Uma câmara de vereadores nos Anos 50 - Ramalho Leite



 A eleição para vereadores em Bananeiras, em 1955, resultou na seguinte composição da Câmara: Eloi Farias, Arlindo Rodrigues Ramalho, Cláver Ferreira Grilo, Claudio da Costa Maia, Antônio Vaz de Oliveira, Manoel Leonel da Costa, Manoel de Medeiros Guedes, Antônio Barbosa da Costa, pela ordem de votação. Essa câmara, resultado de um acordo partidário, está registrada apenas com oito membros nos arquivos do Tribunal Eleitoral, todavia, nas atas dos trabalhos legislativos encontramos ainda o nome do vereador Jaime Pereira, completando os nove membros que compunham a câmara de então.

Um assunto que dominou os debates daquele final do ano de 1956 foi a presença em Solânea de um padre da igreja fundada pelo Bispo de Maura. Segundo o vereador Eloi Farias, que provocou o debate, aquele padre está desrespeitando o vigário local e invadindo a área de Bananeiras, casando e batizando sem o cumprimento das formalidades exigidas pela igreja Católica. O vereador Arlindo Ramalho foi solidário ao pronunciando do seu colega Eloi Farias pois aquele padre realmente “desrespeitou o nosso representante da Igreja, casando uma moça com um homem sem saber se eram casados ou não.”

O vereador Arlindo denunciou que a maternidade local possui um automóvel que vive fechado na garagem. Apelou então, ao presidente da Maternidade, para que utilize esse veículo para o transporte de parturientes uma vez que o prefeito comprometeu-se em fornecer o combustível e o motorista. Por outro lado, dirigiu apelo ao ministro Mario Pinotti, da Saúde, para que mandasse fiscalizar a implantação do abastecimento d´água de Borborema cujos canos eram de pequena dimensão. Em sessão seguinte, o mesmo licurgo abordou a rivalidade que considerou descabida entre Solânea e Bananeiras, citando o exemplo do comerciante Nicolau Lucena que partiu de Bananeiras com um caminhão de bebidas por ele produzidas e que não foi permitido que as vendesse no novo município. Estranhou que, enquanto o Brasil mantinha intercâmbio comercial com inúmeros países, Solânea não permite a compra de produtos de outros municípios em sua praça.

A presença da Miss Paraíba em Bananeiras foi motivo de saudação da Câmara Municipal através do vereador Antônio Vaz. Dando conta da missão, foi registrado que o vereador revelou-se muito satisfeito e honrado, “visto suas palavras terem suado bem no íntimo dos que lhe ouviram e que agradecia ao sr.Presidente e seus pares a confiança nele depositada para apresentar em nome desta casa os votos de boas-vindas aquela augusta criatura, que representa a beleza excelsa da mulher paraibana”. Naquele ano de 1956, os trabalhos foram encerrados com a leitura de um telegrama do Presidente Juscelino (JK) desejando “os melhores votos de boas festas” a todos os vereadores.

O ano legislativo de 1957 foi iniciado com o processo de eleição da mesa diretora, presidida pelo vereador Cláver Ferreira Grilo. Por proposta do vereador Arlindo Ramalho, a eleição foi feita por aclamação e a unanimidade da Casa apoiou a recondução de todos os integrantes da comissão executiva, inclusive o vereador Arlindo, novamente primeiro secretário. Em janeiro daquele ano, a cidade de Passa-Quatro, em Minas Gerais, sofreu uma tragédia. A câmara solidarizou-se com os mineiros, que agradeceram a manifestação. Os vereadores eram antenados com os acontecimentos nacionais. Assim, manifestaram ao presidente Juscelino seu regozijo pela v isita do presidente português Craveiro Lopes e o “agradecimento pela sua visita à nossa Pátria”, frisou o vereador Antônio Vaz.

A maternidade de Bananeiras era a menina dos olhos dos vereadores. Seus serviços sofreram uma paralização e se requereu ao Governo do Estado que mantivesse em dia os repasses que garantiam o funcionamento daquele equipamento. O vereador Arlindo Ramalho aproveitou para lembrar as pessoas que influenciaram na sua construção, a exemplo de Pereira Lira e Osvaldo Trigueiro além do deputado Clovis Bezerra até sua inauguração pelo governador José Américo e que “não queria saber qual o partido, porém tudo que viesse em benefício de Bananeiras estava de acordo”. Todos os vereadores foram unanimes em desejar a reabertura da maternida de.

Arlindo Ramalho era também cordato com seus adversários. Exemplo disso foi o registro que fez em 11 de dezembro de 1957, da passagem do aniversário do seu colega e adversário político em Borborema, vereador Antônio Costa. Este, na sessão seguinte agradeceu “a manifestação de que foi alvo pelo seu natalício e que as palavras do vereador Arlindo Ramalho tinham tocado em cheio o seu coração e que agradecia sensibilizado”. Os demais vereadores se solidarizaram com o aniversariante. O ano legislativo foi encerrado com o lamento geral pela mudança do dr.Mariano Barbosa para a capital, com prejuízo à população que dependia desse prestimoso médico.(DO LIVRO EM PREPARO, "UMA CANDEIA ESPEVITADA DA UDN"

 

Nosso primeiro governador - Ramalho Leite



 

A notícia da deposição da Família Real chegou à Parahyba por telegrama. A República estava nascendo, mas por aqui, não havia um republicano para recebê-la. O paraibano Albino Meira, professor da Faculdade de Direito do Recife e único defensor da República entre nós, foi candidato à Assembleia Geral do Império e obteve míseros vinte e quatro votos. Confirmado o golpe militar comandado por Deodoro da Fonseca, assumiria a chefia do executivo o tenente-coronel Honorato Caldas que por doze dias tumultuados, se fez governador. Terminou preso e recambiado para a antiga Corte por ordem de Benjamim Constant, ministro da Guerra. Passou o governo ao capitão Oliveira Cruz, até a posse do governador nomeado, Venâncio Neiva, juiz de Catolé do Rocha. Este, irmão de dois oficiais do exército, teve sua indicação reforçada pelo general Almeida Barreto e, venceu a Albino Meira, republicano histórico, patrocinado por Aristides Lobo, Ministro do Interior do governo provisório.

Venâncio Neiva tomou posse como governador no dia seis de dezembro de 1889. Epitácio Pessoa, que há pouco mais de um mês chegara à Corte para tentar a sorte, sob a sombra do Barão de Lucena, seu tio, regressou à Parahyba para assumir o cargo de Secretário Geral do Estado, ao lado de Coelho Lisboa, nomeado Chefe de Polícia, ambos os postos, de escolha federal. Dos três que formaram esse primeiro governo, somente Coelho Lisboa podia se dizer republicano. Foi um governo, provisório, literalmente: Epitácio saiu com dez meses para ser deputado constituinte e, Coelho Lisboa rompeu logo com o governador. Voltaria ao poder no governo seguinte, integrando-se à duradoura oligarquia de Álvaro Machado, nascida com a ascensão de Floriano Peixoto à presidência da República.

Apesar da inexistência de muitos republicanos militando nestas plagas dos tabajaras, a partir da certeza da queda da monarquia a Parahyba inteira “passou a manifestar convicções republicanas ou pelo menos, a disposição de servir ao novo regime”. Disso serviu-se o governador Venâncio Neiva para escolher auxiliares e dirigentes municipais, todos oriundos do antigo regime e das fileiras do partido conservador ao qual pertenceu o chefe do executivo. Osvaldo Trigueiro Mello, registra que, “só não podemos dizer que não se derramou uma lagrima pelo Império, por que o ultimo Chefe de Polícia, Sá e Benevides, ao ser informado dos acontecimentos, disse a Eugenio Toscano de Brito, como os olhos rasos de água: “A Republica será a desgraça desse país”. Coube a Venâncio Neiva a missão de organizar politicamente o Estado e foi ele que outorgou a nossa primeira constituição, a 25 de abril de 1891.

A Constituição Estadual, na parte referente a eleições e funcionamento da Assembleia, entraria em vigor de imediato. Sua vigência integral, todavia, dependia da aprovação dos deputados constituintes. Instalada a Assembleia, Venâncio Neiva foi eleito e tomou posse como governador, agora respaldado pela letra da Lei Maior, fato ocorrido em pleno São João de 1891. Mas, somente em agosto, a Carta seria promulgada pela Assembleia presidida pelo deputado Manoel da Fonseca Xavier de Andrade. Era a data da fundação da cidade de Nossa Senhora das Neves.

Pela Carta de 5 de agosto de 1891, o governador, com mandato de quatro anos, seria substituído nas suas ausências por um dos três vices e, não podia ser reeleito. Precisava ter mais de trinta e cinco anos para exercer o cargo. O poder Legislativo era composto de um Congresso com trinta membros para um mandato de quatro anos, mas, a sua metade, seria renovável de dois em dois anos. As leis dependiam, como ainda hoje, da sanção do governador. A eleição era pelo voto direto, porém, não secreto. Era o chamado “voto de cabresto”.

Por outro lado, o Poder Judiciário, formado pelo Superior Tribunal de Justiça e constituído por cinco desembargadores, incluía ainda o júri criminal, os tribunais correcionais e os juízes de direito e os distritais. Eleito da mesma forma dos deputados seriam os prefeitos, que cuidariam da gestão municipal com a parceria de um Conselho de nove membros na Capital e sete nos demais municípios. Com o novo golpe de Deodoro, agora fechando o Congresso, Venâncio Neiva não tomou partido e limitou-se a declarar que a Paraíba continuava em paz. Caindo Deodoro, com ele foram derrubados todos os governadores. Venâncio Neiva ainda resistiu por alguns dias, até que foi forçado a renunciar. Seu vice não esquentou a principal cadeira do estado. Depois de passar pela chefia de uma junta governativa, a Parahyba recebeu como governante o major Álvaro Machado que, se manteria no poder até que sua oligarquia fosse substituída pela de Epitácio Pessoa, a partir de 1915.

Assim nasceu a República na Parahyba.

