Vige como tem São João - Ramalho Leite



O imortal Jackson do Pandeiro gravou e fez sucesso com uma música onde proclama: “Vige com tem Zé/ Zè de baixo, Zé de riba/Tesconjuro com tanto Zé/Como tem Zé lá na Paraíba”. Mais adiante, acrescenta: “só de Zé tem uns cem na Prefeitura”. Na “prefeitura” do genial alagoa-grandense pode ter muito Zé, mas passando pelo Governo da Paraíba os Zé foram poucos. No Império, Zé Tomás Nabuco (1831); na Regência, Zé Luiz Lopes Bastos(1834/35);No Segundo Reinado, Zé da Costa Machado(1844) e Zé Vicente de Amorim, além do mais famoso, Zé Teixeira de Vasconcelos, o Barão de Maraú(1867/68). Na República, Zé Gomes, Zé Mariz, Zé Américo, Zé Fernandes e Zé Maranhão . Mas quando se trata de João, homônimo do nosso governante recentemente eleito, a safra é enorme. João Azevedo Lins Filho é o sétimo João da era republicana, como veremos adiante. Fosse vivo, o nosso Jackson modificaria sua letra e diria: Vige como tem João, lá na Paraíba.

Quando ainda éramos uma Capitania, a Parahyba foi governada por Capitães Mores. Desde sua fundação, passando pelo período de domínio holandês e pela incorporação à Capitania de Pernambuco, fomos governados por nove joãos:João Tavares (1586/88), João Barros Correia (1605/07), João Rabelo de Lira (1612/16), João de Brito Correia(1620/23),João Fernandes Vieira (1655/57),João do Rego Barros(1663/70), João da Maia Gama (1708/17),João de Morais Valcassar (1719/1720),João de Abreu Castelo Branco(1722/29).

No Império, os governadores com prenome João, nomeados por Pedro I foram os seguintes: João de Araújo Cruz, JoãoMarinho Falcão e João Bandeira Cordeiro, indicados cada um por duas vezes para o cargo. A seguir assumiram o comando da Província da Parahyba os seguintes delegados imperiais: João de Albuquerque Maranhão, João Gomes de Almeida e João Ribeiro de Vasconcelos Pessoa. Durante a Regência, apenas um João foi nomeado: João de Moura Magalhães (1838/39).

No Segundo Reinado, a caneta de Pedro II referendou os nomes de João de Albuquerque Moreira (1848), João Antônio de Vasconcelos (1848/50), João Capistrano Bandeira de Melo (1853/54), João José Inocêncio Pagi (1866) e João da Mata Correia Lima (1877).

Proclamada a República, o nosso primeiro João fundou uma oligarquia que só seria derrubada em 1915, com a vitória de Epitácio Pessoa e fundação de sua própria oligarquia. Trata-se de João Lopes Machado, (1908/12) ocupante da cadeira de governador mais de uma vez. Adorava ser senador e morar no Rio e, enquanto permanecia distante da província, mantinha um seu preposto guardando o posto governamental. Em seguida surgiria João de Castro Pinto (1912/15) que, com sua renúncia, abriu vaga para o primeiro Pessoa, o cel. Antônio da Silva Pessoa. João Suassuna (1924/28) assume após Solon de Lucena e tem um trágico fim, acusado injustamente de participação na morte do seu antecessor, outroJoão, este Pessoa Cavalcanti de Albuquerque (1928/30). Com a convoca&cce dil;ão de José Américo para o ministério de Getúlio Vargas, assume o seu vice, João Fernandes de Lima (1951/54). Dez anos depois, chega a vez de João Agripino Filho, (1966/70) eleito no último pleito direto permitido pelos militares pós 64.

Teríamos que esperar mais trinta anos para assistir à ascensão de outro joão ao governo da Paraíba: João de Azevedo Lins Filho, professor, engenheiro e servidor público desde estagiário na prefeitura de João Pessoa. Fez nome na construção de obras e execução de serviços essenciais aos objetivos de administrações municipais e estaduais. Como destacado membro de uma equipe de governo comandada por Ricardo Coutinho, foi escolhido para ser submetido ao referendo popular e passar a conduzir a partir de 2019, o projeto da Nova Paraíba, nascido em 2011 e que merecia ter continuidade. O povo paraibano confiou nessa proposta e sacramentou seu nome, com uma votação jamais registrada. Para quem o apontava como um desconhecido, fora dos quadros políticos e sem experiência de mandatos eletivos, fadado ao f racasso eleitoral, refaça seu juízo: seu nome é JOÃO. ( Fossemos relacionar os ocupantes provisórios da cadeira de governador, lembraríamos entre os zés, Soares Madruga e Lacerda Neto e entre os joãos, o deputado João Fernandes da Silva).

 

Maranhão repete Argemiro – Ramalho Leite




Argemiro de Figueiredo foi deputado estadual, federal e senador. Governou a Paraíba entre 1935 e 1940, atravessando, inclusive, o período do Estado Novo de Getúlio Vargas. Em 1946 foi eleito deputado constituinte e integrou um grupo de parlamentares que se dedicaram mais de perto à elaboração do novo texto constitucional que vigorou até os juristas fardados nos doarem uma Emenda como Carta Maior da República.

Sua carreira registra alguns tropeços eleitorais, como por exemplo, a derrota que sofreu em 1951 na disputa pela prefeitura de Campina Grande, seu berço político, perdendo para Plinio Lemos. No pleito municipal, Argemiro obteve pouco mais de onze mil votos, insuficientes para suplantar os treze mil do seu opositor. Antes, Zé Américo o derrotara na batalha pelo governo da Paraíba.Três anos depois, com votação consagradora, era eleito senador derrotando Assis Chateaubriand e o poderio econômico influenciado pelos Diários Associados, de sua propriedade.
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Ao ser cassado pelo AI-5, José Maranhão era correligionário de Argemiro, ambos abrigados na sigla petebista fortalecida sob a liderança de Goulart, após a morte do patrono Getúlio Vargas. Deputado estadual com os direitos políticos suspensos por dez anos, ao retornar, voou mais alto e alcançou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Passou a vice-governador de Antonio Mariz. A morte de Mariz em pleno mandato mudou a sua história e a história da Paraíba. Reeleito governador, deixaria o cargo para uma disputa vitoriosa ao Senado, voltando depois ao cargo de governador por decisão judicial, pois perdera o pleito na contagem dos votos.

