelou a modéstia das suas pretensões. Já era membro da Academia Feminina de Letras e Artes, da Academia de Letras de Areia e outras entidades que ajudou a fundar, participando, efetivamente, das suas atividades. Mais recentemente, tornou-se uma ativista das redes sociais. Opinava sobre os assuntos que dominava e enriquecia as postagens com informações preciosas colhidas ao longo de sua existência. De repente, fui surpreendido com seu anuncio de uma ausência provisória do face book. Iria submeter-se a uma intervenção cirúrgica. A operação foi bem sucedida mas, uma consequência imprevisível, levou-a a óbito, alguns dias depois. Perdemos, aos 92 anos, (sua alegria contagiante não passava dos 80) a escritora e historiadora Maria de Lourdes Lemos de Luna, a q uerida Lourdinha de todos nós – a última datilógrafa.

O humor de Ivan Bichara - Ramalho Leite



 

O político e escritor Ivan Bichara Sobreira, cajazeirense do colégio Padre Rolim, estaria completando cem anos neste maio de 2018. As cidades onde atuou politicamente e as entidades que honrou com sua participação, uniram-se para a merecida homenagem. Estive na sessão conjunta da Assembleia e Câmara da capital, proposta pela deputada Camila Toscano e pelo vereador Milanez Neto. Ouvi vários discursos que enalteceram a figura do exemplar homem público. Facultaram-me a palavra e eu fui à tribuna, apenas, para preencher uma lacuna nas falas dos outros. Esqueceram de lembrar a fina ironia e o humor, às vezes cáustico, de Bichara. Resolvi contar alguns fatos e agora vou repeti-los para os que me seguem neste espaço e nas redes sociais.

O líder do seu governo, (eu era vice-líder e iniciante na AL) deputado Evaldo Gonçalves, cansou de ouvir as queixas dos seus liderados sobre fatos do governo que levaram a bancada de sustentação ao descontentamento. Resolveu tratar do assunto com o chefe do executivo. Foi marcada uma reunião em Palácio. O governador, sentado em amplo sofá sob o quadro da prisão de Peregrino, tinha ao seu redor cerca de vinte deputados. Cada um apresentou seu queixume e o paciente Bichara apenas ouvia. “Ele sabia ouvir como ninguém” disse Germano Toscano, seu chefe de gabinete. Terminada a cantilena parlamentar, foi a vez do governador falar:

- Vocês não estão satisfeitos com o meu governo? Pois vou lhes confessar uma coisa: eu também não estou!

Os espíritos foram desarmados e as armas ensarilhadas...

Em uma de suas visitas ao Poder Legislativo, ficamos a lhe fazer sala no gabinete da presidência, enquanto não se iniciava o evento. Eu, Waldir dos Santos Lima, Edvaldo Motta, Sócrates Pedro e Orlando Almeida aproveitávamos para encaminhar alguns assuntos do nosso interesse. O deputado Sócrates Pedro, como se sabe, era cunhado do empresário Walter Brito proprietário da Real e, intermediário dos seus assuntos junto ao governo. No meio do papo, o deputado Orlando Almeida começa a

narrar um fato que se passara em Campina Grande. Meio prolixo, Orlando demorava muito a concluir, buscando detalhes desnecessários. Impacientei-me e adverti o querido colega:

- Orlando, o governador é muito ocupado. Apressa essa conversa: para chegar em Campina você está arrodeando por Princesa Isabel...

O governador riu da minha pilhéria e fez a dele:

-Fala baixo, Ramalho, se não o Sócrates vai querer registar essa linha de ônibus...

Na campanha municipal de 1976, uma vereadora da capital, já sexagenária e sem muita disposição para a luta, procurou-o para pedir ajuda. Na conversa, lembrou ao governador que sua principal concorrente era uma linda jovem, quase dois metros e como muita disposição para pedir votos e, acrescentou:

-É uma luta desigual, dr.Ivan!

-Realmente é muito desigual, respondeu Ivan.

Sua incursão pela literatura nos deixou vários romances e ensaios, notadamente sobre José Lins do Rego, sua especialidade. Em um deles, não sei se Carcará ou Joana dos Santos, quase morro de rir com um personagem, casado com moça nova e recentemente saída do parto. A mulher procurou o médico levando a criança raquítica, mais parecendo um produto daqueles países africanos onde a fome é quem dá as ordens. O médico admirou-se da fragilidade da criança e destacou:

- A senhora com tanto leite e deixa seu filho nesse estado?

A resposta da aflita mãe, retrata o humor de Bichara, também presente na sua obra.

- Não sobra nada para a criança, doutor: meu marido bebe todo o leite!

A briosa - Ramalho Leite



A última grande reforma do Palácio da Redenção que incluiu a derrubada da Igreja da Conceição, sua vizinha da esquerda, obrigou o presidente João Pessoa a instalar seu gabinete na sede do Jornal A União, do outro lado da praça Comendador Felizardo, hoje denominada João Pessoa. Foi nessa ambiente improvisado que o gaúcho Jacob Guilherme Frantz pediu uma audiência ao Presidente. Desejava oferecer seus serviços para combater em Princesa. Não havia vaga para oficial, foi avisado pelo coronel Elísio Sobreira. Jacob queria ser soldado e foi aceito. Quando, poucas horas depois partiu em direção ao campo de luta, já levava no braço as fitas de sargento. Naquele tempo era assim. Hoje, a nossa briosa c orporação militar está estruturada em raízes sólidas e, para nela ingressar é preciso muito mais do que a atitude heroica do jovem nascido nos pampas.

Recentemente, convocados por edital, mais de oitenta mil brasileiros de todas as regiões do país se inscreveram para ocupar uma vaga de soldado da nossa polícia militar e/ou corpo de bombeiros. Para se ter uma ideia da concorrência que se estabeleceu, para as 300 vagas oferecidas na Capital, havia cerca de 82 candidatos disputando uma única vaga. Em Campina Grande, foram 70 a disputar um lugar de soldado. Por outro lado, as mulheres, que ganharam o direito de embelezar o corpo policial graças a uma lei do deputado José Fernandes de Lima, não encontraram caminho fácil. Para as 40 vagas de João Pessoa e Campina cerca de 320 e 237 jovens, respectivamente, pleitearam seu espaço.