Emancipação de Areia tem 201 anos - Ramalho Leite



Ninguém mais autorizado a falar sobre a cidade de Areia do que seu historiador mor, Horácio de Almeida. Passo-lhe a palavra: “Areia já foi o maior município do brejo, de cujo território faziam parte integrante os atuais municípios de Bananeiras, Guarabira, Cuité, Alagoa Grande, Pilões, Serraria e Pedra Lavrada. Com o tempo, seu território foi sendo mutilado a ponto de ficar reduzido a uma nesga de terra nos taludes da Borborema. Bananeiras, desmembrou-se em 1833, arrastando consigo os territórios de Guarabira, Cuité, Pedra Lavrada; Alagoa Grande em 1864 e, em seguida, Pilões, 1883, que também levou Serraria”.

O texto se refere ao esfacelamento do território areiense, criando-se vilas emancipadas, como dispunha à época os editos do Conselho do Governo. Daí, porque, tenho reclamado dos vereadores de Bananeiras que, até hoje, não corrigiram o equívoco do prefeito José Francisco de Almeida em 1979 quando comemorou o centenário da emancipação política de sua cidade. Lêdo engano. A emancipação política de Bananeiras ocorreu em 1833 quando houve seu desmembramento de Areia “arrastando” Guarabira e Araruna, para usar a expressão de Horácio. A data que se comemora (16 de outubro de 1879) reporta à elevação da Vila de Bananeiras à categoria de cidade.

Por sua vez, Guarabira, que separou-se de Bananeiras pela Lei Provincial de 17 de abril de 1837, elevando-se à categoria de Vila e tornando-se emancipada, comemora erroneamente o que chama de emancipação política. A data de 26 de novembro de 1887 se refere à elevação à categoria de cidade. A Vila de Independência já era emancipada desde 1837, para ser bem explicito.

Defendo que o Instituto Histórico constitua uma comissão especial para restaurar e fixar, em definitivo, as datas da efetiva elevação dos nossos povoados à categoria de Vila, quando adquiriram a sua independência, com comarca, vereadores e todas as demais instituições que hoje somente são creditadas às cidades.

Já tentei modificar as datas históricas das cidades aludidas, fazendo gestões junto aos seus poderes constituídos. De repente, surge neste mês de maio, no último dia 18, as festividades comemorativas da emancipação política de Areia. Identifico o mesmo equívoco. Não há de se falar em emancipação política de Areia em referência ao 18 de maio de 1846, data em que a Vila de Areia foi elevada à categoria de cidade. Ademais, comemora-se 163 anos de emancipação, dizem as postagens na rede social e na imprensa. Ora, Bananeiras que é filha de Areia já está somando 186 anos de vila independente. Como a filha pode ter mais idade que a mãe?

Os que se interessam pela história e, notadamente, os filhos dessa simpática cidade do brejo cuidem de corrigir essa referência que, data vênia, considero equivocada. A data da emancipação política de Areia é 30 de agosto de 1818. O município, tem, portanto, 201 anos de emancipação política, quando saiu “das ilhargas de Mamanguape”. Que me permitam a correção.

O José Américo que eu recordo (2) - Ramalho Leite



Essa campanha ao governo (1950) mexeu com os paraibanos e jamais seria esquecida, em virtude do comício da Praça da Bandeira, em Campina Grande, que terminou em tragédia com mortos e feridos. Os lenços brancos de Zé Américo e os amarelos de Argemiro ostentavam o pescoço dos seus correligionários. Até em Bananeiras essa rivalidade chegou dividindo famílias e separando irmãos. Exemplo disso foi contado por Maurílio Almeida: dona Donana, sua avó, portanto sogra de Pedro de Almeida, seu pai e candidato a deputado estadual, era irmã de Dona Dondon, avó de Clovis Bezerra, candidato dos amarelos. Certo dia, ao voltar da missa dominical, dona Donana avisou que não mais visitaria sua irmã Dondom, enquant o perdurasse a campanha política. E a razão foi explicada:

– Ela não está nem um pouco resfriada, mas usou um lenço amarelo para assoar o nariz, só para me afrontar…

Pedro Augusto de Almeida, não tivesse falecido em dezembro daquele ano de 1950, certamente, sob a liderança de Ivan Bichara, formaria na bancada americista e ingressaria como outros dissidentes da UDN, no nascente partido Partido Libertador. Sua morte fez ascender logo no primeiro dia de mandato, em 02 de fevereiro de 1951, o primeiro suplente Humberto Coutinho de Lucena que ali dava os primeiros passos para sua respeitável carreira política.

O governo de Zé Américo, na casa de um político udenista do interior, acumulou uma coleção de histórias de perseguições. Nunca ouvi boas referências. As minhas tias que puxaram o hino de Argemiro, por exemplo, foram exoneradas nos primeiros dias de governo. Hoje eu diria que se cumpriu exigências da política local, mas na minha alma de criança, ficou a marca de um governo que tirava o emprego de quem precisava.
A vida inteira, sempre olhei para o solitário de Tambaú com um pé atrás. Apesar dessa antipatia herdada do passado, lí quase tudo que publicou. E quanto aprendi com seus escritos! Sua vida é um exemplo que não poderia ser escondida das gerações que o sucederam. Por sua longevidade, seu modelo de homem público e escritor, também serviram aos seus contemporâneos. Era um vaidoso? Sim, mas tinha motivos para sê-lo.

Não tive o privilégio da sua convivência. Uma única vez fui à sua residência acompanhando o prefeito Dorgival Terceiro Neto. O município projetou uma avenida ao pé do morro do Cabo Branco, para possibilitar o tráfego de mão única na Beira Mar. Essa avenida de retorno teria que cortar um pedaço de todos os quintais das casas defronte à praia. Só tinha quintal de gente importante. O Prefeito resolveu visitar primeiro o maior de todos, e expôs ao Ministro a sua ideia e a importância da obra para a cidade. Não quero nada de graça, vou desapropriar, indenizar e pagar, explicou o edil. O ministro ouviu tudo calado, fez algumas perguntas e se satisfez com os detalhes que queria conhecer.

– Não quero pagamento. Pode lançar mão do pedaço de terreno necessário. Só quero que salve os meus pés de jabuticaba.

O prefeito lembrou de que a jabuticaba só produz depois de trinta anos.
– Sei disso, mas lhe garanto que vou colhê-las!

A aquiescência do Ministro desarmou o espírito dos demais moradores da orla. Todos concordaram com a nova avenida que terminou lhes beneficiando com uma entrada pelos fundos de suas casas,

Pelo homem que foi, nas posições que ocupou e honrou, Zé Américo levou o nome da Paraíba aos píncaros. Por isso, repito, tinha motivos para se orgulhar da sua história, daí porque, tornou célebre e até folclórica a sua extrema vaidade, mesmo tentando escondê-la permanentemente. Aqui e acolá, porém, deixava escorregar…

Quando fez as pazes com Getúlio Vargas e deixou o governo da Paraíba para ser novamente ministro da Viação e Obras Públicas, ao chegar ao Rio de Janeiro, cercado por jornalistas, foi indagado:
– Por que veio?
– Por que me chamaram. Porque precisam de mim!
Ao assumir a cadeira da imortalidade, na Academia Brasileira de Letras, não se fez de rogado:
– Penetro nesta casa como quem acha o seu lugar.

Ayrton sai de cena - Ramalho Leite



Como diria o Martinho Moreira Franco, o trocadilho é horrível, mas irresistível. Ayrton Senna saiu de cena, há vinte e cinco anos, na curva de Tamburello, no circuito Ímola de Formula 1, em San Marino, Itália, a primeiro de maio de 1994. Dizem que os americanos do norte costumam testar a memória de seus próximos, indagando onde estavam quando de um acontecimento importante. Assim, se pergunta: onde você estava quando Kennedy foi morto? E no 11 de setembro? Antes que algum americano me pergunte, na hora do acidente de Ayrton Senna eu estava em um hotel de Salvador, a espera de uma segunda feira de trabalho no interior da Bahia. Como diretor do Banco do Nordeste, atendera a convite do então deputado Aroldo Cedraz para testemunhar a assinatura de contratos do banco com associações e cooperativa s, na cidade de Ourolândia. Com a TV ligada na prova, assisti, ao vivo, o acidente e, na minha mente, conclui que fora fatal. Quarenta minutos depois, o mundo recebia a confirmação: o jovem brasileiro, tricampeão da formula um, saiu da vida para entrar, definitivamente, na história do esporte mundial.

Até hoje as versões sobre as causas do acidente queimam os neurônios dos especialistas. Comecemos com o ânimo do piloto. Amargava, Ayton Senna, alguns contratempos. Um novato chamado Michael Schumacher já conseguira duas vitórias naquela temporada e Ayrton, apesar de tricampeão, não somara nenhum ponto. Aliás, com o brasileiro fora, o alemão conquistou o título mundial. Por outro lado, a bruxa andava à solta na pista de Ímola. Nos treinamentos, dois acidentes e um deles fatal. Na sexta feira, Rubens Barrichello foi gravemente ferido e no sábado, perdeu a vida o austríaco Roland Ratzenberger. Na mesma curva que ceifou a vida de Ayton Senna já se espatifara o carro de Nelson Piquet anos antes.

A pista não era das melhores. Cheia de ondulações, exigia que o veículo ficasse “grudado” ao asfalto e, essas ondulações facilitavam as derrapagens. Ayrton, que vinha comendo poeira dos seus concorrentes, esperava dias melhores, agora montado na Williams. Todavia, esses bólidos estavam difíceis de guiar pois, a “equipe ainda estava se adaptando à proibição do uso do sistema de suspensão eletrônica”, segundo Flavio Gomes, da ESPN Brasil.