Em 2010, Maranhão tentou renovar seu mandato de Governador. Não logrou êxito. Ricardo Coutinho venceu. Zé já acumulara muitos mandatos e em 2012 procurou conquistar um que lhe faltava no currículo, disputando a prefeitura da Capital. Conseguiu, apenas, 18,87% dos votos válidos. Amargou um insucesso que não lhe fazia falta. Sem mandato, quiseram lhe tirar o comando partidário. Reagiu com as forças que possuía e reafirmou sua liderança no comando da legenda que já fora de Rui Carneiro e de Humberto Lucena.

Na presidência do PMDB atravessou a crise de abstinência do poder a que não estavam acostumados seus correligionários, e após especulações de uma candidatura ensaiada para deputado, terminou ungido como candidato a senador. Foi eleito quase sem sair de casa. Sua obra falou por ele e resultou em vitória, apesar de ter enfrentado um jovem promissor na política da Paraíba e um político experimentado nas lides eleitorais.

A trajetória de Maranhão e Argemiro se assemelham. Ambos, após sofrerem uma derrota para governador e para prefeito, conseguiram conquistar um mandato senatorial de oito anos. Argemiro perdeu para governador em 1950, para prefeito em 1951, foi eleito senador em 1954; Maranhão perdeu para governador em 2010, para prefeito em 2012 e se elegeu senador em 2014. A história às vezes se repete.

Deputados à moda antiga - Ramalho Leite



Nos dias de hoje as casas legislativas são entidades fartas em recursos e seus membros recebem uma remuneração difícil de ser somada. Antigamente, um deputado federal tinha que enfrentar “esse marzão” como dizia Ernani Satyro, para desestimular Walter Arcoverde a tentar uma cadeira igual à sua. Depois vieram as passagens aéreas e o velho Rui Carneiro fazia questão de lembrar o risco que corria ao enfrentar um avião da “Panair”. Brasília tornou o exercício do mandato um paraíso com direito a verba para moradia, passagens, comunicação e otras cositas más… Até bem pouco tempo, o direito às passagens para o Estado de origem, incluía, também, um bilhete extra para se matar a saudade do Rio de Janeiro. Comparando, as mordomias do passado remoto seriam risíveis hoje, pois, incluíam até um estábulo, onde os deputados guardavam suas montarias.

Com a evolução das coisas, os subsídios dos deputados também evoluíram. Na Paraíba, ainda alcancei deputado vendendo antecipadamente seus rendimentos. Posso dizer que, quando secretário do Poder Legislativo acabei esse comércio de juros altos, transferindo para o Banco do Estado o pagamento dos parlamentares e afastando os agiotas da tesouraria da Assembléia. Esses foram problemas republicanos mais recentes. Mas ninguém pense que durante a Monarquia o exercício dos mandatos eram gratuitos. Naquele tempo, Celso Mariz informa que os deputados ganhavam de acordo com a distancia entre sua cidade de origem e a Capital. Pagava-se por léguas. E o negócio era meio rigoroso. Contavam-se as léguas de vinda. Ao Imperador não interessava como o deputado retornaria aos seus pagos. As pressões foram grandes e no final da Monarquia passaram a contar as lég uas de ida e volta, pois ninguém é de ferro… Tudo isso dava quatro mil réis diários e mil e duzentos réis por légua a ser percorrida. Quem faltasse não recebia.

Com a República o subsídio alcançava dez mil réis diários e trezentos réis fixos “para o trem, a fatiota nova, o transporte dos queijos que traziam para o chefe do partido” ironiza Celso Mariz, deputado nos idos de 1924-27, quando já se percebia uma representação de um conto de réis e quarenta mil réis de diária, ou jetom, palavra que apropriamos do francês ( jeton). Os tempos modernos fixaram o subsídio parlamentar em duas partes, uma fixa para declarar ao Imposto de Renda, e uma variável que servia de incentivo ao comparecimento das sessões. A nossa ultima Constituição vedou o pagamento de jetom pela presença, até em sessões extraordinárias e, antes como agora, a ausência continuada vive sob a ameaça de cortes nos contracheques dos faltosos .

Mesmo com um recesso prolongado, a produção legislativa, tanto no passado quanto no presente abordava os mais variados assuntos. Se em 1947, o deputado Pedro de Almeida preocupou-se com o prejuízo que os caprinos soltos poderiam conferir à agricultura de subsistência, muito antes, nos idos de 1862, o presidente Francisco Araujo Lima, desta Província da Paraíba do Norte, editou uma lei que protegia as cabras de leite, por servirem para “amamentação das crianças”. As cabras de leite poderiam ser criadas soltas, desde que conduzissem “cangas de quatro palmos” e fossem recolhidas até as seis horas da tarde. Esta exceção, aberta para as criações da Vila de Campina Grande, não atingiam bodes, ovelhas, porcos e cães que, caso encontrados soltos pela fiscalização, seriam os seus proprietários multados em dois mil réis.

Para incentivar o cultivo do café, em Bananeiras e Areia, a Assembléia Provincial estabeleceu um prêmio ao cafeicultor que exportasse pela primeira vez em um ano, duas mil arroubas de sua produção.