Para chegar a esse estágio de reconhecimento e credibilidade, a Policia Militar da Paraíba, que somente ganharia essa denominação a partir de 1947, teve que percorrer um caminho histórico de muitas façanhas gloriosas. Nascida das antigas Guardas Municipais Permanentes, criação do Primeiro Reinado, passou por transformações em sua estrutura e denominação, todavia, sem a preocupação moderna de melhorar a qualidade dos seus integrantes e, em consequência, os serviços a serem prestados à comunidade. Está longe a data em que o taperoaense, padre Galdino da Costa Vilar resolveu criar esse embrião da nossa polícia, por volta de 1832. Guarda, Força Pública, Corpo Policial, Corpo de Segurança e tantas outras denominações ao longo de seu percurso, fortaleceram a corporação e à trouxeram até os nossos dias.

Quer entrar como oficial na nossa Polícia, se inscreva primeiro no Enem. As notas do concurso nacional servirão para o ingresso no curso de formação de oficiais. O curso de formação para quem tem o nível médio, concluído, confere ao titulado o nível superior de Tecnólogo em Segurança Pública. E o soldado? Há de se pensar que uma única prova resolve. Desse último certame, cerca de dois mil foram selecionados. Estes serão submetidos a mais quatro etapas: exame psicotécnico, de caráter eliminatório, que avaliará as aptidões psicológicas do candidato para o exercício da função policial; exames de saúde, desde a capacidade visual à de ntição e à altura mínima exigida; avaliação social e aptidão física.

Revolvendo a minha memória, recordo uma audiência que mantive com o coronel João Gadelha de Oliveira, então comandante da PM, acompanhado de um humilde amigo de meu pai, que me encarregara de tentar fazê-lo soldado. O coronel, cavalheiro como sempre foi, nos recebeu muito bem e, relatou recomendação do governador para melhorar a qualidade dos soldados, muitos inteiramente analfabetos. E para cumprir essa ordem do governador, começou a indagar do meu candidato a praça: - Você sabe somar? -Não, foi a resposta; Dividir ou multiplicar? – Também não, respondeu o meu protegido. –Mas um ditado você sabe fazer, né? insistiu o coronel. – O que é isso? Foi a resposta do ex-quase futuro soldado. – Assim não dá, lamentou o coronel olhando na minha direção, como a pedir desculpas. O candidato, porém, não se fez de rogado: - Meu coronel, o senhor acha que se eu soubesse tudo isso que o senhor me perguntou, em vinha ser soldado de polícia?

No passado era essa a imagem da nossa briosa corporação, antes do Centro de Educação e dos concursos públicos para seleção de seus membros.

 

O misterioso sumiço do navio em Cabedelo - Ramalho Leite



 

Sabe-se que foram trinta e cinco os navios brasileiros atacados e desaparecidos nas águas do Atlântico, do Mediterrâneo e do Índico, desde a costa dos Estados Unidos ao extremo sul da África, durante os anos de 1941 a 1944. Esses incidentes causaram a morte de mais de mil pessoas e obrigaram a entrada do Brasil no conflito, rompendo relações com os países do Eixo a partir de janeiro de 1942. Se a ofensiva de submarinos alemães e italianos aos nossos vasos cargueiros, já ocorria antes de Getúlio Vargas declarar o Brasil em estado de guerra, a partir de então, os ataques passaram a ser constantes e persistentes. Antes, os alvos foram os mercantes que transitavam pelo Caribe ou pela costa leste dos EE.UU, depois, os encouraçados inimigos chegaram às nossas costas e, entre Recife e Salvador, acertaram, em dois dias, seis dos nossos barcos de carga, causando mais de seiscentas mortes. A maioria das embarcações pertencia ao Lloyd Brasileiro, mas outras pequenas companhias também sofreram perdas irreparáveis em vidas e danos materiais.

Entre os navios afundados durante o segundo conflito mundial, o navio mercante Cabedelo,desapareceu sem deixar vestígios, nas águas do Atlântico, acredita-se, à leste das Pequenas Antilhas. Estava com 54 tripulantes a bordo, sob o comando do capitão Pedro Veloso da Silveira. Esse navio, por ironia, fora fabricado em estaleiro alemão e ganhara inicialmente o nome dePrússia. Movido a vapor e construído em aço, tinha cento e onze metros de comprimento e quinze e meio de largura, com um calado de quase sete metros. Podia alcançar uma velocidade de doze nós, o que daria cerca de vinte e dois quilômetros por hora. Alvo fácil, sem dúvida. Na Primeira Grande Guerra, estava a serviço da Marinha Alemã. Quando da entrada do Brasil na conflagração, em junho de 1917, foi confiscado pelo governo brasileiro e incorporado à nossa frota, com o nome de Cabedelo. Estava retido desde 1915 no Porto de Santos.

O Cabedelo zarpou de Filadélfia, nos EE.UU, em 14 de fevereiro de 1942, em direção às Antilhas mas como destino final o Rio de Janeiro. Naquela ocasião, os navios que trafegavam pela chamada Zona de Segurança Pan-Americana – costa leste dos EE.UU, ainda não eram controlados nem acompanhados para efeito de proteção dos ataques inimigos. Tem-se como aquela, a data em que o Cabedelo desapareceu nos mares, sem deixar rastro. Para pesquisadores citados por Wikipédia, teria sido em 25 de fevereiro a data do ataque ao barco brasileiro, por obra e graça do submarino italiano Da Vinci. A afirmativa, porém, é controversa. Primeiro, diz-se que o afundamento doCabedelo não foi encontrado nos registros italianos e, depois, pela data provável do ataque, já havendo navegado onze dias desde a partida, estaria fora na área de ação do Da Vinci.

O afundamento do Cabedelo ainda foi atribuído a outro submarino italiano, o Torelli, que no mesmo período atacara dois outros mercantes à altura das Guianas. Nenhuma das hipóteses levantadas foi amparada em provas concretas. A ausência de sobreviventes, fato inusitado até então, entre nós, levou-se à tese de que os tripulantes teriam sido metralhados pelo inimigo quando já estariam a bordo de escaleres. Todavia, nenhum escaler, mesmo vazio, foi encontrado. E o mistério permanece até os dias atuais.