Há o registro de que Ayrton mandara aumentar a coluna da direção para que ficasse o volante mais próximo dele. Essa coluna teria quebrado e provocado o acidente. Consultando-se, porém, os dados da telemetria, que contém as informações enviadas pelos sistemas eletrônicos do veículo, contatou-se que “havia força sendo aplicada na coluna da direção”, o que seria a prova de que esta não quebrou antes do impacto. Outra teoria bota a culpa nos pneus: na primeira volta da prova, houve um acidente e os carros tiveram que deslocar-se mais devagar. Com isso, os pneus esfriaram e perderam pressão. Ficando o carro mais baixo, pode ter desestabilizado a aerodinâmica, perdendo a aderência da Wlliams com a pista, explicam os investigadores.< br /> Aylton se despediu no domingo. Na segunda feira logo cedo, em um pequeno avião nos dirigimos ao interior da Bahia. A partir do campo de pouso, era uma festa. Carros de som anunciavam a presença do deputado e do diretor do banco. Os interessados nos pequenos empréstimos faziam fila no posto de atendimento situado na própria feira, onde garrotes, porcos e galinhas se misturavam à espera dos seus donos, devidamente financiados pelo banco. Por onde passei, não ouvi qualquer referência à morte de Senna. Parece que estávamos em outro país.

Terminamos essa excursão na cidade de Jacobina onde uma grande comitiva esperava o deputado e o diretor do banco. Em um restaurante local, ambos recebemos homenagens e, mais uma vez, não ouvi qualquer referência à morte de Senna, o assunto que, naquela segunda feira, ganhava as primeira páginas de todos os jornais do mundo. Os baianos estavam mais preocupados em financiar suas lavouras e seus pequenos negócios. O certo é que, depois desse episódio, nunca mais perdi meu tempo vendo uma corrida de formula um. Gostava mesmo era de ver Ayrton Senna agitando a bandeira nacional após cada vitória.

Uma carta de JK - Ramalho Leite



Era março de 1972 e Juscelino Kubitschek, ex-presidente cassado pelo regime militar, cujo primeiro presidente ajudara a eleger com o seu voto e seu apoio, chegou à Paraíba disposto a aproveitar o carnaval do Clube Cabo Branco, atendendo a convite da sua diretoria. Adolfo Bloch, dono da Revista Manchete, o banqueiro Walter Moreira Sales, o cantor e compositor Dilermando Reis e Fernando Cunha Lima, organizador do tour, formavam com dona Sara, a comitiva do líder mineiro que o Brasil adotou. Juscelino foi recebido discretamente no Hotel Tambaú e nenhum jornal local noticiou sua presença. E nem precisava. Os órgãos de segurança chegaram antes.

Sabe-se hoje, graças ao trabalho da Comissão da Verdade, que os agentes do SNI alugaram dois apartamento ao lado dos que estaria hospedada a vigiada comitiva. Antes que aportassem os hóspedes ilustres, colocaram microfones em vários ambientes, para a escuta clandestina. A partir de então, cada passo de JK esteve sob as vistas constantes dos agentes, que registraram conversas e encontros e. também, os nomes dos paraibanos que chegavam para abraçar o ex-presidente, ciceroneado desde seu desembarque pelo consul Raimundo Onofre, que nunca foi diplomada mas ganhou esse apelido pela “representação” que fazia do senador Rui Carneiro. Outro Raimundo, o Lira, foi objeto das informações sigilosas: então vendedor de carros em Campina Grande, mandara um especial para servir aos deslocamentos de JK .

A presença de JK entre salgadinhos e whisky na casa de admiradores foi tolerada, sem atropelos. Aceitá-lo, porém, diante da multidão que frequentava o carnaval do Cabo Branco, era outra história. Partiu da maior autoridade militar local a ordem para desconvidar o presidente. E a diretoria do Cabo Branco rendeu-se, mesmo com a interferência de autoridades mais condescendentes, a exemplo do médico Manoel Gaudêncio, chefe da Casa Civil do governador Ernani Satyro. O gerente do Hotel Tambaú, chocado com a desfeita aos seus hospedes, resolveu improvisar um carnaval para JK , na boate do hotel, ainda não concluída. Uma troça de bairro, com seus integrantes cheios da cachaça da tarde, abrilhantaram a noite carnavalesca do construtor de Brasília.

Não se registra qualquer pronunciamento ou reclamação de JK, com relação ao episódio que desmerecem os valores paraibanos de hospitalidade. O presidente cuidou de desfrutar as delícias do hotel, que não conhecia e, fez chegar ao seu projetista, o arquiteto Sergio Bernardes, a alegria de compartilhar aquela obra que considerou “a mais aprazível não apenas do Brasil, mas do próprio mundo”.

E acrescenta: “Já andei muito, conheço demais as rotas de turismo internacional e nunca me abriguei num hotel que cativasse tanto pelo sóbrio, elegante e simpático arranjo de todas as suas peças. Os meus parabéns são realmente calorosos, porque você pode estar certo de que, em assuntos de hotéis de turismo, ninguém produziu um melhor do que o seu”.

E conclui JK, dirigindo-se a Sergio Bernardes: “com meu abraço muito afetuoso, os votos para que você prodigalize seu gênio, através deste pais, e produza outras obras tão interessantes como a que assinalou o êxito de Tambaú. Abraço afetuoso de Juscelino Kubitschek”.

A carta de JK para Sergio Bernardes, que me chegou às mãos através desse grande pesquisador que se chama Osvaldo Trigueiro do Vale, revela a alma imortal de JK. Humilhado na Paraíba, relegou a desfeita e preferiu proclamar ao mundo, as excelências dessa obra de arte que nasceu da cabeça de João Agripino e do compasso de Sergio Bernardes. Uma obra que mudou a história da Paraíba.

 

Nota deste blogueiro: Eu indiretamente participei desse episódio, pois era recepcionista do Hotel Tambaú e junto com seu Lucas que era chefe da Recepção, recepcionamos o ex-presidente trazido pelo ‘Consul‘ Raimundo Onofre.

A noite o então gerente o Senhor José Sales, tendo em vista que Juscelino não iria mais para o Clube Cabo Branco, queria apresentar algum bloco de Carnaval na ainda inacabada Boate Tropical e aí fui encarregado de buscar os integrantes do Bloco carnavalesco ‘Os Trocos na Troça‘, do qual eu fazia parte e de fato foi feito.

Juscelino, Dilermando Reis, Adolfo Bloch, o banqueiro Walter Moreira Sales, dentre outros da sua comitiva, curtiram a noite ao som dessa nossa banda paraibana.

 

 

Uma dor sem adjetivo - Ramalho Leite



 Alguém me mandou dizer pela net: quando um pai morre, deixa órfãos. Quando falece um marido, nasce uma viúva. Quando morre um filho não há substantivo ou adjetivo que qualifique essa perda. Estou procurando palavras para descrever a dor que senti ao ver sepultar meu filho mais novo, vítima da violência das estradas. Para nascer, pulou apressado do ventre da mãe, só dando tempo ao médico colocar as luvas. Eu entrava ainda na sala de parto, por isso foi o único filho que não vi nascer. Se tinha pressa para viver, viveu feliz com a família que constituiu e amava acima de todas as coisas. Se entrou apressado no mundo, foi embora cedo demais, esse filho que eu amava tanto.

Filho de políticos, nunca utilizou as benesses que o poder poderia oferecer. Lutou para conquistar seu lugar ao sol. Trabalhou em empresa privada, submeteu-se a concursos públicos e colocou sua inteligência e capacidade a serviço da causa da justiça. Era um revoltado com as injustiças. Costumava me procurar para que eu ajudasse um conhecido em dificuldade. Não precisava ser amigo dele, bastava que tomasse ciência da sua história. E quantos desses seus interlocutores eu não atendi e resolvi problemas. Preocupava-se mais com o próximo do que consigo mesmo. Era religioso e tinha absoluta fé em Deus e nos seus desígnios.

Quando criança foi vítima de um medicamento aplicado em dose excessiva. Corri em busca de Fernando Cunha Lima, seu pediatra. O socorro lhe salvou a vida mas deixou sequelas visíveis em um tique nervoso que não o largou até a morte. Agora o poeta Fernando me manda um poema em homenagem ao seu pequeno cliente: Hoje essa dor maior a te afligir,/Bem maior do que uma punhalada,/E dor como paixão fica marcada,/Dentro do peito sem querer sair. E conclui: Apenas pede a Deus compreensão/pra suportar tamanha provação/De Pai pra Pai ao enterrar teu filho/. Agradecido ao poeta, chorei por ele não poder, pela segunda vez, salvar a vida do meu filho.

Flávio era a alegria em pessoa. Onde chegava dominava o ambiente com seu afeto contagiante. Por onde passou só fez amigos e todos eles choram a dor da sua partida. Companheiros que o conheceram nos colégios Pio XII e Pio X, na Faculdade de Direito da UFPB, da antiga TELPA ou no TRE estiveram a rememorar passagens, gestos e atitudes do seu comportamento exemplar como amigo solidário e afetuoso. Recebi milhares de mensagens e foi impossível responder a todas, uma a uma.

Perdi também o meu maior admirador. Tudo que eu fazia, escrevia ou publicava era motivo de seu orgulho. Muitas vezes, lhe entreguei a primeira leitura de meus trabalhos. Ele também fazia o mesmo, e só depois, mandava os seus escritos à publicação. Seus trabalhos técnicos revelavam um estudioso do direito eleitoral, preocupado em descobrir a verdade e ver realizada a justiça. Alguns sítios da internet a nível nacional, publicaram sua obra, esporádica mas na direção da melhor verdade.
Agora devo procurar o aconchego das minhas netas. A vida pública costuma nos afastar da família. Flavio chegou a proclamar essa sua mágoa em trabalho escolar. Lamentava não ter o pai por perto em todas as horas, para o cinema, para o futebol ou para buscá-lo na escola. Essa dívida eu procurei pagar me aproximando mais do homem que se tornou. Mas perdi grande parte da sua alegria infanto-juvenil. Que Deus me dê uma vida mais longa. Eu preciso pagar a minha netas o carinho que não dei ao pai delas.