Estas reminiscências históricas me fazem lembrar que o jornalista e historiador Rui Leitão ocupa uma cadeira no IHGP. Torço para que, principalmente, dê continuidade às pesquisas de seu genitor, Deusdedith Leitão, recuperando até os nossos dias a memória do Poder Legislativo.(do livro Gente do Passado, Fatos do Presente)

Mariz um político coerente - Ramalho Leite



 O amigo velho Ernani Satyro , quando censurado por contestar o regime que ajudara a implantar e lhe exigiram coerência, respondeu bem humorado:“quem tem coerência tem idéia fixa e quem tem idéia fixa é doido”. Logo, não se exija coerência dos políticos, pois a política é dinâmica e muda como as nuvens, levando nos ventos das mudanças, os seus protagonistas. Antonio Marques da Silva Mariz, promotor de justiça, prefeito, deputado, senador e governador, não era adepto dessa teoria. O silogismo dele era outro e não partia de premissas falsas. Podia a política mudar, ele mesmo mudar de partido, mas não renunciava aos seus princípios. Estes eram imutáveis. Nos vinte anos da ausência de Mariz, muitas passagens de sua vida pública vieram à tona. Escolhi duas, que representam sua paixão pela coerência e firmeza de princípios:

O cenário era o gabinete do senador Humberto Lucena, em Brasília. Os aliados do governo e integrantes da bancada federal paraibana foram reunidos pelo ex-governador João Agripino. Agripino prometera ao presidente Sarney o apoio unânime de seus correligionários à tese dos cinco anos para o mandato presidencial que estava prestes a se findar.Passou essa informação aos deputados e foi ouvindo um a um. A maioria era a favor dos cinco anos, mas havia discrepâncias: João Agripino Neto, Cássio Cunha Lima e Antonio Mariz.

Agripino começou cobrando a posição do próprio filho. Agripino Neto reafirmou sua posição em favor dos quatro anos para o mandato presidencial, todavia, afirmou: “se o partido fechar questão, eu voto pelos cinco anos”. Chegando a sua vez, Cássio acompanhou a posição de Agripino Neto, apesar de defender o mandato de quatro anos, mas diante do “fechamento de questão”, não iria contrariar o partido. Mariz ouviu seus companheiros, contudo, não esperou ser cobrado: “Sou a favor dos quatro anos de mandato. Se o partido fechar questão, continuo votando a favor dos quatro anos”, encerrou o assunto. Fui testemunha da contrariedade de João Agripino.

Na batalha pela indicação para governador da Paraíba, pela via indireta, a ARENA estava dividida em dois blocos. O capitaneado pelo governador Ivan Bichara defendia a indicação do senador Milton Cabral e o outro queria a ascensão do deputado Mariz. Os ânimos ainda não estavam acirrados e os blocos dialogavam entre si. Conseguimos um encontro de Mariz e seus contestadores com a participação também dos que o apoiavam.

O cenário foi o antigo Elite Bar, de saudosa memória, em Tambaú, em frente à gameleira também desaparecida. A mesa que se formou era enorme, acomodando doze deputados de ambas as facções. Houve quem lembrasse a Ceia Larga, sem a presença do Cristo, mas com alguns candidatos a Judas. Pelos governistas falou o deputado Egidio Madruga expondo seus pontos de vista, mas asseverando que, pessoalmente, nada tinham contra o nome de Mariz. Como o processo de escolha era uma incógnita, qualquer um poderia ser escolhido, disse Egídio. Aquela reunião era para abrir o diálogo, por isso, “queremos saber, de logo, qual a sua posição com relação a nós que não o apoiamos, caso seja escolhido governador”? A resposta veio rápida, no estilo inimit&aac ute;vel de Mariz:

- Se eu for governador, vou ensinar vocês a ser oposição durante quatro anos.

O desfecho desse episódio todos sabem: o escolhido para governar a Paraíba foi o professor Tarcísio de Miranda Burity.

A fidelidade do eleitor - Ramalho Leite




RAMALHO LEITE

Iniciei minha vida pública como vereador em Borborema, aos 18 anos. Desde que comecei a ter noção das coisas, porém, já se respirava política na minha casa. Aprendi e não esqueci até hoje o jingle de Argemiro de Figueiredo para governador, “com Renato (Ribeiro) seu maior batalhador” e que concluía: “ Zé de Almeida, o seu bonde vai errado sim senhor!”. A música ficou nos meus ouvidos e o barulho da derrota dos candidatos do meu pai, na velha UDN, também. José Américo foi o governador eleito em 1950.

Acompanhando as campanhas políticas, guardei lembrança de alguns eleitores que se mantinham fieis ao seu candidato e, fizesse chuva ou sol, no dia da eleição, cumpriam seu dever cívico, e de fidelidade. Havia exceções.

Severino “Doido” foi a exceção mais expressiva.Era famoso em função das carraspanas que tomava e dos discursos que pronunciava em praça pública. Meu pai o protegia e sustentava durante quatro anos, na esperança de que, no dia da eleição estivesse sóbrio para dar seu voto. Quando estava em Borborema ficava hospedado em uma dependência da casa dos meus pais, e raramente voltava a Moreno para visitar seus familiares. Diferente de outros bêbados de rua, quando chegava ao auge do porre, ao invés de ser levado para a cadeia, era rebocado para o quartinho dos fundos da casa de seu Arlindo. Quatro anos de cuidados não bastavam. No dia da eleição, ninguém sabe como, se embriagava e não votava. Tempo perdido – reclamava meu pai.

A compensação era Luiz Santana, melhor dizendo compadre Luiz Santana, ferroviário e amigo fiel de meu pai. Ele era o termômetro do resultado eleitoral. Luiz Santana chegou para votar? Era a pergunta. Se chegou, era sinal de vitória. Servia como pesquisa. Transferido de Borborema para outras estações do trem, chegava na véspera da eleição. Ouvi dizer, certa feita, que ele estava vindo de Mossoró, e utilizara vários transportes para atender àquele chamado, não da lei, mas do seu compadre.