A história como eu conto - Ramalho Leite



 Na última quinta- feira ocorreu o lançamento do livro A História Como Eu Conto. A confreira Zélia Almeida, do IHGP, fez a apresentação do meu trabalho. Poderia resumir aqui o acontecimento. Todavia, resolvi abrir espaço para os comentários de um querido amigo que como ele mesmo diz, nem sempre estivemos “lado a lado”, o que não diminuiu a estima que penso ser recíproca. Seus irmãos José Souto e Benedito marcaram época no jornalismo paraibano. Paulo José de Souto, que preferiu ser engenheiro, revela-se, contudo, um ótimo escritor. Cedo-lhe hoje esse canto de página.

Meu caro Severino,

Prefiro externar numa ‘missiva’, com forte ‘amplexo’ os cumprimentos pelo seu ‘A história como eu conto’, crônica de fatos históricos escrita com ‘estilo gracioso e feroz ironia’, no dizer de Zélia Almeida.

Não vou cair no ridículo de pretender fazer crítica, porque o máximo que alcançaria seria um lugar como coadjuvante no mesmo patamar que você destinou ao poeta Manoel José de Lima, no seu discurso de lançamento do ‘O poder do bom humor’.

Nesse campo, prefiro, se for o caso, errar com os outros a acertar sozinho. Por precaução, me escudo nas análises de ‘experts’ como Juarez Farias, Gonzaga Rodrigues e Biu Ramos sobre outros escritos seus e transcritos nas páginas do livro. Para não correr o risco de errar em seara alheia, ‘acompanho o voto dos relatores’ acima citados, o que me dá a certeza de acertar na mosca.

Li o livro como não se deve fazer, lendo-o de cabo a rabo, com sofreguidão, por culpa do ‘estilo gracioso’ do jornalista nato, diferentemente, dos noticiaristas de hoje, que propagam as novas de forma carrancuda ou força desproporcional, quando escritas. Ao invés de degustá-lo pausadamente como se faz com os bons vinhos (segundo os enólogos), sorvi-o de uma tacada como se faz com uma lapada de cachaça, sem a finesse necessária para me deleitar com a forma e saborear o conteúdo dessas estórias compiladas com argúcia e contadas com a sensibilidade que só o tempo nos ensina a cultivar.

Certa feita o escritor maranhense Josué Montello afirmou que qualquer artigo de nosso Código Civil poderia ser tema de um romance. Desafiado, escreveu o romance a Décima Noite, baseado no artigo 178, do então vigente Código Civil.

Você, caro Ramalho, nada afirmou, nem se sentiu desafiado. Deixou de lado os considerandos e foi direto ao finalmente, no dizer do bem-amado Prefeito de Paraguaçú. Dedicou-se à difícil tarefa de garimpar entre tantos fatos do cotidiano de nossa História, alguns que poderiam ser tema de uma crônica. Escolheu-os e, literalmente, pôs mãos à obra e criou ‘A história como eu conto’.

Dos muitos pontuais eventos e passagens escolhidas para propiciar uma reflexão e dela nascer uma crônica, duas mereceram particular atenção da minha parte. Não pela espetacularização que a mídia possa a elas ter emprestado ou por sua importância histórica, propriamente dita. Talvez até pela singeleza de uma e pela controvérsia da outra, tenham elas me chamado a atenção.

A primeira foi ‘O regimento das escolas no tempo do império’, na qual você destaca: ‘Em Província nenhuma do Império são eles (os professores) remunerados como na Paraíba’. No longínquo ano de 1861, os mestres-salas da Paraíba recebiam os mais altos salários do Império. Dos governos em que servi ocupando Cargos de confiança, foi o Governo Ivan Bichara/Dorgival Terceiro Neto o que mais se preocupou com a situação financeira dos docentes paraibanos. Após aquele período, a retribuição aos nossos educadores públicos estaduais foi descendo ladeira abaixo, com algumas exceções, até alcançar os níveis hoje praticado s. Talvez valha, então, a máxima: Em Estado nenhum da República são eles (os professores) remunerados como na Paraíba.

A outra foi ‘Os delatores, desde Judas, passando por Calabar’. Por fim, encontrei alguém, mesmo que de forma suave e sutil também vê, como eu, com reservas o uso indiscriminado da delação premiada. Diferentemente das delações torturadas do golpe militar de 64, que roubaram a vida dos Herzogs, Manoel Fiel, Rubens Paiva e tantos outros desaparecidos nos porões da ditadura, as delações de hoje atentam contra a democracia, não ajudam no combate à impunidade e contradizem a máxima de que o crime não compensa.

De uma coisa tenha certeza, essas despretensiosas observações são do leitor comum, pouco letrado, público ao qual, mais se dirige os escritos do repórter que você nunca deixou de ser. São, portanto, sinceras. Não tenho e nem posso ter a veleidade dos críticos, esses sim, obrigados às análises de forma e estilo para ajudar na nossa educação literária, nem a cumplicidade de seus admiradores mais próximos, fiéis à amizade que lhe devotam.

Caro Ramalho Leite, desculpe, ‘as mal traçadas linhas’, e obrigado pelo involuntário e belo presente de Páscoa que você me deu ao presentear-me de forma inusitada com o seu ‘A história como eu conto’, antes do lançamento e sem dedicatória. Quem sabe, para se desculpar pelo banho de chuva que tomei por ter você me trancado num estacionamento, infringindo o Código Nacional de Trânsito.

Feliz Páscoa e um forte abraço ao companheiro, nem sempre lado a lado.

Paulo Souto.

O incômodo voto de Minerva - Ramalho Leite



Muito se fala nos colegiados, do Voto de Minerva. Trata-se do voto de desempate, voto de qualidade, prerrogativa do presidente do coletivo. Sua origem remonta à mitologia Grécia, como quase tudo neste mundo. Atena, conhecida como Minerva, teria sido chamada ao julgamento de Orestes, responsável pela morte da própria mãe e de seu amante, para vingar a morte do pai. A pena para o matricídio era a morte, executada pelas Eríneas, seres infernais que torturavam as almas pecadoras segundo nos conta a Wikipédia.

Sabendo do seu trágico destino, Orestes pede socorro a Apolo e este decide levá-lo a julgamento no Areópago. As Eríneas formaram o Ministério Público da época e Minerva presidiu esse que teria sido o primeiro julgamento da história. O júri, composto de doze cidadãos de Atenas terminou empatado. Atena ou Minerva, Deusa da paz, da razão e da justiça, profere seu voto, em favor de Orestes, declarado inocente. A partir de então, o voto de desempate, privilegio dos presidentes de cortes de justiça, de corpos legislativos, entre outros, passou a ser denominado Voto de Minerva.