Me incluam fora - Ramalho Leite



 Quando leio os acontecimentos da política paraibana nos dias atuais, chego a conclusão de fiz muito bem em não tentar voltar a uma cadeira parlamentar. Aproveitei bem o meu tempo, dei a minha contribuição, por mais modesta que tenha sido e a encerrei com o advento da nova Constituição Estadual. Os tempos eram outros. O parlamentar era respeitado e o político estimado. Ao ocupar uma vaga na Câmara Federal já no pós-Collor, v ivi o inicio da era da deteriorização da imagem da classe. Sempre que saia à rua, mesmo em Brasília, tinha a preocupação de retirar da lapela o broche que identifica o membro do Congresso Nacional. Em Fortaleza, era diretor do Banco do Nordeste e para facilitar o ingresso em um estacionamento oficial mostrei minha identidade parlamentar. O guarda olhou com desdém e comentou:

– Vocês tão levando os tubos…passa! Deveria estar se referindo aos subsídios dos parlamentares. Foi a última vez que exibi a carteirinha que tanto me orgulhou conquistá-la.

Vivi outros tempos. Era vice-lider do Governo Ivan Bichara. Antes de ir ao aeroporto recepcionar Antônio Mariz que anunciava uma dissidência contra a decisão do Planalto que escolhera Burity para governador indireto, renunciei ao posto. A dissidência foi consumada e não houve pressão, aceno, vantagens oferecidas que demovessem os nossos propósitos. Todos os deputados dissidentes permaneceram firmes até o final da disputa. E se vivia o auge do poder militar.

Os convencionais, mesmo confinados no Hotel Tropicana e arrebanhados em grupos para a convenção na AL, votaram com independência e perdemos por muito pouco. Essa posição me custou o mandato, reconquistado, porém, quatro anos depois.
Agora tudo mudou. Os apoios duram pouco e mudam com o vento. Basta que sopre uma melhor vantagem vindo de outra direção. As desculpas são as mais esfarrapadas. E às vezes, românticas. Se fala em namoro, noivado e casamento como fases preparatórias da união política. Mas basta uma das partes não concordar com o regime da comunhão de bens e o casamento se desmancha.

O debate chega a ser impróprio para menores. Nas ofensas, até o reino animal é atingido. Como hoje em dia sou um leão sem dentes, me incluam fora dessa arena. (P.S: esta próxima semana, despeço-me do último cargo público que ocupei.Volto à planície. Sou um político sem mandato, um advogado sem causas e um jornalista sem jornal. Mas estou vivo e forte, graças ao bom Deus)

Getúlio e suas ameaças de suicídio - Ramalho Leite



Tenho escrito sobre fatos históricos e figuras públicas que já se foram. É uma maneira prática de passar incólume pela reprovação dos pretensos ofendidos. Os mortos não pedem direito de resposta. Quando o personagem se chama Getúlio Vargas, cresce meu entusiasmo e tenho certeza, desperto a curiosidade dos meus poucos leitores, porque esse gaúcho de São Borja, depois de vinte anos governando o Brasil, deu tudo de si aos brasileiros e encerrou seu ciclo de poder com essa frase emblemática: “ Nada mais vos posso dar, a não ser o meu sangue”.

Antes de chegar a 1954, os arquivos de Vargas gravaram vários episódios em que expressara claramente sua vontade de por fim à vida, como forma de perpetuar o nome e lavar com seu sangue a honra ultrajada. Os fatos, até então, lhe favoreceram para que não cumprisse as ameaças. O desfecho final resultou de obstáculo intransponível colocado à sua frente. “A possibilidade de sacrifício pessoal era relacionada a uma questão de brio, de preservação da honra, de um sentido heroico de posteridade”, como define Lira Neto, seu mais recente biógrafo.

Já em 1930, quando eclodiu o movimento revolucionário que o levou ao Poder, escreveu no seu diário: “Começo os preparativos a fim de seguir para o teatro das operações, no Paraná. Desejo fazê-lo, porque esse é o meu dever, decidido a não regressar vivo ao Rio Grande, se não for vencedor”. Venceu e se tornou Presidente da República. Dois anos depois, a Revolução Constitucionalista de São Paulo colocava Getúlio em situação de resistência extrema e ele prepara uma nova despedida: “Reservava para mim o direito de morrer como soldado, combatendo a causa que abraçara. A ignominia duma revolução branca não m´o permitiu. Escolho a única solução digna para não cair em desonra, nem sair pelo ridículo”. Mais uma vez era o seu cadáver ofertado ao sacrifício.

Os paulistas foram derrotados e Getúlio reforçara seus poderes. Foi um poderoso Getúlio Vargas que aderiu às Forças Aliadas e mandou os pracinhas para o cenário da Segunda Guerra. Mas antes, preveniu o subsecretário de Estado americano que, “nessa decisão eu jogava a minha vida, porque não sobreviveria a um desastre para a minha pátria”.

Os que pesquisam a vida de Vargas estranham que, quando de sua queda humilhante em 1945, não tenha cumprido as ameaças anteriores. Há quem afirme que, na sua sagacidade, ele avistava um horizonte favorável ao seu retorno. Chegara a dizer que a política se assemelha a um jogo de xadrez. “Por exemplo, eu sou uma pedra que foi movida da posição que ocupava. E eles pensam que vou permanecer onde me colocaram. É o grande erro deles. Não sabem que vamos começar um novo jogo- e com todas as pedras de volta ao tabuleiro”.

Após ser apeado do poder, recolheu-se à estância Santos Reis, propriedade dos Vargas. A partir de então, foi alvo de uma campanha difamatória enquanto seus amigos eram perseguidos e vítimas de uma “série de mesquinharias”. Na paz do seu berço natal, “no meio de gente simples que não sabe trair”, redigiu verdadeiro testamento político depois achado entre seus papeis. Em quatro páginas de papel pautado, escrito a lápis, deixou “declarações para conhecimento do povo brasileiro”, asseverando: “Talvez, só com o meu sacrifício eu consiga remir os inocentes que estão sendo perseguidos e libertar-me das mesquinharias do governo de um títere togado influenciado por colaboradores odientos e covardes, muito inferiores à missão que se arrogaram” (Uma referência ao ministro José Linhares, pre sidente do Supremo e investido no cargo de Presidente da República).

Getúlio voltaria ao poder nos braços do povo. Antes fora eleito senador e deputado por vários Estados. Perto de concluir o mandato presidencial, obtido através do voto direto e secreto que implantara, acossado por forças poderosas e empurrado por fatos comprometedores tramados à sua revelia, revolveu “sair da vida para entrar na história”. Era 24 de agosto de 1954

Saudade dos escândalos do império - Ramalho Leite



 

Já escrevi sobre amantes de poderosos e, naquele texto, incluí gente da nossa época, a exemplo de Getúlio Vargas, Ademar de Barros, Juscelino Kubitschek e certo general que dizia gostar mais de cheiro de cavalo, mas consumia muitas milhas em busca de um cangote feminino. De passagem, lembrei Pedro I, que dividiu seu reinado com a principal amante, Domitília de Castro, a Marquesa de Santos. Acho que deixei em paz Pedro II, seu filho, um tremendo “come quieto”, que não ficava longe do pai em matéria de ocupar as camarinhas do Palácio. A diferença entre pai e filho residia na seleção das eventuais companheiras de alcova. Pedro I era mais promíscuo. Apesar da Marquesa de Santos, com quem teve cinco filhos, ainda engravidou outra filha do brigadeiro Canto e Melo, de nome Maria Benedita, casada com o Barão de Sorocaba. Antes da marquesa, uma atriz francesa inaugurou seu caderno de traição à Imperatriz Leopoldina.

Os costumes da época, pelo menos no ambiente das cortes, justificavam que o leito conjugal servia apenas para perpetuar a linhagem. As paixões e os prazeres eram coisa para se conseguir no aconchego das amantes. Uma comerciante francesa, de nome Clemence Saisset, também deu a Pedro I um filho bastardo. A atriz uruguaia Maria Del Carmem Garcia não lhe deu filho, deixando essa missão para a monja portuguesa Ana Augusta. No caderno do nosso primeiro Imperador ainda entraram uma escrava do Convento da Ajuda, a esposa de um general e uma atriz portuguesa, o que demonstra que ao voltar para Portugal, Pedro ainda carregava o fogo dos trópicos. Para encerrar, obteve favores sexuais da esposa de seu homem de confiança e, até, da filha do bibliotecário de dona Leopoldina.

Dom Pedro II era um galegão de um metro e noventa, pernas e voz finas, olhos azuis, mas tristes. Há quem diga, pelo abandono do pai e morte prematura da mãe. Conhecera a futura esposa por uma pintura da cintura para cima, obra de artista europeu. Pela pintura não dava para saber que Tereza Cristina era baixa, feia e puxava por uma perna. Foi uma desilusão que o levou às lágrimas. Mesmo assim tiveram três filhos: o homem morreu ainda pequeno e as filhas Isabel e Leopoldina se transformaram na única esperança de Dom Pedro para um terceiro reinado. Isabel desempenharia papel importante e, ao assinar a Lei Áurea, assinou também a queda da monarquia. & nbsp; Mas quero falar das mulheres de Pedro II, a “ metade” que teria passado a vida procurando e, parece ter encontrado, na pessoa da preceptora de suas filhas, a Condessa de Barral. Ainda passaram pela biblioteca de Dom Pedro, transformada em alcova eventual, a Condessa de Villeneuve e Eponine Otaviano, esposa de um seu amigo de infância, a Condessa de La Tour e outras menos votadas. O Imperador era pouco generoso com suas amantes e, não foram poucos os maridos da Corte que, orgulhosos, chegaram à falência para permitir que suas consortes continuassem a frequentar a “biblioteca” do Palácio São Cristóvão. A busca de Dom Pedro II por sua alma gêmea começou com Maria Lopes de Paiva, filha do barão de Maranguape, sua primeira paixão. Um filho bastardo de Pedro I, portanto, seu meio irmão, era casado com Carolina Bergaro e foi à porta dessa dama que a ronda policial surpreendeu o Imperador e alguns amigos, animados pela bebida.

Identificado o Imperador, o policial debulhou-se em desculpas e acordou seu chefe pela madrugada para contar o ocorrido na certeza de que estava encerrando sua carreira. O historiador americano Roderick Berman acredita que esse relacionamento de Dom Pedro II com a cunhada durou cerca de dez anos, na maior discrição. Pedro II recebera esmerada educação para, justamente, não ser comparado ao pai, devasso e inconsequente ao ponto de conceder título de nobreza a quase todos os filhos bastardos. A todos não podia dar, pois foram contados mais de sessenta bastardinhos entre o Brasil e Portugal. Hoje, com os escândalos revelados na nossa corte republicana, haveremos de ter saudade dos esc&aci rc;ndalos do Império.