Na campanha de 1960, Borborema realizou sua primeira eleição na condição de cidade. Meu pai candidato a prefeito, Pedro Gondim a governador e Jânio Quadros a presidente. Era essa a chapa de Luiz Santana, a esta altura, morando na Ilha do Bispo, em João Pessoa, mas com domicilio eleitoral em Borborema, pois “não posso largar compadre Arlindo”. A eleição de prefeito foi apurada em 24 horas, mas a de governador, ainda demorou alguns dias. Voltei à Capital para retomar minhas aulas no Liceu, e foi aqui que comemorei a vitória de Pedro Gondim, com quem trabalharia mais tarde.

Como estudante, morava na casa dos meus avós e fui para a rua acompanhar uma passeata que vinha da Ilha do Bispo juntar-se às comemorações da vitória de Pedro, no Ponto Cem Reis. A multidão, com bandeiras e fotografias pregadas em pequenas varetas, gritava a uma só voz: O homem é Pedro, o homem é Pedro! No meio daquela gente, avistei um dissidente. Seu grito divergia dos demais: “Viva Compadre Arlindo, Viva Compadre Arlindo” e agitava a fotografia de meu pai pregada em um cabo de vassoura. Era Luiz Santana, o ferroviário, comemorando a vitoria do seu compadre para prefeito de Borborema.

Esses exemplos de fidelidade do eleitor ao candidato desapareceram do cenário político. Antes, desapareceu a fidelidade do eleito ao seu representado. Eis a razão! (Republicado por incorreção… do eleitor ou dos candidatos ? )

Nelson Coelho - Personagem ou testemunha da história - Ramalho Leite



RAMALHO LEITE

Em homenagem ao jornalista e historiador Nelson Coelho da Silva, que recentemente nos deixou, republico texto que escrevi sobre o lançamento do seu último livro: “Testemunha da História”.

Considerar Nelson Coelho, apenas, como testemunha da história, é muito pouco. As histórias que conta no seu mais recente trabalho o envolvem totalmente. É mais personagem do que testemunha. Na cena dos acontecimentos políticos da Paraíba nos últimos cinquenta anos, como catador de noticia ou com “gato de palácio”, Nelson viu quase tudo. O que não viu, lhe contaram, e se não contaram, imaginou, pois o que não lhe falta é a capacidade de perquirir e investigar. De tudo, acumulou um acervo de fatos que ganham em seu livro “Testemunha da História”, o selo da perpetuidade.

Vinculado a um partido político, não procura demonstrar isenção na sua narrativa. Pelo contrário, destaca essa condição de militante e, por vezes, revela frustrações e decepções com os companheiros de luta aos quais serviu e não foi correspondido como julgava ser merecedor. Penitencia-se e se confessa arrependido de alguns momentos em que se deixou vencer pela paixão e defendeu com fúria seus amigos injuriados. Colheu desilusão e vai perpetuar inimizades.

A leitura é interessante e nos faz voltar a um passado recente. Rememora fatos que só mereceriam o esquecimento da história, como o vergonhoso desconvite que o Cabo Branco fez a JK para que participasse do seu carnaval. Os milicos vetaram a presença do ex-presidente cassado, apesar do esforço de Nelson para que o fato fosse contornado pelo governador Ernani Satyro. Um fato para mim inédito: um segundo atentado à vida de Aloisio Afonso Campos, acontecido em Brasília e que fez vítima de um balaço a sua secretária. Do hospital, Aloiso se socorre de Raymundo Asfóra para as providências legais e abafamento da mídia. Na ocasião, quem estava com Asfora em um restaurante de Brasilia? Justamente Nelson, que ajudou a acudir a moça.

O testemunho de Nelson Coelho envereda pela sua vida familiar e narra, sem meias palavras as dificuldades que enfrentou ao virar oposição. Não esconde, por igual, sua decepção com os que lhe voltaram as costas naquele momento de sofrimento, negando-lhe uma oportunidade de trabalho. Renova sua fidelidade a José Maranhão mesmo diante da sua negativa de lhe favorecer com um exilio voluntario e remunerado junto a um governo amigo de estado vizinho. No governo a que serviu, se o chefe lhe faltava, os culpados eram Giovanni Meireles e Solon Benevides, nunca o chefe maior. Revela esse comportamento, um acelerado sentimento de gratidão e de respeito, coisa incomum nos dias de hoje.

Quando aportei no Palácio da Redenção como repórter de Sala de Imprensa e depois oficial de gabinete do governador Pedro Gondim, Nelson Coelho já estava lá. Ele sai e ele ficou. E como foi difícil tira-lo de lá… ( do meu livro A Botija de Camucá)

A última conspiração - Ramalho Leite



Para quem não sabe – MAG é uma sigla formada pelas iniciais do nome do ex-deputado Manoel Alceu Gaudêncio de tradicional família caririzeira que já deu até senador. Onde hoje está edificado o MAG Shopping, existia uma ampla residência que somada ao espaço do Hotel Manaíra, deu lugar ao novo empreendimento. A Casa de Manezin, como era conhecida, foi sem dúvida o cenário principal da última conspiração política que a Paraíba testemunhou.

Decorria o ano de 1978 e os militares escolheram Tarcísio Burity para o cargo de Governador da Paraíba contrariando amplo movimento popular que desejava a ascensão de Antônio Mariz ao Palácio da Redenção, através da eleição indireta. A dissidência da Arena, da qual eu fazia parte juntamente com Manoel Gaudêncio, Edvaldo Motta, Chico Soares, José Lacerda, Tarcísio Telino e Américo Maia, para só falar nos deputados estaduais, resolveu apoiar Mariz no enfrentamento ao regime, disputando no voto a indicação da Convenção da Arena. Para que houvesse a concorrência foi preciso que contássemos com o apoio decisivo de Waldir dos Santos Lima, Presidente da Arena e partícipe dos entendimentos que culminaram com a escolha de Burity. Todavia, considerando-se traído pelo grupo palaciano, Waldir resolveu engrossar as nossas fileiras e aceitou ser candidato a vice na chapa de Mariz.