Como comecei pela mitologia grega, nada demais que lembre também um profeta: Isaias, há cerca de dois mil e seiscentos anos, anunciou o nascimento do Estado de Israel, cuja criação, em 15 de maio de 1948, deve-se muito a um grande brasileiro chamado Osvaldo Aranha. Designado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, foi eleito para presidir a primeira sessão da recém criada Organização das Nações Unidas-ONU. Há uma versão, não verdadeira, de que teria sido o Voto de Minerva proferido por Osvaldo Aranha, decisivo para a criação, na região da Palestina, de um território definitivo para o povo judeu. A votação obteve o seguinte resultado: 33 a favor da criação do Estado de Israel, 13 contra e 10 abstenções. I mpossível um empate em questão tão polêmica.

O Voto de Minerva causa incômodo ao autor. Todas as atenções se voltam para o votante e para ele também são transferidas as responsabilidades daquela decisão. O ministro Ayres Brito, do Supremo Tribunal Federal, sentiu-se aliviado quando, encerrada uma votação controversa, não houve o empate especulado. E disse: “Fico feliz em não proferir esse Voto de Minerva, que me enerva pelas consequências”. O trocadilho com as palavras Minerva e enerva, dá, em tom de blague, a dimensão da responsabilidade do voto de desempate.

Na Constituinte Estadual de 1989, o deputado João Fernandes, que a presidia, foi levado a proferir o Voto de Minerva em assunto de maior envergadura e resultado duvidoso. A OAB de um lado, pressionava pela criação do Conselho Superior da Magistratura e o por outro, integrantes do Tribunal de Justiça eram contrários à ideia. Igualada a votação, o deputado Fernandes desempatou e o conselho foi criado com a missão de fiscalizar do Poder Judiciário e seus integrantes. Uma iniciativa de vanguarda, depois incorporada ao estado brasileiro, mas, à época, derrubada através de uma ADIN, na nossa Suprema Corte.

Na Câmara Municipal de Campina Grande, porém, nos idos de 1951 ainda era desconhecido o Voto de Minerva. Segundo conta Juarez Farias, presidia o legislativo mirim o vereador Pedro Sabino de Farias. Empatada uma votação importante e que chamava a atenção do público presente às galerias, o presidente ficou sem saber que decisão tomar. Petrônio Figueiredo e Feliz Araújo, dois atuantes integrantes da casa, cercaram o presidente e sugeriram: use o Voto de Minerva! O presidente indagou: o que é isso? Foi explicado que era um direito dele – desempatar a votação, pelo chamado Voto de Minerva. O presidente não se fez de rogado:-

-De acordo com essa tal de Minerva, decido que não decido!

Uma visão do passado - Ramalho Leite



 O político potiguar Joaquim Ignácio, já identificado no primeiro texto desta série, depois de se demorar na Capital da Parahyba tomou o trem e partiu para o interior do nosso estado. “Tibiry, Santa Rita, Engenho Central, Reis, Espirito Santo, Sapé, Cobé, Entroncamento”, enumera as paradas, mas engoliu Mari. Essa sequência de estações volta à minha memória pois, por muitos anos, fiz o mesmo percurso até que desativaram a nossa linha férrea. Em Mulungu, a estrada se bifurcava para atingir Alagoa Grande. Esse trecho ferroviário havia sido concedido pelo governo Imperial ao conselheiro Diogo Velho, ao engenheiro André Rebouças e ao bacharel Anísio Carneir o da Cunha. A concessão foi depois transferida para a Estrada de Ferro Conde D”Eu gerando a obrigação de se estender até Ingá e Independência (Guarabira). Quando o nosso visitante aportou na Parahyba, o trem já chegava até Borborema. Só em 1925, chegaria a Bananeiras, cumprindo-se o sonho de Solon de Lucena – “por debaixo da terra”. Estava concluído o túnel da Serra da Viração.

A primeira cidade a ser vista pelo ilustre visitante foi Alagoa Grande. À época, um dos maiores centros produtores de algodão que abastecia uma usina da Companhia Parahybana de Descaroçagem e Prensagem. Um grande estoque de caroço de algodão jazia nos armazéns à espera de vagões disponíveis da Great Western, narra o visitante. Esta cidade, “como Borborema ao norte, era um entreposto de café e fumo produzidos na zona do brejo”. Deixando o trem em Alagoa Grande, o autor de “Minhas Impressões” foi em demanda de Areia, por uma “excellente estrada de rodagem”. Registrou uma curiosidade: o automóvel descendo de Areia para A lagoa Grande “quase não gastará combustível” tamanha é a inclinação do trecho de 14km que separa as duas cidades. A primeira, a 623 metros acima do nível do mar, a segunda a, apenas, 143 mts.

Areia é uma cidade cheia de tradições, descreve Joaquim Ignácio. E lembra que nessa cidade refugiaram-se os revoltosos pernambucanos da chamada revolução praieira, após o juiz municipal Maximiano Machado e o delegado coronel Joaquim dos Santos Leal demitirem-se de seus cargos para aderirem à causa rebelde. À época da visita, 1924, o município contava 102 engenhos de rapadura, 160 açudes, maquinas de beneficiar algodão e café e 74 fazendas de criação. De Areia, o nosso visitante partiu para Arara, Moreno, Bananeiras, Borborema, Serraria e Pilões. Em cada uma dessas cidades e distritos, deixa a impressão de sua passagem. É a região do brejo q ue, no dizer de José Américo “Deus reservou esse oásis de graça e de fartura para prover as crises que nos salteiam”.

A cultura cafeeira foi objeto de comentários diversos. Registrou o escritor, por exemplo, que a variedade da rubiácea plantada no brejo carecia de uma ampla sombreagem. O café crescia à sombra de mulungus, ingás e, principalmente, da vassourinha. O modelo foi introduzido pelo coronel Targino Neves, prócer político e cafeicultor bananeirense por volta de 1884. Bananeiras era o maior produtor e contava cerca de dez milhões de pés de café, representando quase quatro milhões de quilos colhidos por ano. A produção brejeira chegava a quase sete milhões de quilos e abrangia a área de Areia, Serraria e Araruna para citar os maiores. Uma praga que até hoje dizem que foi plantada pelos produtores sulistas, dizimou o caf&eacu te; paraibano.