O farmacêutico que inventou uma vacina e ficou famoso - Ramalho Leite



 O epíteto de “Vornoff Brasileiro” foi dado ao major José Fábio da Costa Lira, farmacêutico em Bananeiras mas nascido em Umbuzeiro, onde foi prefeito municipal. O jornal “A Noite”, do Rio de Janeiro, em edição de 11 de agosto de 1936, na primeira página, revela a existência, “no interior da Parahyba, do autor de um processo a que se atribuem curas assombrosas”. Doentes com tuberculose, câncer, lepra e diabetes eram objeto de tentativas de curas pelo método que denominou “lymphotherapia” e que consistia na “transmutação do princípio vital que afflora de certas glândulas de creanças e menores, desde que estejam sãs, par a pessoas doentes, isto é, para aquelas cuja energia orgânica esteja perturbada, diminuída ou esgotada”, explica José Fabio, para finalmente comparar: “se posso dizer, é a voronofftherapia simplificada”.

Ao usar o neologismo voronofftherapia, o criador da famosa “vacina de cuspe”, como ficou conhecida a injeção que aplicava nos enfermos, refere-se ao cirurgião russo radicado em Paris, Serge Voronoff (1866-1951) que foi pioneiro em método de transplante e prometia recuperar e garantir a vitalidade, a plena atividade física e mental… por meio do enxerto de glândulas sexuais de primatas não humanos, conforme explica Renata Moehlecke, da Fiocruz. A reportagem de “A Noite” sobre o “modesto farmacêutico do interior” também aludia à possibilidade de seu sistema provocar o rejuvenescimento e garantir uma “velhice mais sadia e mais alegre”.
O jornal carioca mandou a Bananeiras um repórter ouvir o esculápio, para tentar explicar aos leitores a razão da sua fama que já alcançava a Paraíba e os vizinhos Rio Grande do Norte e Pernambuco. Tal qual uma romaria, doentes de toda parte vinham pedir arrego na Farmácia de Zé Fábio. Sua atividade, porém, foi considerada irregular pela Sociedade de Medicina da Paraíba e ele mesmo reconhece – “sei que venho agindo fora da minha profissão, pois não sou médico, mas comprehendo também que a sciencia não pode ser patrimônio de uma classe”… Revela que suas experiências não fazem “victimas” e, conformado, conclui: “j&aacute ; me compensam as emoções de ter com o meu méthodo aliviado algumas dores humanas”

Depois do pronunciamento negativo da entidade médica paraibana começaram as perseguições ao boticário. O vigário de Bananeiras, José Pereira Diniz, “na qualidade de guia dos destinos espirituaes da parochia” ao tomar conhecimento de que José Fábio havia dito que “ a lymphotherapia provinha de uma missão divina recebida de um espírito superior que não era o Deus da religião de vocês”, resolveu interpelá-lo por carta, devidamente registrada no Livro de Tombo da Paróquia. As respostas às indagações do sacerdote foram atendidas uma a uma. “O meu methodo de cura lymphotherapia ou sialotherapia é resultado de estudos cient& iacute;ficos publicados em dois livros e um memorial inédito lido perante o corpo médico do Hospital Pedro I, de Campina Grande” informa. E conclui o cientista autodidata: “Vossa Reverendíssima sabe que tenho ideias espíritas, mas, que em tempo algum as empreguei para a cura do corpo e sim para as do meu espírito”.

Proibido de exercer suas experiências na Paraíba, o major José Fabio da Costa Lira (naquele tempo em Bananeiras todo ilustre era major) mudou-se para Serra Negra, no Rio Grande do Norte. Em pouco tempo, a categoria médica local agiu contra sua atividade. Deusdedith Leitão, conta em “Inventário do Tempo” que era um jovem viajante e, na sua faina comercial, encontrou José Fabio em plena atividade em Lavras de Mangabeira, no Ceará. E tomou a “vacina de cuspe” por recomendação de sua mãe, crente dos resultados advindos da injeção “milagrosa”. “Era o que ele chamava de salioterapia que nada mais era de que a saliva transformada num liquido injetável que se indicava a qualquer tipo de doença”, explica Deusdedith.

O trabalho experimental de José Fabio da Costa Lira está detalhado no livro “Da Lymphotherapia ao Physio-Pschismo” publicado em 1924 sob o patrocínio do seu compadre Sólon de Lucena, então presidente do Estado. Ele narra os resultados satisfatórios de seu método de curar e revela, na reportagem de 1936 que, conseguiu curar a tuberculose, “onde reste ainda uma parte do pulmão e espero retrogradar a lepra ao estado de eczema, como já tenho feito da tuberculose uma bronquite commum. Conforme observações mais recentes, consegui reduzir o assucar, num diabético, a mais da metade, e levantar-lhe as forças, dissipar-lhe a catarata e abater a febre do enfermo”.

Correligionário dos Pessoa, compadre e amigo do coronel Antônio Pessoa a quem chamava de Toinho, foi por ele escolhido prefeito de Umbuzeiro. Desgostoso da política local, trazendo uma carta de apresentação de seu chefe político para Solon de Lucena, em Bananeiras instalou-se e se tornou, além de amigo/irmão de Sólon, seu colega, como professor de francês no Instituto Bananeirense, por eles fundado, ao lado de Dionísio Maia e outros.

Foram vãs as tentativas do avô de Waldir dos Santos Lima em legalizar o seu método cientifico de curar. José Fabio da Costa Lira teria que se conformar com o apoio moral que recebia dos que alcançavam a saúde plena. Não acumulou fortuna, mas lhe sobraram sofrimento e frustrações, fruto das perseguições sofridas ao longo da existência. Sua maior consternação, porém, foi não ter conseguido, com a lymphotherapia, prolongar a vida do seu compadre Solon de Lucena. O clima saudável do curimataú, da Fazenda Pedra D´Àgua, onde morreu o ex-presidente da Paraíba foi insuficiente para a sua cura.

Na UTI se respira vida - Ramalho Leite



 RAMALHO LEITE
NA UTI SE RESPIRA VIDA

Para quem nunca foi levado a extrair uma unha encravada, ser hóspede de uma unidade de terapia intensiva é uma aventura inusitada. Colocado em leito de posição privilegiada, podia avistar outros à minha frente e o movimento frenético de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e outros auxiliares que se revezam a cada vinte e quatro horas. Os intensivistas cuidam de homens e mulheres, adultos ou crianças, que necessitam de melhores cuidados, quase sempre pós operatórios ou preventivamente, visando estabilizar um paciente com a saúde em risco.

O conceito de terapia intensiva vem do século dezenove, quando em pela guerra da Crimeia, por volta do ano de 1854, alguém teve a ideia de separar pacientes graves de não graves e a partir de então estabeleceu uma vigilância continua, de dia e de noite sobre seu estado de saúde. Atribuiu-se a inciativa a Florence Nightingale, que ficou conhecida como a Dama da Lâmpada, pois conduzia uma lamparina durante a noite procurando os enfermos mais graves para separa-los dos menos graves. Mas a primeira UTI com esse nome, veio surgir em Boston, nos EE.UU pelo ano de 1927, através de um neuro- cirurgião chamado Walter Dandy, conforme me revela a Wikipédia. No Brasil, o honraria de encarar o tratamento intensivo foi conferido, historicamente, à Ana Nery, tida como Heroína da Pátria e pioneira da enfermagem no Brasil, principalmente em função de sua atuação, ao lado do marido e filhos na guerra do Paraguai.

Mas deixemos o bravos brasileiros que perderam avida nos pântanos paraguaios e nas batalhas navais e voltemos à UTI onde estive internado por alguns dias. Um ambiente de ansiedade. O isolamento provoca a angustia. Só há o desejo de rever as pessoas que amamos e que, no outro lado de uma parede, fazem fila para um abraço carinhoso, às vezes, não correspondido, por razões obvias. O velhinho de cabelos branco corre célere até o leito onde sua companheira dorme. Trouxeram-me lágrimas o gesto de carinho. Merecia uma foto. Mas proíbem celular naquele ambiente. O filho, mais ágil ainda que o marido aflito, procura um rosto, e faz carinho na face materna que parece não responder aos afagos. Lembrei minha mãe que padeceu em um daqueles tálamos. Vendo aquele filho acarinhar a mãe enferma, quanto me arrependi de, em nome da minha covardia, ter deixado de ir abraça-la. Preferia guardar a lembrança da sua imagem em vida. Agora tenho certeza que ela teria ficado muito feliz em me ver, mesmo que fosse pela última vez.

Foi uma boa invenção essa tal de UTI. O paciente, quando está em condições, pode avaliar os serviços que lhe estão prestando. Melhor ainda quando a luta de todos é coroada de êxito e o interno sai dali, recuperado, saudável. Numa UTI se respira vida. Acho que não incomodei muito. Bastava um sinal, e alguém já sabia que eu pedia o famoso bico de papagaio. Usei e abusei do bicho. Em hora nenhuma, porém, precisei avisar para todos, como o senador, o que desejava fazer...

Na chegada de Cabral nasceu a corrupção no Brasil - Ramalho Leite



Quando Cabral aportou nas costas da Bahia e, das naus de sua esquadra avistou-se um monte alto a que se denominou Monte Pascoal, começou a nascer um país que, quinhentos anos depois, ainda refletiria a semente plantada naquela terça-feira, 21 de abril. Não me acanho de repetir o lugar comum de que, a qualidade da gente trazida para ficar e se misturar com os índios não germinaria bons frutos. Pero Vaz de Caminha mandaria dizer a dom Manuel, o Venturoso, que o Capitão “mandou com eles (os índios) para ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. O degredado levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as d ar ao senhor, se lá o houvesse”. Foi a primeira ação de corrupção com pagamento de propina que se registrou nesta terra de Vera Cruz.