Outro inesperado rebelde foi Ernani Satyro. Homem de confiança da chamada revolução de março, ex-lider de Costa e Silva e ex-Ministro do Tribunal Militar, completou a chapa disputando a vaga de Senador biônico, epíteto pejorativo com que premiaram os senadores sem voto popular.

Nessa conspiração contra a decisão do regime militar, João Agripino, inicialmente, desempenhou papel muito aquém do nosso desejo. Ao chegar à Paraíba, ao invés de aderir ao processo tentou a conciliação e lutou com todas as suas forças para demover Mariz do que ele chamava de suicídio político. Na ocasião, três candidatos avulsos, digamos assim, resolveram enfrentar o Planalto. Um em Minas, outro em São Paulo (Maluf, vitorioso) e Mariz, na Paraíba. Agripino dizia que todos seriam cassados após a realização das convenções arenistas. Queria salvar Mariz. Amigo do General Golbery do Couto e Silva, suas palavras impressionaram a todos nós que não desejávamos abrir mão da permanência de Mariz na política da Paraíba. Faltava conseguir intimidar Mariz, uma tarefa impossível.

Aloísio Afonso Campos ditou, eu escrevi e João Agripino alterou o texto da renúncia de Mariz à disputa indireta. Para se chegar a essa solução negociamos que o próprio Agripino fosse nosso candidato ao Senado, na disputa direta. Guardei o original desse documento, depois publicado por Jório Machado em “Resistência ao Medo”. Decisão tomada, fomos todos para nossas casas. Acordei no começo da noite com um telefonema de Mariz que indagava:

– Você divulgou a renúncia ? Respondi que não, apenas datilografara o documento.

– Não mostre a ninguém e vamos nos reunir às oito horas na Casa de Manezim, recomendou-me.

Cheguei no horário. Muitos dos inconfidentes já se encontravam acomodados e curiosos para saber a razão da convocação. Aguardava-se a chegada de Mariz, que nos disse:

– Fiz alguns contatos e tomei uma decisão. Não poderia jamais pedir votos aos paraibanos, se recuasse da disputa, com medo da cassação. Prefiro ser cassado a recuar por medo. Sou candidato e vou à convenção. Conto com vocês? (Contou ! Inclusive com Agripino.)

Nem precisamos responder. Gritaria geral. Aplausos e abraços. Eu e Telino, a quatro mãos, nos encarregamos de rasgar a Carta Renúncia. A versão datilografada, bem entendido.

Desta vez não precisamos esperar ansiosamente pela chegada de Ernani para que Manezim abrisse o seu melhor whisky.

Fomos à convenção, perdemos por pouco, mas escrevemos um bom capítulo da história recente da Paraíba. ( Republico esse texto em homenagem ao ex-deputado Manoel Gaudêncio que acaba de comemorar seus oitenta anos de nascimento. Como se depreende, Manoel, além de testemunha é também e, com méritos, um personagem da história política da Paraíba).

Partiu a última datilógrafa - Ramalho Leite



RAMALHO LEITE

Quando cheguei à Assembleia Legislativa do Estado, como servidor, já encontrei Lourdinha Luna e a sua fama de melhor datilógrafa do quadro legislativo. Redatora de anais, redatora de debates ou simplesmente, eximia datilógrafa, sua requisição era indispensável aos que desejavam apresentar um trabalho bem elaborado nos tipos de uma Remington ou de uma Olivetti – manuais, pois a máquina elétrica foi um avanço alcançado mais diante.

Na posse de um novo presidente, se a solenidade exigia um discurso escrito, tinham que chamar Lourdinha para os retoques finais e a versão derradeira. O Palácio da Redenção já descobrira sua perícia e o governador Pedro Gondim passou a lhe mandar alguns trabalhos para aprimorar. Advogados famosos, a exemplo do meu sogro, José Aragão, recorriam a Lourdinha na hora de datilografar um recurso dirigido aos tribunais superiores. Até que, o solitário de Tambaú tomou conhecimento da sua técnica e, acostumado a colocar no papel os garranchos que a miopia permitia, resolveu a apelar ao presidente Clovis Bezerra para socorre-lo na digitação de suas memórias.

A partir de então, Lourdinha Luna passou a ser a datilógrafa exclusiva do imortal José Américo de Almeida. Datilógrafa? Secretária formada na Fundação Getúlio Vargas, foi muito mais além e se revelou a companhia indispensável ao velho guerreiro. Fosse no Rio de Janeiro, para ficar mais próximo à Academia ou à livraria José Olímpio, no Casarão da beira mar, nas fazendas de Zé Rufino, onde o primo famoso recarregava as energias, ou no frio de Areia onde se deliciava com o movimento da bagaceira e o perfume adocicado do mel e da cachaça recém saída dos alambiques, lá estava a inseparável Lourdinha.

Essa companhia permitiria a Lourdinha ser testemunha ocular e auditiva de inúmeros fatos da cultura e da política paraibanas que, em determinado período da sua história, giravam em torno do ilustre filho de Areia. De testemunha da história, passou a ser a própria história e se tornou, com o desaparecimento do seu ídolo, a vigilante e destemida protetora da sua memória. Publicou livros, escreveu crônicas, narrou fatos e omitiu detalhes que não estava autorizada a passar adiante, provando, com essa atitude, ser merecedora da confiança do grande paraibano que o Brasil sempre respeitou.