A civilização do café é retratada ainda hoje pelos sobrados edificados pelos barões do café. Era o traço da opulência e da fartura. Muito pouco se escreveu a respeito. Sobraram poucos registros. O folclore legou esse pequeno verso: “Quem tiver sua filha moça/não mande apanhar café/ Se for menina, vem moça/ se for moça, vem muié/. (CONTINUA, nas transcrições, mantive a grafia da época))

História em três por quatro - Ramalho Leite



 

Ainda alcancei aqueles fotógrafos que se concentravam na Praça Pedro Américo, em frente ao prédio dos Correios. Quem queria fotos, apenas, para documentos, devia esclarecer ao retratista que, invariavelmente, perguntava:

- Quer com Correio ou sem Correio?

A meia dúzia de retratos três por quatro era fornecida sem o prédio dos Correios ao fundo,às vezes acrescidos de paletó e gravata,quando se exigia essa indumentária.O paletó cabia em qualquer corpo retratado. A minha cédula de identidade, com fotografia originária da Praça, era um espaço em branco, desbotado pelo tempo. Fora assinada por Gato, o então chefe da Instituto de Polícia Técnica, quando eu tinha dezoito anos.Renovei-a aos setenta.

Na cidade pontificavam em seus domicílios fixos, outros artistas da fotografia. O velho Gilberto Sturcker tinha endereço na esquina esquerda do Paraíba Hotel. Na esquina direita, pontificava Neiva. Ariel Farias e depois seu filho Arion reinavam na Miguel Couto e foram ficando mesmo depois do Viaduto Terceirão.Castanha retratava na Praça João Pessoa e Vavá, tinha o seu Petit Foto, na rua da República. Sem esquecer Aguinaldo Estrela, que era encontrado nas proximidades do Cine Rex.

No mundo oficial, Rafael Mororó e Waldomiro Ferreira foram os mais longevos fotógrafos oficiais, um estadual e o outro municipal. Quando eu conheci Mororó ele era mais chefe dos fotógrafos de Palácio do que propriamente um deles. Ainda editou uma obra sobre a cultura da agave, cujo título, falava em Ouro Verde, mandada publicar por Pedro Gondim. Waldomiro, o Cabeçao, surpreendeu João Agripino estirado em um banco e dormindo a sono solto no salão do deserto Aeroporto Castro Pinto enquanto aguardava uma aeronave. Foi foto de primeira página mas quase perde o emprego. Cabeçao chegou a vereador na capital e deixou Tavinho Santos como herdeiro,bom político mas sem qualquer aptidão para a fotografia.

Acervo maior deixou Walfredo Rodrigues. Antes que se perdesse, Dorgival Terceiro Neto me autorizou sua aquisição e instalamos o Museu Fotográfico Walfredo Rodrigues, em um casarão da Duque de Caxias, restaurado por Balduino Lelis. O prefeito Hermano Almeida levou o museu para a Casa da Pólvora e hoje ninguém sabe dizer por onde anda a historia da cidade contada pela lente de WR.

Essas reminiscências vêm a propósito do trabalho de Josélio Carneiro- “Governo da Paraiba, Cenas dos Últimos 80 Anos”- onde ele leva o leitor a percorrer a história da Paraíba através da fotografia e dos arquivos dos repórteres vinculados à área de comunicação do Estado. A pesquisa envolveu os autores dos flagrantes, e as legendas indicam os personagens que naquele momento, davam as ordens na Paraíba e no Brasil.

Ao identificar em uma dessas fotos o locutor Geraldo Cavalcanti, lembrei-me de sugerir também o resgate da história, via oral, pela voz dos locutores da emissora oficial do estado.Lembrei que Geraldo, afônico, foi substituído por um novato a quem recomendou a melhor forma de cumprir a tarefa de cobrir solenidade palaciana.Ao saltar do veiculo a primeira dama, o locutor sapecou: “Acaba de chegar S.Excia, o governador, acompanhado de sua primeira mulher”...

Quem não se recorda do genial Paschoal Carrilho? Transmitindo um banquete, diretamente do Palácio, incomodado por achar desnecessária aquela missão, seu vozeirão se fez ouvir na então PRY-4: ‘’Já estão comendo a mulher do Governador e o Bispo.As demais autoridades estão na fila”...

Da mesma forma que os fotógrafos e sua produção mostram na pesquisa de Josélio Carneiro, um longo período da nossa historia, a Tabajara tem outro tanto para contar, desde os programas de auditório às narrativas de solenidades oficiais, hoje menos freqüentes que no passado. (Josélio está lançando novo documentário, desta feita, sobre o jornal A União, que aniversaria este mês de fevereiro)

Uma visão do passado (2) - Ramalho Leite



 Continua a caminhada de Joaquim Ignácio pelas ruas da nossa Capital nos idos de 1924. Seu melhor passeio foi na companhia de João Suassuna, já eleito para o período que sucederia ao presidente Solon de Lucena; Walfredo Guedes Pereira, o prefeito e, José de Almeida, como ele tratava seu colega de turma José Américo. Antes, o político e escritor norteriograndense já estivera no Colégio das Neves, na Igreja São Pedro Gonçalves e no Convento de São Francisco. Encantado com o nosso parque barroco, mostrou-se o visitante preocupado com “a fúria iconoclasta de uma certa casta de renovadores por toda parte, nas capitais e no interior, destruindo, com a mais criminosa inconsciência, muitos monumentos desta arte antiga....e aproveitou para rogar às autoridades de então (já naquele tempo) “que o Convento de São Francisco com seus interessantes entalhamentos em madeira, o Cruzeiro com o seu pezado e cyclópico pedestal, os seus gansos talhados em rocha, sejam preservados da destruição...”

Na ilustre companhia dos citados paraibanos, Joaquim Ignácio deslumbrou-se com as grandes planícies de Trincheiras, Jaguaribe e Tambiá “onde se encontram ainda vastas extensões de terreno para construção.”. O prefeito Guedes Pereira levou-o ao parque Arruda Câmara e à Lagoa. O lago à época era fonte de preocupações da cidade, um verdadeiro “pezadello” para os gestores municipais tendo em vista a ameaça à saúde pública provocada pela agua estagnada e sem escoadouro. E conclui o narrador: “a Lagoa está completamente saneada e exgottada por um túnel...Será um dos mais aprazíveis logradouros da cidade em breve tempo.”. Decorridos quase cem anos, a mesma lagoa ainda causa problemas e algumas dores de cabeça...