“O Capitão, quando eles (os índios) vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço…acenderam-se tochas e eles entraram…um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra.E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!…Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Narrou o escrivão da frota. < /span>

Os portugueses, sem dúvida, estavam interessados no ouro e na prata. A procura de especiarias era só uma desculpa para quem saiu com destino às Índias e, desviado da rota por falta de vento terminou por descobrir novas terras. Os silvícolas pediam pouco. Encantaram-se com as contas de um rosário e pediram-nas de presente, enfeitando de logo seus pescoços. Através de gestos, propunham a troca das contas por ouro e prata que, ao que indicava, era abundante na nova terra. Os visitantes tomaram a resolução de levar dois daqueles índios, mesmo à força, à presença do Rei de Portugal, deixando em seu lugar dois degradados. A primeira tentativa de sequestro entre nós foi abortada pela sugestão de que, o s degredados, ficando em terra, teriam muito mais a contar sobre o território conquistado. Assim foi feito e mandado dizer a El Rei:“E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui dois degredados quando daqui partíssemos”. Não esqueceu Pero Vaz de informar que, além dos degredados, “dois grumetes, que esta noite saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. Tutto buona gente!

“E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos dizer, mo fez por assim pelo miúdo” concluiria Pero Vaz. Na despedida, contudo, não deixou de cobrar do seu amo, um pequeno favor. Bastou demorar-se por aqui e respirar o nosso clima por alguns dias, para descobrir o jeitinho brasileiro. Escreveria ao final de sua famosa Carta: “E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé, a Jorge de Osorio, meu genro, o que d’Ela receberei em muita mercê.”Era a primeira notícia do nepotismo em terras brasilienses.

Lendo a Carta de Pero Vaz de Caminha, nosso primeiro testemunho escrito sobre a nova terra e sua gente, chego à conclusão de que o Brasil tem jeito. Basta começar tudo de novo…

Os dois barões de Ramalho: Um brasileiro e outro português



Vim descobrir recentemente por que a família da minha esposa fazia restrições ao seu casamento comigo. Para casar, tive que roubar a moça. O coronel Camporra, irmão do Barão de Araruna era seu trisavô. Com essa ascendência nobre, como permitir a união com o filho de um plebeu, cujo mais ilustre membro familiar era tenente da Guarda Nacional? Mas a história abre caminhos e a genealogia nos leva a conhecer o passado. Em busca desses ancestrais encontrei Joaquim Inácio Ramalho, Barão de Ramalho, um ilustre homem do direito, contemplado com todas as honrarias do Segundo Império. Um dia ainda vou reivindicar esse título de nobreza. Só não sei perante qual juízo...

Filho de um espanhol, o futuro barão nasceu a 6 de janeiro de 1809, em São Paulo. Os irmãos Antônio Nunes Ramalho (parente da Elba) e Anna Felisberta Ramalho foram seus pais de criação, recebendo deles o sobrenome Ramalho. Foi dos primeiros alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco onde se bacharelou em 1834 e foi doutor em 1835. No ano seguinte já era professor substituto da mesma escola onde se graduara. Dez anos depois foi eleito vereador e presidente da Câmara de São Paulo. Sua destacada atuação lhe valeu a nomeação, através de decreto imperial, para a presidência da Província de Goiás, até 1848 quan do se elege deputado geral por Goiás. No retorno, foi deputado provincial paulista, por duas legislaturas. É ainda comendador da Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo.

Conselheiro do Governo Imperial lidera um grupo de advogados para fundar o Instituto dos Advogados de São Paulo, ativo ainda hoje. Depois de aposentado como catedrático da Faculdade de Direito foi distinguido pelo Império com o baronato. Denominado Barão de Água Branca, em homenagem à cidade alagoana do mesmo nome, recusou o título. Somente aceitaria o título de Barão, caso houvesse referência à família de sua esposa Paula da Costa Ramalho, filha de um dos Ramalho que o criara. Assim, em 28 de maio de 1887, torna-se o Barão de Ramalho. Nomeado diretor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ocupa esse cargo até sua morte em 15 de ago sto de 1902, aos 93 anos.

Em artigo sobre os Notáveis do Direito, Alessandro Hirata, livre docente da USP, considera o Barão de Ramalho “um exemplo de carreira dedicada à academia. Passou a maior parte de sua longa vida nos bancos da São Francisco. Sua atuação é modelo não apenas para a tradicional faculdade paulistana, mas para todo o mundo acadêmico jurídico”.

Acabei de falar sobre o Barão de Ramalho brasileiro. Dona Maria II, de Portugal, contudo, destacou um político do Açores com o título de Barão do Ramalho. Chamava-se Antônio Tomé da Fonseca Carvão Paim Câmara, o 1º Barão. Seu neto, Antônio da Fonseca Carvão Paim da Câmara, foi o 2º. Barão e além de político e jornalista foi governador civil, por diversas vezes, do distrito de Angra do Heroísmo e de Ponta Delgada até 1878. Cavalheiro da Casa Real, comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, eram alguns dos seus títulos. Era formado em Ciências Naturais pela Unive rsidade de Bruxelas.

Com essa ascendência nobre, tanto brasileira quando d’além mar, juntei a Casa dos Aragão com a Casa dos Ramalho e ainda hei de reivindicar o meu título de nobreza. O coronel Camporra que me aguarde! (Do meu livro A HISTÓRIA COMO EU CONTO)

Nosso primeiro governador civil indicado por militares -Ramalho Leite



A notícia da deposição da Família Real chegou à Parahyba por telegrama. A República estava nascendo, mas por aqui, não havia um republicano para recebê-la. O paraibano Albino Meira, professor da Faculdade de Direito do Recife e único defensor da República entre nós, foi candidato à Assembleia Geral do Império e obteve míseros vinte e quatro votos. Confirmado o golpe militar comandado por Deodoro da Fonseca, assumiria a chefia do executivo o tenente-coronel Honorato Caldas que por doze dias tumultuados, se fez governador. Terminou preso e recambiado para a antiga Corte por ordem de Benjamim Constant, ministro da Guerra. Passou o governo ao capitão Oliveira Cruz, até a posse do governador nomeado, Ven&aci rc;ncio Neiva, juiz de Catolé do Rocha. Este, irmão de dois oficiais do exército, teve sua indicação reforçada pelo general Almeida Barreto e venceu Albino Meira, republicano histórico, patrocinado por Aristides Lobo, Ministro do Interior do governo provisório.

Venâncio Neiva tomou posse como governador no dia seis de dezembro de 1889. Epitácio Pessoa, que há pouco mais de um mês chegara à Corte para tentar a sorte, sob a sombra do Barão de Lucena, seu tio, regressou à Parahyba para assumir o cargo de Secretário Geral do Estado, ao lado de Coelho Lisboa, nomeado Chefe de Polícia, ambos os postos, de escolha federal. Dos três que formaram esse primeiro governo, somente Coelho Lisboa podia se dizer republicano. Foi um governo, provisório, literalmente: Epitácio saiu com dez meses para ser deputado constituinte e, Coelho Lisboa rompeu logo com o governador. Voltaria ao poder no governo seguinte, integrando-se à duradoura oligarquia de Álvaro Machado, nascida com a ascensã o de Floriano Peixoto à presidência da República.

Apesar da inexistência de muitos republicanos militando nestas plagas dos tabajaras, a partir da certeza da queda da monarquia, a Parahyba inteira “passou a manifestar convicções republicanas ou pelo menos, a disposição de servir ao novo regime”. Disso serviu-se o governador Venâncio Neiva para escolher auxiliares e dirigentes municipais, todos oriundos do antigo regime e das fileiras do partido conservador ao qual pertenceu o chefe do executivo. Osvaldo Trigueiro Mello, registra que, “só não podemos dizer que não se derramou uma lagrima pelo Império, por que o ultimo Chefe de Polícia, Sá e Benevides, ao ser informado dos acontecimentos, disse a Eugenio Toscano de Brito, como os olhos rasos de águ a: “A Republica será a desgraça desse país”. Coube a Venâncio Neiva a missão de organizar politicamente o Estado e foi ele que outorgou a nossa primeira constituição, a 25 de abril de 1891.


A Constituição Estadual, na parte referente a eleições e funcionamento da Assembleia, entraria em vigor de imediato. Sua vigência integral, todavia, dependia da aprovação dos deputados constituintes. Instalada a Assembleia, Venâncio Neiva foi eleito e tomou posse como governador, agora respaldado pela letra da Lei Maior, fato ocorrido em pleno São João de 1891. Mas, somente em agosto, a Carta seria promulgada pela Assembleia presidida pelo deputado Manoel da Fonseca Xavier de Andrade. Era a data da fundação da cidade de Nossa Senhora das Neves.


Pela Carta de 5 de agosto de 1891, o governador, com mandato de quatro anos, seria substituído nas suas ausências por um dos três vices e, não podia ser reeleito. Precisava ter mais de trinta e cinco anos para exercer o cargo. O Poder Legislativo era composto de um Congresso com trinta membros para um mandato de quatro anos, mas, a sua metade, seria renovável de dois em dois anos. As leis dependiam, como ainda hoje, da sanção do governador. A eleição era pelo voto direto, porém, não secreto. Era o chamado “voto de cabresto”.


Por outro lado, o Poder Judiciário, formado pelo Superior Tribunal de Justiça e constituído por cinco desembargadores, incluía ainda o júri criminal, os tribunais correcionais e os juízes de direito e os distritais. Eleito da mesma forma dos deputados seriam os prefeitos, que cuidariam da gestão municipal com a parceria de um Conselho de nove membros na Capital e sete nos demais municípios. Com o novo golpe de Deodoro, agora fechando o Congresso, Venâncio Neiva não tomou partido e limitou-se a declarar que a Paraíba continuava em paz. Caindo Deodoro, com ele foram derrubados todos os governadores. Venâncio Neiva ainda resistiu por alguns dias, até que foi forçado a renunciar. Seu vice não esquentou a prin cipal cadeira do estado. Depois de passar pela chefia de uma junta governativa, a Parahyba recebeu como governante o major Álvaro Machado que se manteria no poder até que sua oligarquia fosse substituída pela de Epitácio Pessoa, a partir de 1915.