Tentei levá-la a disputar uma cadeira no Instituto Histórico. Esquivou-se e revelou a modéstia das suas pretensões. Já era membro da Academia Feminina de Letras e Artes, da Academia de Letras de Areia e outras entidades que ajudou a fundar, participando, efetivamente, das suas atividades. Mais recentemente, tornou-se uma ativista das redes sociais. Opinava sobre os assuntos que dominava e enriquecia as postagens com informações preciosas colhidas ao longo de sua existência. De repente, fui surpreendido com seu anuncio de uma ausência provisória do face book. Iria submeter-se a uma intervenção cirúrgica. A operação foi bem sucedida mas, uma consequência imprevisível, levou-a a óbito, alguns dias depois. Perdemos, aos 92 anos, (sua alegria contagiante não passava dos 80) a escritora e historiadora Maria de Lourdes Lemos de Luna, a q uerida Lourdinha de todos nós – a última datilógrafa.

O humor de Ivan Bichara - Ramalho Leite



 

O político e escritor Ivan Bichara Sobreira, cajazeirense do colégio Padre Rolim, estaria completando cem anos neste maio de 2018. As cidades onde atuou politicamente e as entidades que honrou com sua participação, uniram-se para a merecida homenagem. Estive na sessão conjunta da Assembleia e Câmara da capital, proposta pela deputada Camila Toscano e pelo vereador Milanez Neto. Ouvi vários discursos que enalteceram a figura do exemplar homem público. Facultaram-me a palavra e eu fui à tribuna, apenas, para preencher uma lacuna nas falas dos outros. Esqueceram de lembrar a fina ironia e o humor, às vezes cáustico, de Bichara. Resolvi contar alguns fatos e agora vou repeti-los para os que me seguem neste espaço e nas redes sociais.

O líder do seu governo, (eu era vice-líder e iniciante na AL) deputado Evaldo Gonçalves, cansou de ouvir as queixas dos seus liderados sobre fatos do governo que levaram a bancada de sustentação ao descontentamento. Resolveu tratar do assunto com o chefe do executivo. Foi marcada uma reunião em Palácio. O governador, sentado em amplo sofá sob o quadro da prisão de Peregrino, tinha ao seu redor cerca de vinte deputados. Cada um apresentou seu queixume e o paciente Bichara apenas ouvia. “Ele sabia ouvir como ninguém” disse Germano Toscano, seu chefe de gabinete. Terminada a cantilena parlamentar, foi a vez do governador falar:

- Vocês não estão satisfeitos com o meu governo? Pois vou lhes confessar uma coisa: eu também não estou!

Os espíritos foram desarmados e as armas ensarilhadas...

Em uma de suas visitas ao Poder Legislativo, ficamos a lhe fazer sala no gabinete da presidência, enquanto não se iniciava o evento. Eu, Waldir dos Santos Lima, Edvaldo Motta, Sócrates Pedro e Orlando Almeida aproveitávamos para encaminhar alguns assuntos do nosso interesse. O deputado Sócrates Pedro, como se sabe, era cunhado do empresário Walter Brito proprietário da Real e, intermediário dos seus assuntos junto ao governo. No meio do papo, o deputado Orlando Almeida começa a

narrar um fato que se passara em Campina Grande. Meio prolixo, Orlando demorava muito a concluir, buscando detalhes desnecessários. Impacientei-me e adverti o querido colega:

- Orlando, o governador é muito ocupado. Apressa essa conversa: para chegar em Campina você está arrodeando por Princesa Isabel...

O governador riu da minha pilhéria e fez a dele:

-Fala baixo, Ramalho, se não o Sócrates vai querer registar essa linha de ônibus...

Na campanha municipal de 1976, uma vereadora da capital, já sexagenária e sem muita disposição para a luta, procurou-o para pedir ajuda. Na conversa, lembrou ao governador que sua principal concorrente era uma linda jovem, quase dois metros e como muita disposição para pedir votos e, acrescentou:

-É uma luta desigual, dr.Ivan!

-Realmente é muito desigual, respondeu Ivan.

Sua incursão pela literatura nos deixou vários romances e ensaios, notadamente sobre José Lins do Rego, sua especialidade. Em um deles, não sei se Carcará ou Joana dos Santos, quase morro de rir com um personagem, casado com moça nova e recentemente saída do parto. A mulher procurou o médico levando a criança raquítica, mais parecendo um produto daqueles países africanos onde a fome é quem dá as ordens. O médico admirou-se da fragilidade da criança e destacou:

- A senhora com tanto leite e deixa seu filho nesse estado?

A resposta da aflita mãe, retrata o humor de Bichara, também presente na sua obra.

- Não sobra nada para a criança, doutor: meu marido bebe todo o leite!

A briosa - Ramalho Leite



A última grande reforma do Palácio da Redenção que incluiu a derrubada da Igreja da Conceição, sua vizinha da esquerda, obrigou o presidente João Pessoa a instalar seu gabinete na sede do Jornal A União, do outro lado da praça Comendador Felizardo, hoje denominada João Pessoa. Foi nessa ambiente improvisado que o gaúcho Jacob Guilherme Frantz pediu uma audiência ao Presidente. Desejava oferecer seus serviços para combater em Princesa. Não havia vaga para oficial, foi avisado pelo coronel Elísio Sobreira. Jacob queria ser soldado e foi aceito. Quando, poucas horas depois partiu em direção ao campo de luta, já levava no braço as fitas de sargento. Naquele tempo era assim. Hoje, a nossa briosa c orporação militar está estruturada em raízes sólidas e, para nela ingressar é preciso muito mais do que a atitude heroica do jovem nascido nos pampas.

Recentemente, convocados por edital, mais de oitenta mil brasileiros de todas as regiões do país se inscreveram para ocupar uma vaga de soldado da nossa polícia militar e/ou corpo de bombeiros. Para se ter uma ideia da concorrência que se estabeleceu, para as 300 vagas oferecidas na Capital, havia cerca de 82 candidatos disputando uma única vaga. Em Campina Grande, foram 70 a disputar um lugar de soldado. Por outro lado, as mulheres, que ganharam o direito de embelezar o corpo policial graças a uma lei do deputado José Fernandes de Lima, não encontraram caminho fácil. Para as 40 vagas de João Pessoa e Campina cerca de 320 e 237 jovens, respectivamente, pleitearam seu espaço.