Sem retorno, porém, ficaram os gastos astronômicos jogados no Sanhauá na intenção de se fazer um porto. “Uma sensação de desalento invade logo o espirito de quem quer que ali passe, no primeiro momento. Essa sensação, bem o creio, é comum a todos os corações parahybanos”. A soma de energia e de capital dispendidos naquele porto fluvial, segundo registra a história, foram desviados por afluentes inconfessáveis. O hóspede do Hotel Globo conjecturou que, o que se investiu no rio, daria para fazer um cais em Cabedelo, local que permite aportar navios de maiores calados. (Sua profecia foi concretizada e Cabedelo hoje é o nosso ancoradouro)

Em função desse porto inacabado e do comercio florescente, era no Varadouro que se registrava a maior movimentação da cidade. A condução se fazia por carroças “puxadas por muares, caminhões invariavelmente do typo Ford, que transitam a cada instante do caes para a cidade, partindo da Estação da Estrada de Ferro, das imediações da Alfandega e da casa Vergara”. Mas o que chamou de “couza mais importantes existente em todo o Norte do Brasil” foi a construção da Colônia de Alienados, em fase final, cuja denominação atual - Colônia Juliano Moreira, foi dada pelo presidente João Suassuna, que a inaugurou.

Aqui faço uma correção de justiça: deve-se ao presidente Castro Pinto a iniciativa de mandar projetar o saneamento da Capital. Buscou Saturnino de Brito, que era diretor desses serviços no Recife e o mandou projetar a obra. O presidente Camilo de Holanda voltou-se para a expansão urbana da cidade relegando a segundo plano a necessidade daquele projeto. Ao assumir, Solon de Lucena comunicou de imediato à Assembleia a obra como sua prioridade pois “reputo uma das maiores senão a maior de nossas necessidades...a maior aspiração do meu governo... Que considero inadiável.” O mestre escola que chegou a Presidente da Parahyba conseguiu um empréstimo interno e iniciou as obras, confiadas ao citado Saturnino de Brito e depois ao engenheiro Baeta Neves, cedido pelo governo de Minas Gerais.

O político e escritor potiguar trazia uma carta de apresentação do governador José Augusto Bezerra de Medeiros dirigida ao nosso presidente Solon de Lucena. Recebido em Palácio, o visitante impressionou-se, de logo, com a debilidade do homem que governava a Parahyba. Ouviu-o por mais de uma hora discorrer sobre os problemas que enfrentava, “com uma eloquência especial que não era feita d´este verbalismo ôco, muito do agrado dos rhetóricos incorrigiveis, porque brotava, como a agua que vae cahindo naturalmente das fontes, do intimo de um organismo, profundamente identificado pela inteligência e pelo coração com as mais palpitantes necessidades do seu povo”.

Do seu encontro com paraibanos que enriqueciam aquela época, destaco o comentário sobre José Américo. Depois de dizer da sua alegria pelo reencontro, pois foram colegas de turma no Recife, indaga: “Conhecem o José de Almeida? É um esquisitão, sofrendo de myopia, a pendurar constantemente um pince-nez incommodo, u’a alma de grego. Já tiveram por acaso, oportunidade de saborear umas destas suas chonicas, apanhadas ao acaso? ...É, porém, um escritor sizudo, escrevendo sobre coisas mais prosaicas com brilho e muito colorido; é o homem, profundamente identificado com as necessidades de sua terra, que nos aparece, agora, ruidosamente em uma brochura de grande tomo e valor”. Referia-se ao lançamento do livro “A Parahyba e Seus Problemas”. ( Mantive nas transcrições a grafia da época.) CONTINUA.

Evolução histórica da cidade de Borborema - Ramalho Leite




ANTECEDENTES
Bananeiras, até 1827 pertencia a Vila de São Miguel da Baia da Traição ou
Vila de Mont Mor da Preguiça e, a partir de então, foi integrada ao território
da Vila Real de Brejo de Areia. Essa incorporação não demorou muito: em
10 de outubro de 1833, o presidente Antônio Joaquim de Melo sancionou
a lei que deu emancipação política ao município, que passou a ter sede na
Vila de Bananeiras. Essa lei tornou Bananeiras a segunda maior área
geográfica do Estado, “arrastando consigo os territórios de Guarabira, Cuité
e Pedra Lavrada” no dizer de Horácio de Almeida. Pelo texto da lei, porém,
está citada Serra da Raiz e, os seus limites chegavam à fronteira do Rio
Grande do Norte, com Araruna inserida, até 1877, quando conquistou sua
independência. A população de Araruna sempre reclamou a distância de
nove léguas entre o distrito e a sede municipal, onde “são obrigados a
prestar o serviço do júri, reunir colégio eleitoral e requerer qualquer ato
judicial”, pois, desde 1857 fora criada a comarca de Bananeiras. O Barão de
Mamanguape, senador do Império e Presidente da Província, assinou a lei
616 que criou a Vila de Araruna.


Nas décadas finais do Século XIX, o coronel Antônio Amâncio da Silva e sua
esposa Águeda Rodrigues Ramalho, ele nascido em Piancó e ela em Bonito
de Santa Fé por volta de 1856, deixam o sertão e se estabelecem no distrito
de Tacima, onde nasceria, 1880, o primogênito desse casal, José Amâncio
Ramalho. Seu pai era influente na política de Araruna e rico proprietário de
terras. O jovem, que conheceríamos no futuro como um grande
empreendedor, estudou em João Pessoa e depois foi concluir seus estudos
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na vetusta Faculdade de Direito do Recife, no ano de 1908, turma de que
fez parte o escritor, político e renomado brasileiro José Américo de
Almeida. Visionário desde a juventude, frustrado por não ter estudado
engenharia, José Amâncio, contudo, exerceria grande influência no
desenvolvimento econômico desta região, a começar por Araruna onde se
fixou inicialmente.


José Amâncio não havia concluído ainda o curso de direito. Convenceu os
políticos da Vila de Araruna a construir um Mercado Público, como meio de
organizar seu comercio e desenvolver o progresso daquela comunidade.
Ainda no ano de 1908, o bacharelando assinou um contrato com o Conselho
Municipal de Araruna para erigir aquele empreendimento. A Vila de
Araruna não dispunha mais do que dez contos de reis anuais. O Mercado
custaria cerca de trinta contos. José Amâncio resolveu bancar a construção,
dentro de algumas condições que lhe asseguravam a exploração dos
serviços por cerca de dez anos. A repercussão dessa iniciativa colocou o
empreiteiro em alta diante da sociedade ararunense, causando ciúmes aos
Targinos que, desde então, já dominavam o poder econômico e político da
Vila. O espaço político que José Amâncio tentava conquistar lhe foi negado.
Sua divergência com os Targinoslevou à rescisão do contrato de exploração
do Mercado. Um acordo foi celebrado e pelos quatro anos restantes, o
contratado recebeu quatro contos de reis de indenização.