Assim nasceu a República na Parahyba.( Do meu livro, A HISTÓRIA COMO EU CONTO)

Jô Soares na missa de Dom José - Ramalho Leite



 

Jô Soares, o teatrólogo, escritor, humorista, musicista, ator e jornalista nasceu em berço de ouro. Até a adolescência, sua residência foi o maior e mais refinado hotel brasileiro, o Copacabana Pálace, na famosa praia do mesmo nome. Correndo ao redor da piscina, ainda menino, ouvia o chamado do jornalista Assis Chateaubriand, o Chatô: - Ôi paraibano! Oi paraibano! Ao que o pequeno gordo respondia: - Eu sou carioca! Chatô, contudo, acrescentava: -Filho de paraibano, paraibano é!


Filho de Orlando, sobrinho de Orris e Oscar Soares, estes, nomes vinculados à cultura e à política da Paraíba nas primeiras décadas do século XX, eis as raízes paraibanas do gordo mais famoso do Brasil que acaba de nos brindar com o segundo volume de sua Biografia Desautorizada. Ambos os livros retratam a vida do autobiografado, crescendo paralelamente à evolução do teatro, do rádio e da televisão entre nós. Sua trajetória faz parceria com centenas de nomes que nos acostumamos a admirar, inseridos na literatura, no teatro e nos jornais, inclusive, no irreverente “O Pasquim”, produto, entre outros, de nomes como Ivan Lessa, Milhô Fernandes, Ziraldo e o próprio Jô que enfrentavam com galhardia a tesoura dos censores credenciados pela caserna pós 1964.

Orris Soares, tio avô de Jô, juntamente com o irmão Oscar fundaram, em outubro de 1908 o jornal O Norte, de saudosa memória. É dele a iniciativa e organização da edição do “Eu e Outras Poesias”, cujo prefácio ainda hoje serve de espelho aos que se debruçam sobre a vida e obra do paraibano do século. Por sinal, conta Jô, foi Orris que deu a notícia da morte de Augusto dos Anjos ao imortal Olavo Bilac. O baiano indagou: -“ Quem é Augusto dos Anjos?” Após ouvir alguns versos do pranteado paraibano, teria dito o príncipe dos poetas: -“ Fez bem em morrer. A poesia não perdeu muita coisa”. Para Ariano Suassuna, segundo Jô, a literat ura deveria agradecer a Orris Soares o fato de Augusto ser hoje um poeta conhecido.

Jô Soares confessa que se sente feliz em “relembrar e também de resgatar a importante presença cultural e política da Paraíba na vida nacional da primeira metade do século XX, hoje injustamente esquecida. Por ter, ao lado de Minas Gerais, apoiado o Rio Grande do Sul na chamada Aliança Liberal, a Paraíba e seus filhos ganharam um papel de peso na Capital da Republica após a Revolução de 1930”, registra.

Entre os talentos do Jô Soares deixei de incluir acima, sua missão religiosa, como Ministro Extraordinário da Eucaristia. Fazia sucesso nas igrejas, vestido de branco ou de roxo, atendendo às filas dos que recebiam a comunhão. Dom Helder, em Olinda, chegou a dizer baixinho, que a sua fila estava maior: - Você está tomando os meus fieis... Dom Avelar Brandão, em Salvador, também abria as portas da sua igreja para o famoso Gordo. Na Paraíba, esteve presente na missa de “dom José Maria Pires, que, por ser negro, era chamado carinhosamente de dom Pelé, embora preferisse ser chamado de Dom Zumbi.”

Para concluir, passo a palavra ao Jô Soares: “Ajudei também na comunhão em Joao Pessoa, terra de papai, na missa celebrada por dom Jose Maria Pires, o arcebispo da Paraíba, ele morreu há pouco tempo com quase cem anos. Quando chegou a hora do sermão, d. Jose Maria puxou uma folha de papel e eu pensei: Puxa, eis ai um Bispo que deve ser fraco de oratória, precisa trazer o sermão por escrito. Ai notei que ele nem olhava para o papel. Começou a pregar com uma beleza de oratória. Perguntei ao meu assistente:

- Mas falando tão bem, por que trouxe o sermão por escrito?

-Porque o DOPS o obriga a mandar uma cópia de cada sermão antes de pronunciá-lo
Então me virei para a porta da Igreja e vi dois tipos com cara de agentes do DOPS, papel nas mãos para conferir se o bispo dizia exatamente o que estava escrito ali. Aliás, no jubileu sacerdotal de d. Helder, foi d.Jose Maria quem falou numa bela homilia.

Sinto orgulho imenso de ter concedido a comunhão com esses três homens, três religiosos, três brasileiros corajosos.”

Bastidores da Independência de Borborema e Dona Inês - Ramalho Leite



 Decorria o ano de 1958 e a discussão principal da Câmara de Vereadores de Bananeiras era a emancipação política dos distritos de Borborema e Dona Inês. Moreno, já fora transformada na cidade de Solânea e, quem foi contra, como o vereador Antônio Vaz, agora se penitenciava e passava a concordar com o desmembramento das duas outras comunidades. O vereador Arlindo Ramalho apresentou o projeto de Resolução que autorizava a separação de Borborema. A discórdia estava na fixação dos limites. O vereador Elói Farias foi o primeiro a se colocar contra, logo após a leitura do projeto, em voz alta, pelo vereador Arlindo. Para ele, queriam acabar com Bananeiras e via em tudo isso um desastre para o município. Foi contestado pelo vereador Antônio Costa que, sendo representante do distrito, pugnou pela sua independência. Os vereadores Manoel de Medeiros Guedes, mais conhecido como Santos Guedes e Claudio Maia pediram licença e se retiraram do recinto, fato que mereceu reprimenda do vereador Arlindo, autor do projeto.

O projeto inicial que autorizava a separação de Borborema, que tomou o nº 34, foi aprovado por dois terços dos presentes. A discordância estava na inclusão de Vila Maia no território de Borborema, fato veementemente contestado pelo vereador Santos Guedes. O vereador Arlindo, visando convencer seu companheiro, levou delegação de borboremenses à Câmara para discussão desses limites e informou que estivera na Capital a chamado do deputado Humberto Lucena, para, justamente, detalhar os linhas do mapa de Borborema. O vereador Eloi Farias advertiu que, em breve, estaria em discussão também, a separação de Dona Inês e, mais uma vez seria contra. O vereador Arlindo Ramalho indignou-se com a falta de solidariedade dos vereadores Eloi Farias, Claudio Maia e Santos Guedes. Este, aproveitou para protestar contra o comportamento do vereador Arlindo, que, irritado, teria rasgado a sua lei

e jogado em cima dos presentes, no que foi contestado severamente pelo acusado.

Quando começou o ano legislativo de 1959 os ânimos estavam mais serenados e os vereadores já tinham a palavra de apoio dos deputados locais. A partir de então, o assunto da emancipação dos dois distritos passou a ter uma tramitação mais pacífica. No dia 06 de abril daquele ano, uma sessão extraordinária foi convocada com aquela pauta específica. Com a palavra, o vereador Arlindo que representa Borborema e se diz um batalhador pela causa da sua independência. Leu alguns artigos dos jornais sobre o assunto e pediu que a sessão fosse suspensa para a discussão, com mais calma, dos limites dos novos municípios, uma vez que os vereadores Manoel Leonel e Jaime Pereira pronunciaram-se, igualmente, pelo desmembramento do distrito de Dona Inês. Esse clima mais sadio e mais sereno, diferente das sessões anteriores, não deixou de ser registrado pelo vereador Antônio Costa.

Com a palavra de apoio dos deputados Clovis Bezerra e Orlando Cavalcanti, os vereadores udenistas e pessedistas que resistiam à redução do território de Bananeiras deram-se por vencidos. Coube ao vereador Santos Guedes fazer a leitura do novo projeto e ao vereador Eloi Farias apelar para que a paz voltasse a reinar no recinto e que, os antigos distritos não guardassem mágoa da sua sede. Posto em discussão, os projetos de Resolução 35 e 36 que autorizavam o desmembramento de Borborema e Dona Inês foram aprovados, a unanimidade de votos, em três sessões seguidas, a última delas, às 22 horas do dia 17 de abril do ano de 1959.No próximo ano, essas duas cidades estarão completando do 60 anos de emancipação política. (Fonte: atas da Câmara Municipal de Bananeiras)

Vige como tem São João - Ramalho Leite



O imortal Jackson do Pandeiro gravou e fez sucesso com uma música onde proclama: “Vige com tem Zé/ Zè de baixo, Zé de riba/Tesconjuro com tanto Zé/Como tem Zé lá na Paraíba”. Mais adiante, acrescenta: “só de Zé tem uns cem na Prefeitura”. Na “prefeitura” do genial alagoa-grandense pode ter muito Zé, mas passando pelo Governo da Paraíba os Zé foram poucos. No Império, Zé Tomás Nabuco (1831); na Regência, Zé Luiz Lopes Bastos(1834/35);No Segundo Reinado, Zé da Costa Machado(1844) e Zé Vicente de Amorim, além do mais famoso, Zé Teixeira de Vasconcelos, o Barão de Maraú(1867/68). Na República, Zé Gomes, Zé Mariz, Zé Américo, Zé Fernandes e Zé Maranhão . Mas quando se trata de João, homônimo do nosso governante recentemente eleito, a safra é enorme. João Azevedo Lins Filho é o sétimo João da era republicana, como veremos adiante. Fosse vivo, o nosso Jackson modificaria sua letra e diria: Vige como tem João, lá na Paraíba.

Quando ainda éramos uma Capitania, a Parahyba foi governada por Capitães Mores. Desde sua fundação, passando pelo período de domínio holandês e pela incorporação à Capitania de Pernambuco, fomos governados por nove joãos:João Tavares (1586/88), João Barros Correia (1605/07), João Rabelo de Lira (1612/16), João de Brito Correia(1620/23),João Fernandes Vieira (1655/57),João do Rego Barros(1663/70), João da Maia Gama (1708/17),João de Morais Valcassar (1719/1720),João de Abreu Castelo Branco(1722/29).