Para chegar a esse estágio de reconhecimento e credibilidade, a Policia Militar da Paraíba, que somente ganharia essa denominação a partir de 1947, teve que percorrer um caminho histórico de muitas façanhas gloriosas. Nascida das antigas Guardas Municipais Permanentes, criação do Primeiro Reinado, passou por transformações em sua estrutura e denominação, todavia, sem a preocupação moderna de melhorar a qualidade dos seus integrantes e, em consequência, os serviços a serem prestados à comunidade. Está longe a data em que o taperoaense, padre Galdino da Costa Vilar resolveu criar esse embrião da nossa polícia, por volta de 1832. Guarda, Força Pública, Corpo Policial, Corpo de Segurança e tantas outras denominações ao longo de seu percurso, fortaleceram a corporação e à trouxeram até os nossos dias.

Quer entrar como oficial na nossa Polícia, se inscreva primeiro no Enem. As notas do concurso nacional servirão para o ingresso no curso de formação de oficiais. O curso de formação para quem tem o nível médio, concluído, confere ao titulado o nível superior de Tecnólogo em Segurança Pública. E o soldado? Há de se pensar que uma única prova resolve. Desse último certame, cerca de dois mil foram selecionados. Estes serão submetidos a mais quatro etapas: exame psicotécnico, de caráter eliminatório, que avaliará as aptidões psicológicas do candidato para o exercício da função policial; exames de saúde, desde a capacidade visual à de ntição e à altura mínima exigida; avaliação social e aptidão física.

Revolvendo a minha memória, recordo uma audiência que mantive com o coronel João Gadelha de Oliveira, então comandante da PM, acompanhado de um humilde amigo de meu pai, que me encarregara de tentar fazê-lo soldado. O coronel, cavalheiro como sempre foi, nos recebeu muito bem e, relatou recomendação do governador para melhorar a qualidade dos soldados, muitos inteiramente analfabetos. E para cumprir essa ordem do governador, começou a indagar do meu candidato a praça: - Você sabe somar? -Não, foi a resposta; Dividir ou multiplicar? – Também não, respondeu o meu protegido. –Mas um ditado você sabe fazer, né? insistiu o coronel. – O que é isso? Foi a resposta do ex-quase futuro soldado. – Assim não dá, lamentou o coronel olhando na minha direção, como a pedir desculpas. O candidato, porém, não se fez de rogado: - Meu coronel, o senhor acha que se eu soubesse tudo isso que o senhor me perguntou, em vinha ser soldado de polícia?

No passado era essa a imagem da nossa briosa corporação, antes do Centro de Educação e dos concursos públicos para seleção de seus membros.

 

O misterioso sumiço do navio em Cabedelo - Ramalho Leite



 

Sabe-se que foram trinta e cinco os navios brasileiros atacados e desaparecidos nas águas do Atlântico, do Mediterrâneo e do Índico, desde a costa dos Estados Unidos ao extremo sul da África, durante os anos de 1941 a 1944. Esses incidentes causaram a morte de mais de mil pessoas e obrigaram a entrada do Brasil no conflito, rompendo relações com os países do Eixo a partir de janeiro de 1942. Se a ofensiva de submarinos alemães e italianos aos nossos vasos cargueiros, já ocorria antes de Getúlio Vargas declarar o Brasil em estado de guerra, a partir de então, os ataques passaram a ser constantes e persistentes. Antes, os alvos foram os mercantes que transitavam pelo Caribe ou pela costa leste dos EE.UU, depois, os encouraçados inimigos chegaram às nossas costas e, entre Recife e Salvador, acertaram, em dois dias, seis dos nossos barcos de carga, causando mais de seiscentas mortes. A maioria das embarcações pertencia ao Lloyd Brasileiro, mas outras pequenas companhias também sofreram perdas irreparáveis em vidas e danos materiais.

Entre os navios afundados durante o segundo conflito mundial, o navio mercante Cabedelo,desapareceu sem deixar vestígios, nas águas do Atlântico, acredita-se, à leste das Pequenas Antilhas. Estava com 54 tripulantes a bordo, sob o comando do capitão Pedro Veloso da Silveira. Esse navio, por ironia, fora fabricado em estaleiro alemão e ganhara inicialmente o nome dePrússia. Movido a vapor e construído em aço, tinha cento e onze metros de comprimento e quinze e meio de largura, com um calado de quase sete metros. Podia alcançar uma velocidade de doze nós, o que daria cerca de vinte e dois quilômetros por hora. Alvo fácil, sem dúvida. Na Primeira Grande Guerra, estava a serviço da Marinha Alemã. Quando da entrada do Brasil na conflagração, em junho de 1917, foi confiscado pelo governo brasileiro e incorporado à nossa frota, com o nome de Cabedelo. Estava retido desde 1915 no Porto de Santos.

O Cabedelo zarpou de Filadélfia, nos EE.UU, em 14 de fevereiro de 1942, em direção às Antilhas mas como destino final o Rio de Janeiro. Naquela ocasião, os navios que trafegavam pela chamada Zona de Segurança Pan-Americana – costa leste dos EE.UU, ainda não eram controlados nem acompanhados para efeito de proteção dos ataques inimigos. Tem-se como aquela, a data em que o Cabedelo desapareceu nos mares, sem deixar rastro. Para pesquisadores citados por Wikipédia, teria sido em 25 de fevereiro a data do ataque ao barco brasileiro, por obra e graça do submarino italiano Da Vinci. A afirmativa, porém, é controversa. Primeiro, diz-se que o afundamento doCabedelo não foi encontrado nos registros italianos e, depois, pela data provável do ataque, já havendo navegado onze dias desde a partida, estaria fora na área de ação do Da Vinci.