“Idealista, corajoso, espírito criador e de acurada visão do futuro, Amâncio
trazia consigo os ideias de mudanças despertadas com a chegada do novo
século” diz Humberto Fonseca, traçando seu perfil. Por volta de 1914,
desfeita a sociedade com o Conselho Municipal de Araruna, José Amâncio
resolve buscar novos ares. Há um registro de que desde 1912, teria
comprado terras a um tal de João da Mata. O único que identifiquei, era
influente em Araruna e se tratava do capitão João da Mata Lins Fialho que,
detentor de posses nesta área, as vendeu a José Amâncio. O trem acabara
de aportar na Vila de Camucá e José Amâncio divisou novos horizontes onde
exercer seu espirito empreendedor. A essas terras, dr. Zé Amâncio, como
tornar-se-ia conhecido, denominou Boa Vista. Até 1943 chamou-se Camucá
e, finalmente, Borborema.
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UM DISTRITO DE DESTAQUE
O trem passaria dez anos tendo Borborema como sua parada final. Somente
depois de concluído o túnel da Serra da Viração, o comboio alcançou
Bananeiras, isto por volta de 1925. Alguns anos antes, em 1919, a sede
municipal passou a utilizar a energia elétrica. O distrito de Camucá, porém,
já estava iluminado pela iniciativa de José Amâncio Ramalho, criador da
Hidroelétrica Borborema. Daqui seria distribuído energia para sete cidades
do brejo. Uma barragem do rio Canafístula possibilitou essa inventiva
pioneira no nordeste, perdendo apenas para Delmiro Gouveia que
aproveitou as águas do São Francisco para uma pequena usina destinada à
sua fábrica de linhas. Depois surgiria Paulo Afonso.


O lago que se formou com o barramento do rio, invadiu terras e derrubou
casas que ficavam na sua margem. Ainda lembro que, nos anos mais secos,
a queda do nível da barragem deixava ver os alicerces das casas submersas.
Os proprietários foram indenizados. Descobri escrituras de terras
compradas a um pernambucano de Timbaúba, de nome José Cavalcanti e,
também do doutor Nuno Guedes Pereira, todas inundadas pelo açude.
Antônio Nogueira Campos, outro pioneiro, por igual teve terras cobertas
pelas águas. Para compensar as ruas desaparecidas, foi elaborado um novo
traçado da cidade, e o distrito ganhou avenidas largas e espaçosas que não
se vê em outra cidade da região. Essas ruas receberam a denominação dos
estados brasileiros. Eu, por exemplo, nasci na rua Amazonas, hoje Barôncio
Lucena. Tudo obra do desbravador José Amâncio Ramalho que tenho como
Fundador do Povoado de Boa Vista, depois Borborema, Camucá e
novamente Borborema.


Conseguida a energia, outros empreendimentos surgiriam. Os engenhos de
produção de rapadura e aguardente, somente a partir dos anos 1960
adotariam a energia elétrica como força propulsora, inclusive o Engenho de
José Amâncio, que ficava no pé da queda d´água e a dois passos da usina de
energia. Um pouco acima, foi instalada uma indústria de fécula e ainda um
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despolpadora de arroz. Dessas inIciativas de Amâncio, resta o bueiro da
fecularia. Sua sirene, acionada na passagem do trem por seu terreiro, ainda
ressoam em meus ouvidos. Nascido na beira da linha, foi o segundo som
que me chegou aos ouvidos. O primeiro, foi o grito da parteira mãe Luiza: é
homem. Nas minhas narinas, ainda sinto o cheiro da fuligem cuspida pela
Maria Fumaça.


O trem e a energia elétrica foram os dois alicerces propulsores do
desenvolvimento do distrito. Um comercio efervescente e um centro de
compra e venda de especiarias formou-se por aqui. A civilização do café e
os seus resultados nos bolsos do produtores, refletem ainda hoje no casario
antigo que se mantém intacto, merecendo tombamento do Instituto do
Patrimônio Histórico, para evitar sua descaracterização. Para montar a
usina elétrica, chegaram os alemães. Mecânicos dos melhores, depois se
estabeleceram para consertar e fabricar peças de engenhos e alambiques.
Frederico Kramer esteve aqui até 1922. Voltou à Alemanha e trouxe seu
irmão Harris que casou com uma Lucena, dona Alzira, chefe dos Correios
até se aposentar. Guilherme Groth completou o trio germano. Este foi
comerciante o tempo todo. Esteve em Borborema até 1936, quando se tem
notícia de venda de alguns imóveis seus ao dr. Zé Amâncio. Mudou-se para
Moreno (Solânea) onde ficou até que lhe queimaram a casa, após
afundamento de navios brasileiros pelas forças do Eixo. Chegou de volta à
Borborema em 1942 com os salvados do incêndio. Aqui se estabeleceu
fazendo de meu pai, Arlindo Rodrigues Ramalho, o seu sócio brasileiro.
Vendiam tecidos, ferragens, material de construção e até agua destilada
para encher bateria. Frederico, que em Borborema também negociou com
café, migraria depois para Natal e nos anos 1930, era o gerente da Usina
Borborema, em Bananeiras. Encontramos o registro de sua passagem por
esse emprego, no Livro de Tombo da Igreja de Nossa Senhora do
Livramento, em queixa do padre José Diniz, inconformado com a ação do
alemão cortando a luz da igreja a mandado do proprietário da Usina, sob a
justificativa de que caia a qualidade da energia publica quando eram acesas
as luzes da Matriz.