No Império, os governadores com prenome João, nomeados por Pedro I foram os seguintes: João de Araújo Cruz, JoãoMarinho Falcão e João Bandeira Cordeiro, indicados cada um por duas vezes para o cargo. A seguir assumiram o comando da Província da Parahyba os seguintes delegados imperiais: João de Albuquerque Maranhão, João Gomes de Almeida e João Ribeiro de Vasconcelos Pessoa. Durante a Regência, apenas um João foi nomeado: João de Moura Magalhães (1838/39).

No Segundo Reinado, a caneta de Pedro II referendou os nomes de João de Albuquerque Moreira (1848), João Antônio de Vasconcelos (1848/50), João Capistrano Bandeira de Melo (1853/54), João José Inocêncio Pagi (1866) e João da Mata Correia Lima (1877).

Proclamada a República, o nosso primeiro João fundou uma oligarquia que só seria derrubada em 1915, com a vitória de Epitácio Pessoa e fundação de sua própria oligarquia. Trata-se de João Lopes Machado, (1908/12) ocupante da cadeira de governador mais de uma vez. Adorava ser senador e morar no Rio e, enquanto permanecia distante da província, mantinha um seu preposto guardando o posto governamental. Em seguida surgiria João de Castro Pinto (1912/15) que, com sua renúncia, abriu vaga para o primeiro Pessoa, o cel. Antônio da Silva Pessoa. João Suassuna (1924/28) assume após Solon de Lucena e tem um trágico fim, acusado injustamente de participação na morte do seu antecessor, outroJoão, este Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (1928/30). Com a convoca&cce dil;ão de José Américo para o ministério de Getúlio Vargas, assume o seu vice, João Fernandes de Lima (1951/54). Dez anos depois, chega a vez de João Agripino Filho, (1966/70) eleito no último pleito direto permitido pelos militares pós 64.

Teríamos que esperar mais trinta anos para assistir à ascensão de outro joão ao governo da Paraíba: João de Azevedo Lins Filho, professor, engenheiro e servidor público desde estagiário na prefeitura de João Pessoa. Fez nome na construção de obras e execução de serviços essenciais aos objetivos de administrações municipais e estaduais. Como destacado membro de uma equipe de governo comandada por Ricardo Coutinho, foi escolhido para ser submetido ao referendo popular e passar a conduzir a partir de 2019, o projeto da Nova Paraíba, nascido em 2011 e que merecia ter continuidade. O povo paraibano confiou nessa proposta e sacramentou seu nome, com uma votação jamais registrada. Para quem o apontava como um desconhecido, fora dos quadros políticos e sem experiência de mandatos eletivos, fadado ao f racasso eleitoral, refaça seu juízo: seu nome é JOÃO. ( Fossemos relacionar os ocupantes provisórios da cadeira de governador, lembraríamos entre os zés, Soares Madruga e Lacerda Neto e entre os joãos, o deputado João Fernandes da Silva).

 

Maranhão repete Argemiro – Ramalho Leite




Argemiro de Figueiredo foi deputado estadual, federal e senador. Governou a Paraíba entre 1935 e 1940, atravessando, inclusive, o período do Estado Novo de Getúlio Vargas. Em 1946 foi eleito deputado constituinte e integrou um grupo de parlamentares que se dedicaram mais de perto à elaboração do novo texto constitucional que vigorou até os juristas fardados nos doarem uma Emenda como Carta Maior da República.

Sua carreira registra alguns tropeços eleitorais, como por exemplo, a derrota que sofreu em 1951 na disputa pela prefeitura de Campina Grande, seu berço político, perdendo para Plinio Lemos. No pleito municipal, Argemiro obteve pouco mais de onze mil votos, insuficientes para suplantar os treze mil do seu opositor. Antes, Zé Américo o derrotara na batalha pelo governo da Paraíba.Três anos depois, com votação consagradora, era eleito senador derrotando Assis Chateaubriand e o poderio econômico influenciado pelos Diários Associados, de sua propriedade.
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Ao ser cassado pelo AI-5, José Maranhão era correligionário de Argemiro, ambos abrigados na sigla petebista fortalecida sob a liderança de Goulart, após a morte do patrono Getúlio Vargas. Deputado estadual com os direitos políticos suspensos por dez anos, ao retornar, voou mais alto e alcançou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Passou a vice-governador de Antonio Mariz. A morte de Mariz em pleno mandato mudou a sua história e a história da Paraíba. Reeleito governador, deixaria o cargo para uma disputa vitoriosa ao Senado, voltando depois ao cargo de governador por decisão judicial, pois perdera o pleito na contagem dos votos.

Em 2010, Maranhão tentou renovar seu mandato de Governador. Não logrou êxito. Ricardo Coutinho venceu. Zé já acumulara muitos mandatos e em 2012 procurou conquistar um que lhe faltava no currículo, disputando a prefeitura da Capital. Conseguiu, apenas, 18,87% dos votos válidos. Amargou um insucesso que não lhe fazia falta. Sem mandato, quiseram lhe tirar o comando partidário. Reagiu com as forças que possuía e reafirmou sua liderança no comando da legenda que já fora de Rui Carneiro e de Humberto Lucena.

Na presidência do PMDB atravessou a crise de abstinência do poder a que não estavam acostumados seus correligionários, e após especulações de uma candidatura ensaiada para deputado, terminou ungido como candidato a senador. Foi eleito quase sem sair de casa. Sua obra falou por ele e resultou em vitória, apesar de ter enfrentado um jovem promissor na política da Paraíba e um político experimentado nas lides eleitorais.

A trajetória de Maranhão e Argemiro se assemelham. Ambos, após sofrerem uma derrota para governador e para prefeito, conseguiram conquistar um mandato senatorial de oito anos. Argemiro perdeu para governador em 1950, para prefeito em 1951, foi eleito senador em 1954; Maranhão perdeu para governador em 2010, para prefeito em 2012 e se elegeu senador em 2014. A história às vezes se repete.

Deputados à moda antiga - Ramalho Leite



Nos dias de hoje as casas legislativas são entidades fartas em recursos e seus membros recebem uma remuneração difícil de ser somada. Antigamente, um deputado federal tinha que enfrentar “esse marzão” como dizia Ernani Satyro, para desestimular Walter Arcoverde a tentar uma cadeira igual à sua. Depois vieram as passagens aéreas e o velho Rui Carneiro fazia questão de lembrar o risco que corria ao enfrentar um avião da “Panair”. Brasília tornou o exercício do mandato um paraíso com direito a verba para moradia, passagens, comunicação e otras cositas más… Até bem pouco tempo, o direito às passagens para o Estado de origem, incluía, também, um bilhete extra para se matar a saudade do Rio de Janeiro. Comparando, as mordomias do passado remoto seriam risíveis hoje, pois, incluíam até um estábulo, onde os deputados guardavam suas montarias.

Com a evolução das coisas, os subsídios dos deputados também evoluíram. Na Paraíba, ainda alcancei deputado vendendo antecipadamente seus rendimentos. Posso dizer que, quando secretário do Poder Legislativo acabei esse comércio de juros altos, transferindo para o Banco do Estado o pagamento dos parlamentares e afastando os agiotas da tesouraria da Assembléia. Esses foram problemas republicanos mais recentes. Mas ninguém pense que durante a Monarquia o exercício dos mandatos eram gratuitos. Naquele tempo, Celso Mariz informa que os deputados ganhavam de acordo com a distancia entre sua cidade de origem e a Capital. Pagava-se por léguas. E o negócio era meio rigoroso. Contavam-se as léguas de vinda. Ao Imperador não interessava como o deputado retornaria aos seus pagos. As pressões foram grandes e no final da Monarquia passaram a contar as lég uas de ida e volta, pois ninguém é de ferro… Tudo isso dava quatro mil réis diários e mil e duzentos réis por légua a ser percorrida. Quem faltasse não recebia.

Com a República o subsídio alcançava dez mil réis diários e trezentos réis fixos “para o trem, a fatiota nova, o transporte dos queijos que traziam para o chefe do partido” ironiza Celso Mariz, deputado nos idos de 1924-27, quando já se percebia uma representação de um conto de réis e quarenta mil réis de diária, ou jetom, palavra que apropriamos do francês ( jeton). Os tempos modernos fixaram o subsídio parlamentar em duas partes, uma fixa para declarar ao Imposto de Renda, e uma variável que servia de incentivo ao comparecimento das sessões. A nossa ultima Constituição vedou o pagamento de jetom pela presença, até em sessões extraordinárias e, antes como agora, a ausência continuada vive sob a ameaça de cortes nos contracheques dos faltosos .

Mesmo com um recesso prolongado, a produção legislativa, tanto no passado quanto no presente abordava os mais variados assuntos. Se em 1947, o deputado Pedro de Almeida preocupou-se com o prejuízo que os caprinos soltos poderiam conferir à agricultura de subsistência, muito antes, nos idos de 1862, o presidente Francisco Araujo Lima, desta Província da Paraíba do Norte, editou uma lei que protegia as cabras de leite, por servirem para “amamentação das crianças”. As cabras de leite poderiam ser criadas soltas, desde que conduzissem “cangas de quatro palmos” e fossem recolhidas até as seis horas da tarde. Esta exceção, aberta para as criações da Vila de Campina Grande, não atingiam bodes, ovelhas, porcos e cães que, caso encontrados soltos pela fiscalização, seriam os seus proprietários multados em dois mil réis.

Para incentivar o cultivo do café, em Bananeiras e Areia, a Assembléia Provincial estabeleceu um prêmio ao cafeicultor que exportasse pela primeira vez em um ano, duas mil arroubas de sua produção.

Estas reminiscências históricas me fazem lembrar que o jornalista e historiador Rui Leitão ocupa uma cadeira no IHGP. Torço para que, principalmente, dê continuidade às pesquisas de seu genitor, Deusdedith Leitão, recuperando até os nossos dias a memória do Poder Legislativo.(do livro Gente do Passado, Fatos do Presente)

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