O afundamento do Cabedelo ainda foi atribuído a outro submarino italiano, o Torelli, que no mesmo período atacara dois outros mercantes à altura das Guianas. Nenhuma das hipóteses levantadas foi amparada em provas concretas. A ausência de sobreviventes, fato inusitado até então, entre nós, levou-se à tese de que os tripulantes teriam sido metralhados pelo inimigo quando já estariam a bordo de escaleres. Todavia, nenhum escaler, mesmo vazio, foi encontrado. E o mistério permanece até os dias atuais.

A história como eu conto - Ramalho Leite



 Na última quinta- feira ocorreu o lançamento do livro A História Como Eu Conto. A confreira Zélia Almeida, do IHGP, fez a apresentação do meu trabalho. Poderia resumir aqui o acontecimento. Todavia, resolvi abrir espaço para os comentários de um querido amigo que como ele mesmo diz, nem sempre estivemos “lado a lado”, o que não diminuiu a estima que penso ser recíproca. Seus irmãos José Souto e Benedito marcaram época no jornalismo paraibano. Paulo José de Souto, que preferiu ser engenheiro, revela-se, contudo, um ótimo escritor. Cedo-lhe hoje esse canto de página.

Meu caro Severino,

Prefiro externar numa ‘missiva’, com forte ‘amplexo’ os cumprimentos pelo seu ‘A história como eu conto’, crônica de fatos históricos escrita com ‘estilo gracioso e feroz ironia’, no dizer de Zélia Almeida.

Não vou cair no ridículo de pretender fazer crítica, porque o máximo que alcançaria seria um lugar como coadjuvante no mesmo patamar que você destinou ao poeta Manoel José de Lima, no seu discurso de lançamento do ‘O poder do bom humor’.

Nesse campo, prefiro, se for o caso, errar com os outros a acertar sozinho. Por precaução, me escudo nas análises de ‘experts’ como Juarez Farias, Gonzaga Rodrigues e Biu Ramos sobre outros escritos seus e transcritos nas páginas do livro. Para não correr o risco de errar em seara alheia, ‘acompanho o voto dos relatores’ acima citados, o que me dá a certeza de acertar na mosca.

Li o livro como não se deve fazer, lendo-o de cabo a rabo, com sofreguidão, por culpa do ‘estilo gracioso’ do jornalista nato, diferentemente, dos noticiaristas de hoje, que propagam as novas de forma carrancuda ou força desproporcional, quando escritas. Ao invés de degustá-lo pausadamente como se faz com os bons vinhos (segundo os enólogos), sorvi-o de uma tacada como se faz com uma lapada de cachaça, sem a finesse necessária para me deleitar com a forma e saborear o conteúdo dessas estórias compiladas com argúcia e contadas com a sensibilidade que só o tempo nos ensina a cultivar.

Certa feita o escritor maranhense Josué Montello afirmou que qualquer artigo de nosso Código Civil poderia ser tema de um romance. Desafiado, escreveu o romance a Décima Noite, baseado no artigo 178, do então vigente Código Civil.

Você, caro Ramalho, nada afirmou, nem se sentiu desafiado. Deixou de lado os considerandos e foi direto ao finalmente, no dizer do bem-amado Prefeito de Paraguaçú. Dedicou-se à difícil tarefa de garimpar entre tantos fatos do cotidiano de nossa História, alguns que poderiam ser tema de uma crônica. Escolheu-os e, literalmente, pôs mãos à obra e criou ‘A história como eu conto’.

Dos muitos pontuais eventos e passagens escolhidas para propiciar uma reflexão e dela nascer uma crônica, duas mereceram particular atenção da minha parte. Não pela espetacularização que a mídia possa a elas ter emprestado ou por sua importância histórica, propriamente dita. Talvez até pela singeleza de uma e pela controvérsia da outra, tenham elas me chamado a atenção.

A primeira foi ‘O regimento das escolas no tempo do império’, na qual você destaca: ‘Em Província nenhuma do Império são eles (os professores) remunerados como na Paraíba’. No longínquo ano de 1861, os mestres-salas da Paraíba recebiam os mais altos salários do Império. Dos governos em que servi ocupando Cargos de confiança, foi o Governo Ivan Bichara/Dorgival Terceiro Neto o que mais se preocupou com a situação financeira dos docentes paraibanos. Após aquele período, a retribuição aos nossos educadores públicos estaduais foi descendo ladeira abaixo, com algumas exceções, até alcançar os níveis hoje praticado s. Talvez valha, então, a máxima: Em Estado nenhum da República são eles (os professores) remunerados como na Paraíba.

A outra foi ‘Os delatores, desde Judas, passando por Calabar’. Por fim, encontrei alguém, mesmo que de forma suave e sutil também vê, como eu, com reservas o uso indiscriminado da delação premiada. Diferentemente das delações torturadas do golpe militar de 64, que roubaram a vida dos Herzogs, Manoel Fiel, Rubens Paiva e tantos outros desaparecidos nos porões da ditadura, as delações de hoje atentam contra a democracia, não ajudam no combate à impunidade e contradizem a máxima de que o crime não compensa.

De uma coisa tenha certeza, essas despretensiosas observações são do leitor comum, pouco letrado, público ao qual, mais se dirige os escritos do repórter que você nunca deixou de ser. São, portanto, sinceras. Não tenho e nem posso ter a veleidade dos críticos, esses sim, obrigados às análises de forma e estilo para ajudar na nossa educação literária, nem a cumplicidade de seus admiradores mais próximos, fiéis à amizade que lhe devotam.

Caro Ramalho Leite, desculpe, ‘as mal traçadas linhas’, e obrigado pelo involuntário e belo presente de Páscoa que você me deu ao presentear-me de forma inusitada com o seu ‘A história como eu conto’, antes do lançamento e sem dedicatória. Quem sabe, para se desculpar pelo banho de chuva que tomei por ter você me trancado num estacionamento, infringindo o Código Nacional de Trânsito.

Feliz Páscoa e um forte abraço ao companheiro, nem sempre lado a lado.

Paulo Souto.

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