Nos anos 1940, com a grande guerra começando nos campos da Europa,
Borborema ganhou perfil no Censo Demográfico daquele ano, como
registrou Coriolano de Medeiros no seu Dicionário Corográfico da Paraíba:


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“Na Vila encontra-se a queda d’água da Canafístula, movimentando a usina
elétrica que fornece energia e luz à vila, à vila de Solânea e às cidades de
Serraria e Bananeiras. É servida de estação ferroviária, por agencia postal
e por duas escolas públicas primárias que tiveram 160 matriculados em
1942 e uma frequência média de 102. Segundo o recenseamento de 1940,
tem a vila 312 prédios urbanos, 8 suburbanos, 1.750 rurais e a população
urbana, 1.262 habitantes; suburbana 87 e rural, 3.419,”


A EVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO
O registro de Coriolano Medeiros sobre a educação na Vila, demoraria a
sofrer alterações. Por muitas décadas, apenas o chamado curso primário, era
ministrado. A primeira professora nomeada pelo estado para atuar na cidade
foi Argentina Pereira Gomes que lecionou no Liceu Paraibano até perto dos
setenta anos, demorando a se aposentar. Seu nome batizou uma Escola de
Formação de Professores, na Capital. Fui seu aluno de português no Liceu e
ela, sabendo que eu aqui nascera, fazia questão de ressaltar esse detalhe do
seu curriculum: - Fui a primeira professora de Borborema, dizia orgulhosa.
As irmãs Jardim, dona Matilde, dona Laura e dona Aline, por muitos anos,
pontificaram na educação de muitas gerações. Fui aluno de dona Laura e de
dona Matilde. Na direção do grupo escolar quase se eterniza a professora
Jaldete Guedes Pereira de quem fui aluno no último ano do curso primário.
Mas a minha querida professora foi mesmo Carminha Costa. Dedicada aos
seus alunos, com ela não precisava comprar livros. Ditava as aulas que eu
copiava e depois meu pai passava a limpo. Minha primeira professora
chamava-se Maria Candido e teve um triste fim depois de um casamento
infeliz. Em Borborema, quem quisesse estudar mais, teria que se mudar. Eu,
por exemplo, fui exilado para Natal.


Somente nos anos 1970 foi criada uma unidade de ensino médio, a Escola
Comercial que consegui instalar através da Fundação Padre Ibiapina. Fui
diretor da Escola e o sr. Antônio Costa, seu secretário e professor de
contabilidade. Na administração do governador Dorgival Terceiro Neto
quando eu já era deputado estadual, estadualizei a escola. O prefeito
Amâncio Ramalho, conseguiu instalar o segundo grau. Está ai funcionando
a Escola Estadual Efigênio Leite e a partir dele, muitos jovens
borboremenses ingressaram no curso superior. Era esse o meu desejo,


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expresso quando da criação do colégio estadual: que os meus jovens
conterrâneos tivessem na sua terra, a oportunidade de estudo que eu não tive.
Para a história, gostaria de registar: fui o primeiro bacharel em direito
nascido na cidade. O primeiro médico foi Cícero Pereira que moarava em
casa vizinha à dos meus pais e, o primeiro odontólogo João Américo Pinto,
filho do comerciante Júlio Pinto. Hoje, com muita alegria sei que é difícil
contar os filhos desta cidade que conseguiram o grau superior.
O NASCER DE UMA CIDADE
Quando Solânea lutava pela sua independência, o dr. Zé Amâncio mandou
chamar meu pai para participar de uma reunião em sua residência. Chegando
lá, ele encontrou o vereador João Rocha, o advogado Alfredo Pessoa de Lima
e o professor Alencar, membros da comissão encarregada dos tramites
visando a emancipação do distrito de Moreno. Dr. Zé Amâncio tinha uma
proposta a fazer ao meu pai: se ele aceitasse que o Distrito de Borborema
fosse agregado ao Município de Solânea, seria nomeado primeiro prefeito do
novo município. Meu pai recusou a oferta e justificou que estava lutando
pela independência de Borborema. Solânea tornou-se cidade em 1953,
Borborema em 1959.


À época, a Assembleia Legislativa exigia do município sede, uma Resolução
que indicasse os limites da nova unidade a ser criada. A Câmara de
Bananeiras votou a Resolução 34/58 de 12 de dezembro de 1958,
autorizando o desmembramento e fixando os limites. Um projeto do
deputado Antônio Nominando Diniz foi transformado na Lei 2.133, de 18 de
maio de 1959, dando autonomia ao território do antigo distrito de Camucá.
A criação da Comarca de Borborema também constava da lei, todavia, um
veto parcial do governador Pedro Gondim negou a comarca e liberou a
cidade. Sua instalação ocorreria a 12 de novembro daquele mesmo ano, com
a nomeação e posse do primeiro prefeito, sr. Antônio Barbosa da Costa. Este,
ao lado de Arlindo Rodrigues Ramalho, Dionísio Pereira dos Santos,
Diógenes Pinto de Sena, Severino Leite Ramalho, Aristeu Uchoa Pinto, José
Luciano de Medeiros, Carmelo Gomes de Souza, Francisco Cardoso, José
Aguiar Bezerra e outros, representavam a comissão de frente da luta pela
emancipação política de Borborema.


Em 3 de outubro de 1960 foi realizada a eleição do primeiro prefeito,
recaindo a escolha, justamente, no vereador e servidor público Arlindo
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Ramalho. Seu vice Antônio Targino Leão venceu a José Aguiar Bezerra.
Meu pai obteve 338 votos sagrando-se prefeito contra as pretensões do
agrônomo Rubens Guerreiro de Lucena que alcançou 156 sufrágios. O
analfabeto ainda não votava.


A primeira Câmara Municipal foi composta dos seguintes vereadores:
Severino Leite Ramalho, presidente; Reginaldo Leite de Queiroz, José do
Carmo Ramalho, Cicero Ferreira da Silva, Dionísio Pereira dos Santos, Luiz
Galdino Ferreira, e José Luciano de Medeiros.


Naquele tempo as campanhas eram feitas a pé, ou a cavalo. Meu pai detinha
uma relação com os nomes de todos os eleitores, apelidos, parentesco e
residências. Mas lhe faltava o cavalo. O major Augusto Bezerra lhe
emprestou o animal e, montado nele, meu pai visitou todos os eleitores do
município, casa por casa. Anunciada a vitória, uma caravana motorizada
partiu de Borborema para Bananeiras, nos jeeps e caminhões disponíveis. À
época a cidade contava apenas, doze veículos. À frente da caravana, desde a
entrada da cidade, ia meu pai, montado no cavalo, ambos cansados da batalha
vencida. Todos desceram dos veículos e a caminhada foi até a casa do major
Augusto, onde o cavalo foi solenemente devolvido ao seu dono.


Com o nascimento da cidade, começa um novo capítulo da sua história.

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